Capítulo 143 | Hedonismo de Focéia
Magno piscou devagar e falou para si mesmo, constatando o óbvio.
— Outro sátiro…
Hermes manteve a expressão controlada e cravou os olhos na figura acima. A tensão era visível na rigidez de seus ombros.
— Não. Este é um Sileno.
O sileno abaixou o aulos e o prendeu em um cordão de couro amarrado na cintura. Olhou para os quatro homens parados na estrada e abriu os braços em movimentos amplos e rápidos.
— Sejam bem-vindos! — exclamou animadamente. — Vocês pararam bem na entrada da nossa casa. A vila de Focéia está logo ali embaixo. O festival já começou. Temos bebida, competições e muita música. Desçam e juntem-se a nós nas festividades.
Hermes manteve a postura rígida e o rosto inexpressivo.
— Nós não vamos a lugar algum com você — respondeu sem hesitar. — Temos um trajeto longo pela frente. Não tenho interesse em perder meu tempo com as brincadeirinhas dos chifrudos de Dionísio.
A criatura abaixou os braços devagar. O sorriso em seu rosto se alargou, exibindo dentes amarelados e pontiagudos.
— Vejo que conhece nosso estimado pai. — O sileno inclinou a cabeça para o lado e emulou um olhar decepcionado. — É uma pena enorme. Eu pretendia conversar com você sobre aqueles objetos que você carrega guardados nos bolsos… As moedas.
Sêneca prendeu a respiração. Magno arregalou os olhos por uma fração de segundo e repousou a mão direita sobre o cabo da adaga em seu cinto. Anaxímenes olhou de Hermes para Magno com um olhar crivado de confusão pela súbita mudança na atmosfera.
Hermes não moveu um músculo. Ele manteve os olhos cravados na figura sobre a rocha. As moedas estavam escondidas e o grupo não havia mencionado a existência delas em voz alta nas proximidades daquele trecho da estrada.
— Mas, já que vocês têm tanta pressa assim em ir embora… — O sileno deu de ombros e soltou uma risada curta.
Ele puxou o aulos do cordão, levou o instrumento de volta à boca e soprou uma sequência rápida de três notas agudas. O som ecoou pela encosta. Em seguida, a criatura girou nos calcanhares, caminhou até a beira da pedra e saltou no ar em direção à descida íngreme.
O corpo peludo desapareceu da visão do grupo em um instante. O barulho de folhas secas amassadas e galhos balançando marcou a descida rápida do sileno morro abaixo. Restaram os quatro homens em silêncio na beira da estrada.
Anaxímenes deu dois passos curtos na direção da rocha e olhou para baixo, focado no rastro de terra remexida deixado pela criatura.
— Eu vou descer — ajustou a alça de tecido presa pelo broche no ombro. — Vim de Mileto para investigar a situação de Focéia e essa é a minha primeira pista.
Sem aguardar aprovação, julgamento, ou qualquer resposta, Anaxímenes apoiou as mãos na beira do barranco, flexionou os joelhos e começou a descer a encosta íngreme com movimentos rápidos e calculados.
Magno balançou a cabeça em negação e virou o corpo para encarar Hermes.
— Nós não vamos segui-lo, certo? — perguntou. — Não sabemos a natureza daquele ser e muito menos quais são as intenções dele.
Sêneca ajeitou os óculos redondos no rosto e assentiu.
— Magno tem razão no apontamento tático — Sêneca ponderou. — O risco de uma emboscada é alto. A desvantagem numérica e o desconhecimento da estrutura do terreno abaixo de nós são fatores críticos.
Hermes olhou para a marca das sandálias de Anaxímenes na terra solta.
— Ele sabia sobre as moedas — levou a mão ao queixo. — Nós não mencionamos as moedas em momento algum desde que saímos da floresta. Essa informação é vital. Ele pode ser um servo do Usurpador. Pode carregar outra moeda com ele e usou isso para nos atrair, talvez para recuperar a que perderam.
— Perderam nada — censurou Magno apontando para si mesmo com o polegar. — Eu roubei.
Sêneca balançou a cabeça negativamente reprovando o orgulho do colega.
Magno tossiu com a falta de respostas antes de prosseguir.
— Enfim, a possibilidade dele ser um servo inimigo torna o perigo ainda maior — insistiu, esticando o braço na direção da descida. — O próprio aviso do sátiro antes de ir embora corrobora isso, seja lá o que significasse. É um risco enorme entrar lá.
— É um risco necessário — Hermes retrucou, cortando a fala do gatuno e cruzou o s braços. — No nosso estado atual de ignorância sobre o funcionamento desses artefatos, nós não teremos chance alguma contra o Usurpador em Creta. Muito menos contra Circe. Nós precisamos descobrir o que ele sabe e essa é a nossa única fonte de informação no momento.
— Não a única. — Sêneca corrigiu.
Ambos se viraram para encará-lo com uma sombrancelha erguida. O homem segurava a bolsa da qual o papiro de Pérgamo escapava com uma das mãos.
— Este texto possui informações que me parecem vitais sobre a situação que enfrentamos. Com algum tempo de análise, creio que poderemos finalmente entender algo concreto sobre essas moedas e sua verdadeira natureza.
Hermes encarou o objeto estranho na bolsa lateral com olhos apertados. Nunca deu muita importância a textos, profecias, ou coisas do gênero. Não acreditava que confiar em qualquer uma dessas coisas ajudaria mais do que agir.
Seus olhos subiram da bolsa para o rosto de Sêneca, que encarava o papiro guardado com olhar sério e confiante. O olhar se tornou mais aberto, surpreso.
O rapaz suspirou.
“Talvez dessa vez, nas mãos da pessoa certa, isso realmente ajude…”
Sem espaço para novas contestações, caminhou de forma decidida até a beira do barranco, cravou os calcanhares na terra fofa e iniciou a descida.
Magno suspirou pesadamente e olhou para Sêneca. O estudioso apenas ajeitou as bolsas que carregava nas costas e seguiu o deus, forçando o ladrão a fazer o mesmo logo atrás.
Hermes cravou os calcanhares na terra fofa para frear a descida. Ele apoiou as mãos nas raízes expostas das árvores tortas que cresciam na encosta, usando-as como apoio para equilibrar o corpo.
Magno vinha logo atrás, soltando respirações pesadas pelo esforço de manter as bolsas do cinto estáveis nas costas durante o declive. Sêneca fechava a fila com passos lentos apenas em locais firmes e testando o solo antes de transferir o peso.
A inclinação acentuada do barranco exigia a atenção total dos três. A necessidade de focar nas pernas e nas mãos eliminou qualquer tentativa de conversa.
À medida que o grupo perdia altitude, o barulho do vento nas folhas da estrada ficou para trás. As notas agudas do aulos do sileno ecoavam pelas paredes de pedra do morro, servindo como um rastro sonoro.
Quando passaram da metade do caminho, a acústica do ambiente mudou. Novos ruídos começaram a subir da base do vale e se misturaram à melodia do instrumento.
Batidas pesadas e ritmadas de tambores soaram no ar, constantes e repetitivas. Gritos esganiçados e risadas altas, carregadas de um tom gutural e rouco, tornaram-se nítidas. O estampido seco da colisão de pedaços grossos de madeira estalava em intervalos irregulares e se sobrepunha à música.
O declive finalmente perdeu sua inclinação. Hermes saltou o último metro de terra e pousou com os dois pés sobre um calçamento antigo de pedras rachadas. Magno e Sêneca chegaram logo em seguida. O ladrão bateu as mãos no tecido das coxas para espanar a poeira, enquanto Sêneca respirava fundo e ajeitava os óculos no rosto.
A poucos passos de distância, demarcando a entrada das ruínas da vila de Focéia, Anaxímenes os aguardava. O rapaz de Mileto estava parado entre as bases de dois pilares de pedra desmoronados. Ele mantinha a postura rígida e observava a fonte de todo aquele barulho no interior do assentamento. Ao escutar o som das botas do grupo tocando o calçamento, o jovem virou o rosto para trás e os encarou em silêncio, aguardando que se aproximassem.
Os quatro homens deixaram a estrutura dos pilares caídos e avançaram pelas ruas antigas de Focéia. O calçamento estava coberto por terra pisoteada, poças de líquidos derramados e pedaços de cerâmica quebrada. O cheiro denso de álcool, suor e carne no fogo preenchia o ar.
À medida que caminhavam, o cenário se revelou de forma crua. O assentamento em ruínas estava lotado. Dezenas de silenos ocupavam os espaços entre as paredes de pedra e os tetos desmoronados.
Eles apresentavam formas físicas variadas. Alguns possuíam ventres obesos e flácidos que pendiam sobre as pernas peludas. Outros exibiam musculatura densa e braços largos. Os rostos alongados, os chifres curtos e os olhos de pupilas horizontais marcavam a característica comum entre todos eles.
Eles dividiam o espaço com inúmeras mulheres de rostos simétricos, peles limpas e cabelos longos. Elas caminhavam entre os silenos e sentavam-se sobre os escombros vestindo peças confeccionadas estritamente com elementos da natureza. Folhas verdes costuradas, galhos finos entrelaçados e trepadeiras compunham as roupas que cobriam partes de seus corpos.
As dinâmicas ao redor operavam à base de instintos físicos. Em um dos lados da rua, um grupo de silenos erguia ânforas gigantes de barro e bebia o conteúdo de forma ininterrupta, deixando o líquido escuro escorrer pelos pescoços e peitorais peludos.
Perto dali, criaturas dançavam com movimentos desordenados e bruscos ao redor de fogueiras que queimavam madeira sob a luz do sol da tarde. Em outro canto, silenos e mulheres rasgavam pedaços grandes de carne com as mãos nuas e os dentes, sujando os rostos com gordura.
Hermes, Magno, Sêneca e Anaxímenes pararam de andar ao alcançarem a entrada da praça principal da vila. A quantidade de criaturas correndo, gritando e esbarrando umas nas outras bloqueou o caminho. O grupo permaneceu estagnado, em silêncio, absorvendo o impacto visual e sonoro do festival animalesco.

Antes que Magno ou Sêneca articulassem alguma palavra sobre o ambiente, o sileno que os abordara na estrada surgiu caminhando por entre a multidão. Ele afastou dois silenos obesos do caminho com as mãos, abriu um sorriso largo e parou na frente do grupo, pronto para guiá-los para o centro das festividades.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.