Índice de Capítulo

    — Chega de papo furado — disse Licaão. Sua voz era dura. — Não viemos aqui para ouvir lendas e choros sobre maldições ancestrais.

    Os olhos avermelhados de Prometeu se semicerraram.

    — Em verdade dizes, amaldiçoado — respondeu o Titã. — Pois vieram aqui saber para onde guiam as correntes do teu destino.

    Licaão travou o maxilar. Os músculos do seu pescoço ficaram tensos.

    — Do que me chamou? — rosnou.

    Prometeu mostrou os dentes. Seus lábios recuaram em um sorriso que expôs caninos grandes e amarelados pelo tempo.

    — Chamei-te do que és. Ou preferes que use “destronado”?

    Licaão rangeu os dentes, mostrando seus caninos saltados. Tinha o aspecto de uma fera. Plutarco tremeu frente à cena. Seria capaz este selvagem de partir para cima de um titã?

    — Não devia se ofender pelo que os outros te fizeram — continuou Prometeu e seu tom já não era mais de zombaria. — Pois a prisão diz mais sobre o carcereiro do que sobre o cárcere.

    Os olhos de Licaão se arregalaram levemente. Ele olhou para as correntes negras nos pulsos do Titã, para os cravos nos pés, e depois para as próprias mãos. Ele entendeu. Prometeu não estava zombando dele. Prometeu o reconhecia como um igual na desgraça.

    Teseu aproveitou o silêncio de Licaão e tomou a frente novamente.

    — Nós viemos por causa de uma mensagem — disse Teseu. — Um velho cego na estrada nos disse uma profecia e nos deu instruções para achar o Acorrentado.

    Teseu respirou fundo e recitou as palavras que ouvira:

    — “O Rei Amaldiçoado busca seu trono de ossos, mas somente a Espada Bastarda cortará o pescoço divino!”

    Prometeu ouviu com atenção. Ele manteve a cabeça imóvel. Quando Teseu terminou, o gigante suspirou. O ar saiu de seus pulmões com força, levantando a poeira do chão sob os pés dos visitantes.

    — A profecia está incompleta.

    O grupo se entreolhou. Plutarco franziu a testa, confuso.

    — Como? Aquele maldito mentiu pra gente? — perguntou Licaão irritado novamente. — O velho disse que era tudo o que sabia!

    Prometeu balançou a cabeça lentamente.

    — Oh, fosses tu tão astuto quanto és selvagem… — lamentou o Titã. — Perceba, pequeno, que tudo o que ele sabia, não era tudo o que se havia para saber.

    Prometeu endireitou o pescoço. Sua postura tornou-se rígida. Sua voz ganhou volume e ressonância, e preecnheu o topo da ilha com uma autoridade que nenhum dos presentes havia jamais presenciado.

    Seus olhos, vermelhos, pareceram clarear, tornando-se brancos e alvos, quase brilhantes.

    Ele olhou para Licaão e começou a falar:

    O Rei Amaldiçoado busca seu trono de ossos, há muito abandonado. O Reino Esquecido se ergue do pó em fundações labirínticas que caem sobre o povo pródigo. As estrelas choram, rogando-lhe misericórdia, mas somente a Espada Bastarda cortará o pescoço divino no coração das ruínas.

    O som da voz do Titã cessou, mas as palavras pareceram permanecer no ar como um presença etérea.

    — O Reino Esquecido? — perguntou Licaão em voz baixa, quase para si mesmo.

    O Titã assentiu.

    — Agora, amaldiçoado, segue teu caminho.

    Licaão levantou o rosto e olhou para o Titã. Ele assentiu uma vez, devagar. Sua mente tinha certeza do que ouvira e entendera. Só havia um lugar. Arcádia.

    O vento gritou no topo do monte agitando o cabelo de Prometeu e as vestes dos visitantes. Seus ouvidos doíam com a agulhada fria da brisa.

    — Se isto é tudo o que precisavam saber, então vão — decretou Prometeu. Sua voz voltou ao tom cansado de antes. — Suas presenças já começam a me perturbar.

    Licaão virou as costas sem dizer adeus e começou a caminhar em direção à descida da ilha. Plutarco guardou suas anotações na bolsa, fez uma reverência desajeitada para o gigante e correu atrás do guerreiro.

    Teseu ficou.

    O rapaz olhou para os outros se afastando, depois voltou a olhar para o rosto do Titã.

    — Senhor… — chamou Teseu.

    Prometeu, que já havia baixado a cabeça deixando os cabelos caírem sobre o rosto, ergueu os olhos vermelhos novamente.

    — Como eu posso me tornar um herói? — perguntou Teseu.

    Prometeu sustentou o olhar do garoto por um instante longo e silencioso. Os outros que se afastavam voltaram seus olhares para a cena mais uma vez, com sobrancelhas erguidas. O titã ponderou, então decretou:

    — Se há algo que queira saber, venha até mim e toque no sangue de meus pés. O  que eu puder, te direi.

    Teseu não hesitou. Plutarco deu um passo à frente para tentar parar o rapaz, mas a mão de Licaão em seu ombro o parou. O rei balançou a cabeça negativamente, e se voltou para o rapaz mais uma vez.

    Teseu se aproximou do pé do gigante. Parecia maior que ele próprio, mas o rapaz não se amedrontou. Com olhar determinado, Teseu ergueu os braços e tocou uma linha seca de sangue na lateral do pé direito do Titã. Não sentiu nada.

    Ergueu a cabeça e percebeu que Prometeu tinha os olhos fechados e o cenho franzido. Seus dentes à mostra denunciavam que uma espécie de conflito mental estava ocorrendo dentro dele. Quando o gigante grunhiu, Teseu tirou a mão, surpreso. Ele abriu os olhos e arfou pesadamente.

    Após um instante, um sorriso pequeno e triste apareceu no canto de sua boca. Ele respirou fundo e falou mais uma vez em sua voz grave e arrastada.

    — O destino não reserva a mim o papel de te dar essa resposta, garoto — respondeu o Titã. — Pois você a encontrará em quem menos espera.

    Teseu franziu a testa, desapontado com a resposta. Seus olhos caíram para os próprios pés, pensativos. Então, assentiu.

    — Obrigado — disse Teseu.

    Ele se virou e correu para alcançar o grupo.

    Prometeu permaneceu imóvel. Ele observou as três figuras pequenas descerem a colina e desaparecerem na borda da ilha flutuante. Pouco depois, o grito estridente da Águia Ethon ecoou pelo céu, seguido pelo som pesado de asas batendo e se afastando no ar rarefeito.


    Prometeu soltou o ar de seus pulmões devagar. Seus ombros largos relaxaram, encostando novamente na pedra fria do pilar. Ele já não sabia mais quanto tempo havia se passado desde a saída dos  visitantes. Sentia sua testa suada como estava quando eles saíram, então, não deveria ter se passado muito.

    — Você cumpriu bem o seu papel.

    A voz veio da direita, de trás de uma formação rochosa pontiaguda.

    Um homem que vestia uma túnica escura saiu da sombra da pedra. Ele caminhou com passos tranquilos até parar diante do Titã. Seu capuz agora jazia amarrado ao pescoço, cabelos negros e ondulosos caíam aos ombros.

    Prometeu não demonstrou surpresa. Seus olhos se moveram para encarar a figura em silêncio.

    — Não vai dizer nada? — perguntou o Guia. Um sorriso cínico curvou seus lábios. — Eu vim te parabenizar e agradecer pela sua contribuição.

    O Titã permaneceu imóvel.

    — Veio cumprir o seu lado da promessa e me soltar? — Seu tom era baixo e não parecia conter muita esperança.

    O Guia gargalhou e o som desagradável como o grasnado de um corvo preencheu o silêncio da ilha.

    — Você, mais do que qualquer um, sabe muito bem que isso não vai acontecer.

    Prometeu rangeu os dentes e em um acesso repentino de raiva, se lançou para a frente com violência.

    Crack.

    As correntes negras estalaram brutalmente. O metal afundou na pele dos pulsos do gigante e abriu sulcos profundos. O sangue começou a escorrer pelos braços. Nos pés, a pressão contra os cravos de ferro aumentou com o movimento de torção, e o sangue fresco brotou ao redor das feridas antigas para escorrer pela pedra.

    Prometeu rangeu os dentes. Os músculos de seu pescoço saltaram com a tensão.

    Então, ele parou e riu. Riu como se tivesse se lembrado da maior piada de sua vida.

    — Se soubesses o que vi no futuro daquele garoto… — disse Prometeu, olhando fixamente nos olhos do Guia. — Nem tu, nem teu mestre, seriam capazes de sorrir novamente por toda a eternidade.

    O sorriso no rosto do Guia desapareceu por um instante. Ele sustentou o olhar do Titã. Passos arrastados soaram atrás dele.

    O velho cego, o profeta que o grupo encontrara na estrada dias antes, apareceu caminhando com dificuldade sobre as pedras irregulares. Ele parou ao lado do Guia.

    — Irmão — chamou o velho, com a voz fraca. — Devemos sair daqui. Aquilo está voltando.

    O Guia recuperou a postura relaxada. Ele se virou para o velho.

    — Os cavalos estão prontos?

    — Sim — respondeu o profeta.

    O Guia olhou para Prometeu uma última vez.

    — Adeus, Titã. Seu tormento agora será conduzido por outro. Aproveite a companhia.

    Os dois homens viraram as costas. Eles caminharam apressados, contornando o pilar e desaparecendo atrás das rochas na direção oposta àquela que Teseu usara.

    Prometeu ficou sozinho novamente, mas seu silêncio durou apenas alguns segundos.

    Primeiro, foi o deslocamento do vento, assobiando nas rochas. Depois, o bater rítmico e pesado de asas gigantescas se aproximando.

    A respiração de Prometeu tornou-se irregular. Seu peito subia e descia rápido. . Ele sabia o que viria a seguir. A agonia. A carne rasgada. O ciclo sem fim.

    Ele fechou os olhos e esperou.

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