Capítulo 11 | O Gambito do Refém.
O jardim privado da Lady Kratos era uma obra-prima de reclusão. Murado por trepadeiras densas e perfumadas, era um mundo à parte do resto da villa. Ciprestes altos se erguiam como sentinelas silenciosas, e no centro, uma pequena fonte de ônix negro sussurrava para si mesma.
O céu sobre a villa era de um azul pálido e implacável, sem uma única nuvem para oferecer refúgio do olhar ofuscante do sol. O ar no jardim privado da Lady Kratos era parado e pesado, carregado com o perfume enjoativo de jasmim e rosas, tão intenso que chegava a ser sufocante.
Não era uma atmosfera de paz, mas de uma perfeição controlada, onde cada folha parecia estar em seu lugar por ordem, e não pela natureza.
Ela o esperava, reclinada em um banco de mármore curvo, um copo de vinho intocado ao seu lado. Usava um vestido de um vermelho profundo, a cor de sangue e poder. Seus olhos o seguiram enquanto Fílon o deixava na entrada e se retirava, fechando um pequeno portão de ferro atrás de si. Estavam sozinhos. Ou assim parecia.
— Eu lhe dei tempo para refletir sobre seu propósito, anjo branco — ela começou, sua voz suave, mas sem o mel da sedução. Era o tom de quem enuncia um fato. — Imagino que um ser com sua inteligência tenha chegado à conclusão lógica.
Hermes permaneceu em silêncio, parado a vários metros de distância. Seu coração batia devagar e pesado em seu peito, um tambor de guerra esperando o sinal para a batalha.
— Não seja tímido. — Um sorriso que não alcançou seus olhos tocou seus lábios. — É uma transação simples. Uma noite de seu tempo e obediência. Em troca, seus amigos continuam a desfrutar de nossa… hospitalidade. O doente continua com seus remédios, o barulhento continua com suas ilusões de importância. A alternativa… — ela deu de ombros com uma elegância cruel — …é desagradável para todos. Então, qual é a sua decisão?
Ele pensou no pássaro na gaiola. Pensou no pânico nos olhos de Teseu, na lealdade cega de Agouri. A humilhação e a fúria se misturaram em um veneno potente dentro dele.
Seus olhos, que ele mantivera baixos, se ergueram e encontraram os dela. O vazio havia sumido. Em seu lugar, havia uma calma fria e calculada. Ele não iria se quebrar. Iria negociar.
— Sua oferta é generosa, Senhora — começou Hermes, a voz surpreendentemente estável. — Mas talvez haja uma troca mais… vantajosa para a Casa Kratos.
A Lady Kratos ergueu uma sobrancelha, um brilho de divertimento em seus olhos. — Oh? E o que um escravo teria a me oferecer, além do que, por natureza, eu já posso tomar?
Hermes engoliu em seco o orgulho, a bile subindo por sua garganta. Ele se forçou a continuar. — Uma lâmina.
A palavra pairou no ar, fria e cheia de significado. — Uma casa nobre tem inimigos. Rivais. Assuntos que precisam de discrição, tarefas que as mãos dos guardas comuns são brutas demais para realizar. Eu posso ser… útil. Um servo leal, com habilidades únicas, vale muito mais do que um brinquedo quebrado por uma noite de diversão.
Ela o estudou, um sorriso zombeteiro brincando em seus lábios. A proposta o divertia. A audácia. — Que comovente. Você oferece seus serviços como um assassino para salvar seus amigos. Mas sua lealdade é a sua coleira, anjo branco, não sua moeda de troca. Minha oferta original permanece.
Ela se virou, a diversão se esvaindo, a crueldade retornando. — Guarda!
Das sombras perto do muro, o guarda armado emergiu.
— Vá imediatamente para a ala médica. O escravo chamado Teseu… mande-o de volta para a mina esta noite. Entregue-o a Gérion. E encontre o atendente do meu filho, Agouri. Cinquenta chicotadas no pátio. Agora!
O guarda fez uma vênia. — Sim, Senhora.
Ele começou a se virar. O tempo de Hermes havia acabado. Seu gambito falhara. O desespero tomou conta. Ele precisava provar seu ponto. Precisava mostrar a ela o que estava perdendo, o poder que ele podia oferecer.
No instante em que o guarda deu o primeiro passo para fora do jardim, Hermes explodiu em movimento. Não foi a fúria cega de antes, mas uma precisão fria e letal. Ele cruzou a distância em um borrão, desarmando o guarda com um golpe rápido no pulso que fez a espada do homem voar. Antes que o guarda pudesse reagir, Hermes o agarrou pelo colarinho, girou e o jogou de joelhos no chão, pressionando a ponta da própria espada do homem contra sua garganta.
Tudo aconteceu em menos de três segundos. O jardim ficou em silêncio, exceto pela respiração ofegante do guarda refém.
Hermes não olhou para o homem que subjugara. Seus olhos dourados estavam fixos na Lady Kratos, esperando ver em seu rosto o reconhecimento de seu poder, de sua utilidade.
Mas a reação dela não foi a que ele esperava.
O divertimento havia desaparecido de seu rosto. A surpresa também. Em seu lugar, havia uma fúria gelada, um ultraje tão profundo que parecia fazer o ar ao redor dela vibrar.
— Um mero servo… — ela sibilou, a voz baixa e cheia de um veneno terrível. — Ousa empunhar uma lâmina na minha presença?
Hermes congelou, percebendo seu erro catastrófico. Ele não havia demonstrado seu valor. Havia cometido a maior das transgressões. Naquele mundo de hierarquia absoluta, um escravo iniciando a violência, mesmo que de forma controlada, era uma quebra da ordem natural, um insulto imperdoável à autoridade dela.

Ela não gritou por reforços imediatamente. Apenas o encarou, um sorriso lento e vitorioso se espalhando por seus lábios. — Você é mais tolo do que eu pensava, brinquedo.
Então, ela gritou. E de todas as direções, guardas surgiram, suas armas em punho, cercando o jardim.
Hermes soltou o guarda e largou a espada no chão, seu rosto congelado na constatação de que havia se condenado.
“Não. Não. Não era isso. Não era pra ser assim-” Ele disse pra si mesmo levando a mão ao peito. Um aperto envolveu seu coração, aflição. “Droga, droga, droga!”
Ele olhou para o rosto triunfante da Lady e entendeu. Ele tentou jogar, mas era apenas um peão e ela era a dona do tabuleiro. E ele havia acabado de se sacrificar em vão. A jaula dourada havia se fechado, e desta vez, ele mesmo havia girado a chave.
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