Capítulo 129 | O Rastro do Corvo
Alguns minutos se passaram em silêncio.
Os soluços baixos da mulher se abafavam contra o peito de seu amado. Átalo a mantinha sentada em um banco de madeira, com as mãos sobre os ombros dela, apertando-os de forma constante para transmitir algum conforto.
Ele sussurrava para acalmá-la, enquanto limpava uma lágrima que escorria pelo rosto da mulher com o polegar.
Magno estava encostado na parede oposta, com os braços cruzados. Seus olhos saltavam de Aylla para Hermes, avaliando a situação com uma desconfiança que ele não se dava ao trabalho de esconder.
— Quem era ele? — perguntou Átalo num tom calmo, mas seus olhos mostravam tensão.
— Eu não sei — respondeu Aylla com a voz ainda trêmula. — Ele estava no mercado, parado nas sombras. Quando percebi que me seguia, tentei despistá-lo, mas ele sempre estava lá. Quando cheguei à porta, achei que ele fosse me atacar.
Magno tossiu para chamar a atenção.
— E o que ele vestia?
Hermes estava parado perto da entrada, ainda de olho na porta trancada como se pudesse ver através da madeira.
— Ele usava um manto cinza e um capuz — respondeu. — Mas quando parou para me encarar, o tecido se moveu. Eu vi um brilho opaco na altura do peito. Era metal. Bronze ou ferro.
Magno descruzou os braços e deu um passo à frente, interessado.
— Metal, você diz? — arqueou uma sobrancelha. — Tem certeza de que não era apenas o reflexo de algum broche ou fivela de couro?
— Era uma couraça — afirmou Hermes de forma seca. — Por que isso é importante para você?
Magno soltou um estalo com a língua e olhou para Átalo antes de voltar para o companheiro.
— Ontem à noite, percebi uma coisa. Os guardas que fazem a ronda na cidade e nas muralhas usam gibões de pele e couro batido. É leve e barato.
Ele gesticulou para o príncipe fugitivo e sorriu.
— Mas os guardas reais, aqueles que ficam perto da acrópole e escoltam a linhagem do rei, usam cotas de malha e couraças metálicas.
Hermes franziu o cenho, estreitando os olhos para o gatuno.
— E como você descobriu isso “por acaso” ontem à noite? Estava aprontando?
Magno sorriu de lado, um gesto rápido e malicioso.
— Para o seu governo, eu estava trabalhando honestamente. Ou quase isso. Eu me infiltrei em um grupo de trabalhadores na floresta para ver o que Sávio… digo, Átalo, não estava nos contando.
O mensageiro suspirou.
— E?
Magno limpou a garganta e prosseguiu com um tom mais sério.
— A floresta é pior do que dizem. Eu vi árvores fechando feridas de machado em minutos. Mas o ponto é: um homem de manto pomposo e coroa de louros apareceu e dispensou todos os trabalhadores com ordens para que ninguém contasse que ele esteve lá. Ele estava escoltado por guardas de metal.
Átalo empalideceu. Ele soltou os ombros de Aylla e se levantou, caminhando de um lado para o outro na pequena sala.
— Manto vermelho e coroa de louros? — Átalo repetiu a descrição. — Can.
— Ele parecia bem interessado em garantir que ninguém cortasse as árvores durante a noite — acrescentou Magno.
— Se for o Can, estamos em perigo maior do que eu imaginava — disse Átalo, tenso. — Ele sempre foi ambicioso, mas nunca agiu abertamente contra mim. Se ele está vigiando Aylla e impedindo a contenção da floresta, ele pode ter descoberto meu plano de fuga.
— Ele é o próximo na linha? — perguntou Hermes.
— Meu irmão do meio, Cairo, está preso em Creta. Se meu pai morrer agora e eu não for encontrado, Can será coroado — explicou Átalo. — Ele tem todos os motivos para querer que eu e Aylla desapareçamos permanentemente.
Hermes observou a preocupação de Átalo com cinismo. Esse plano não fazia o menor sentido.
Por que simplesmente não deixar que ele se perdesse na floresta se seu objetivo era sumir com o irmão?
Exceto, se seus objetivos estivessem além do trono.
Não compartilhou seus pensamentos com o grupo.
Hermes olhou para Magno.
— Você já descobriu um modo de entrar naquele palácio?
Os lábios de Magno se abriram lentamente até que se tornassem aquele velho e astuto sorriso de raposa.
As sombras de Pérgamo moviam-se com rapidez sobre o calçamento inclinado da Acrópole.
Lá embaixo, o som metálico das armaduras dos guardas reais ecoava rítmico, mas os soldados mantinham os olhos focados nas ruas. Nenhum deles olhava para cima, para onde o perigo realmente habitava.
À medida que subiam em direção à acrópole, as patrulhas da guarda tornaram-se mais frequentes. Tochas oscilavam nas ruas abaixo, mas os vultos no topo das casas eram invisíveis para quem olhava do chão.
Magno parou à beira de um terraço largo e apontou para a face traseira do palácio. O muro ali fora erguido rente ao despenhadeiro, uma queda livre que tornava qualquer invasão por aquele lado uma impossibilidade logística para homens comuns.
A guarda real, confiante na geografía do terreno, mantinha apenas um sentinela naquela seção. Os dois homens correram pelo beiral estreito, saltaram para o tronco de uma árvore antiga cujos galhos tocavam a muralha e, com um impulso coordenado, transpuseram a barreira de pedra.
O guarda de vigília nem sequer teve tempo de girar o corpo. Magno desceu sobre ele com o peso de seu corpo focado na base do pescoço do homem. O impacto abafado enviou o soldado ao chão de mármore, desacordado.
Quando Hermes desceu, Magno fez um gesto positivo com o polegar acompanhado de um sorriso.
Seus olhos buscaram em conjunto o destino. Uma fachada no terceiro andar do casarão grego onde havia uma laje que servia de apoio para uma janela alta. Era a mesma que Átalo havia falado: “Com visão para os montes do fundo da cidade.”
O quarto estava iluminado por duas lâmpadas de óleo que projetavam uma luz amarelada e vacilante. No centro, sentado atrás de uma mesa de carvalho maciço, o Príncipe Can estava inclinado sobre um pergaminho.
Usava a coroa de louros dourados e o manto vermelho. Uma pena de ganso arranhava a superfície do papiro. Can parecia absorto em sua escrita, com o cenho franzido e os lábios comprimidos em uma linha de tensão.
Uma brisa súbita entrou pela janela aberta e agitou as cortinas de seda. O príncipe parou o movimento da mão e ergueu a cabeça, alerta.
Olhou para a escuridão do canto do quarto, onde a luz não alcançava, mas não encontrou nada além do balanço lento do tecido. O príncipe soltou um suspiro curto, atribuiu o ruído ao vento e voltou sua atenção para a mesa.
No instante em que encostou a pena no pergaminho, ele sentiu o frio cortante do aço contra sua garganta.
O corpo de Can paralisou. Ele soltou a pena, que rolou pela mesa e deixou um rastro de tinta preta sobre a madeira. Uma silhueta emergiu das sombras atrás dele, até que os cabelos brancos se tornassem uma forma clara.
De olhos arregalados, Can enxergou os olhos dourados surgirem no canto de sua visão.
Trêmulo, sequer percebeu quando uma segunda figura, com olhos estreitos e interessados, entrou pela janela com um sorriso e pegou da mesa o pergaminho ao qual ele há pouco dava tanta atenção.


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