Índice de Capítulo

    O herói abriu os olhos. O céu acima ainda exibia um tom azul muito escuro, indicando os momentos finais da madrugada.

    O ar estava frio e entrava pelos pulmões de Teseu causando um leve incômodo.

    Ele sentou na terra batida e olhou para Licaão. O rei mantinha os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos estavam vermelhos e ele apertava a mandíbula repetidas vezes.

    — Arrume suas coisas. Já é hora. — Licaão ordenou, mantendo a voz em um tom baixo. — E a minha guarda foi inteiramente perturbada, caso queira saber. Senti que algo nos observava das árvores o tempo todo. Que lugar terrível.

    Teseu assentiu com a cabeça com os olhos ainda meio fechados pelo sono. As memórias de sua vigília ainda restavam frescas na mente. Havia sonhado com elas.

    A cobra semi-morta. A toxina cravada na árvore. Ele havia dito para Licaão prestar muita atenção quando trocaram de lugar, e não confiou que Plutarco tivesse um turno por si só, então os dois acabaram ficando bem sobrecarregados.

    Bocejou e se levantou. Então, enrolou sua coberta grossa e a prendeu na lateral da bolsa. 

    Plutarco já estava de pé do outro lado do acampamento apagado. O cronista esfregava as palmas das mãos uma na outra para aquecer os dedos antes de guardar seus rolos de pergaminho dentro da bolsa de couro.

    O grupo retomou a marcha em direção à estrada sul. Eles caminharam por uma hora contínua. As muralhas de Tebas diminuiam atrás, até que desapareceram pela elevação do terreno. 

    Em dado ponto, a estrada de terra começou a se estreitar. O lado esquerdo do caminho era flanqueado por uma parede de rocha calcária bruta. O lado direito apresentava uma descida íngreme coberta por carvalhos antigos e arbustos densos.

    A natureza cantava pela manhã na forma de vento e pássaros. Mas algo ainda fazia Licaão manter a expressão de poucos amigos com fervor.

    Teseu confiava na intuição do colega apenas a ponto de manter a mão descansando no pomo da espada embainhada enquanto andava.

    Chegaram numa descida sinuosa que os fez dar adeus a qualquer visão que tinham de trás de si.

    Duzentos metros à frente, a estrada fazia uma curva acentuada para a direita. Quando o grupo contornou a parede de pedra, eles pararam de andar simultaneamente.

    Naquele ponto, o vento parecia não soprar, apesar de ter assobiado fracamente até então. Os pássaros, agora notavam, já haviam parado de cantar há dezenas de metros. E no chão, o que realmente os fez notar todo o resto.

    A terra estava manchada de vermelho em diversos pontos da estrada, e também da mureta de cascalho à direita deles.

    Teseu puxou instintivamente sua espada da bainha, mas um arrepio o fez parar no meio do caminho. 

    Licaão tinha uma expressão tensa com os dentes amostra.

    Plutarco, trêmulo, erguia aos poucos o rosto do rastro bárbaro de sangue que se estendia do chão à parede ao lado deles e subia. Quando finalmente encarou o topo, recortado contra os raios solares da manhã magnífica, ele travou por completo.

    Sentiu-se rodeado por vácuo. Esqueceu de respirar.

    Era um leão, com proporções anormais. Media mais de três metros do focinho até a base da cauda. Sua pelagem possuía uma cor dourada sólida, mas obscura, e sem falhas. 

    Essa já era uma visão aterrorizante.

    No entanto, dezenas de flores cresciam diretamente da carne da fera. Eram plantas de pétalas negras e rígidas, com nervuras arroxeadas. Elas estavam enraizadas no crânio, ao longo das vértebras cervicais e nos ombros do leão.

    As raízes perfuravam a pele dourada e se espalhavam de maneira clara como artérias negras sob o pelo dourado. Um líquido escuro e espesso escorria da base dos caules e manchava a juba do animal.

    Teseu soltou a respiração devagar. Deu dois passos à frente, distanciando-se de Licaão e Plutarco com um gesto para que esperassem. Ele ergueu a mão direita acima do rosto, com a palma voltada para a criatura.

    Concentrou sua vontade e tentou estabelecer uma conexão mental com a fera. 

    Seus cabelos se agitaram fracamente e seus olhos focados nas pupilas injetadas da fera não vacilaram. Com confiança, ele ordenou.

    — Acalme-se!

    As flores negras na cabeça do animal tremeram.

    O leão abaixou o tronco, dobrou as patas traseiras e emitiu um rugido grave que fez a poeira do chão levitar por um segundo. 

    Licaão arregalou os olhos.

    A criatura saltou na direção do garoto.

    Licaão investiu pela lateral e empurrou o ombro esquerdo contra o peito de Teseu com toda a sua força bruta que tinha. O rapaz foi arremessado para trás e caiu de costas na terra. No mesmo instante, a pata dianteira direita do leão desceu sobre o espaço onde o garoto estava.

    As garras expostas da fera atingiram o braço esquerdo de Licaão. O impacto rasgou o tecido da túnica e aprofundou-se na pele e no músculo. Três sulcos longos foram abertos do cotovelo até o pulso. 

    O sangue vermelho jorrou e manchou a poeira da estrada. Licaão soltou um grunhido monstruoso, segurou o próprio ferimento com a mão direita e recuou três passos rápidos.

    Plutarco correu para a borda da estrada e abaixou-se atrás de um pedaço solto de rocha calcária. Ele apertou a alça de sua bolsa. O cronista observou o tamanho da fera e a ausência de ferimentos visíveis sob as flores.

    Processou a informação. Os relatos indicavam que a criatura matava tudo em seu caminho.

    — O tamanho e a resistência correspondem aos registros históricos do Leão de Nemeia. — Franziu a testa. — Nemeia fica em Argólida. Que diabos esta criatura faz aqui em Tebas, a semanas de distância?

    O impasse à sua frente fazia sua mente trabalhar rápido em busca de respostas. Licaão encarava a fera de frente com o braço ensanguentado. Sem vacilar.

    — GRAAAAAAAAAAUUUR

    A fera rugiu com brutalidade e mostrou suas presas gigantes.

    As flores em seu corpo balançavam.

    Plutarco arregalou os olhos. Lembrou dos registros de Argos, o gigante de cem olhos, e da história de como ele voltou do tártaro em um lugar longíquo de sua real origem.

    “É isso!” Percebeu.

    Teseu firmou as botas no chão de terra. Ele segurou o cabo da espada curta com ambas as mãos e avançou na direção do leão. A fera mantinha a postura baixa, com o líquido negro a escorrer pelas flores presas ao seu crânio. 

    Desferiu um golpe lateral com mira nas costelas do animal. A lâmina de bronze colidiu com a pelagem dourada.

    Um som agudo de impacto metálico ecoou pela estrada. A espada escorregou pela superfície do couro, sem perfurar a pele e sem cortar um único fio de pelo.

    Teseu emendou outro golpe com o giro da empunhadura em um arco na direção contrária ao anterior. A espada resvalou como se encontrasse uma parede.

    O leão abriu a mandíbula e projetou o pescoço para a frente para uma mordida.

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