Capítulo 15 | Peão e Rei: O canto final
Diante de Hermes, a guarda pessoal da família Kratos era uma muralha de bronze e aço. Quatro homens, bem treinados e bem armados, com Fílon atrás deles, o rosto uma máscara de fúria e incredulidade.
— Sua rebelião termina aqui, escravo — disse Fílon, a voz trêmula de raiva. — Você manchou esta casa com o sangue de seus guardiões. O Lorde não terá piedade.
Hermes não respondeu com palavras. Ele avançou, um rosnado baixo vibrando em seu peito.
Os guardas, agindo como uma única unidade, fecharam a formação, as pontas das lanças à frente. Hermes não atacou de frente. Ele se moveu para a esquerda, a podadeira baixa, forçando o homem da ponta a se virar para encará-lo. O guarda estocou com sua lança, uma manobra padrão, mas Hermes, em vez de recuar, usou a curva da podadeira para enganchar a haste de madeira da arma. Com um puxão violento, ele arrancou o guarda de sua posição, desequilibrando-o e expondo seu flanco. Antes que o homem pudesse recuperar o equilíbrio, Hermes cravou a ponta afiada da ferramenta na junção de sua armadura com o capacete. O guarda caiu com um grito borbulhante e a mão no pescoço perfurado.
Um a menos. Mas os outros três avançaram sobre ele instantaneamente. Uma parede de escudos o forçou a recuar, o som do bronze batendo contra o ferro de sua arma improvisada. Uma espada curta veio por baixo, e Hermes saltou para trás, sentindo a lâmina rasgar um corte profundo em sua coxa. A dor foi um choque elétrico, fazendo sua perna fraquejar. Outro guarda o atingiu com a borda de seu escudo, um golpe surdo que o arremessou contra um pilar de mármore. O ar foi expulso de seus pulmões. Ele estava cercado, ferido, e a fúria começava a ser suplantada pelo desespero de um corpo que chegava ao seu limite. As pontas das lanças e espadas se fecharam sobre ele.
— Parem!
A voz, retumbante e cheia de autoridade, fez todos congelarem. O Lorde Kratos apareceu no final do corredor, seu rosto uma tempestade de fúria. Ao seu lado, caminhava um homem que fez os outros guardas parecerem meninos. Era imenso, com músculos que pareciam blocos de pedra e um rosto marcado por uma única cicatriz que descia pela bochecha. Ele não usava a armadura padrão, mas tiras de couro fervido sobre um peitoral nu. Em sua mão, uma xiphos de lâmina curta e letal. Era Rinos, o campeão do Lorde, o carrasco pessoal da família.
— Afastem-se deste verme — ordenou Kratos, seu olhar de desprezo fixo em Hermes. — Rinos, limpe esta sujeira. Faça-o sofrer.
Os guardas recuaram, abrindo espaço. Rinos se aproximou, seus passos pesados e deliberados. Ele não tinha a raiva dos outros; seus olhos eram os de um artesão se preparando para seu ofício.
Apesar da dor, Hermes se forçou a ficar de pé e atacou. Rinos nem moveu os pés.
Ele desviou do golpe desajeitado da podadeira com um movimento quase entediado de sua xiphos, o som do bronze fino e mortal zumbindo contra o ferro bruto. Com um giro rápido, Rinos bateu com o pomo de sua espada no pulso de Hermes. O osso estalou e a podadeira caiu no chão com um barulho metálico.
Desarmado, Hermes tentou um soco, um último ato de desafio. Rinos bloqueou o golpe com seu antebraço e respondeu com um chute brutal na coxa já ferida de Hermes, fazendo-o cair de joelhos.
A humilhação era total. Rinos o circulou lentamente, desferindo um golpe com a borda do escudo em suas costelas e um corte superficial em seu ombro, um artista da dor demonstrando seu controle absoluto. Finalmente, um chute em seu peito o jogou de costas no chão. Rinos parou sobre ele, a ponta da xiphos em sua garganta.
Foi então que o Lorde Kratos riu. Uma risada alta, arrogante, que ecoou pelo corredor.
— Olhe para isso! O grande rebelde, se contorcendo no chão como o inseto que é. Você achou que podia mudar alguma coisa? Que um peão poderia desafiar um rei? — Ele se aproximou, saboreando a vitória. — Hahahaha! No fim, é isso que você é! Um maldito peão inferior!
Aquelas palavras… peão inferior. Elas atravessaram a dor, a fúria, e atingiram algo profundo e antigo em Hermes. O corredor da villa desapareceu, substituído por um instante pelo salão do trono no Olimpo. Ele ouviu a voz de Kratos, mas ela se misturou com a de seu pai, Zeus, no dia de sua queda.
Nessa hora, um zunido invadiu seu ouvido. Ele rangeu os dentes sentindo dor nos tímpanos. E então, aquilo se transformou em um som, uma nota. Uma nota de lira sendo tocada. Divina. Hermes abriu os olhos em realização.
A nota vibrou, preenchendo o vazio de sua alma, um eco solitário da música de Apolo.
Uma luz dourada e suave começou a emanar da cicatriz em formato de caduceu em seu peito. A luz se espalhou, traçando as veias de seu corpo. Seus olhos se acenderam com o brilho puro do Olimpo.
Rinos, sentindo a mudança súbita na temperatura e na pressão do ar, hesitou por uma fração de segundo, seu instinto de guerreiro gritando que algo estava terrivelmente errado.
Para Hermes, o tempo parou. O som da risada de Kratos se tornou um zumbido distante. Ele olhou para a xiphos caída de um dos primeiros guardas que matara. Sua mão, com o pulso milagrosamente curado pela energia divina, a pegou. No momento em que seus dedos tocaram o cabo, a lâmina foi envolvida por uma aura dourada.
Ele se levantou. Para os outros, foi um borrão de movimento.

Rinos, agindo por puro instinto, estocou com sua espada. Mas para Hermes, a lâmina se movia em câmera lenta. Ele se desviou dela como se desviasse de uma folha caindo, e sua própria espada dourada traçou um arco no ar. A lâmina não pareceu cortar; ela desfez a carne e o osso do pescoço de Rinos, deixando um rastro de luz efêmera. O campeão ficou parado por um instante, o choque congelado em seu rosto, antes de desabar em uma poça de seu próprio sangue.
Antes que o corpo de Rinos atingisse o chão, Hermes já estava na frente de um Lorde Kratos petrificado de horror. O rei abriu a boca para gritar, mas o som nunca se formou. Ele viu os olhos dourados de um deus, e não havia nada de peão neles. A espada de luz subiu, um arco de vingança, e perfurou Kratos por baixo do queixo, atravessando sua cabeça com uma força que não pertencia ao mundo mortal.
O tempo voltou ao normal com um estalo.
A aura dourada desapareceu. A espada na mão de Hermes perdeu seu brilho e se desfez em pó, liberando a cabeça de Kratos, que deslizou para o chão com um baque surdo ao lado de seu corpo sem vida.
O silêncio no corredor era absoluto, quebrado apenas pela respiração ofegante de Hermes.
Então, a dor veio. Uma dor como ele nunca havia sentido. Seu corpo mortal, forçado a canalizar um fragmento de seu poder divino, se rebelou. Era como se cada osso estivesse sendo quebrado, cada músculo, rasgado. Ele caiu de joelhos, o corpo convulsionando, e vomitou uma quantidade espantosa de sangue, manchando o mármore em uma poça escura.
Fílon e os guardas restantes, paralisados de terror pela carnificina impossível, finalmente recuaram, fugindo da criatura que havia matado seu mestre e seu campeão em um piscar de olhos.
Hermes tremia violentamente no chão, a dor o consumindo. Mas em meio à agonia, um pensamento permanecia: Agouri.
Com um esforço sobre-humano, ignorando os protestos de seu corpo em colapso, ele se apoiou na parede e se forçou a ficar de pé. Deixando para trás um rastro de sangue e destruição, ele cambaleou, passo a passo, em direção à última porta no final do corredor.
…………
Cada passo pelo corredor era uma batalha contra seu próprio corpo em colapso. O poder divino que o salvara agora cobrava seu preço, e a dor era um fogo líquido em suas veias e em seu peito. O mundo balançava, as tochas nas paredes se tornando borrões de luz em sua visão turva. Ele passou pelo corpo de Rinos, o campeão caído, e, com a mão trêmula, pegou a xiphos do homem. A arma era pesada, real. Um pedaço de aço mortal para um deus moribundo.
A porta para os aposentos do Jovem Lorde estava entreaberta, uma lasca de escuridão convidativa. De dentro, um silêncio antinatural. Hermes esperava um confronto final, talvez o próprio Jovem Lorde, acovardado, mas armado. Ele ergueu a espada, preparou seu corpo devastado para um último esforço e chutou a porta.
A cena que o recebeu não foi a de uma luta. Foi a de um matadouro.
A sala opulenta estava em desordem. Móveis virados, sedas rasgadas. No centro, sobre um tapete caro agora manchado de um vermelho profundo, jazia o corpo do Jovem Lorde. E sobre ele, estava Agouri.
Hermes congelou. A cena era de um pesadelo. Agouri, com os olhos arregalados e vazios, cavalgava o peito do nobre morto. Em sua mão, uma pequena faca de cozinha, provavelmente roubada, subia e descia em um ritmo frenético e descontrolado. Thud. Thud. Thud. O som era úmido, horrível. Ele golpeava o corpo sem vida repetidamente, cada movimento um espasmo de pura, cega e desenfreada fúria. Ele não estava mais matando um homem; estava tentando apagar uma memória, esfaqueando um fantasma.
O horror da situação superou a dor de Hermes. Ele viera para salvar Agouri do monstro, mas percebeu que chegara tarde demais para salvá-lo de se tornar um. Aquele não era Agouri. Era uma casca movida apenas pelo ódio.
A xiphos caiu de sua mão, o metal batendo ruidosamente no chão de mármore. O som não registrou para Agouri.
— Agouri… — A voz de Hermes era um sussurro rouco.
O rapaz não ouviu. Continuou o massacre sem sentido, o corpo tremendo com o esforço, soluços secos e silenciosos sacudindo seus ombros.
Desesperado para impedir que o garoto se perdesse para sempre naquele abismo de ódio, Hermes correu até ele. Ele não tentou arrancar a faca. Sabia que palavras ou força bruta não alcançariam o lugar escuro onde a mente de Agouri estava presa.
Ele se ajoelhou atrás do rapaz e o envolveu por trás, tentando prender seus braços. No instante em que o tocou, Agouri reagiu com a velocidade de um animal encurralado. Ele se virou e, sem reconhecê-lo, sem ver nada além da ameaça que o tocava, cravou a faca de cozinha no ombro de Hermes.
A dor foi aguda, uma nova estrela na constelação de sua agonia. Um gemido escapou dos lábios de Hermes, mas ele não recuou. Ele se forçou para frente, envolvendo o rapaz em um abraço de urso, usando seu peso e o resto de sua força para finalmente imobilizar os braços de Agouri contra seu corpo.
A faca caiu, tilintando no chão. Agouri lutou por um momento, um animal selvagem em uma armadilha, e então, sentindo o aperto firme, o calor de outro corpo, ele parou. Hermes o segurou com força, o sangue de ambos se misturando, o rosto pressionado contra o cabelo sujo de suor do garoto.
— Guhaak… — Hermes engasgou, o gosto de seu próprio sangue enchendo sua boca.
O menino tremeu com os olhos arregalados.
— Está… tudo… bem… agora…
As palavras, quebradas e cheias de dor, foram a chave. Elas perfuraram a névoa vermelha na mente de Agouri. O corpo do rapaz, antes rígido de fúria, amoleceu. A tremedeira violenta se transformou em um tremor de soluços. A vacuidade em seus olhos foi subitamente inundada por uma onda de horror, compreensão e uma dor insuportável.
Ele olhou para o corpo mutilado abaixo dele, para a faca no chão, para o sangue em suas próprias mãos. E então ele gritou. Um grito de verdade, um som de pura agonia de uma alma que retornava a um corpo quebrado.
Hermes o segurou com mais força enquanto Agouri desabava em seus braços, chorando convulsivamente, o som de seu luto preenchendo o silêncio daquela sala de horrores. O pássaro, finalmente, havia parado de cantar. E em meio à morte e ao sangue, banhado na ruína de seu inimigo, o menino, pela primeira vez em muito tempo, estava vivo outra vez.

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