Índice de Capítulo

    A noite não trouxe sono. Trouxe clareza. De volta ao dormitório dos escravos, Hermes via o rosto aterrorizado de Agouri, ouvia o eco de seu choro, sentia o peso da verdade sobre o destino de Teseu. A apatia, a culpa, o desespero — tudo havia sido incinerado, deixando para trás apenas o metal frio e afiado de um propósito.

    O plano se formou em sua mente, não com a complexidade de um estrategista, mas com a simplicidade brutal de um predador. 

    Caos. Arma. Ação.

    Ele não esperou. Deslizou para fora do dormitório, seus movimentos não mais os de um fantasma assombrado, mas os de uma sombra com intenção. Seu primeiro destino foi o barracão de ferramentas dos jardineiros. 

    As espadas dos guardas estavam fora de alcance, mas ali ele encontrou algo que conhecia: uma podadeira pesada, com uma lâmina curva e cruel, usada para cortar os galhos mais grossos das oliveiras. Ele testou o peso em sua mão. Era desajeitada, brutal. Perfeita.

    Seu segundo destino foi o estábulo. O lugar cheirava a feno seco, couro e animais. Era o coração pulsante da logística da villa, e seu material mais inflamável. Com um pedaço de pederneira roubado da cozinha e um punhado de feno, ele deu início à sua tempestade. Uma pequena faísca, alimentada com cuidado, tornou-se uma chama, que lambeu o feno seco e se agarrou à madeira velha da baía. Em minutos, uma labareda alaranjada rugia em direção ao céu noturno.

    Ele não ficou para admirar seu trabalho. Enquanto os primeiros gritos de “Fogo!” cortavam o silêncio e ele via as silhuetas dos guardas correndo em direção à fumaça e ao caos, Hermes se moveu na direção oposta, a podadeira empunhada firmemente em sua mão, em direção ao coração da casa.

    A porta de serviço da cozinha estava sem vigilância. Ele entrou. O interior da villa estava começando a despertar para o pandemônio. Servos corriam, vozes gritavam ordens. Era a cobertura de que precisava. Mantendo-se nas sombras dos corredores, ele se dirigiu para a ala oeste.

    Dois guardas, deixados para trás para proteger o corredor principal, foram os primeiros. Eles o viram tarde demais, confundindo-o por um segundo com um servo em pânico.

    — Volte! — um deles gritou.

    A resposta de Hermes foi um rosnado que brotou do fundo de seu peito. Ele avançou. 

    O primeiro guarda ergueu sua lança, mas a trajetória da arma era longa e previsível. Hermes se esquivou para dentro da estocada, seu corpo se movendo com uma fluidez que não nascera na mina, mas que era um eco distante de uma dança entre raios e trovões. A lâmina curva da podadeira encontrou a garganta do homem. O som foi horrível, um rasgo úmido, e o guarda caiu, afogando-se no próprio sangue antes mesmo de entender o que acontecera.

    O segundo guarda, vendo seu companheiro cair, gritou e desembainhou sua espada curta. Ele era mais rápido. A lâmina da espada cortou o ar, e Hermes sentiu uma dor aguda em seu antebraço ao desviar. O sangue escorreu, quente e real. Um lembrete de sua mortalidade. Mas a dor apenas alimentou sua fúria. Ele ignorou o ferimento e se chocou contra o guarda, usando o peso de seu corpo para desequilibrá-lo. Caíram juntos em um emaranhado de membros. O guarda tentou cravar a espada em suas costelas, mas Hermes segurou seu pulso com uma força nascida de meses quebrando pedras. Com a outra mão, ele cravou a ponta afiada da podadeira no olho do homem. O grito foi abafado. O corpo ficou inerte.

    Hermes se levantou, ofegante, o sangue do guarda e o seu próprio misturados em sua pele. Ele olhou para os dois corpos no chão de mármore, o luxo da villa agora manchado com a carnificina que ele trouxera. Não sentiu remorso. Não sentiu nada além da urgência de sua missão.

    Atravessou a cozinha, saindo pela porta do outro lado, que dava acesso aos jardins.

    Nenhum guarda nessa região, provavelmente a ordens da própria Lady que queria ficar a sós com suas ‘plantas’. 

    “Excelente.” Pensou.

    Se aproximou dos arbustos sem se preocupar em se esconder. Queria ser visto. Queria causar medo.

    Ouviu um farfalhar em um dos arbustos e se aproximou. Avistou as costas do algoz que, desesperado, tentava vestir sua túnica.

    — Rápido seu estúpido! — Bradou uma voz aguda e familiar para Hermes, mais para dentro do jardim.

    O homem não teve tempo de responder. Em meio aos pulos que dava tentando vestir a túnica, foi derrubado com um chute no pé de apoio. O baque seco no chão e o seu gemido de dor foi acompanhado de uma perfuração em seu pescoço.

    O homem arregalou os olhos, sem conseguir produzir som algum para além do engasgo que sofria com seu próprio sangue. Sua última visão foi o rosto ensanguentado e deformado pela fúria de Hermes.

    Seguiu em direção ao centro dos jardins, afastando os arbustos que se punham em seu caminho.

    — Apresse-se seu- — A voz feminina mais uma vez gritou.

    No entanto, quando a figura sombria que se aproximava moveu o último arbusto que os separava, ela se calou. A expressão de choque.

    — Vo-você! Seu maldito- — Ela bradou em pânico, dando um passo para trás.

    Hermes respondeu com um olhar de ódio. Seus dentes amostra. Uma besta.

    Antes que ela conseguisse fugir, o rapaz arrancou em sua direção e com uma força descabida a arremessou no chão.

    Ela suplicou. Pediu perdão e, ao final, com um sorriso patético e lágrimas nos olhos, disse:

    — Eu queria nunca ter tirado você daquela maldita mina.

    — Eu aposto que sim.

    SLASH

    Um único corte arrematou aquela parte da vingança, e entregou a alma de Lady Kratos ao submundo.

    Hermes levantou, saindo de cima do corpo da mulher, e pôs-se de volta na direção da casa principal.

    Ao entrar novamente nos corredores de mármore, o caos era total. Servos corriam em pânico, alguns fugindo do fogo nos estábulos, outros dos gritos que agora emanavam dos jardins. Eles o viam — uma figura solitária coberta de sangue, empunhando a lâmina cruel de um jardineiro — e se afastavam, o terror em seus rostos.

    Hermes os ignorava. Sua mente estava focada, um predador seguindo um rastro. Ele se movia em direção à ala oeste, o caminho para os aposentos do Jovem Lorde.

    Enquanto passava por um corredor que ligava à ala médica, uma porta se abriu. O médico-escravo, o mesmo homem que cuidara de Teseu, apareceu no umbral. Seus olhos se arregalaram de pavor ao ver a figura de Hermes, ensanguentada e implacável. Hermes se enrijeceu, esperando o grito de alarme que selaria sua posição.

    Mas o grito não veio. O médico olhou para Hermes, depois para o corredor adiante, na direção dos aposentos do Jovem Lorde, de onde agora vinham vozes de comando. O medo em seu rosto lutou por um instante com outra emoção, uma centelha de ódio antigo e cansado.

    Com um movimento trêmulo, mas deliberado, ele apontou para o final do corredor.

    — Ala oeste — ele sussurrou, a voz tão baixa que era quase inaudível. — Fílon… ele já sabe. Eu… eu sinto muito.

    Sem esperar por uma resposta, o médico recuou para dentro da enfermaria e fechou a porta, deixando Hermes sozinho com a informação. Era uma pequena traição, um minúsculo ato de rebelião nascido do arrependimento. E era tudo o que Hermes precisava. A confirmação de que seu alvo estava adiante, e que o tempo estava se esgotando.

    Ele seguiu para o corredor que levava aos aposentos do Jovem Lorde e parou. Sua rota estava bloqueada. Quatro guardas, parte da guarda pessoal da família, formavam uma muralha de escudos e espadas. E na frente deles, com o rosto pálido de raiva, mas os olhos frios como sempre, estava Fílon, o administrador.

    — Assassino! — Fílon cuspiu a palavra. — Você não dará mais um passo. O Lorde Kratos já foi alertado. Sua loucura termina aqui.

    Hermes ergueu a podadeira ensanguentada. O fogo da vingança queimava em seus olhos.

    …………

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