Capítulo 134 | Profecia
Ele emitiu um som gutural e baixo, e retribuiu o toque de forma desajeitada com os braços grossos.

Hermes observou a cena por um momento. Depois, virou as costas e caminhou até o Potamoi.
— Eu disse que o problema de Pérgamo não era meu — a voz de Hermes soou controlada e fria. — Mas a sua filha usou o nome de Afrodite. Ela corrompeu o culto. A deusa do amor virá até a cidade para cobrar essa ofensa. Para o seu próprio bem, a ninfa precisa ser punida antes que isso aconteça.
O espírito do rio olhou para a filha caída na lama. Assentiu. Seu rosto demonstrava preocupação e cansaço.
— Eu a punirei. Garanto a você.
— Faça o ritual do Coração da Floresta — exigiu Hermes.
O Potamoi arregalou os olhos. A surpresa quebrou a sua postura rígida.
— Se eu fizer isso, a essência dela será destruída. Ela morrerá.
Hermes manteve o olhar fixo e severo sobre a divindade. O silêncio durou alguns segundos, pesando sobre a margem do rio. O Potamoi abaixou a cabeça.
— Entregue o coração da floresta para a mortal — ordenou Hermes, e apontou para Aylla. — Ela será a nova protetora no lugar de sua filha. Com o coração, ela viverá o suficiente para acompanhar o marido na nova forma e sua filha viverá nela.
O deus-rio pensou por um momento. Olhou para o casal e depois para o mortal ousado à sua frente. A ideia de ser cobrado por Afrodite não era nada agradável.
Com um suspiro pesaroso, ele massageou o cenho e aceitou os termos e o destino da própria filha.
Satisfeito com o acordo, Hermes deixou a margem e caminhou até o grupo de sátiros.
Elas focaram seus olhares nele, com curiosidade, e esperaram em silêncio. Magno e Sêneca também pareciam curiosos sobre a atitude do companheiro.
Quando o rapaz abriu a boca, todos se surpreenderam.
Era uma língua estranha e antiga. Magno e Sêneca trocaram olhares confusos. Eles não compreenderam uma única sílaba daquele dialeto.
Os sátiros sorriram ao ouvir, e responderam nos mesmos termos. Hermes gesticulava como um orador, com plenitude e confiança. Parecia natural para ele.
— O deus dos mensageiros… — Sêneca murmurou para si mesmo.
Magno ouviu e, voltando-se para o colega e sua conversa estranha, cruzou os braços com cenho crivado.
— Tsc. Exibido. — Ele reclamou.

Após terminar a troca de sons com as criaturas da mata, Hermes voltou para perto de Aylla. O sátiro Átalo manteve-se ao lado dela.
— O espírito do rio entregará o coração da floresta para você — explicou Hermes para a mulher. O tom dele perdeu um pouco da frieza.
Aylla olhou para as próprias mãos, depois para o rosto transformado de Átalo.
— O- o que isso quer dizer?
Hermes tocou o ombro dela.
— Você está disposta a largar o resto do mundo para manter-se com ele?
Aylla sequer hesitou.
— Sim! — gritou e assentiu. — Há um modo?
— A essência da ninfa será sua. Você se tornará a guardiã deste lugar, e o tempo não tocará mais o seu corpo.
Ela pareceu assustada por um instante com a ideia. Sua mão colou no próprio peito. Foi quando uma mão peluda tocou sua bochecha.
O pequeno Átalo encarava-a com um sorriso pesaroso.
Ele engoliu pesadamente antes de falar com dificuldade, como se tentasse conversar numa língua que havia esquecido.
— Fa-ça co-mo qui-ser… — Ele acariciou a face dela. — E-u que-ro que se-ja fe-liz…
Seus olhos se fecharam em um sorriso sincero, mas doloroso.
Os lábios dela tremeram, e mais lágrimas escorreram. Mas ela forçou os dentes e se virou para Hermes com um olhar decidido.
— Eu continuarei com ele, e vocês seguirão o caminho — concluiu ela, a voz baixa.
— Sim — confirmou Hermes. Ele olhou diretamente nos olhos dela. — Você o ama a ponto de abandonar o resto do mundo? Você aceita dedicar a sua eternidade ao lado dele, nesta forma?
Aylla não hesitou. Ela segurou a mão do sátiro e olhou para Hermes.
— Sim. Eu aceito.
Hermes sorriu. Foi um gesto rápido e contido, mas carregado de empatia.
“Talvez seja melhor assim…”
Virou-se para Magno e Sêneca.
— Nós vamos partir — anunciou Hermes. — A floresta engoliu as estradas principais até a costa. Átalo vai nos guiar por dentro da mata até Foceia.
— Foceia? — perguntou Magno, ajustando o cinto. — É um vilarejo portuário.
— Um vilarejo que foi tomado por criaturas há alguns meses — completou Hermes. — Precisaremos de cuidado quando chegarmos lá.
— Criaturas? — Sêneca repetiu com o cenho franzido.
Eles se despediram de Aylla com acenos curtos. A mulher permaneceu na margem do rio, aguardando o início do ritual que mudaria a sua natureza para sempre.
A néiade chorava em choque enquanto seu pai, o Potamoi, contava a verdade.
Átalo assumiu a frente, abrindo caminho entre os arbustos densos com facilidade. Um sátiro mais velho, de chifres longos e retorcidos, caminhava logo atrás do príncipe transformado, acompanhando a escolta.
A luz da manhã começava a furar a copa das árvores. O clima hostil da floresta havia desaparecido junto com a fenda. O ar cheirava a folhas frescas e terra limpa.
Hermes emparelhou o passo com o sátiro mais velho.
— Vocês salvaram o meu amigo de um ataque de Licaão muito tempo atrás — disse em grego comum. — Lá na Calcídia.
Sêneca parou de caminhar por um instante, confuso. Magno também olhou para trás.
— Na Calcídia? — perguntou, apressando o passo para alcançá-los. — Como criaturas desta floresta ajudaram alguém tão longe daqui? A distância é impossível.
— Os sátiros conhecem caminhos entre as florestas que nem mesmo eu, o deus de todos os caminhos, conheço.
— Como? — O velho parecia genuinamente interessado.
Hermes suspirou, como se não quisesse explicar, mas ser respondido.
— A verdade é que toda a mata do mundo é interligada, como um coração que se conecta às outras partes do corpo, por mais distantes que sejam, por veias e artérias.
Magno ergueu uma sobrancelha.
— Que diabo são veias e artérias?
— É uma boa pergunta a se fazer para Asclépio — respondeu Hermes, com um tom neutro. — Foi ele quem me ensinou isso, certa vez.
Magno resmungou algo ininteligível e voltou a focar na trilha. Hermes redirecionou a atenção para o sátiro.
— Vocês salvaram Teseu — continuou. — E de algum modo pareciam ter noção do que se passava ao nosso redor. Preciso que me digam tudo o que sabem.
O sátiro velho coçou a barba rala no queixo. Então, arranhou a garganta e falou em um grego áspero, mas compreensível para todos.
— Nós sabemos pouco. O esquema das coisas foge da nossa visão. Pã sumiu há muito tempo.
— Sumiu?
— Sim. E a natureza precisava de um representante. Um novo campeão da floresta surgiu. Ele foi eleito para proteger os interesses da terra em uma guerra que está para começar.
— Quem é esse campeão? — questionou Hermes. A resposta já se formava em sua mente, mas ele precisava ouvir a confirmação.
— O garoto. Teseu — revelou o sátiro.
Hermes diminuiu o ritmo dos passos. Uma perturbação clara cruzou o rosto do mensageiro. As peças finalmente se encaixaram. Ele compreendeu a origem da força do menino.
As raízes em Therma, a forma como lutou contra aquele poder da moeda de Eros.
Mas ainda haviam dúvidas.
— Por que vocês chamaram por um Arauto quando o salvaram tempos atrás? — perguntou Hermes, forçando a voz a se manter firme.
— Nós apenas repetimos a profecia — explicou a criatura, desviando de um galho baixo.
O rapaz arregalou os olhos.
— Qual profecia? — Seus passos apressados contribuíram para o tom de urgência.
Pego de surpresa, o sátiro mais velho parou por um instante, encarou-o e então entoou.
— Quando o escolhido das florestas caminhar ao lado do arauto do fim dos tempos, do que é esquecido se lembrará e o que é proibido se realizar…
Os joelhos de Hermes nunca estiveram tão próximos de ceder.
Todos encaravam-no com curiosidade e preocupação. Não entendiam o peso que aquelas palavras tinham para ele.
A profecia do “Arauto do Fim”. As exatas palavras que Zeus dissera no salão do Olimpo antes da queda.
— Quem é o profeta? Quem disse isso primeiro?
— Nós não sabemos — respondeu o sátiro. — Mas foi Pã quem revelou isso para nós, pouco antes de desaparecer.
Hermes olhou para a trilha de terra escura à frente.
O mistério se aprofundou na mente do deus caído, e agora ganhava mais um nome: Pã, o deus fauno.
“Meu filho…”

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