Índice de Capítulo

    A consciência retornou como uma maré lenta e oleosa. Primeiro, a dor. Uma dor surda e onipresente em cada músculo, e pontadas agudas que correspondiam a costelas quebradas e feridas mal curadas. Depois, o frio. O frio da pedra nua contra sua pele. E, finalmente, a escuridão. Uma escuridão absoluta, impenetrável, que não era apenas a ausência de luz, mas uma presença física e sufocante.

    Hermes estava em uma cela solitária, um buraco em algum lugar sob a villa. Não havia janelas, nem frestas. O tempo perdeu o significado. Os dias e as noites se fundiram em um ciclo interminável de agonia e semiconsciência. A tortura não era apenas física; era a privação. Às vezes, uma pequena caneca de água era empurrada por uma fenda na base da porta. Outras vezes, um pedaço de pão mofado. Os intervalos eram irregulares, projetados para quebrar seu senso de realidade, para apagar o próprio conceito de “amanhã”.

    Um dos guardas, o escolhido para personificar o seu tormento, passava horas na sala o surrando, queimando, molhando. Saulo era seu nome.

    No início Hermes criou um certo apreço pelo seu torturador, achou-o menos maldito que os outros membros da família.

    Sempre que chegava, fazia seu trabalho, e quando terminava, sem trocar uma palavra, ia embora.

    Parecia estar cumprindo ordens. Após algumas sessões, no entanto, Hermes passou a  ter a impressão de que ele gostava mais do que devia de cumprir suas obrigações.

    Ao final das agressões, a solidão reinava naquela saleta, e Hermes era deixado a sós com o barulho de sua culpa.

    Naquele negrume, sua mente se tornou sua própria inimiga. Ele revivia o avanço, o guarda caído assustado, o rosto chocado da Lady. Revivia o sorriso de Gérion, as chicotadas, a queda do Olimpo. Mas, acima de tudo, ele se apegava à imagem de Teseu e Agouri.

    Teria seu ato desesperado os salvado? A ordem da Lady teria sido interrompida? Ou sua fúria apenas selara o destino deles mais rapidamente? A incerteza era um verme que roía sua sanidade.

    Ele não sabia dizer se se passaram semanas ou meses quando, um dia, a porta se abriu mais uma vez, e o torturador entrou acompanhado, só que dessa vez não pelo chicote.

    A luz foi uma agressão violenta para Hermes, uma lâmina branca que o cegou e o forçou a se encolher, gemendo. Uma silhueta se recortou contra o brilho. Era Fílon.

    — Em pé — a voz do administrador era a mesma, fria e eficiente.

    Hermes tentou, mas suas pernas cederam. Estava emaciado, uma figura esquelética coberta de sujeira e cicatrizes. Seu cabelo branco, longo e emaranhado, caía sobre um rosto que era pouco mais que pele sobre osso.

    Dois guardas o agarraram pelos braços, arrastando-o para fora da escuridão e para a luz do dia. Ele fechou os olhos com força, tremendo.

    — A colheita da azeitona está próxima e estamos com poucos braços para o lagar — explicou Fílon, sem um pingo de emoção. — A Lady Kratos, em sua infinita generosidade, decidiu que seu tempo de penitência acabou. Lembre-se de seu lugar, e talvez você continue a ter utilidade.

    Não era perdão. Era pragmatismo. Ele não era uma pessoa, era uma ferramenta que estava sendo retirada do armazenamento.

    Levaram-no aos banhos dos escravos, e a água, desta vez, foi menos uma humilhação e mais um choque doloroso em sua pele sensível. Vestiram-no com os trapos mais grosseiros e o designaram para a tarefa mais árdua: carregar cestos pesados de azeitonas dos olivais para o lagar, um trabalho repetitivo e brutal sob o sol forte.

    Os outros escravos o evitavam, seus olhares uma mistura de medo e ressentimento. Ele era o que havia ousado atacar um mestre. Era uma doença contagiosa que ninguém queria contrair. Mas Hermes não se importava. Seus olhos varriam a propriedade, procurando por um único rosto.

    Ele o encontrou no final do segundo dia. Agouri estava saindo dos estábulos, carregando um balde. Ele não era mais o atendente pessoal do Jovem Lorde; sua túnica era a mesma de um servo comum. Mas a mudança mais drástica estava em seu rosto. A energia vibrante, o sorriso travesso, a luz em seus olhos… tudo havia desaparecido. Em seu lugar, havia um olhar vazio, mecânico.

    — Agouri! — Hermes o chamou, sua voz rouca.

    O rapaz parou, mas não se virou completamente. Seu corpo se enrijeceu.

    — O que aconteceu? — Hermes perguntou, aproximando-se. — Teseu… ele está bem? Você está bem?

    Agouri finalmente o encarou, e seus olhos não continham amizade, nem raiva. Apenas um cansaço oco e profundo.

    — Teseu morreu — ele disse, as palavras caindo como pedras.

    Hermes sentiu um aperto no peito. — Como?

    — Ele piorou depois que… levaram você. — A voz de Agouri era monótona, desprovida de vida. — A Lady ficou furiosa. O Jovem Lorde disse que não podia mais ser visto nos ajudando. O médico não podia mais usar as ervas necessárias. A comida especial parou de chegar. Teseu… ele perdeu a esperança. E então ele… se foi, definhando dia após dia.

    O peso daquelas palavras esmagou Hermes. Ele havia sido o catalisador da tragédia.

    — Nós tínhamos uma chance! — A voz de Agouri finalmente se quebrou, e uma centelha de dor e acusação brilhou em seu vazio. — Ele ia nos ajudar! O Jovem Lorde ia curá-lo! Mas você e sua maldita raiva… você estragou tudo! Você o matou, Hermes.

    Agouri se virou e se afastou, deixando Hermes parado no meio do pátio, o peso da culpa se assentando sobre ele como uma mortalha de chumbo. Ele acreditou. Cada palavra. Seu egoísmo havia roubado a única chance de Teseu.

    Lembrou da promessa boba que tinha feito. Viu o rosto do garoto em sua mente. Pensou no desperdício que fora ele morrer daquela forma. Pensou na fragilidade mortal que ele, um Deus com milhares de anos, jamais tinha experimentado tão de perto.

    Sentiu-se uma praga. Aonde quer que fosse, a desgraça o seguia como uma sombra. 

    Havia matado Apolo. E agora, por sua causa, Teseu estava morto. Um calafrio percorreu seu corpo ao pensar nos outros dois, deixados para trás naquele inferno de poeira. O que teria acontecido com Sêneca e Ágatha? Teriam sobrevivido? Ou sua breve passagem por suas vidas também teria sido, para eles, uma sentença de morte? A incerteza era mais um peso em sua alma já esmagada, mais um eco de seu fracasso.

    Nenhuma lágrima surgiu em seu rosto, mas o vazio se instaurou em seu coração.

    A culpa.

    As semanas seguintes foram um borrão de trabalho sem sentido. Hermes se tornou um autômato. Ele carregava os cestos, comia, dormia. A fúria se fora, substituída por um deserto de remorso e desespero. Seu espírito, o último vestígio do deus que fora, estava finalmente se apagando.

    Descobriu nesse meio tempo algo que o fez sorrir. O seu torturador era mudo. A Lady havia cortado sua língua anos antes, quando ele chegou como um servo, tal qual Hermes. Não descobriu bem o porquê, mas parecia ter algo a ver com o Lorde Kratos.

    A realização não pôde deixar de causar um sorriso desesperançoso no rosto de Hermes. 

    Os outros servos continuavam olhando para ele e para Agouri como sempre olharam. Desprezo, mas, agora havia algo mais, Satisfação. Tinham no rosto sorrisos que confirmavam a crença de que os três haviam tido o que mereciam.

    Hermes não se importava com mais nada. Trabalhava e sobrevivia mecanicamente. Seu peso estava voltando ao normal. Precisavam que ele estivesse forte para realizar algumas das tarefas, mas o tinham sempre sob vigilância, devido ao comportamento “violento”.

    Em uma noite, enquanto voltava para o dormitório dos escravos, seu caminho o levou pela ala oeste da villa, onde ficavam os aposentos da família. Ele mantinha a cabeça baixa, como sempre. Mas um som o fez parar.

    Vinha dos aposentos do Jovem Lorde.

    Não era alto. Era um choro. Um choro agudo e baixo, rapidamente abafado, como se alguém tivesse colocado a mão sobre a boca de quem chorava.

    Hermes congelou. O som era estranho, deslocado na história que ele aceitara.

    Então, ele ouviu a voz do Jovem Lorde, abafada pela porta de madeira. O tom era baixo, urgente.

    — Vamos, não chore…

    A voz era um sussurro. Hermes não conseguiu discernir se era um tom de consolo gentil ou de uma impaciência contida. Antes que pudesse ouvir mais, a porta se abriu levemente e um servo saiu apressado, o rosto pálido e assustado. Ele não notou Hermes nas sombras e desapareceu pelo corredor.

    Em sua pressa, algo pequeno e branco caiu da dobra de sua túnica, pousando silenciosamente sobre o mármore escuro.

    Hermes esperou o som dos passos do servo desaparecer por completo. A curiosidade, uma força que ele pensava ter morrido dentro de si, o compeliu a sair das sombras. Ele se agachou e pegou o objeto. Era um pedaço de linho fino, do tipo usado pelos nobres para limpar as mãos durante as refeições. Mas este estava manchado com algo vermelho e escuro.

    Ele o levou ao nariz. O cheiro era fraco, uma mistura do perfume floral da lavanda e algo metálico. Poderia ser vinho derramado. Ou poderia ser sangue.

    Hermes ficou parado na escuridão, o tecido na mão. O choro abafado. A voz ambígua do Jovem Lorde. O pano manchado. A história de Agouri sobre a morte de Teseu… nada se encaixava. A versão dos fatos que o esmagara com culpa agora parecia incompleta, frágil. Uma pequena semente de dúvida foi plantada no deserto de sua alma, uma dúvida venenosa e terrível que o fez questionar tudo.

    O que realmente havia acontecido enquanto ele estava trancado na escuridão? A investigação de uma verdade mais sombria havia se tornado seu novo e único propósito.

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