Índice de Capítulo

    — Nova Arcádia? — Calixto ergueu uma sobrancelha. 

    Teseu acenou positivamente.

    — Que coisa. Vocês estão indo para o nosso assentamento, então. 

    Licaão se aproximou, interessado na conversa.

    — Assentamento? Você sabe algo sobre Nova Arcádia?

    Calixto ajeitou a aljava nas costas e fitou o selvagem com um olhar incomodado.

    — Claro que sei. Eu vim de lá.


    Ela suspirou.

    — Mas fiquei ilhada na região de Tebas por duas semanas. Aquele leão bloqueou a estrada principal e fechou o desfiladeiro. Não consegui passar por ele sozinha para retornar.

    — O que fazia lá? — O homem replicou com uma voz alta de maneira rude.

    Ela estalou a língua e cruzou os braços.

    — Como assim o que eu fazia lá? Nós nos assentamos nas ruínas depois de escapar das minas.

    Licaão franziu o cenho para a moça e, por algum motivo, rangeu os dentes.

    — Meu reino… — grunhiu — Reduzido a um acampamento pra um bando de escravos fugidos…

    O olhar de Calixto se estreitou enquanto suas mãos buscavam lentamente as facas atrás das coxas.

    — Ofenda mais uma vez o meu povo, e eu farei com que você seja reduzido a uma poça de sangue.

    Licaão apertou os punhos ao lado do corpo e sustentou o olhar da mulher.

    Teseu, exausto, estava prestes a prender os dois com suas vinhas no chão. Se tivesse forças pra isso. Estava esgotado.

    Plutarco pôs-se no meio dos dois.

    — Eu aprenderia a ter respeito por ex-escravos, senhor ‘Rei’ — O homem disse com olhos sérios para Licaão.

    — É o qu- — O selvagem rosnou, mas foi interrompido.

    — Sendo tu alguém que deve a vida a um deles… — Plutarco apontou para o jovem herói que se apoiava na espada com seus cansados olhos caídos. — Atacar a honra deles não significaria destruir a tua própria?

    Os olhos do rei selvagem viajaram entre os três à frente dele enquanto ele rangia os dentes. Enfim, quando encarou o garoto por uma última vez, ele estalou a língua e recuou.

    — Nós já perdemos muito tempo com essa besta no meio do caminho — resmungou enquanto apertava o cinto improvisado que havia feito. 

    Apontou para a direção sul da estrada.

    — A criatura está morta. Nós precisamos retomar a caminhada agora mesmo. Não temos suprimentos para ficar parados conversando no meio do nada.

    Plutarco tossiu para chamar a atenção.

    — E não vamos voltar para ganhar nossa recompensa?

    Teseu pensou em silêncio, com olhos baixos. Com a mão livre, tateou o cinto e tirou de lá o emblema que o estranho o havia entregado. Olhou para a besta desmaiada no chão, ainda respirava, e então para o caminho de volta.

    Balançou a cabeça.

    — Não há necessidade. — Ele respondeu. — Agora que sabemos que temos aliados à frente, não precisamos nos preocupar com ficar desabrigados ou famintos.

    Voltou a guardar o brasão.

    Licaão, surpreso, deu um meio sorriso audacioso. Feliz estava pela economia de tempo.

    Calixto sorriu com o desfecho da situação e caminhou na direção do corpo do leão. Ela sacou uma faca de caça da bainha presa ao cinto. 

    — Bem, eu vou tentar retirar a pele antes de partirmos — disse firmando a lâmina. — O couro é invulnerável. Será útil.

    — Ca-Calixto espere um po… — Teseu tentou interrompê-la e estendeu a mão, mas ela já estava ao lado da criatura. 

    Ela parou ao lado da cabeça do animal. O peito do leão subiu e desceu de forma lenta, movendo a poeira no chão. A caçadora arregalou os olhos.

    — A fera está viva. Por que vocês não a finalizaram? — Calixto ergueu a faca com a mão direita, apontando a ponta de ferro para o olho da criatura.

    O rapaz deu dois passos rápidos e segurou o pulso de Calixto com firmeza. 

    — Espere — sua voz saiu firme, mas Calixto percebia a súplica em seu olhar. — Você não precisa matá-lo. Eu posso controlá-lo agora que as plantas foram destruídas.

    — Como é? — Ela se afastou com uma expressão confusa.

    — Deixe-o tentar. — Plutarco parecia animado com suas placas de cera em mãos. — O garoto consegue se comunicar com feras e até mesmo dar comandos a elas!

    Calixto mostrou um sorriso com o canto da boca por um instante, mas ao perceber que não era zombaria, parou e ficou séria.

    — Isso é algum tipo de piada? — Seus olhos crivados atingiram Teseu como flechas.

    O garoto não vacilou.

    — Eu juro que não é… — Então, segurou a mão que ela segura a faca. — Deixe-me mostrá-la, por favor…

    — Eu mesmo vi e atesto. — Plutarco ergueu uma das mãos como em um juramento.

    Calixto olhou para a mão de Teseu segurando o seu pulso e baixou a faca. Licaão estalou a língua no céu da boca, virou o rosto para a direção da estrada e cruzou os braços.


    O leão abriu os olhos. A criatura apoiou as patas dianteiras no solo e levantou o corpo enorme de forma cambaleante.

    Seus olhos turvos davam uma visão enevoada do ambiente. À sua frente, estava uma criatura pequena e bípede. A besta se forçou a levantar de vez, e rugiu.

    O homem diante dele engoliu em seco e ajoelhou-se no chão, alheio ao perigo da fera.

    O leão virou o pescoço para Teseu. O animal tensionou os músculos dos ombros e expôs os dentes pontiagudos em postura de ataque. 

    O rapaz não recuou. 

    Ele focou a sua mente e acionou o seu poder de comando diretamente na consciência do animal.

    Uma brisa soprou na colina, os olhos do rapaz brilharam em um verde esmeralda que fez a criatura recuar um passo.

    O leão parou o movimento de repente. A tensão muscular desapareceu.

    — Abrigue-se nas florestas — Teseu falou em voz alta, mantendo contato visual com a besta. — Não ataque mais os humanos. Use as suas garras apenas para se defender.

    Teseu levantou-se e estendeu a mão direita. Ele tocou a juba suja do leão. A fera emitiu um som grave e contínuo no fundo da garganta, semelhante a um rosnado de ataque, e recuou.

    O rapaz deu outro passo à frente, e mais uma vez tocou os pelos da juba.

    Em algumas tentaivas, o animal relaxou a musculatura do pescoço, aceitou o contato da mão de Teseu e cessou o grunhido.

    Quando o rapaz tirou a mão dele e sorriu, a criatura torceu o pescoço e o encarou com curiosidade.

    O leão virou o corpo dourado, caminhou em direção à margem da estrada e desapareceu por entre as árvores da mata fechada.

    Plutarco coçou o nariz.

    — Você tem certeza de que ele não fará mal a outras pessoas? — perguntou o cronista, anotando no pergaminho. — Os registros sobre o Leão de Nemeia afirmam que ele é implacável com humanos.

    — Eu não tenho certeza absoluta — Teseu respondeu, olhando para as árvores por onde a fera partiu. — Mas ele me prometeu que obedeceria. Eu vou acreditar nele.

    Plutarco, Licaão e Calixto olharam para Teseu em silêncio. A expressão dos três demonstrava surpresa clara.

    Nenhum deles ouviu o leão emitir qualquer som além do rosnado antes de entrar na floresta.

    Calixto guardou a faca na bainha e passou a observar Teseu com um olhar fixo e muito interessado.

    Logo, Licaão assumiu a liderança da caminhada em direção ao sul. Teseu, Plutarco e Calixto seguiram o ‘rei’. Eles deixaram o local do combate para trás e avançaram juntos pela estrada de terra em direção à Nova Arcádia.

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