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    Hermes e Magno puseram-se de costas um para o outro, as armas em punho. Sêneca, ao lado dos dois, permanecia sem reação. O coração do deus caído martelava em seu peito, um ritmo de guerra contra o silêncio opressivo. Ele olhou para o mar de olhos frios e sem piscar que os encaravam da névoa. Estavam presos. Encurralados entre um barco partido e um exército silencioso que acabara de emergir do abismo.

    — Tritões… — Hermes sussurrou com uma expressão tensa.

    Magno não deu atenção. Já se acostumara com os delírios do companheiro de viagem e do seu fundamentalismo religioso. Seja lá qual fossem seus nomes, os monstros não pareciam nada agradáveis, e era isso que importava para ele.

    A mente de Hermes, forjada em eras de batalhas e estratégias, calculava as probabilidades e encontrava apenas o zero. Eram mais de vinte. Talvez trinta. Ele não podia contá-los na penumbra. Estavam em um terreno desconhecido, contra inimigos cujas capacidades eram um mistério. Magno era ágil, mas mortal. Sêneca era um fardo. E ele… ele era apenas um homem com as memórias de um deus, uma concha vazia onde antes residia uma tempestade. A frustração queimava em sua garganta, um veneno mais amargo que qualquer outro.

    Magno, por sua vez, sentia o instinto de sobrevivência gritar. Seus olhos de raposa não encontravam becos para onde fugir, nem caixotes para usar como cobertura. Havia apenas a ilha bizarra e o círculo de monstros que se fechava. Pela primeira vez em muito tempo, o rei dos ladrões de Therma não via uma saída, nem mesmo uma aposta desesperada. Sentiu o suor frio escorrer por sua testa, mas seu aperto na adaga permaneceu firme. Se ia morrer, morreria lutando.

    O exército das profundezas deu o primeiro passo. Em uníssono. O som de seus pés palmados batendo no solo coriáceo foi um baque surdo e úmido, um avanço lento e deliberado que era mais aterrorizante do que qualquer grito de guerra. A luz da lua, fraca e pálida, refletiu brevemente no brilho vítreo de suas armas de obsidiana e osso. Eles se aproximavam, silenciosos, pacientes, como a própria maré que sobe para reclamar a terra. Não havia para onde correr.

    E então, sem um grito de guerra, a primeira fileira de Tritões se lançou para a frente. 

    Um deles, empunhando uma maça de pedra maciça, desferiu um golpe descendente que visava esmagar Hermes. O deus caído moveu-se, o corpo um borrão na penumbra, e a maça atingiu o solo elástico com um baque surdo, a força do impacto fazendo o chão tremer.

    Hermes girou, a xiphos em punho, e contra-atacou com uma estocada precisa na direção do peito da criatura. A lâmina encontrou a pele lisa e úmida, mas em vez de perfurar, deslizou, abrindo apenas um corte superficial de onde um icor escuro começou a vazar lentamente. O monstro não demonstrou dor, apenas virou sua cabeça de peixe, os olhos sem piscar fixos em Hermes com uma curiosidade fria.

    Ao mesmo tempo, Magno encontrava seu próprio oponente, um Tritão mais esguio armado com uma lança de coral. O gatuno era um mestre da evasão, usando sua agilidade para se manter a centímetros da ponta afiada, seus pés movendo-se com uma rapidez que a maioria dos homens não conseguiria acompanhar. Ele viu uma abertura e avançou, as duas adagas prontas para rasgar a lateral do homem-peixe. Mas o terreno o traiu. O solo coriáceo cedeu sob sua bota, roubando-lhe o impulso. Seu ataque, que deveria ser letal, tornou-se um golpe desajeitado que a criatura desviou com um simples passo para o lado.

    A luta se arrastou por mais alguns instantes, um balé desesperado de esquivas e contra-ataques inúteis. 

    Mais criaturas avançavam, um a um, forçando Hermes e Magno a recuar, a lutar de costas um para o outro, perdendo terreno a cada segundo. Para cada golpe que desviavam, dois outros vinham de ângulos diferentes. Era estranho, como se estivessem testando os seus limites. Um predador brincando com sua presa.

    Foi em meio a esse caos que Magno cometeu seu erro. Pressionado por dois oponentes, ele tentou um giro arriscado para criar espaço. Seu pé de apoio encontrou uma porção particularmente úmida e escorregadia do solo. Ele perdeu o equilíbrio. A hesitação durou menos que uma batida de coração, mas foi uma eternidade. O Tritão com cabeça de peixe-gato, que esperava pacientemente por uma abertura, avançou. A coronha de sua lança atingiu Magno na parte de trás dos joelhos, derrubando-o. Antes que o gatuno pudesse se recuperar, a ponta afiada do coral estava pressionada contra sua garganta.

    — Hermes! — O grito de Magno foi um misto de surpresa e raiva.

    O deus caído, aparando a estocada de um arpão de osso, virou a cabeça a tempo de ver seu companheiro imobilizado. A visão o atingiu com uma clareza gelada. Estava sozinho. A força bruta era inútil, a agilidade, uma armadilha.

    O círculo de monstros se fechava mais a cada instante enquanto ele ouvia o som de sua respiração ofegante que preenchia o silêncio mortal deixado por seus caçadores.

    Viu de canto um dos Tritões, uma criatura com longos braços que terminavam em garras de caranguejo, ignorá-lo completamente. Seu alvo era outro. A criatura se moveu com uma confiança sinistra em direção ao único membro do grupo que permanecera imóvel desde o início do confronto: Sêneca.

    O homem encapuzado continuava de pé, uma estátua de silêncio em meio ao caos, indiferente à lança na garganta de Magno e à luta desesperada de Hermes. O Tritão se aproximou, sua intenção clara era remover o obstáculo passivo do caminho. Ele ergueu uma de suas garras quitinosas, preparado para agarrar o ombro do homem e jogá-lo para o lado.

    No exato momento em que a ponta da garra tocou o tecido escuro do manto de Sêneca, a criatura congelou. Um tremor violento percorreu seu corpo. Seus olhos imensos e redondos reviraram-se, e sem emitir um único som, seu corpo amoleceu. Ele desabou para o lado com um baque surdo e úmido, caindo inconsciente no chão coriáceo antes mesmo que os outros Tritões pudessem processar o que havia acontecido.

    Hermes tinha os olhos arregalados, mas não ficou parado. Aproveitou a confusão dos Tritões para se reposicionar no meio deles. A velocidade ainda era sua maior benção, afinal.

    Um silêncio chocado caiu sobre a batalha. As criaturas hesitaram, seus olhares alienígenas se voltando da luta para seu companheiro caído, e depois para a figura encapuzada que permanecia, imóvel e intocada. 

    A cabeça do homem encapuzado então meneou para trás, sem deixar cair o seu capuz, e uma voz rouca, antiga e arrepiante emergiu nas profundezas de seu ser.

    — Que fome.

    Foi então que o mar rugiu. O líder, aquele com a cabeça de polvo e corpo enorme, finalmente se moveu. O tridente de osso velho em suas mãos subiu em um arco que parou atrás de si, e então, ele avançou com sua arma em mãos.

    Com a força de uma corrente de retorno, o tridente de osso mergulhou contra as costas, um golpe de execução, brutal e sem aviso.

    A arma atravessou o manto e a carne com um som úmido e nauseante. A ponta do tridente emergiu do peito de Sêneca, pingando um líquido escuro e espesso. Por um momento, o andarilho permaneceu de pé, empalado, antes de desabar para a frente, caindo de bruços no solo coriáceo com um baque final e pesado.

    — SÊNECA! — O grito de Magno foi um som rasgado de puro horror, abafado pela lança em sua garganta.

    Tritão parou sobre o corpo, o peito arfando, triunfante. Ele arrancou o tridente do cadáver com um puxão violento e se virou, os olhos cheios de ódio buscando o que havia sobrado, pronto para terminar o que começara.

    Mas, então, um estalar escapou do corpo no chão. O homem polvo se virou.

    Sêneca, com o tridente já removido e um buraco cavernoso em seu torso, se levantava do chão. O movimento não tinha vida, o som de ossos rangendo audível no silêncio repentino. O buraco em seu torso revelava o outro lado para quem quer que olhasse. Seus olhos vazios, que não deveriam ver nada, encontraram os do líder. E com a mesma voz oca e insistente de antes, ele repetiu:

    — Que fome. Que fome.

    O choque congelou o polvo. O horror do homem que se recusava a morrer, o som oco e faminto de sua voz, quebrou a fúria do líder, substituindo-a por um pavor primal e incrédulo. Ele recuou um passo, o tridente ainda pingando um líquido escuro, seus olhos fixos na figura de Sêneca.

    Por trás do octópode, silencioso como a própria morte, uma sombra surgiu. A lâmina fria de sua xiphos pressionou a base da cabeça tentacular do Tritão, no ponto exato onde a carne alienígena se encontrava com a espinha. O metal gelado contra a pele úmida fê-lo enrijecer, a respiração formando-se num chiado surpreso.

    A voz de Hermes soou em seu ouvido, não um grito, mas um sussurro baixo e carregado de uma autoridade que não pertencia  a um mero ex-escravo.

    — Mande-os parar. Agora. — Cada palavra era uma pedra de gelo. — Eu sei que você me entende.

    Imóvel, preso entre a lâmina em sua garganta e o horror profano à sua frente, ele sentiu na voz do estranho o poder que não sentia mesmo na espada que tinha contra o seu pescoço.

    Com um gesto lento e relutante, ele ergueu a mão. Os homens-peixe, que haviam começado a avançar novamente, pararam em uníssono, suas armas prontas, mas os olhares confusos.

    O líder virou a cabeça o máximo que a lâmina permitia, seus olhos fixos não em Hermes, mas em Sêneca, que agora se sentara, o olhar vazio ainda fixo nele. A fúria no olhar do Tritão deu lugar a uma compreensão sombria e resignada.

    — Forças de Hades… — ele rosnou, a voz um borbulhar de ódio contido. — O Usurpador arranjou aliados interessantes desta vez.

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