Capítulo 141 | Ao Sul
— Nova Arcádia? — Calixto ergueu uma sobrancelha.
Teseu acenou positivamente.
— Que coisa. Vocês estão indo para o nosso assentamento, então.
Licaão se aproximou, interessado na conversa.
— Assentamento? Você sabe algo sobre Nova Arcádia?
Calixto ajeitou a aljava nas costas e fitou o selvagem com um olhar incomodado.
— Claro que sei. Eu vim de lá.
Ela suspirou.
— Mas fiquei ilhada na região de Tebas por duas semanas. Aquele leão bloqueou a estrada principal e fechou o desfiladeiro. Não consegui passar por ele sozinha para retornar.
— O que fazia lá? — O homem replicou com uma voz alta de maneira rude.
Ela estalou a língua e cruzou os braços.
— Como assim o que eu fazia lá? Nós nos assentamos nas ruínas depois de escapar das minas.
Licaão franziu o cenho para a moça e, por algum motivo, rangeu os dentes.
— Meu reino… — grunhiu — Reduzido a um acampamento pra um bando de escravos fugidos…
O olhar de Calixto se estreitou enquanto suas mãos buscavam lentamente as facas atrás das coxas.
— Ofenda mais uma vez o meu povo, e eu farei com que você seja reduzido a uma poça de sangue.
Licaão apertou os punhos ao lado do corpo e sustentou o olhar da mulher.
Teseu, exausto, estava prestes a prender os dois com suas vinhas no chão. Se tivesse forças pra isso. Estava esgotado.
Plutarco pôs-se no meio dos dois.
— Eu aprenderia a ter respeito por ex-escravos, senhor ‘Rei’ — O homem disse com olhos sérios para Licaão.
— É o qu- — O selvagem rosnou, mas foi interrompido.
— Sendo tu alguém que deve a vida a um deles… — Plutarco apontou para o jovem herói que se apoiava na espada com seus cansados olhos caídos. — Atacar a honra deles não significaria destruir a tua própria?
Os olhos do rei selvagem viajaram entre os três à frente dele enquanto ele rangia os dentes. Enfim, quando encarou o garoto por uma última vez, ele estalou a língua e recuou.
— Nós já perdemos muito tempo com essa besta no meio do caminho — resmungou enquanto apertava o cinto improvisado que havia feito.
Apontou para a direção sul da estrada.
— A criatura está morta. Nós precisamos retomar a caminhada agora mesmo. Não temos suprimentos para ficar parados conversando no meio do nada.
Plutarco tossiu para chamar a atenção.
— E não vamos voltar para ganhar nossa recompensa?
Teseu pensou em silêncio, com olhos baixos. Com a mão livre, tateou o cinto e tirou de lá o emblema que o estranho o havia entregado. Olhou para a besta desmaiada no chão, ainda respirava, e então para o caminho de volta.
Balançou a cabeça.
— Não há necessidade. — Ele respondeu. — Agora que sabemos que temos aliados à frente, não precisamos nos preocupar com ficar desabrigados ou famintos.
Voltou a guardar o brasão.
Licaão, surpreso, deu um meio sorriso audacioso. Feliz estava pela economia de tempo.
Calixto sorriu com o desfecho da situação e caminhou na direção do corpo do leão. Ela sacou uma faca de caça da bainha presa ao cinto.
— Bem, eu vou tentar retirar a pele antes de partirmos — disse firmando a lâmina. — O couro é invulnerável. Será útil.
— Ca-Calixto espere um po… — Teseu tentou interrompê-la e estendeu a mão, mas ela já estava ao lado da criatura.
Ela parou ao lado da cabeça do animal. O peito do leão subiu e desceu de forma lenta, movendo a poeira no chão. A caçadora arregalou os olhos.
— A fera está viva. Por que vocês não a finalizaram? — Calixto ergueu a faca com a mão direita, apontando a ponta de ferro para o olho da criatura.
O rapaz deu dois passos rápidos e segurou o pulso de Calixto com firmeza.
— Espere — sua voz saiu firme, mas Calixto percebia a súplica em seu olhar. — Você não precisa matá-lo. Eu posso controlá-lo agora que as plantas foram destruídas.
— Como é? — Ela se afastou com uma expressão confusa.
— Deixe-o tentar. — Plutarco parecia animado com suas placas de cera em mãos. — O garoto consegue se comunicar com feras e até mesmo dar comandos a elas!
Calixto mostrou um sorriso com o canto da boca por um instante, mas ao perceber que não era zombaria, parou e ficou séria.
— Isso é algum tipo de piada? — Seus olhos crivados atingiram Teseu como flechas.
O garoto não vacilou.
— Eu juro que não é… — Então, segurou a mão que ela segura a faca. — Deixe-me mostrá-la, por favor…
— Eu mesmo vi e atesto. — Plutarco ergueu uma das mãos como em um juramento.
Calixto olhou para a mão de Teseu segurando o seu pulso e baixou a faca. Licaão estalou a língua no céu da boca, virou o rosto para a direção da estrada e cruzou os braços.
O leão abriu os olhos. A criatura apoiou as patas dianteiras no solo e levantou o corpo enorme de forma cambaleante.
Seus olhos turvos davam uma visão enevoada do ambiente. À sua frente, estava uma criatura pequena e bípede. A besta se forçou a levantar de vez, e rugiu.
O homem diante dele engoliu em seco e ajoelhou-se no chão, alheio ao perigo da fera.
O leão virou o pescoço para Teseu. O animal tensionou os músculos dos ombros e expôs os dentes pontiagudos em postura de ataque.
O rapaz não recuou.
Ele focou a sua mente e acionou o seu poder de comando diretamente na consciência do animal.
Uma brisa soprou na colina, os olhos do rapaz brilharam em um verde esmeralda que fez a criatura recuar um passo.
O leão parou o movimento de repente. A tensão muscular desapareceu.
— Abrigue-se nas florestas — Teseu falou em voz alta, mantendo contato visual com a besta. — Não ataque mais os humanos. Use as suas garras apenas para se defender.
Teseu levantou-se e estendeu a mão direita. Ele tocou a juba suja do leão. A fera emitiu um som grave e contínuo no fundo da garganta, semelhante a um rosnado de ataque, e recuou.
O rapaz deu outro passo à frente, e mais uma vez tocou os pelos da juba.
Em algumas tentaivas, o animal relaxou a musculatura do pescoço, aceitou o contato da mão de Teseu e cessou o grunhido.

Quando o rapaz tirou a mão dele e sorriu, a criatura torceu o pescoço e o encarou com curiosidade.
O leão virou o corpo dourado, caminhou em direção à margem da estrada e desapareceu por entre as árvores da mata fechada.
Plutarco coçou o nariz.
— Você tem certeza de que ele não fará mal a outras pessoas? — perguntou o cronista, anotando no pergaminho. — Os registros sobre o Leão de Nemeia afirmam que ele é implacável com humanos.
— Eu não tenho certeza absoluta — Teseu respondeu, olhando para as árvores por onde a fera partiu. — Mas ele me prometeu que obedeceria. Eu vou acreditar nele.
Plutarco, Licaão e Calixto olharam para Teseu em silêncio. A expressão dos três demonstrava surpresa clara.
Nenhum deles ouviu o leão emitir qualquer som além do rosnado antes de entrar na floresta.
Calixto guardou a faca na bainha e passou a observar Teseu com um olhar fixo e muito interessado.
Logo, Licaão assumiu a liderança da caminhada em direção ao sul. Teseu, Plutarco e Calixto seguiram o ‘rei’. Eles deixaram o local do combate para trás e avançaram juntos pela estrada de terra em direção à Nova Arcádia.

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