Capítulo 132 | Corrupção na Fonte
O grupo cruzou a linha das primeiras árvores na margem leste. O ambiente tornou-se denso de imediato. A escuridão sob a copa das árvores era quase palpável, e os galhos grossos raspavam contra o couro e o metal de suas roupas.
Magno assumiu a liderança, com uma faca de caça em uma das mãos, cortando a folhagem que insistia em bloquear a passagem. Atrás deles, a vegetação se fechava, ocupando o espaço vazio e eliminando qualquer trilha de retorno.
Hermes caminhava logo atrás do gatuno, mantendo a mão no cabo da espada. Aylla o seguia de perto, os olhos arregalados de medo, enquanto Sêneca fechava a marcha, segurando com firmeza a alça de sua bolsa de couro e das de seus colegas.
Magno parou de repente e ergueu a mão, sinalizando para que o grupo fizesse o mesmo. Agachou-se perto de um tronco distorcido e passou os dedos desprotegidos sobre a terra úmida.
— Olhem para o chão — instruiu em voz baixa e apontou para a base das árvores.
Hermes se aproximou e viu o gatuno usar a ponta da faca para raspar a camada superior de folhas mortas, revelando a estrutura das raízes anormais. Elas eram grossas, de um tom quase negro, e pulsavam levemente.
Magno notou o padrão que antes havia passado despercebido: as raízes convergiam e se estendiam em direção a um único ponto geográfico.
Ele avançou mais alguns passos, desviando de um arbusto espinhoso, e parou novamente. Havia sulcos profundos marcados na lama escura.
Preso a uma raiz pontiaguda, um pedaço de tecido rasgado balançava com a brisa estagnada. Era do mesmo tecido da túnica que Átalo vestia horas antes.
— Essa não é a túnica dele? — Magno questionou com a expressão dura.
Aylla tapou a boca, lágrimas não paravam de escapar de seus olhos. Hermes apertou seus ombros e com o olhar disse-lhe para ser forte. Pelo menos por enquanto.
— Não perdemos ainda.
A mulher, ainda trêmula, engoliu o choro e acenou, mesmo hesitante.
O grupo retomou a marcha, mas o avanço tornou-se fisicamente desgastante. O ar pesou sob a copa das árvores.
A umidade subiu a níveis absurdos a ponto de cobrir a pele de suor frio e dificultar a respiração. A cada passo em direção ao núcleo da mata, o odor do ambiente mudava.
O cheiro comum de terra molhada desapareceu, substituído pelo fedor pungente de lodo podre. Logo depois, um segundo cheiro se misturou ao primeiro, adocicado e repulsivo
Hermes reconhecia. O odor inconfundível de cadáveres em decomposição.
Magno apertou o cabo da faca. A tensão em seus músculos era evidente. Eles estavam chegando à nascente do problema.
O som de água corrente substituiu o barulho de galhos secos quebrando sob as botas. O grupo alcançou a margem do rio principal que cortava a floresta.
Os olhos de todos se tornaram estreitos.
A água escura e lodacenta. As raízes grossas que Magno rastreara mergulhavam diretamente no leito do rio e pulsavam ao absorver o líquido denso em um ritmo contínuo.
A superfície da água borbulhou perto da margem oposta. Uma figura emergiu do centro do rio e caminhou sobre a correnteza até pisar na terra firme. Era uma mulher de pele pálida e cabelos que grudavam no rosto de forma pesada.
Água escorria de seu corpo nu e moldava-se como um vestido líquido ao redor de suas pernas.
— Vocês não deveriam ter vindo até aqui — A voz ecoou como uma brisa úmida até os ouvidos dos invasores.
Hermes parou de imediato e estreitou os olhos. Ele não precisou pensar muito. O tom, a cadência e a melodia da voz eram idênticos. Era exatamente a mesma voz que invadira sua mente no pátio do Templo de Afrodite.
A falsa deusa que exigira sangue para abrir a estrada sul estava parada a dez passos de distância. Era uma Ninfa das águas.
— Onde está o príncipe? — perguntou e puxou a espada curta da bainha de couro.
A Ninfa não respondeu.
Ergueu as duas mãos na direção do grupo. A água do rio subiu em duas colunas grossas e disparou contra eles. Ao mesmo tempo, raízes pontiagudas irromperam da lama da margem, chicoteando na direção das pernas de Magno e Sêneca.
Aylla gritou e recuou, tropeçando nas pedras.
Hermes avançou.Com movimentos curtos e precisos, cortou as raízes que tentaram agarrar seus tornozelos. A lâmina de ferro separou a madeira escura sem dificuldade.
Um chicote de água atingiu-o no ombro, na placa de sua couraça, mas ele não vacilou.
Ignorou o impacto da água e continuou a investida em linha reta, com o foco no alvo principal.
A Ninfa tentou recuar para o leito do rio, mas Hermes foi mais rápido. Ele encurtou a distância em dois passos largos, agarrou o pescoço da mulher com a mão livre e usou o peso do próprio corpo para jogá-la contra o chão lamacento da margem. A ponta da espada curta parou a um centímetro do olho direito dela.
Ela paralisou. Soltou um arquejo assustado com os olhos arregalados em choque. Sem o controle dela, a água que flutuava perdeu a tensão e caiu de volta no leito com um estrondo molhado. As raízes murcharam e pararam de se mover.
Hermes manteve a mulher no chão e olhou para o rio. As raízes principais continuavam conectadas ao fundo, intocadas pela derrota da Ninfa. Ele observou o fluxo da água escura e a forma como a madeira absorvia a corrupção diretamente do leito.
A floresta inteira estava fisicamente ligada àquela água. O cheiro de cadáveres e a anomalia das árvores não vinham da mulher sob sua mão. O núcleo do problema estava submerso.
Hermes virou o rosto para trás. Sêneca estava parado, respirando de forma pesada, segurando duas bolsas de couro encostadas no peito.
— Sêneca, abra a bolsa da direita — ordenou Hermes, sem afastar a espada do rosto da Ninfa. — Pegue a máscara que trouxemos de Atlântida. Rápido.
O filósofo abriu o fecho de couro e retirou a máscara de metal escuro, deu alguns passos à frente e entregou o objeto para Magno, que a repassou a Hermes.
Após recolher a espada e guardá-la na bainha, segurou a máscara com as duas mãos e a pressionou contra o próprio rosto. O metal selou-se ao redor de suas bochechas e maxilar de forma hermética.
Então, sem dizer mais nada aos companheiros, Hermes caminhou até a beira do barranco lamacento e atirou o próprio corpo nas águas escuras do rio, desaparecendo completamente sob a superfície espessa.
A máscara de metal escuro ajustou-se à pressão, permitiu que ele mantivesse os olhos abertos na correnteza turva e garantiu o ar necessário para a descida.
Ele impulsionou as pernas e os braços, e forçou a passagem pelo lodo denso que formava o rio. Quase de imediato, uma voz profunda e distorcida invadiu a sua mente. Um som grave.
O próprio espírito do rio protestava contra a invasão. Ele proferiu palavras desconexas de ódio e dor em uma tentativa direta de desorientar o mensageiro.
Hermes ignorou o barulho mental e continuou o trajeto até o leito de pedras. A poucos metros de profundidade, encontrou a origem da anomalia.
Uma fissura rasgava o fundo rochoso do rio.
O buraco era pequeno, com bordas irregulares, mas emitia uma energia caótica e densa que distorcia a própria água ao redor.
Hermes arregalou os olhos.
“Uma fissura para o tártaro?”
Ele estabilizou o corpo contra a correnteza e levou a mão por dentro da túnica molhada. Ele retirou as duas moedas escuras do submundo que carregava consigo.
Estendeu os braços e aproximou os discos de metal da rachadura na pedra. As moedas reagiram no mesmo instante.
O material começou a absorver a energia bruta do Tártaro que vazava pela fenda, e serviu como um receptáculo direto para a corrupção.
A reação foi violenta.
A água ao redor das mãos de Hermes aqueceu em segundos e passou a borbulhar com intensidade.
A fervura espalhou-se pelo leito do rio. Hermes sentiu a temperatura subir além do suportável. O calor extremo queimou a pele de seus braços e de seu pescoço, e provocou uma dor aguda que testou a sua consciência.

Ele teve a certeza física de que sua carne cozinharia sob a água caso ele mudasse de posição.
A fissura, no entanto, começou a encolher à medida que a energia fluía para o metal das moedas.
Travou a mandíbula, resistiu à dor e manteve os braços estendidos.
As bordas da rocha cederam de vez e fecharam o buraco por completo. Com o fim do vazamento, a exaustão e o choque térmico dominaram o corpo de Hermes.
A escuridão tomou a sua visão e ele perdeu os sentidos antes mesmo de conseguir iniciar o nado de volta para a superfície.

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