Capítulo 137 | Flores
O herói abriu os olhos. O céu acima ainda exibia um tom azul muito escuro, indicando os momentos finais da madrugada.
O ar estava frio e entrava pelos pulmões de Teseu causando um leve incômodo.
Ele sentou na terra batida e olhou para Licaão. O rei mantinha os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos estavam vermelhos e ele apertava a mandíbula repetidas vezes.
— Arrume suas coisas. Já é hora. — Licaão ordenou, mantendo a voz em um tom baixo. — E a minha guarda foi inteiramente perturbada, caso queira saber. Senti que algo nos observava das árvores o tempo todo. Que lugar terrível.
Teseu assentiu com a cabeça com os olhos ainda meio fechados pelo sono. As memórias de sua vigília ainda restavam frescas na mente. Havia sonhado com elas.
A cobra semi-morta. A toxina cravada na árvore. Ele havia dito para Licaão prestar muita atenção quando trocaram de lugar, e não confiou que Plutarco tivesse um turno por si só, então os dois acabaram ficando bem sobrecarregados.
Bocejou e se levantou. Então, enrolou sua coberta grossa e a prendeu na lateral da bolsa.
Plutarco já estava de pé do outro lado do acampamento apagado. O cronista esfregava as palmas das mãos uma na outra para aquecer os dedos antes de guardar seus rolos de pergaminho dentro da bolsa de couro.
O grupo retomou a marcha em direção à estrada sul. Eles caminharam por uma hora contínua. As muralhas de Tebas diminuiam atrás, até que desapareceram pela elevação do terreno.
Em dado ponto, a estrada de terra começou a se estreitar. O lado esquerdo do caminho era flanqueado por uma parede de rocha calcária bruta. O lado direito apresentava uma descida íngreme coberta por carvalhos antigos e arbustos densos.
A natureza cantava pela manhã na forma de vento e pássaros. Mas algo ainda fazia Licaão manter a expressão de poucos amigos com fervor.
Teseu confiava na intuição do colega apenas a ponto de manter a mão descansando no pomo da espada embainhada enquanto andava.
Chegaram numa descida sinuosa que os fez dar adeus a qualquer visão que tinham de trás de si.
Duzentos metros à frente, a estrada fazia uma curva acentuada para a direita. Quando o grupo contornou a parede de pedra, eles pararam de andar simultaneamente.
Naquele ponto, o vento parecia não soprar, apesar de ter assobiado fracamente até então. Os pássaros, agora notavam, já haviam parado de cantar há dezenas de metros. E no chão, o que realmente os fez notar todo o resto.
A terra estava manchada de vermelho em diversos pontos da estrada, e também da mureta de cascalho à direita deles.
Teseu puxou instintivamente sua espada da bainha, mas um arrepio o fez parar no meio do caminho.
Licaão tinha uma expressão tensa com os dentes amostra.
Plutarco, trêmulo, erguia aos poucos o rosto do rastro bárbaro de sangue que se estendia do chão à parede ao lado deles e subia. Quando finalmente encarou o topo, recortado contra os raios solares da manhã magnífica, ele travou por completo.
Sentiu-se rodeado por vácuo. Esqueceu de respirar.
Era um leão, com proporções anormais. Media mais de três metros do focinho até a base da cauda. Sua pelagem possuía uma cor dourada sólida, mas obscura, e sem falhas.
Essa já era uma visão aterrorizante.
No entanto, dezenas de flores cresciam diretamente da carne da fera. Eram plantas de pétalas negras e rígidas, com nervuras arroxeadas. Elas estavam enraizadas no crânio, ao longo das vértebras cervicais e nos ombros do leão.
As raízes perfuravam a pele dourada e se espalhavam de maneira clara como artérias negras sob o pelo dourado. Um líquido escuro e espesso escorria da base dos caules e manchava a juba do animal.

Teseu soltou a respiração devagar. Deu dois passos à frente, distanciando-se de Licaão e Plutarco com um gesto para que esperassem. Ele ergueu a mão direita acima do rosto, com a palma voltada para a criatura.
Concentrou sua vontade e tentou estabelecer uma conexão mental com a fera.
Seus cabelos se agitaram fracamente e seus olhos focados nas pupilas injetadas da fera não vacilaram. Com confiança, ele ordenou.
— Acalme-se!
As flores negras na cabeça do animal tremeram.
O leão abaixou o tronco, dobrou as patas traseiras e emitiu um rugido grave que fez a poeira do chão levitar por um segundo.
Licaão arregalou os olhos.
A criatura saltou na direção do garoto.
Licaão investiu pela lateral e empurrou o ombro esquerdo contra o peito de Teseu com toda a sua força bruta que tinha. O rapaz foi arremessado para trás e caiu de costas na terra. No mesmo instante, a pata dianteira direita do leão desceu sobre o espaço onde o garoto estava.
As garras expostas da fera atingiram o braço esquerdo de Licaão. O impacto rasgou o tecido da túnica e aprofundou-se na pele e no músculo. Três sulcos longos foram abertos do cotovelo até o pulso.
O sangue vermelho jorrou e manchou a poeira da estrada. Licaão soltou um grunhido monstruoso, segurou o próprio ferimento com a mão direita e recuou três passos rápidos.
Plutarco correu para a borda da estrada e abaixou-se atrás de um pedaço solto de rocha calcária. Ele apertou a alça de sua bolsa. O cronista observou o tamanho da fera e a ausência de ferimentos visíveis sob as flores.
Processou a informação. Os relatos indicavam que a criatura matava tudo em seu caminho.
— O tamanho e a resistência correspondem aos registros históricos do Leão de Nemeia. — Franziu a testa. — Nemeia fica em Argólida. Que diabos esta criatura faz aqui em Tebas, a semanas de distância?
O impasse à sua frente fazia sua mente trabalhar rápido em busca de respostas. Licaão encarava a fera de frente com o braço ensanguentado. Sem vacilar.
— GRAAAAAAAAAAUUUR
A fera rugiu com brutalidade e mostrou suas presas gigantes.
As flores em seu corpo balançavam.
Plutarco arregalou os olhos. Lembrou dos registros de Argos, o gigante de cem olhos, e da história de como ele voltou do tártaro em um lugar longíquo de sua real origem.
“É isso!” Percebeu.
Teseu firmou as botas no chão de terra. Ele segurou o cabo da espada curta com ambas as mãos e avançou na direção do leão. A fera mantinha a postura baixa, com o líquido negro a escorrer pelas flores presas ao seu crânio.
Desferiu um golpe lateral com mira nas costelas do animal. A lâmina de bronze colidiu com a pelagem dourada.
Um som agudo de impacto metálico ecoou pela estrada. A espada escorregou pela superfície do couro, sem perfurar a pele e sem cortar um único fio de pelo.
Teseu emendou outro golpe com o giro da empunhadura em um arco na direção contrária ao anterior. A espada resvalou como se encontrasse uma parede.
O leão abriu a mandíbula e projetou o pescoço para a frente para uma mordida.

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