Índice de Capítulo

    O peso da revelação de Átalo não parecia incomodá-lo tanto quanto a lacuna de conhecimento que o livro anônimo havia deixado em sua mente. Para o estoico, a política mortal era uma sucessão de eventos previsíveis, enquanto a lógica da Arché era um enigma que desafiava a própria percepção da realidade. Ele sabia que tinha mais com o que se preocupar.

    Ao cruzar o pórtico da biblioteca, ele foi avistado pelos mesmos dois estudiosos que o haviam atendido anteriormente. Desta vez, o mais velho, que segurava um compasso de bronze, aproximou-se com uma curiosidade genuína estampada no rosto.

    — Sêneca — cumprimentou o homem com um sorriso sob a farta barba, com a cabeça levemente abaixada. — Discutíamos sua consulta de ontem. Ficamos curiosos sobre o que um homem de sua erudição espera extrair de registros que a maioria de nós considera apenas delírios de eras pré-clássicas.

    Sêneca parou e ajustou as dobras de sua túnica.

    — Li apenas a introdução de um volume sobre a Ontologia do Poder — explicou Sêneca, usando termos técnicos que fizeram os estudiosos se entreolharem. — O autor, embora tenha preferido o anonimato, mostra uma concepção da mecânica divina que ultrapassa a mera adoração. Ele não enxerga os deuses como senhores, mas como condutores de forças maiores e mais primordiais, as quais chama Arché.

    Os sábios demonstraram uma admiração imediata. O uso preciso das palavras e a profundidade da análise de Sêneca validavam sua posição como um igual, ou talvez um superior.

    — Ontologia do Poder… — repetiu o estudioso mais jovem, anotando algo em uma pequena placa de cera. — Adoraríamos ouvir suas conclusões quando terminar a leitura, mestre Sêneca. Poucos nesta cidade ainda se dedicam a decifrar esse tipo de gramática arcaica.

    Sêneca assentiu brevemente e seguiu para a ala sul. Ele encontrou o pergaminho exatamente onde o havia deixado. Sentou-se no mesmo banco de pedra e abriu o rolo com cuidado. A luz da tarde, que entrava pelas fendas altas do teto, iluminava as letras angulares que ele já começava a decifrar com mais facilidade.

    Pulou da introdução para o corpo do primeiro capítulo. O texto aprofundava-se na definição de Arché. O autor explicava que a Arché não era algo que se manifestava ou que se transformava em outra coisa; ela era, em si, o núcleo essencial da mudança.

    “A Arché não é um atributo da divindade,” dizia o texto, “ela é a fonte de onde a divindade é derivada. Um deus não usa a Arché; ele é consumido por ela para que um conceito — seja o fogo, o mar ou o caminho — ganhe forma no mundo físico. A manifestação é apenas uma sombra, uma força enfraquecida. A verdadeira potência reside na essência pura, que não possui nome além de si mesma.”

    Sêneca sentiu o frio do banco de pedra subir por sua coluna. O livro afirmava que a Arché era o núcleo de tudo o que existia, uma força que não podia ser criada ou destruída, apenas canalizada. Se um deus morresse, a Arché permaneceria, buscando um novo recipiente para queimar. Ele percebeu que o que Hermes e os outros deuses chamavam de “poder” era, para este autor, na verdade, uma dívida constante com essa matriz primordial que os utilizava como ferramentas de expressão.

    Ele mergulhou na leitura, ignorando o tempo que passava e o som dos outros consulentes que deixavam a biblioteca conforme o sol se punha. Ele precisava entender como essa força se ligava às moedas e às fendas que estavam rasgando o mundo.


    Há cerca de um século, a disputa entre os dois havia resultado num silêncio absoluto. Afrodite afirmava que a verdadeira força do amor residia na tragédia e no sofrimento. Ela apreciava as barreiras e a dor que acompanhavam o afeto, acreditando que a resistência no meio da doença e da desgraça era o ponto máximo do amor humano. Eros, por outro lado, protestava contra essa visão. Ele defendia que o amor deveria ser o prazer da união, da prosperidade e da satisfação mútua, algo que nunca seria alcançado se o tormento fosse um requisito.

    A última lembrança que Hermes tinha de Cupido, apelido pelo qual gostava de ser chamado pelos seus conhecidos, era de pouco mais de vinte anos atrás. Hermes entregara ao jovem uma carta escrita por Afrodite. Eros leu o papiro, amassou as fibras com as mãos e ateou fogo ao papel com um estalo de dedos. Dissera a Hermes que a mãe não merecia uma resposta.

    Hermes chegou ao Templo de Afrodite quando o sol estava prestes a desaparecer totalmente atrás das muralhas da cidade. Ele parou a uma distância segura e observou a movimentação. Uma fila extensa de homens aglomerava-se diante do portão principal. Havia nobres com mantos de seda, trabalhadores braçais com as mãos sujas de terra, guardas da cidade, viajantes e até estudiosos com pergaminhos debaixo do braço. Todos pareciam nervosos, mas mantinham sorrisos de expectativa no rosto. O próprio Hermes poderia se infiltrar naquela fileira sem gerar qualquer desconfiança, já que havia se trajado exatamente como um homem que visita aquele lugar gostaria de se trajar, com um manto que cobria suas feições e cabelos e deixava espaço apenas para os olhos.

    Hermes desviou-se da fila e caminhou em direção ao pátio lateral. Ele moveu-se rente às paredes de pedra até alcançar a área onde Átalo havia rezado na noite anterior. O local estava deserto e silencioso. Ele aproximou-se da estátua de Afrodite. O mármore estava gasto pelo tempo, apresentando pequenas rachaduras nos ombros e no rosto.

    Hermes estalou a língua no céu da boca, num gesto de desdém. Ele manteve as pernas afastadas e a coluna ereta, recusando-se a dobrar os joelhos ou demonstrar qualquer sinal de submissão. Ele fechou os olhos e pronunciou uma sequência de palavras em grego arcaico. Era uma fórmula ritualística, um código de convocação utilizado apenas entre as divindades do panteão.

    Quando alguns segundos se passaram e ele não sentiu nenhuma mudança, amaldiçoou o pobre Átalo. Rangeu os dentes, foi então que ouviu um zunido, e um estalo, dentro de sua cabeça. Como se algo estivesse se ligado, de repente.

    — Então és tu, Hermes.

    Uma voz feminina ressoou diretamente dentro da sua consciência. A voz era doce, eloquente e trazia aos seus pensamentos um calor que ele não se lembrava de já ter sentido.

    Hermes arregalou os olhos e ergueu o rosto para o da estátua. As órbitas dos olhos da escultura agora emitiam um brilho arroxeado e intenso.

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