Capítulo 2 | A queda
— Hermes é o traidor.
O silêncio que se seguiu à acusação de Zeus foi uma mortalha sobre o Olimpo. Todos os olhares se viraram para o deus mensageiro. Apolo o encarou, a boca entreaberta em horror.
— Você! — Zeus caminhava em sua direção, cada passo um trovão abafado. — Ousa sorrir diante de sua traição?
— Pai- Por favor, seja razoável, Hermes nunca- — Apolo se aproximou do pai, gesticulando com um rosto preocupado.
Sem nuvens, sem tempestade, sem chuva. Um trovão debanda dos céus, provocando um enorme barulho e fazendo Apolo estremecer num susto. Zeus fitou furiosamente de canto de olho, o que o fez se calar desviando o olhar com medo.
— Traição? — A voz de Hermes era calma, quase conversacional. — Você se afoga em profecias quebradas e teme a sombra dos Titãs, e a mim que chama de traidor? Sua paranoia o cegou, meu pai.
A insolência foi a faísca. Mas foi a intervenção de Ares que incendiou a pira.
— Você já se divertiu o bastante, irmão — rosnou o deus da guerra em um tom de advertência, dando um passo à frente. — Talvez precise pensar sobre suas ações no Tártaro.
Ares se comportava como o braço direito de Zeus. Apesar de não chegar nem perto de ser.
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Hermes desapareceu. Antes que Ares pudesse sequer erguer a espada, o deus mensageiro reapareceu em uma investida no ar, acertando-lhe um chute devastador no nariz. O deus da guerra voou para trás, chocando-se e atravessando um pilar de mármore. Ele tenta se levantar, apoiando-se nos destroços, antes de cair inconsciente.
Os outros deuses no coliseu arregalam os olhos encarando o pequeno rapaz e se colocando em alerta. O susto, tanto por seu ataque repentino, quanto por sua força.
Quase ninguém ali naquele lugar poderia mandar Ares voando com aquela facilidade.
Hera estava furiosa. “Como um maldito bastardo ousa encostar um dedo em meu filho?”
Poseidon se levanta de seu trono, catando seu tridente com um olhar sério.
— Você está condenado, garoto.
— Pessoal, por favor- — Apolo suplica exasperado, preocupado.
— NINGUÉM. MOVE. UM. DEDO. — A ordem de Zeus foi um rugido de autoridade ferida e orgulho real. Ele não olhou para o filho caído. Seus olhos brancos e elétricos estavam fixos em Hermes.
O corpo de Zeus clareou num branco amarelado, e a atmosfera ruiu com um zunido. Ele desapareceu em um feixe de luz que se movia em alta velocidade na direção de Hermes.
O rapaz se prostra erguendo os braços defensivamente. O feixe retorna à forma de Zeus na frente de Hermes. Seus punhos transformados em lâminas elétricas de cor branca, desferindo um soco com uma velocidade inacreditável.
Seus braços, envoltos em faíscas, formavam borrões de luz, desferindo socos que quebravam a barreira do som. Mas Hermes dançava. A velocidade, sua essência, era superior. Ele se esquivava, um vulto dourado zombando da fúria de seu pai, e seus contra-ataques eram como picadas de agulha: golpes rápidos e precisos nos joelhos, nos cotovelos, nas articulações do rei.
A velocidade dos golpes de Zeus começa a aumentar subitamente, seu rosto ficando mais furioso. Seus braços começam a formar borrões de luz no ar emanando faíscas elétricas. Hermes desvia, mas para de contra-atacar quando percebe que aquela aura elétrica nos punhos de Zeus havia se expandido e tomado conta de todo o seu braço.
Os golpes de Zeus não eram mais apenas rápidos; eram uma tempestade de luz e fúria. As faíscas que emanavam de seus punhos agora eram lâminas de energia pura, que cortavam o ar e a pele de Hermes a cada esquiva por um triz. Pequenos cortes começaram a aparecer em seus braços e em seu rosto, não dos socos, mas da aura crepitante que os envolvia.
Hermes foi forçado a recuar, sua dança evasiva se tornando uma retirada desesperada. A arrogância em seu rosto deu lugar a uma concentração mortal. Ele estava sendo encurralado. Zeus, sentindo a mudança, pressionou ainda mais, um sorriso de triunfo cruel surgindo em seus lábios. Ele ergueu o punho para um golpe final, um martelo de raios que prometia esmagar o deus menor contra as paredes do Coliseu.
Apolo, que observava paralisado pelo terror, viu o golpe se formando. Viu a exaustão nos olhos de Hermes. O medo pela vida de seu irmão superou o pavor que sentia de seu pai.
— PAI, PARE! — ele gritou, um apelo desesperado que se perdeu no rugido da tempestade.
Ele saltou de seu lugar, não para lutar, mas para intervir, para puxar Hermes para fora do caminho da aniquilação.
Naquela fração de segundo, o tempo se distorceu. Hermes, vendo o golpe de Zeus descendo, executou sua manobra mais desesperada. Em vez de recuar, ele canalizou sua fúria e seu poder em seu símbolo. O Caduceu em sua mão brilhou com uma luz dourada. As duas serpentes que o envolviam sibiliram, seus corpos de ouro se movendo, se torcendo e se fundindo com a haste central, formando em um instante uma lâmina elegante, afiada e mortal.
Com a arma divina agora em punho, ele avançou sob o golpe de Zeus, mirando o flanco exposto de seu pai. Era um ataque para incapacitar, para terminar a luta.
Foi nesse exato instante que Apolo o alcançou.
O corpo de Apolo se moveu para o espaço onde Zeus estava um momento antes, suas mãos se estendendo para o ombro de Hermes. A lâmina do Caduceu, carregada com a força de um deus e a velocidade de um cometa, não encontrou a resistência do Rei dos Deuses.
Encontrou o peito de seu irmão.

O som não foi de um trovão, mas um baque surdo, doentio e terrivelmente orgânico. Apolo congelou, o ar escapando de seus pulmões em um gemido chocado. Seus olhos amarelos, cheios de pânico e amor fraterno, se arregalaram em pura incredulidade enquanto ele olhava para Hermes.
Hermes, por sua vez, sentiu o impacto errado. A resistência macia demais. O Caduceu, como se sentisse o erro terrível, desfez-se em sua mão, as serpentes se desenrolando e voltando à sua forma de cajado. Um cajado agora manchado com o sangue dourado de Apolo.
A lira caiu das mãos do deus da música, batendo no mármore com um som desafinado e triste, uma corda se rompendo com o impacto. Ele tropeçou para trás, o olhar ainda fixo no de Hermes, e então desabou no chão, inerte.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. A tempestade de Zeus cessou. A fúria desapareceu de seu rosto, substituída por um horror vazio. Hera levou as mãos à boca, um grito silencioso preso em sua garganta.
Hermes ficou paralisado, olhando para seu Caduceu que deslizou de sua mão trêmula. Ele olhou para o corpo de Apolo no chão, e depois para seus dedos ensanguentados. O deus dos mensageiros, o brincalhão, o viajante… havia se tornado um fratricida.
A voz de Zeus, quando veio, não era mais um rugido. Era um sussurro quebrado, mais frio e mais mortal que qualquer raio.
— Meu… filho…
O luto do rei durou um instante, antes de ser consumido por uma fúria de proporções cósmicas.
— MATEM-NO!
A ordem não foi para uma luta, foi para uma execução. E desta vez, o Olimpo inteiro respondeu.
A névoa entorpecente de Dionísio subiu do chão. As vinhas de Hera brotaram das rachaduras, famintas. O tridente de Poseidon fez o chão tremer. A fúria de um deus se tornou a fúria de um panteão.
Hermes, em seu torpor após ter assassinado o seu irmão, sentiu uma certa confusão tomar conta de seus sentidos. Uma neblina roxa e fina passou a se espalhar dentro do coliseu.
Hermes se sentiu tonto. E então começou a se virar, procurando a origem daquela neblina. Antes que tudo ficasse nublado, ele conseguiu encarar uma figura enorme e gorda, com um barril na mão, desaparecendo em meio ao gás roxo.
— Pare, irmão. — Disse Dioniso em um torpor raivoso e bêbado emanando aquela neblina de sua pele.
Hermes levou a mão ao pescoço, sentindo uma queimação tomar sua boca e descer para o resto do corpo. Sua visão se tornou turva.
Seus pensamentos já não se encaixavam mais com a clareza de antes. A dor, o arrependimento, o medo, tudo se misturou em sua mente. E então surgiu. A raiva.
“Foram vocês.” Ele pensou.
— VOCÊS QUE ME FIZERAM MATÁ-LO!
O grito de Hermes não foi o de um deus, mas o de uma alma se partindo. A dor em sua voz ecoou pelo Coliseu, silenciando os murmúrios de choque. Sua visão, turva pela névoa de Dionísio e pelas lágrimas que ele se recusava a derramar, focou-se nas figuras de seus parentes. Eles não eram mais sua família. Eram seus algozes.
A raiva, pura e primordial, explodiu, queimando o torpor e a confusão. Ele avançou cegamente para dentro da névoa púrpura, não mais para fugir, mas para destruir.
Uma sombra se ergueu sobre ele, um tridente em mãos. Hermes conseguiu desviar por pouco, a velocidade do golpe não havia sido tão grande. Uma chuva de mísseis d’água caíram sobre ele. A visão turva o impediu de desviar de todos. Rangeu os dentes.
Ele pulou para trás pegando impulso em uma curta distância e então avançou contra Poseidon o golpeando na barriga numa velocidade colossal.
O gigante voou com o soco desaparecendo na névoa.
Outra silhueta apareceu em meio à névoa. Hermes saltou em sua direção em alta velocidade. E então, socou o vento.
Isso se repetiu por algumas vezes, até que Hermes perdesse a paciência.
— AFRODITE! APAREÇA DE UMA VEZ, SUA VADIA! — Ele rugiu, a voz distorcida pelo ódio.
O gás de Dionísio se adensou ao seu redor, e silhuetas começaram a dançar em sua visão periférica. Eram ilusões de Afrodite, mas cruéis, personalizadas. Ele viu Apolo, sorrindo para ele, a lira em mãos. Então, o sorriso se desfez, substituído pela expressão de choque e dor, o peito perfurado pelo Caduceu.
— Não… — Hermes gemeu, atacando a imagem com um soco desesperado que encontrou apenas o ar.
A imagem se desfez e reapareceu, desta vez com Apolo no chão, o sangue dourado manchando o mármore.
— Pare! — Hermes berrou, a sanidade se esvaindo.
Enquanto ele estava distraído pela tortura psicológica, um pio agudo cortou a névoa. Uma coruja branca voou diretamente em sua direção. Cego pela raiva, ele a viu não como o símbolo de Atena, mas como mais uma zombaria. Ele avançou e a socou com toda a sua força.
No instante do impacto, a ilusão se desfez. A coruja era a ponta de uma lança.
— GAH!
A lâmina de bronze celestial perfurou seu antebraço, atravessando músculo e osso. A dor aguda o trouxe de volta à realidade. Ele olhou, chocado, para a lança cravada em seu braço. Ao retirá-la com um grunhido, viu seu sangue divino escorrer, mas não em seu dourado habitual. Estava tingido de um tom púrpura doentio.
“Envenenado,” a constatação foi fria e tardia. Atena, a estrategista, havia se aproveitado de sua fúria.
Fwishh
Uma flecha negra cruzou o espaço, o som de sua passagem limpando um corredor na névoa. Hermes, cujo corpo começava a sentir a dormência do veneno, desviou por puro instinto. A flecha passou de raspão em sua coxa, e uma paralisia elétrica subiu por sua perna. “Até Ártemis…”, ele pensou, surpreso, mas notou que, para a melhor caçadora do universo, o tiro havia sido estranhamente impreciso.
A flecha, no entanto, lhe deu uma ideia. Ao ver o caminho que ela abrira na névoa, ele agiu. Ignorando a dor, o veneno e a paralisia iminente, Hermes começou a correr. Ele correu em círculos, cada vez mais rápido, transformando-se em um borrão dourado que gritava em agonia e fúria. Um redemoinho começou a se formar, sugando a névoa de Dionísio para seu centro e a dissipando com uma força centrífuga avassaladora.
O ar do Coliseu ficou limpo. Mas o esforço custou a Hermes o resto de suas forças. Ele tropeçou, o corpo finalmente cedendo, e caiu de joelhos no chão rachado. O veneno de Atena e a paralisia de Ártemis agora corriam livres por seu sistema. Seu braço perfurado começou a se regenerar lentamente, mas a energia divina estava sendo gasta para combater as toxinas.
Ele estava vulnerável.
— Ainda persiste? — A voz de Atena era de uma curiosidade fria.
Hermes tentou se levantar, mas seus pés pareciam presos. Ele olhou para baixo e viu. Vinhas espinhosas, emanando uma aura púrpura, haviam brotado do mármore e se enrolado em seus tornozelos, subindo por suas pernas.
— VOCÊ! — Hera se aproximou, os olhos brilhando com ódio. — Um bastardo ousa levantar a mão contra meu filho… e matar um de seus irmãos!
As vinhas se apertaram, quebrando os ossos de suas pernas com estalos secos. Um grito de dor escapou dos lábios de Hermes.
Ele rangeu os dentes e ergueu um dos braços prontos para tentar um golpe desesperado. Porém, o tridente de Poseidon corta o ar, perfurando seu braço e o prendendo no chão.
Ele se vira e vê o rei dos mares se aproximando vindo das ruínas do destruído coliseu contra o qual ele havia sido arremessado. Suas roupas sujas e uma marca gravada de um punho no centro de seu abdômen. Seu rosto uma mistura, tanto de raiva quanto de exaustão.
Hera estendeu o braço para Hermes, e uma enxurrada violenta de poder fluiu em sua direção. Hermes gemeu sentindo a dor de mil agulhas penetrando seu corpo.
Zeus desceu lentamente, flutuando sobre seu filho imobilizado. O olhar em seu rosto não era de vitória, mas de uma dor sombria e resoluta.
— Você não será o arauto do fim — disse Zeus, a dor em seu rosto forjada em uma máscara de justiça implacável. Ele ergueu a mão, e um raio em formato de lança, crepitando com o poder do céu, se materializou. — Eu o despojo de seu domínio. De sua velocidade. De sua divindade. Você será acorrentado à carne mortal, para que apodreça como um deles, esquecido e impotente. SEUS TEMPOS COMO UM DEUS, ACABARAM!
A lança elétrica desceu dos céus, cravando-se diretamente no peito de Hermes.
O grito do deus da velocidade foi o som de sua alma se partindo. Ele sentiu sua essência divina ser estilhaçada, fragmentada. Seus cabelos dourados perderam o brilho, tornando-se brancos como ossos. A magia de Hera, ativada pela energia do raio, queimou em seu peito, marcando-o física e espiritualmente.
A investida do raio continuou até que as vinhas queimassem e o chão de mármore abaixo dele cedesse, levando o rapaz no formato a cruzar o céu da Grécia, como uma gigante serpente de raios, deixando para trás um panteão quebrado e o corpo sem vida de seu irmão.
…………
— Quem diabos permitiu que parasse? — a voz fina e irritada de um nobre ecoou de dentro da carruagem.
Um homem forte de armadura negra, o capitão da escolta, Íxion, aproximou-se, apontando para a destruição à frente.
— Há algo estranho, meu Lorde. Uma cratera. Recomendo que permaneça na segurança de seu veículo.
O nobre, um homem de meia-idade com um quitón amarelo e um rosto flácido marcado pela covardia, desceu apressadamente. — E se forem ladrões? Vão roubar meus escravos! Nem pensar! Eu vou com você!
Íxion revirou os olhos e, com um gesto para que seus homens ficassem para trás, guiou o nobre até a borda da cratera. No centro, em meio à terra revirada, jazia o corpo de um jovem.
— Parece um corpo. — afirmou o capitão, sua voz desprovida de emoção.
— Não digas, imbecil! — O nobre ironizou, cobrindo o nariz com um lenço. — Desça lá e traga-o aqui.
Com um suspiro contido, Íxion obedeceu. Ele retornou carregando o corpo e o jogou no chão aos pés do nobre. Era um rapaz de cabelos brancos, sujos de sangue e terra, vestido com os restos de um quitón branco que mal cobria seu peito. Ele cuspiu um pouco de sangue, um sinal fraco de que ainda vivia.
— Isto vive? — o nobre perguntou, cutucando o corpo com a ponta de sua sandália como se fosse um animal.
— Devo matá-lo, meu Lorde? — perguntou Íxion, a mão já no cabo da espada.
O nobre se agachou, seus olhos gananciosos percorrendo o corpo quebrado. Foi então que ele viu. No peito do rapaz, gravada na pele como se por um ferro em brasa, havia uma marca. Um desenho perfeito e estranho, um caduceu. Seus olhos se arregalaram, não com reverência, mas com a cobiça de um colecionador que encontra uma peça rara.
— Não. — Ele respondeu com um sorriso. — Não serei tão insultuoso aos céus a ponto de recusar tamanha regalia. Faças o favor de jogar este… traste… em uma das carroças. Ele agora é minha propriedade.
Íxion ergueu uma sobrancelha, mas não questionou. Ele jogou o corpo inconsciente de Hermes sobre o ombro e começou a caminhar de volta para a caravana.
O condutor da primeira carroça o viu se aproximar. — Quem é esse?
— Um ladrãozinho seguidor de Hermes, pelo jeito. O Lorde gostou da marca que ele tem. — Íxion respondeu sem se importar, jogando o corpo de Hermes na parte de trás de uma gaiola de madeira com outros escravos.
— Ladrão? Mas Hermes não é o deus dos mercadores ou algo assim? — perguntou o condutor.
Íxion parou por um instante e soltou uma risada áspera e desdenhosa.
— E tem alguma diferença entre eles?
Ele se virou e se afastou, deixando o condutor com suas reflexões. A caravana voltou a se mover, o ranger das rodas retomando sua canção monótona.
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