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    Das sombras de um pórtico em ruínas, o Curandeiro assistia. Ele viu a sua obra-prima, o pináculo de sua ambição, o guardião invencível de sua nova Pella, a ser desmembrada com uma ferocidade que a sua alquimia profana não previra.

    Ele viu Licaão, a fonte de sua fúria caótica, a tornar-se o mestre dela. Viu as galhadas, que ele próprio enxertara com tanto cuidado, a serem arrancadas e usadas como armas contra a sua criação. Viu o som nauseante da carne a rasgar-se, o jorro de sangue escuro a manchar a pedra da ágora que ele pretendia governar. E quando a última cabeça foi perfurada e o último rugido se extinguiu, um silêncio caiu sobre a praça, um silêncio que gritava o seu fracasso absoluto.

    “Irracional”, o pensamento ecoou no vazio. “Bestas. São apenas bestas.”

    Ele olhou para Licaão, ofegante e vitorioso sobre a carcaça, e depois para Teseu, o outro foco da sua obsessão, a lutar contra as quimeras menores. Eles eram o problema. A fúria irracional e a pureza teimosa. Forças da natureza que não podiam ser controladas, apenas apontadas numa direção. O seu plano, tão perfeito, tão lógico, desmoronou-se perante essa simples verdade. As feras irracionais nunca serviriam ao seu propósito. 

    A sua nova Pella, a sua cidade-estado que rivalizaria com Atenas, não podia ser construída sobre o caos. Precisava de ordem. Precisava de uma vontade.

    A sua cidade jamais alcançaria o topo da Grécia daquele jeito.

    Foi então, em meio às cinzas de seu sonho, que uma nova semente, terrível e pura em sua loucura, começou a germinar. A sua premissa estava errada. Pella não precisava de um guardião monstruoso que obedecesse a um mestre. Precisava de um salvador que fosse o monstro e o mestre. Um ser que combinasse o poder profano com a inteligência e a vontade de um homem.

    “Só há um jeito”, ele percebeu, a clareza da revelação a queimar a sua mente como um ferro em brasa.

    A hesitação durou menos que uma batida de coração. Ele correu. Saiu das sombras, os pés a escorregarem no sangue e nas entranhas que cobriam a praça. Ignorou o olhar confuso de Licaão, que se virava ao ouvir o som de seus passos apressados.

    Ele caiu de joelhos ao lado da carcaça mutilada de sua criação. O cheiro era avassalador, mas ele não o sentia. Com as mãos trémulas, ele as mergulhou na poça de sangue negro e essência mágica que ainda vazava da criatura. O líquido era quente e espesso, pulsando com um poder residual.

    Com o rosto transfigurado por uma determinação profana, ele levou as mãos à boca e bebeu.

    O gosto era de cinzas, de ódio e de morte Um grito de agonia pura rasgou a sua garganta, e o seu corpo começou a contorcer-se violentamente no chão de pedra, a transformação havia começado.

    Um grito agudo, que não era mais humano, rasgou o ar da ágora enquanto a transformação profana o consumia. Teseu, que acabava de chegar à ágora, e Licaão observaram, paralisados.

    A pele do velho esticou-se de forma antinatural sobre seus ossos, que se alongavam e se rearranjavam sob a carne. Sua espinha curvou-se para a frente, forçando-o a uma postura permanentemente curvada e ameaçadora. A cabeça, agora completamente careca, alongou-se, o crânio tornando-se mais estreito e as feições, mais finas e esqueléticas, como as da imagem de um demônio bárbaro. Sua pele adquiriu uma tonalidade cinzenta e pálida, e veias negras e grossas pulsavam visivelmente sob a superfície, como rios de veneno.

    Ele se ergueu lentamente, agora quase um metro mais alto, seus braços e pernas longos e finos como os de uma aranha, terminando em mãos cujos dedos se haviam transformado em garras negras e afiadas. Das suas costas, brotaram protuberâncias ósseas e tubos de carne pulsante, ecos das estruturas profanas de seu laboratório.

    A criatura ergueu a cabeça, e quando falou, não era a voz de um homem, mas um coro dissonante de ecos, sua própria voz misturada aos guinchos das quimeras que absorvera.

    — V E E M… E U… S O U . . . A . . . S A L V A Ç Ã O . . . D E . . . P E L L A!

    Licaão não esperou. Com um rugido que era um desafio direto àquela blasfêmia, ele avançou.

    A batalha começou. Foi um confronto de duas naturezas monstruosas. Licaão em sua fúria selvagem, um turbilhão de garras e presas rasgando e arrancando. O Curandeiro-Quimera em sua astúcia perversa, tinha uma movimentação nada anatômica e antinatural, usando seus membros alongados para manter distância, desviando dos ataques poderosos de Licaão com uma velocidade desconcertante. 

    Era como se seu corpo se quebrasse a cada movimento de modo a atingir seus propósitos.

    A C H A S . . . Q U E . . . P O D E S . . . V E N C E R . . . O . . . P R O G R E S S O ? — a voz profana ecoou, enquanto ele desviava de uma patada que estilhaçou os paralelepípedos. — V O C Ê . . . É . . . O . . . P A S S A D O ! U M A . . . B E S T A . . . I R R A C I O N A L !

    Licaão rugiu em resposta e se lançou novamente. Desta vez, ele conseguiu encurtar a distância. Suas garras rasgaram o peito pálido da criatura, abrindo sulcos profundos. Mas o Curandeiro-Quimera não pareceu sentir dor. Ele apenas riu, um som de estática e agonia, e contra-atacou, cravando suas garras negras no ombro de Licaão e arremessando o lobisomem colossal contra um dos pilares da Ágora.

    Teseu observava, procurando por uma abertura, mas a luta era um furacão selvagem e mortal. Ele era rápido, mas no atual estado fraco e cansado, não tão rápido quanto aquelas duas forças.

    Licaão se ergueu dos escombros, o sangue escuro a escorrer de seu ombro. A dor apenas alimentou sua fúria. Ele ignorou a própria segurança e investiu com tudo o que tinha, um aríete de puro músculo e ódio. O Curandeiro tentou empalá-lo com seus braços-lança, mas Licaão suportou o golpe, permitindo que as garras perfurassem sua carne para que pudesse finalmente agarrar o inimigo.

    Ele conseguiu. Com um rugido de triunfo e dor, as enormes patas de lobo de Licaão se fecharam em torno dos dois pulsos finos do Curandeiro-Quimera. A luta de agilidade havia terminado; agora era um impasse de força bruta.

    T O L O ! — a criatura gritou, tentando se soltar do aperto de ferro.

    Licaão fincou os pés no chão, os músculos tremendo com o esforço, segurando a criatura no lugar. Ele o havia prendido, mas suas próprias garras estavam ocupadas. Ele não podia desferir o golpe final. Seus olhos carmesim se viraram por uma fração de segundo e encontraram os de Teseu. O recado era claro.

    Era a vez do herói.

    Teseu não precisou de uma segunda ordem. Enquanto o lobisomem, com os músculos a tremerem sob a tensão, mantinha os braços do Curandeiro-Quimera presos, o jovem herói explodiu em movimento.

    Ele correu, a sua xiphos em punho, a lâmina a brilhar sob a luz pálida da lua e o brilho dos incêndios. Seus olhos vacilantes se fixaram nas pernas finas e vulneráveis da criatura, o ponto de apoio que a mantinha de pé.

    O Curandeiro-Quimera viu-o a aproximar-se. Com as mãos presas, ele tentou chutar, mas a sua agilidade estava comprometida pelo aperto esmagador de Licaão.

    — I N S E T O ! V O C Ê S . . . N Ã O . . . P O D E M . . . D E T E R . . . P E L L A !

    Teseu ignorou. Ele mergulhou, a sua lâmina a traçar um arco prateado no ar. Com dois golpes rápidos e precisos, ele cortou os tendões dos calcanhares da criatura.

    As pernas da abominação cederam, e ela desabou de joelhos com um uivo de frustração e dor, ainda presa nas garras de Licaão.

    Com o monstro agora imobilizado e ao seu nível, Licaão soltou um dos braços do Curandeiro. A criatura tentou usar a mão livre para atacar, mas Licaão foi mais rápido. Com uma fúria selvagem, ele cravou as suas garras no peito da quimera e rasgou para o lado, abrindo uma ferida terrível.

    Mas o Curandeiro, mesmo mutilado, era astuto. Com a sua última força, ele usou o seu outro braço ainda preso para impulsionar o seu corpo para a frente, e a sua cabeça esquelética se projetou, a sua boca cheia de dentes afiados a fechar-se em torno do pescoço de Licaão, que não esperava o ataque.

    O lobisomem urrou, a sua força a vacilar enquanto os dentes da criatura se cravavam em sua garganta, prestes a torcer e a esmagar.

    O herói sentiu os braços gritarem, e seus olhos se arregalaram. Com um grito que continha toda a dor e fúria de sua jornada, ele saltou sobre as costas de Licaão. O Curandeiro-Quimera ergueu a sua cabeça para encará-lo, os seus olhos a arderem de ódio. Tarde demais.

    A xiphos de Teseu desceu. A lâmina encontrou o pescoço fino e esticado do Curandeiro e não parou.

    Um silêncio súbito e absoluto caiu sobre a praça. O corpo da quimera desabou, inerte. A cabeça do Curandeiro rolou pelos paralelepípedos, os seus olhos ainda abertos em um infindável desespero.

    Teseu, ofegante, apoiou-se na sua espada, o corpo a tremer com a exaustão, o sangue a escorrer de uma dúzia de feridas.

    Ao seu lado, um último som de ossos a estalarem e carne a rearranjar-se ecoou. Licaão, com a morte da fonte de sua fúria, desabou, o seu corpo monstruoso a encolher e a contorcer-se até regressar à sua forma humana, que agora parecia estranhamente forte e curada.

    Lentamente, como ratos a sair de seus buracos após a passagem de uma tempestade, os cidadãos de Pella emergiram. Dos templos, das lojas, das vielas. Eles viram a praça devastada, os corpos das quimeras a fumegarem sob a luz da lua, e a carnificina que manchava as pedras.

    E no centro de tudo, viram Teseu, ensanguentado, ao lado da cabeça decepada de seu amado Curandeiro, com um estranho nu e de aparência selvagem a levantar-se ao seu lado.

    Foi o velho Ergos quem deu voz ao seu terror. Ele abriu caminho pela multidão e, por um instante, Teseu viu um brilho estranho, louro, piscar nos olhos do velho.

    — Estão a ver?! — Ergos gritou, a sua voz histérica a rasgar o silêncio. — Eu avisei! O Alexandrino e este monstro! Eles estavam com as feras o tempo todo! 

    As pessoas, assustadas, abraçaram-se com olhos aflitos focados no incitador.

    — Trouxeram esta desgraça até nós e, quando a sua obra estava feita, mataram Táfio, o pobre curandeiro que tentou nos proteger!

    Althea correu para a frente, o seu pequeno corpo a tentar proteger Teseu. — Não! Ele nos salvou! Vocês não viram!

    Mas a sua voz foi engolida pelo rosnado crescente da turba. O seu pai, Leneu, correu e a agarrou, puxando-a para um abraço apertado. 

    — Graças aos deuses, estás viva — ele chorou, o seu alívio a cegá-lo para a verdade que a sua filha tentava anunciar.

    — Monstros! — gritou alguém.

    — Aberrações! Saiam de nossa cidade!

    Plutarco, o rosto pálido de desespero, correu até Teseu. Com a ajuda do agora humano e surpreendentemente forte Licaão, eles agarraram o herói exausto. A multidão avançou, o medo a transformar-se em ódio mais uma vez.

    — Teseu, vamos! Não há nada aqui para nós!

    Eles fugiram. A turba perseguiu-os, a atirar pedras e maldições. Enquanto corriam em direção à escuridão da floresta, a própria natureza pareceu vir em seu auxílio.

    Rajadas de vento inexplicáveis levantaram nuvens de poeira. Galhos caíram, bloqueando caminhos. Árvores caminharam, criando um labirinto. A Dríade, a sua guardiã silenciosa, abria-lhes um caminho, confundindo os seus perseguidores até que os gritos de ódio se tornassem um eco distante.

    Lá atrás, na praça, Ergos observava a fuga. Quando a última sombra dos heróis desapareceu, um sorriso estranho e misterioso curvou os seus lábios. Uma linha de sangue escorreu de seu nariz. Os seus olhos reviraram, e ele desabou no chão, inconsciente.


    Dias depois, Teseu acordou ao som suave de um riacho. Estava num acampamento seguro, no coração da floresta, os seus ferimentos limpos e tratados. Plutarco, a Dríade e um homem de cabelos longos e negros, vestindo trapos apertados que se assemelhavam aos que Plutarco costumeiramente vestia, estavam ao seu redor.

    O desconhecido foi quem se pronunciou primeiro.

    — Dorme como um urso.

    Teseu, perdido, tentou se levantar, mas tonteou a meio caminho e voltou a se deitar. Plutarco se aproximou com um odre e o pôs a beber água.

    — Qu… quem é você? — o jovem perguntou ao cabeludo.

    De forma anticlimática, o homem o olhou e… rosnou.

    Teseu então, se lembrou. Da transformação, da luta, do lobo de Ártemis. Licaão. Ele suspirou, tentando entender a presença do monstro. Não era ele seu inimigo?

    — O que houve? — o garoto questionou, a cabeça fervendo com as memórias ainda esparsas de dias atrás.

    Foi Licaão quem lhe contou o que acontecera, a sua voz, agora calma e humana, desprovida de qualquer rosnado. Ele grasnou da ingratidão da cidade, da fúria cega do povo que haviam salvado.

    Teseu ouviu em silêncio, o olhar perdido nas folhas dançantes acima. Uma sombra de melancolia passou pelo seu rosto, mas não de amargura.

    Ele ergueu o olhar, e a sua pergunta não foi sobre vingança ou injustiça.

    — Mas eles estão a salvo? Althea, seus pais, o povo… eles estão seguros agora?

    Licaão, surpreso, assentiu. 

    — Sim.

    Um leve sorriso surgiu no rosto de Teseu.

    — Então é isso que importa.

    Plutarco, que observava a cena, pegou um novo rolo de papiro. Ele olhou para o jovem herói, para a força tranquila que ele demonstrava mesmo na face da maior das traições, e compreendeu a profundidade de seu caráter. Com uma pena, ele começou a escrever, a sua caligrafia a capturar a essência daquele momento, a frase final que encerraria o primeiro grande capítulo das crônicas de Teseu:

    “A alma mais forte e mais bem constituída não se orgulha com os sucessos e não se abate com os revezes.”

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