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    O ar no pátio lateral do templo parecia ter esfriado vários graus no instante em que a voz ressoou. Hermes manteve os olhos fixos nas órbitas arroxeadas da estátua. O brilho era constante e denso.

    — Então és tu, Hermes — repetiu a voz. 

    O tom era doce, mas parecia… ensaiado. Sem alma.

    — Átalo falou de ti em suas preces — continuou a voz na mente de Hermes. — Ele agradeceu pela chegada de viajantes capazes que o ajudariam a cruzar a mata e protegeriam sua mulher. Tu és o braço que ele pediu.

    Hermes franziu o cenho. Sua mente trabalhava a mil possibilidades, mas ele já havia escolhido a sua.

    Se aquela fosse a verdadeira Afrodite, ela não o reconheceria apenas pelos relatos de um príncipe mortal. Ela sentiria a assinatura de sua essência, mesmo que esta estivesse fragmentada e oculta sob a carne humana.

    Estava diante de uma impostora, mas não alterou sua postura. Se havia uma força habitando a estátua e manipulando o culto da cidade, ele precisava descobrir sua extensão.

    — Estou aqui para servi-la, Deusa — disse Hermes. Ele baixou levemente a cabeça, simulando a reverência de um fiel, mas manteve os olhos fixos no brilho púrpura. — O que devo fazer para que o desejo de Átalo seja alcançado?

    A estátua permaneceu estática, mas a voz retornou, mais técnica e direta.

    — O plano de Átalo é a chave. Tu deves garantir que ele seja executado. Move os homens armados de Pérgamo. Faz com que o maior número possível de soldados e guardas seja alocado para o núcleo da floresta, sob o pretexto de abrir o caminho. Eles devem avançar até onde as árvores são mais densas, um lugar onde não encontrarão o príncipe.

    — E quanto à fuga de Átalo e sua esposa? — questionou Hermes.

    — Enquanto os homens distraem a floresta com seu aço e fogo, eu mesma tratarei de abrir a trilha — respondeu a voz. — Uma passagem segura surgirá para Átalo e seus companheiros. Eles caminharão por onde as raízes não se movem.

    O mensageiro ouvia com atenção e olhos fixos nos da estátua. Por um instante, ele olhou em volta do altar sem mover a cabeça, procurando por qualquer irregularidade. Nada.

    — Vai, Hermes. Cumpre o que foi destinado. — A estátua ordenou.

    O brilho nos olhos da estátua diminuiu gradualmente até que o mármore voltasse à sua cor cinzenta e opaca.

    O pátio lateral mergulhava lentamente na escuridão natural da noite que chegava.

    Hermes deu as costas à escultura e caminhou em direção à saída do templo. Ele não acreditava em uma única palavra da entidade. Mover os homens para o “núcleo da floresta”. Seja lá para o que fosse, certamente não seria bom.

    Sua mente trabalhava em uma única pergunta: se aquela não era Afrodite, quem possuía o poder de habitar sua efígie e falar na mente dos homens?

    Ele já estava ligando os pontos, e não gostava nada do que estava descobrindo.


    O sol do meio-dia aquecia as pedras da área comercial, e o ar estava carregado com o cheiro de peixe seco e tecidos novos. Aylla, sentada em um banco de madeira baixo, separava grãos de cevada em cestos de palha. 

    Ao seu lado, Silvia, uma senhora de cabelos brancos e mãos nodosas, organizava pequenos fardos de lã.

    — Você parece distraída hoje, querida — Afirmou, sem parar o movimento das mãos. — O pão queimou no forno de novo?

    Aylla forçou um sorriso e balançou a cabeça negativamente.

    — Apenas não dormi bem. A floresta pareceu mais barulhenta ontem à noite

    — Todos estamos sentindo isso — respondeu a velha, baixando o tom de voz. — Ouvi que as raízes já estão rachando os alicerces das casas perto do muro leste. Mas não pense nisso agora. Foque nos grãos.

    Aylla assentiu e voltou ao trabalho, após um suspiro. Seus olhos viajaram, cansados, pelo centro comercial. Crianças correndo, alguns já se arrumando pra ir embora.

    Seus olhos se estreitaram.

    No fundo de um beco estreito e escuro, a cerca de cinquenta metros, uma figura estava parada. O homem vestia um manto cinza e um capuz que ocultava completamente seu rosto.

    Um frio desconfortável subiu pela nuca da jovem. Desviou o olhar, numa tentativa de se concentrar na cevada, mas, quando olhou novamente, a figura ainda estava lá.

    O homem não parecia interessado nas mercadorias ou nas outras pessoas. Ele olhava diretamente para ela.

    — Silvia, eu preciso ir — levantou-se bruscamente e reuniu suas coisas em uma bolsa de pano. — Lembrei que prometi preparar o almoço mais cedo hoje.

    A senhora parou o serviço e olhou para Aylla com preocupação.

    — Mas falta tão pouco para o seu horário, Aylla. Você está pálida. Aconteceu algo?

    — Eu estou bem. Só preciso ir para casa — Aylla se despediu com um aceno rápido e começou a caminhar, sem olhar para trás.

    Silvia observou a jovem se afastar com um olhar inquieto, mas logo voltou aos fardos de lã.

    Ela acelerou o passo. À medida que se afastava do centro comercial e entrava no setor residencial baixo, o barulho da multidão diminuía. As ruas tornavam-se mais estreitas e silenciosas. 

    Ouviu o som de botas batendo contra o calçamento atrás dela e parou por um segundo enquanto fingia ajustar a alça da bolsa. Olhou pelo canto do olho.

    A figura encapuzada estava a vinte metros de distância, caminhando no mesmo ritmo que ela.

    O pânico começou a se instalar. Aylla não correu, temendo que isso provocasse uma reação violenta, mas seus passos tornaram-se curtos e rápidos. Dobrou uma esquina e depois outra, entrando em um beco onde o sol não alcançava o chão. 

    O som das botas atrás dela não cessava.

    As ruas estavam completamente desertas. A maioria dos moradores estava no trabalho ou dentro de casa devido ao calor. 

    Quando Aylla finalmente avistou a esquina de sua residência decidiu correr os últimos metros. Ela virou a última curva apressada, mas seu corpo colidiu com força contra alguém que vinha do sentido contrário naquele exato momento.

    Aylla soltou um grito agudo de susto e deixou a bolsa de grãos cair no chão. Seus olhos subiram para a figura que a segurava pelos braços com terror, e viram os olhos dourados crivados em dúvida, e o cabelo branco acima.

    Aylla ofegou, agarrando-se à túnica de Hermes enquanto tentava recuperar o fôlego. Hermes a segurou pelos ombros para estabilizá-la e depois olhou por cima da cabeça dela, em direção à esquina do beco seguinte ao que estavam.

    A figura encapuzada estava na entrada da rua. Com o movimento brusco da parada, o manto se abriu levemente e revelou o brilho metálico de uma couraça de bronze por baixo do tecido cinza. Era um homem alto, com a postura rígida.

    Ao notar os olhos dourados e a postura defensiva do homem à frente da porta, o perseguidor inclinou a cabeça, cuspiu ostensivamente no chão de pedra e deu meia-volta para desaparecer nas sombras do beco de onde viera.

    Aylla continuava trêmula. Hermes a conduziu para dentro de casa sem dizer uma palavra, ainda com os olhos fixos na rua até fechar a porta pesada de madeira e trancar o ferrolho.

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