Capítulo 123 | Pergunte aos Deuses
A tarde em Pérgamo trazia um calor que fazia a poeira da ágora subir e se fixar na pele suada das pessoas. A praça de comércio era um espaço amplo, pavimentado com pedras irregulares e cercado por colunas de mármore que projetavam sombras longas sobre as barracas. O som predominante era o de gritos de vendedores, o bater de cascos de cavalos e o tilintar de balanças de precisão.
No centro desse fluxo, o comerciante gordo, cujos dedos estavam repletos de anéis de bronze, segurava o braço de um homem que usava roupas de lã grossa e cheirava a pinho, um recém-chegado das montanhas do norte.
— Veja o que você fez! — gritou o comerciante, apontando para um mapa estendido sobre a mesa de madeira. — Suas mãos estão sujas de suor e agora o papiro está manchado. Este é um registro único das rotas de Alexandre. Ninguém mais vai querer comprar esta peça.
O estrangeiro gaguejou, tentando puxar o braço, mas o comerciante forçou o aperto, atraindo os olhares dos guardas que vigiavam a esquina.
— Dez dracmas de prata pelo prejuízo, ou chamarei os magistrados por vandalismo — ameaçou o golpista, aumentando o volume da voz para intimidar a vítima.
Enquanto o homem das montanhas levava a mão trêmula à sua própria bolsa, um traseunte apressado cortou a multidão e, descuidado, chocou-se com o ombro contra no braço do comerciante. O golpista xingou o homem que o atropelara, mas não soltou sua presa, focado em receber o dinheiro.
Quando o estrangeiro entregou as moedas e o comerciante levou a mão à cintura para guardar o lucro e ajeitar o cinto, seus dedos tocaram apenas o couro vazio de sua túnica. Ele parou de rir imediatamente. A bolsa de couro pesado, que continha todo o seu ganho do dia, não estava mais lá. As pontas de seus dedos tateavam as pontas arregaçadas dos cordões cortados.
— Minha bolsa! — berrou o homem enquanto girava e derrubava um cesto de tâmaras. — Alguém pegou minha bolsa!
Cerca de três ruas dali, em um beco estreito onde o sol não alcançava o chão e o cheiro de urina era forte, Magno caminhava com passos lentos e silenciosos. Ele tirou uma bolsa de couro marrom de dentro de sua túnica e a jogou para cima. O conteúdo tilintou gravemente. Ele a pegou no ar com um movimento rápido e abriu um sorriso astucioso.
— Ele disse pra não roubar o nosso anfitrião, mas não disse nada sobre outro ladrão…
Guardou o dinheiro e continuou sua caminhada. Estava explorando, e, percebia agora, havia chegado ao que se parecia com uma periferia. Ali, as colunas de mármore deram lugar a casebres feitos de tijolos de barro e madeira apodrecida. O chão não era pavimentado, mas sim composto por uma mistura de terra batida e lama.
Avistou uma espécie de estalagem ao contornar uma viela, seus ombros caíram e, num suspiro, ele entrou. Estava em casa. O caos lá dentro era coordenado, homens rindo alto e contando histórias escandalosas enquanto balançavam odres e canecas. A energia de ver homens bêbados agindo como crianças o lembrava dos tempos em Therma, dos bons tempos.
Próximo a um dos cantos, avistou um homem sentado que descansava os pés sobre um banco de madeira, estava trajado com uma couraça de couro e elmo de pele. Parecia um guarda. Aproximou-se e se sentou, recostado no pilar ao lado, fingindo prestar atenção na diversão que se desenrolava mais ao centro.

— Pergunte de uma vez. — O soldado falou, tinha uma voz jovem, mas firme e um tanto entediada. Ele não tirou seus olhos do centro da estalagem.
Magno tossiu, percebendo como suas intenções eram óbvias para o guarda.
— Alguma novidade sobre os desaparecimentos? — perguntou Magno, encostando-se na parede.
O soldado nem abriu os olhos.
— O mesmo de sempre. Mais dois sumiram no setor norte ontem. Deixaram as botas e as capas.
— Só isso?
O rapaz suspirou.
— Alguns estão achando que primogênito do rei também tomou chá de sumiço, porque ele não aparece no palácio há mais de dois dias.
Magno coçou o queixo e então sorriu.
— Algo mais?
O soldado cruzou os braços sobre o peito e as pernas sobre o banco, seus olhos se fecharam.
— Se quer saber mais, pergunte aos deuses, porque os homens não sabem de nada.
Com um estalo de língua, Magno tirou uma única moeda de prata da bolsa que havia roubado e a arremessou com o polegar na direção do soldado que pegou ela no ar sem esforço. Seus olhos finalmente mudaram de foco e analisaram a moeda que tinha em mãos.
Magno deixou o soldado e a taverna e caminhou mais alguns quarteirões. Abordou um mercador que organizava caixotes de azeitonas. O homem apenas repetiu que o preço do transporte estava subindo porque as raízes estavam rachando as estradas e que os filhos do rei estavam desafetos, a disputar quem assumiria o trono quando o velho morresse.
— Todos nesta cidade dizem as mesmas palavras — resmungou Magno para si mesmo.
Ele estava irritado. Passara horas circulando e não obtivera uma única informação nova.
Perto de uma pilha de troncos retorcidos, um grupo de homens estava sentado em bancos de madeira tosca. Eles tinham as mãos sujas de seiva escura e os braços marcados por cortes profundos de espinhos. Um deles jogou um machado de ferro no chão, e causou um estardalhaço.
— Minhas costas estão travadas e as mãos não fecham mais — rosnou o homem de ombros largos, limpando o rosto com o antebraço sujo. — Passamos o dia todo cortando aquelas raízes no setor leste. Amanhã cedo, elas estarão lá de novo, bloqueando a porta das casas. É um trabalho inútil.
Interessado, Magno diminuiu sutilmente o ritmo da caminhada.
O outro trabalhador, mais magro e com a túnica rasgada, cuspiu no chão de terra.
— O ferro não segura aquela mata. Ontem derrubamos três carvalhos. Hoje de manhã, os troncos estavam em pé e os galhos estavam mais grossos. O rei não sai da cama e os soldados só sabem olhar. Ninguém resolve essa situação.
O primeiro homem soltou um suspiro pesado e tateou uma pequena bolsa de couro em seu cinto.
— Estou exausto demais para me importar com o rei ou com as árvores. Vou pegar o que recebi hoje e ir direto para o Templo de Afrodite.
O colega ao lado parou de afiar sua faca e o encarou com os olhos estreitados.
— Você ficou idiota? Tua mulher está em casa esperando o dinheiro para o trigo. Se ela souber que você gastou dracmas com aquelas mulheres no templo, ela vai terminar o serviço que a floresta começou.
O trabalhador deu uma risada curta e sem alegria.
— Ela não vai saber. E eu não sou o único. Ontem vi três homens do alto conselho descendo a rua do templo cobertos por mantos. Metade dos maridos casados desta cidade está batendo naquela porta à noite. — Ele ergueu o rosto como se contemplasse algo nas nuvens — Aquelas sacerdotisas oferecem algo que faz a gente esquecer que a floresta está engolindo as muralhas. Vale cada moeda de prata.
Magno procurou um banco nas irremediações e se sentou. Talvez ouvisse outras coisas interessantes se esperasse mais um pouco.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.