Índice de Capítulo

    O corpo de Can paralisou. Ele soltou a pena, que rolou pela mesa e deixou um rastro de tinta preta sobre a madeira. 

    A lâmina da espada curta estava pressionada com firmeza contra a pele do príncipe, o suficiente para que ele sentisse o perigo de cada respiração.

    No escuro do quarto, os olhos de Hermes brilharam em um tom dourado e predatório.

    — Se soltar um único grito, darei a este manto vermelho um tom muito mais trágico — o sussurro preencheu os ouvidos de Can. — Vamos conversar um pouco sobre suas ações recentes.

    Enquanto isso, Magno estava sentado na borda da mesa de carvalho, com a postura relaxada. Segurava um pergaminho que Can há pouco escrevia e lia o conteúdo com atenção.

    — Onde está Átalo? — Era um teste claro, mas Hermes não deixou transparecer.

    Can arregalou os olhos. Pensou em questionar. Pensou em comprar esse homem que o ameaçava. Em ameaçá-lo de volta. Mas o frio cortante em seu pescoço o fez pensar melhor. Precisava jogar junto, pelo menos por agora.

    “Esse maldito não sairá vivo daqui.” Can prometeu em sua mente.

    — Átalo é um fraco — disse com voz falha. — Ele fugiu da sua responsabilidade por causa de uma serva. Ele não merece o trono. Se ele voltar, o reino entrará em colapso.

    — A plebeia — disse Hermes. O tom de voz era baixo e uniforme. — Por que os seus guardas estão atrás dela?

    Can tentou se afastar da lâmina, mas as costas da cadeira o impediam.

    — Ela é a fraqueza de Átalo — respondeu o príncipe, com dificuldade. — Se ela morrer, ele perde a razão para ficar em Pérgamo. Se ela fugir, ele a segue. De qualquer forma, o trono fica livre para mim.

    Hermes manteve a expressão neutra.

    — Você mandou parar o corte das árvores. A mata está avançando sobre as casas.

    — As pessoas precisam de medo — disse Can. As palavras começaram a sair mais rápido, impulsionadas pelo terror. — O medo mantém o povo dentro dos muros. Ninguém questiona o Rei ou a sucessão quando acha que a cidade vai ser engolida pelas raízes. Eu controlo a crise, então eu controlo Pérgamo.

    — E o templo? — perguntou Hermes, pressionando a espada apenas um milímetro a mais.

    Can engoliu em seco.

    — Homens assustados precisam de distração. As sacerdotisas oferecem isso. O templo os mantém ocupados e dóceis. Eu as ajudo como posso, pois isso me ajuda também.

    Hermes olhou para o rosto do príncipe. Ele não encontrou nada além de covardia e tensão. Uma cidade inteira estava sendo estrangulada apenas para garantir um trono de mármore. Firmou o pulso e os dedos no cabo da espada.

    A lâmina começou a afundar. O sangue brotou na pele de Can, escorreu quente pelo pescoço e manchou a gola do manto vermelho.

    O príncipe não tentou gritar ou lutar. Ele olhou diretamente para os olhos de Hermes. Lágrimas grossas caíram de seu rosto.

    —  Seu monstro maldito… — A voz estava embargada, mas ele não desviou o olhar.

    Hermes parou. A pressão da espada cessou.

    “Não se torne um monstro, Hermes.” A voz do garoto surgiu em sua mente.

    Olhou o fio de sangue escorrendo pela espada. Seus olhos se fecharam lentamente, e trouxeram de volta a imagem das costas do menino que o deixou para trás, no dia em que se tornou um homem.

    O medo nos olhos de Can o questionou por um instante.

    “Eu realmente não mudei nada desde então?”

    Lentamente, Hermes afastou a espada.

    Can puxou o ar com força, tossindo e cobrindo o pescoço com as duas mãos. Ele se curvou para frente, tremendo.

    — Você acha que Átalo pode protegê-lo? — perguntou Can, limpando a boca com as costas da mão.

    Magno enrolou a carta e a guardou na túnica. Ele cruzou os braços e olhou para Hermes, esperando a resposta. 

    Os olhos do mensageiro vaguearam pelo quarto, até encontrarem um jarro com flores de lavanda.

    — Átalo não sabe que estamos aqui — respondeu. — Afrodite nos enviou.

    Can parou de tossir e ergueu a cabeça.

    — A deusa? — Ele franziu o cenho. — Ela não mandaria assassinos. Eu rezo para ela todos os dias.

    — E ela ouviu — confirmou Hermes. — Mas orações são apenas palavras. Ela ordenou que colocássemos uma lâmina na sua garganta para ver o que você diria diante da morte. Ela queria saber se você confessaria que usa o templo e a floresta para os seus próprios planos políticos. E você confessou.

    O príncipe empalideceu. A lógica de um teste divino fazia sentido para ele.

    — O que ela espera de mim agora? — perguntou Can com a voz reduzida a um murmúrio submisso. — Por favor… diga a ela que me arrependo!

    — Ela quer que você desfaça o isolamento — disse Hermes. — Ao amanhecer, você enviará todos os trabalhadores e guardas para a estrada sul. Eles vão cortar a floresta e abrir o caminho. E você ordenará que seus homens esqueçam a plebeia.

    Can olhou para o próprio sangue nas mãos.

    — E Átalo?

    — Com a estrada aberta, ele sairá de Pérgamo. A deusa terá o caminho livre e você terá o seu trono sem precisar matar o próprio irmão.

    Can assentiu devagar, concordando com a cabeça várias vezes.

    — A estrada será aberta. Ninguém tocará na mulher.

    Hermes guardou a espada na bainha de couro.

    — Lembre-se de hoje, Can. Se amanhã houver um único guarda vigiando a casa de Aylla, ou se a estrada sul permanecer fechada, eu voltarei. E na próxima vez, não haverá testes.

    Hermes caminhou até a janela e saltou para o beiral, sendo acompanhado por Magno. Can ficou sozinho no escritório, pressionando o ferimento no pescoço.

    O vento norte batia contra os telhados de Pérgamo. Magno saltou o vão estreito entre duas casas e aterrissou sem ruído sobre a argila fria. Hermes tocou o beiral logo atrás, com passos precisos e silenciosos. Eles avançaram pela escuridão e deixaram o palácio para trás.

    Magno parou atrás de uma chaminé de pedra. Ele olhou para o companheiro.

    — Ele viu os nossos rostos — disse o gatuno.

    — Isso não importa — respondeu Hermes, sem parar. 

    Passou por Magno e avaliou a distância para o próximo terraço.

    O ladrão acompanhou o passo dele.

    — Importa muito. Você entrou no quarto de um príncipe. Colocou ferro no pescoço dele. E o deixou vivo. Homens com poder não esquecem quem os fez sangrar.

    Hermes parou na beirada do telhado e olhou para as ruas vazias da cidade baixa.

    — O medo dele tem mais utilidade que o cadáver. — Hermes manteve o tom de voz calmo. — Se ele morresse hoje, o palácio entraria em pânico. A guarda real trancaria Pérgamo. Ninguém iria para a estrada sul cortar as árvores.

    Magno cruzou os braços. Ele analisou o perfil de Hermes. Ele conviveu com ladrões e assassinos por tempo suficiente para reconhecer certos padrões. Ele conhecia o olhar de quem toma uma decisão fria e o olhar de quem desiste por outro motivo.

    — Você hesitou — afirmou Magno.

    Hermes virou o rosto. Os olhos dourados encontraram os de Magno.

    — Eu mudei o plano.

    — Você tinha a vida dele nas mãos. A lâmina já cortava a pele. Eu vi. E então você parou.

    — A morte dele não abriria as árvores.

    — E a vida dele pode nos matar amanhã. — Magno ajeitou a túnica e preparou o corpo para o próximo salto. — Não poderemos lidar com toda a guarda nos perseguindo.

    Hermes sorriu.

    — Você sabe que isso não é verdade.

    — Não é essa a questão.

    O gatuno não sorriu de volta e saltou.

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