Capítulo 140 | Assentamento

Calixto abaixou o arco longo e olhou para o corpo do Leão de Nemeia estirado no chão. Depois, ela fixou os olhos em Teseu. A respiração do garoto ainda estava acelerada devido ao esforço da luta.
— Vocês fizeram um bom trabalho contra a besta.
O tom de voz dela sequer demonstrava cansaço ou alteração pelo combate.
Teseu observou o rosto da mulher. Ele notou os traços familiares, as marcas de sol na pele e a postura reta.
— Calixto…
Ela caminhou até o rapaz e estendeu as mãos. Ele retribuiu o gesto e se levantou enquanto Plutarco ao seu lado observava com interesse.
Mesmo com ele de pé, a mulher não o soltou de imediato. Ela apertou os bíceps do garoto com os dedos, avaliando a rigidez dos músculos.
— Você cresceu. — Ela parecia curiosa. — Essa armadura parece apertada.
Teseu concordou com um movimento de cabeça e abraçou Calixto. Ela retribuiu o abraço, passando os braços pelas costas da couraça dele, e logo o soltou. Teseu deu um passo para trás e observou a vestimenta dela.
Calixto vestia uma saia de tiras de couro escuro e curto que descia apenas até a metade das coxas e deixava as pernas expostas. Uma clâmide de tecido grosso estava presa ao ombro direito por um pino de bronze, formando o capuz que ela acabara de puxar para trás.
O tronco dela era protegido por uma armadura de peça dupla de couro endurecido que cobriam as costas e o peitoral amarradas nos flancos por cordões grossos.
Nos pés usava sandálias rústicas e caneleiras presas por longos cordões de couro amarrados logo abaixo dos joelhos.
— Você está usando roupas diferentes. Não se parecem com as que conseguimos nas minas. — Teseu apontou para a armadura de couro dela.
— É o uniforme dos soldados do assentamento — Calixto respondeu, alisando a frente da couraça com a mão livre. — Eu abandonei as roupas velhas no dia em que fundamos a cidade.
Plutarco aproximou-se dos dois. O cronista coçou o nariz e puxou um rolo de pergaminho limpo e um pedaço de carvão de dentro da sua bolsa. Olhava para Calixto com os olhos interessados.
— Você é a grande Calixto? — Plutarco perguntou, posicionando o giz sobre o papel. — A caçadora das histórias do jovem Teseu? Aquela que foi presa aos dez anos por caçar o lobo de um nobre?
Calixto olhou para Plutarco e depois para o pergaminho.
— Sim, esse é o meu nome.
Plutarco começou a escrever de forma rápida.
— Impressionante. E qual é a sua técnica principal com o arco? Você calcula a velocidade do vento antes de atirar ou age apenas por instinto puro?
— Eu olho para o alvo e solto a corda — Calixto respondeu de forma direta e um pouco impaciente.
— Instinto, então. — O escriba anotou com fervor.
A mulher o varreu com os olhos de maneira curiosa.
— E você? — Perguntou.
O homem ergueu os olhos de suas anotações por um instante, como se não entendesse a questão.
— Enfrenta leões com pedras desde que idade?
Plutarco sorriu, sem jeito, e coçou o nariz com o giz entre os dedos.
— Sou Plutarco. E hoje foi a minha primeira vez.
Calixto sorriu em resposta.
O som de passos pesados arrastando-se na terra interrompeu a entrevista. Teseu, Calixto e Plutarco viraram a cabeça na direção da carroça destruída.
Licaão caminhava até eles. Estava na sua forma humana.
O corpo de Licaão estava coberto por poeira cinza e manchas de sangue seco. Ele mancava da perna esquerda, dobrando o joelho a cada passo para evitar apoiar todo o peso no pé machucado.
Estava nu e sem qualquer vergonha disso.
Parou a poucos metros do grupo e levantou o queixo enquanto dilatava as narinas, puxando o ar repetidas vezes. Os olhos dele focaram em Calixto.
— O cheiro… — Licaão apontou o dedo indicador para a caçadora. — Era você escondida nas árvores perto do nosso acampamento ontem à noite.
Calixto franziu a testa e olhou o corpo nu de Licaão de cima a baixo.
— Você está me cheirando? — Ela virou o rosto para Teseu e apontou para Licaão com a mão retraída. — Por que você está viajando com um velho tarado nu, Teseu? E onde está Hermes?
Licaão cerrou os dentes e cruzou os braços na frente do peito.
— Eu não sou um velho tarado — Licaão falou alto. — Eu sou um rei.
Calixto ignorou a fala de Licaão e manteve os olhos em Teseu, aguardando a resposta sobre o antigo companheiro de batalha.
— Nós nos separamos — Teseu explicou. — Hermes seguiu outro caminho. Os meios dele divergiam dos meus.
A mulher inclinou o rosto para o lado com curiosidade e novamente se virou para Licaão.
— Eu vi vocês na estrada ontem. — Calixto disse. Depois, ela olhou novamente para Teseu. — Reconheci a sua armadura, Teseu, mas algo me parecia estranho. Por isso, resolvi manter a distância e acompanhar os passos de vocês de perto para avaliar a situação antes de me aproximar.
Ela começou a caminhar em volta do garoto que acompanhava seus movimentos com os olhos inquietos.
— Imaginei que fosse outro dos nossos, não… você. — Seus olhos pareciam incomodados ao notar o nível de desgaste do equipamento do rapaz.
Calixto sorriu de canto na frente do rapaz.
— Acho que devia dar um jeito de trocar esse equipamento. Conheço alguém que pode ajudar.
— Entendo — Teseu respondeu com um sorriso sem jeito. — Eu seria muito grato.
Apesar de dizer isso, seus olhos desceram para a espada quebrada. O olhar tornou-se triste de repente, pesaroso. Era a última lembrança que ele carregava de sua vida de um ano atrás.
O homem de cabelos brancos e sorriso jocoso veio a sua mente em um instante. Ele sorriu, melancólico.
“Desculpe-me, meu amigo.”
— Agora, se me permitem, o rei precisa vestir as próprias roupas — Calixto completou, apontando para o pelado.
Licaão grunhiu.
— Ei, velho, tem algo que possa me emprestar?
Plutarco demorou a perceber que era com ele que o homem falava. Coçou o queixo com a base do estilete que segurava e pensou.
— Hum, bem. Acho que tenho um Quíton cinza. — Ele franziu os lábios. — Mas provavelmente ficará pequeno para você.
— Que seja. — Licaão resmungou com a mão estendida. — Dê-me logo.
Em pouco, estava vestido com o tecido do colega. O que era para ser uma túnica só cobria até pouco acima dos seus joelhos.
Os ombros enormes e largos esticavam o tecido e ainda assim deixavam espaços que mostravam a pele por baixo próximo das axilas. Licaão olhava a si próprio como dava, por cima dos ombros e também na frente. Parecia contrariado.
Teseu olhou para o leão desacordado e depois para Calixto. — Nós estamos indo em direção ao sul. Nós vamos passar por Nova Arcádia.
— Nova Arcádia? — Calixto ergueu uma sobrancelha.
Teseu acenou positivamente.
— Que coisa. Vocês estão indo para o nosso assentamento, então.
Licaão se aproximou, interessado na conversa.
— Assentamento? Você sabe algo sobre Nova Arcádia?
Calixto ajeitou a aljava nas costas e fitou o selvagem com um olhar incomodado.
— Claro que sei. Eu vim de lá.

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