Capítulo 121 | A Hospitaleira Pérgamo
Após alguns dias de caminhada quase incessante, os três encaravam finalmente o fim da estrada de pedra que dava lugar aos portões principais de Pérgamo. O sol queimava ao fundo e lançava raios de luz sobre as construções grandiosas.
Uma cidade enorme estava construída em patamares sobre uma grande colina, com jardins, tempos, casarões e um palácio visíveis mais ao topo. As muralhas eram feitas de blocos de mármore claro e brilhavam sob a luz do sol. Pérgamo exalava riqueza. Havia muitas carruagens circulando e pessoas vestindo túnicas de tecidos finos.
Sêneca parecia encantado. Seus olhos estavam fixos no topo da acrópole, onde a estrutura da grande biblioteca se destacava entre os templos. Ele tropeçou em uma pedra, mas não desviou o olhar. Sua mente estava concentrada nos registros e pergaminhos que ele esperava encontrar naquele lugar. Lembrava-se das histórias de quando era jovem, sobre a dita ‘maior biblioteca de todo o mundo’.
— Sêneca, olhe por onde pisa — disse Magno, segurando o braço do velho. — Você está agindo como um recém-nascido que acabou de abrir os olhos.
Eles entraram na zona comercial, perto da ágora. O local estava cheio de barracas de madeira que vendiam especiarias, vinhos e joias. Sêneca parou diante de uma banca que exibia alguns mapas antigos. O comerciante, um homem gordo com dedos cheios de anéis de bronze, percebeu a distração do filósofo.
— Este mapa mostra as rotas perdidas de Alexandre — mentiu o comerciante. — Custa dez dracmas de prata.
Sêneca pegou o objeto. Ele passou os dedos pela superfície. A tinta borrou com o calor de sua pele. Era uma falsificação barata, feita para enganar soldados bêbados ou viajantes sem instrução. Com cenho frazido, devolveu o objeto à mesa sem dizer nada e buscou continuar seu caminho. O comerciante travou o caminho de Sêneca com o braço.
— Você manchou a tinta. O mapa agora não serve para mais nada. Pague ou eu chamo a guarda da cidade. — afirmou o homem, aumentando o tom de voz para atrair a atenção de outros na rua.
Sêneca permaneceu parado. Seu rosto parecia impassível, quase entediado. O silêncio e a falta de reação do velho irritaram o comerciante, que se sentiu ignorado diante de seus vizinhos de banca.
— Quer me passar a perna é? — grunhiu o velho e levou a mão para a manga de sua túnica longa.
De lá, puxou um punhal curto e apontou para o peito de Sêneca.
Hermes moveu a mão para a empunhadura da espada curta. O couro do cabo rangeu sob seus dedos. Magno já tinha uma faca de arremesso entre as falanges, pronta para ser lançada contra a garganta do comerciante. O tempo pareceu esticar enquanto o aço começava a deixar as bainhas.
— Chega — uma voz firme cortou o ruído do mercado.
Um homem se colocou entre Sêneca e o punhal. Ele vestia roupas de linho cinza e usava panos enrolados na cabeça e no rosto, cobrindo tudo exceto os olhos. O estranho jogou uma bolsa de couro pesado na banca. O som do metal batendo contra a madeira foi seco.
— Pegue o dinheiro e suma daqui — a voz soou firme e um tanto elegante.
O comerciante conferiu o conteúdo do saco, guardou o punhal e recuou para dentro de sua barraca, resmungando. O estranho virou-se para o grupo de Hermes.
— Vocês estão bem? — Perguntou ele.
— Estaríamos melhores se a primeira pessoa a nos dirigir a palavra não fosse um larápio. — Respondeu Hermes, tirando a mão do cabo da espada.
— E um com tão pouca habilidade ainda. Tch. — Completou Magno numa expressão enojada, antes de cuspir no chão.
O estranho suspirou.
— Pérgamo é uma cidade bela, mas atrai pessoas que se aproveitam de viajantes distraídos. Sigam-me. Eu lhes mostrarei a verdadeira hospitalidade de minha terra.
O grupo se entreolhou, e Magno acenou, fazendo um gesto para suas adagas que pareciam a postos. Hermes pensou na forma com que o desconhecido cedeu aquele saco de moedas e, curioso, resolveu por seguí-lo. Sêneca concordou em silêncio.
Eles seguiram o homem por ruas secundárias até chegarem a uma residência de dois andares, afastada do barulho da ágora. A casa era bem construída, com um pátio interno e colunas de estilo jônico. Ao entrarem e fecharem a porta pesada de madeira, o homem desamarrou os panos do rosto.
Ele era jovem. Sua pele era limpa, o rosto esculpido e a postura ereta, traços que não combinavam com os de um trabalhador urbano que sofria sob o Sol da Ásia menor.
Hermes estreitou os olhos. Aquele rosto lhe era familiar de alguma forma, embora ele não conseguisse precisar de onde. Quando o homem olhou para cima por um instante, e suspirou, um estalo veio à sua mente. O rosto dele estava gravado em alguns dos bustos que eles viram na entrada da cidade, acima dos portões embora o homem diante deles parecesse mais exausto do que o mármore sugeria.
— Quem é você? — A pergunta escapou de seus lábios antes que percebesse. Ele quase se arrependeu.
O homem sorriu.
— Apenas um homem que deseja viver modestamente com a mulher que ama. Sávio, é um prazer conhecê-los.
Hermes olhou para a mão que o homem estendia, e após um instante desconfiado, estendeu a sua também.
— Sou Hermes, é um prazer, Sávio.
Uma mulher jovem saiu de um dos cômodos. Ela vestia uma túnica simples de tom azul escuro e sorriu assim que viu os recém-chegados. Sávio foi até ela, e conversou em um tom baixo algo, depois, voltou-se aos convidados e os convidou a se sentarem. Uma mesa de centro num cômodo lateral os esperava.
Após alguns instantes de silêncio e um tanto de constrangimento, a mulher colocou a bandeja de madeira sobre a mesa. Havia fatias de pão de trigo, azeitonas escuras e uma jarra de barro com vinho diluído em água. Sávio estendeu a mão e tocou os dedos dela quando ela se aproximou para servir as taças. O toque foi demorado. Ela retribuiu com um aperto suave antes de se sentar ao lado dele, encostando o ombro no braço do homem com naturalidade.
— Comam. O pão foi feito hoje cedo — disse a mulher, com um tom de voz calmo. — Sávio me contou o que aconteceu no mercado. Sinto muito que sua primeira impressão de nossa cidade tenha sido o punhal de um mentiroso.
O grupo aproveitou a deixa, Sêneca foi o primeiro a pegar um naco de pão e comer. Os outros dois pareciam esperar que ele caísse duro logo em seguida, mas como não aconteceu, seguiram sua linha e comeram também.
— O pão é excelente, senhora — agradeceu Hermes, embora tenha apenas molhado os lábios no vinho. — Mas não queremos que nossa presença traga problemas para vocês. Agradecemos o abrigo por estas horas, mas buscaremos uma pousada logo e partiremos assim que o sol surgir no horizonte amanhã. Temos assuntos ao sul que não podem esperar.
Sêneca parou de mastigar imediatamente. Ele olhou para Hermes com uma expressão de choque, deixando o pedaço de pão cair sobre a mesa.
— Ao amanhecer? Hermes, você não pode estar falando sério — Sêneca parecia perplexo. — Aquela biblioteca… os registros que estão lá… eu passei metade da minha vida querendo ler o que os estudiosos de Pérgamo coletaram.
— Não estamos aqui para conhecer, Sêneca. — Hermes rebateu.
O velho coçou o queixo.
— Ora, eu sei bem disso. Se houver qualquer pista sobre o que está acontecendo com o mundo, sobre os movimentos de Atenas ou sobre o que vimos naquelas moedas, estará lá. Sair agora seria como encontrar uma mina de ouro e se recusar a cavar.
Sávio serviu um pouco mais de vinho para Sêneca e olhou para Hermes de forma séria.
— O velho tem razão em se preocupar com o que está lá fora, Hermes. Pérgamo não é mais a cidade segura que costumava ser. Se saírem amanhã cedo, terão que enfrentar a estrada do sul, e ela está desaparecendo.
Hermes inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Como assim, desaparecendo? — questionou o mensageiro.
— A floresta — respondeu Sávio, enquanto a esposa segurava sua mão com força. — Ela está crescendo de um modo que desafia a lógica. O rei envia homens com machados todos os dias para limpar as estradas e as bordas das muralhas, mas no dia seguinte, os troncos estão mais grossos e as raízes destruíram o calçamento de pedra.
— Além disso, há também os desaparecimentos… — Sua esposa completou com um olhar baixo e triste.
Sávio assentiu, o rosto parecia mais tenso sob a luz das lamparinas.
— Homens jovens e saudáveis somem durante a noite. Quando os guardas vão atrás deles, encontram apenas as roupas, as sandálias e as armas jogadas no chão da mata. Não há sinais de luta, nem uma gota de sangue ou restos mortais.
A mulher de Sávio olhou para Hermes, seus olhos mostravam uma preocupação real.
— Por favor, considerem ficar mais algum tempo. Talvez consigam um barco para onde queiram ir em alguns dias, para evitar a floresta. Além disso, as notícias que chegam de outros cantos são ruins.
— De quais cantos, você diz? — Hermes perguntou, interessado. Informação nunca é demais.
Sávio suspirou e afagou a mão de sua mulher que repousava em seu ombro.
— Mercadores dizem que Foceia está tomada por mercenários desde que o último senhor daquelas terras foi morto por um escravo. Não chegam notícias de Éfeso e Rodes há semanas, dizem que os ventos por lá estão furiosos, e que impedem qualquer um de entrar ou sair.

Hermes permaneceu em silêncio por alguns instantes. Ele olhou para Sêneca, que tinha uma expressão de súplica quase infantil no rosto, e depois para Magno, que apenas deu de ombros. Hermes sabia que ele não se importava em ficar se houvesse comida, informações úteis e alguns idiotas para roubar.
Ele pensou na fenda que vira anteriormente e na forma como o mundo parecia estar se desfazendo em pontos específicos. Uma floresta que engole homens e cospe suas roupas não era algo comum, nem mesmo para os padrões daquela era.
— Bem. — disse Hermes finalmente, olhando para Sávio. — Ficaremos alguns dias, para reunir informações e recursos. Não é como se estivessemos totalmente prontos para a viagem de qualquer modo.
Sêneca soltou o ar que estava prendendo nos pulmões e abriu um sorriso contido.
A mulher de Sávio sorriu, aliviada, e começou a recolher as sobras para trazer mais vinho. Sávio agradeceu com um aceno de cabeça.
— Vocês fizeram a escolha certa. Vou arrumar os quartos para que possam descansar.
Hermes levantou-se e caminhou até a janela que dava para o pátio interno. Ele olhou para o céu alaranjado e o sol que se punha atrás das nuves, abaixo delas, a silhueta escura da floresta ao longe parecia um muro negro que cercava a cidade. Agora ele percebia e se incomodava. Perigosamente próximas da fronteira.
Mesmo no conforto da hospitalidade, estava preocupado. Havia algo de errado em Pérgamo, e ele tinha plena convicção de que era obra do Usurpador.

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