Índice de Capítulo

    O sol já se despedia mais uma vez das planícies de Calcídica.

    A paisagem deserta somada ao anoitecer alaranjado da estrela que ia se deitar criavam uma obra de arte digna de contemplação.

    Neste lugar, no entanto, não havia quem a contemplasse.

    Uma mina de carvão feita numa fenda na terra que despistava em suas rampas a luz que vinha de fora continha todos os possíveis admiradores desse fenômeno. Esta mina se encontra no topo de uma colina aplainada.

    Lá dentro, os escravos ainda labutavam ferozmente. Tinham sofrido nas últimas duas semanas o que não sofreram em anos inteiros. As jornadas de trabalho estavam cada vez mais intensas e as de descanso mais escassas.

    E os castigos. Ah, os castigos só pioravam.

    Gérion, o mandante dessa exploração desumana deleitava-se em seu cômodo especial no topo da colina, de costas para uma janela que daria vistas ao lindo pôr do sol. Ele nunca fora o tipo de admirar coisas belas.

    Preferia destruí-las.

    Talvez por sua própria feiura, interna e externa.

    Estava sentado em sua enxerga de feno. Uma lucerna1 iluminava o cômodo fracamente numa mesinha de canto.

    Gérion tinha um sorriso feio em seu rosto. Deformado.

    Sambando entre seus dedos estava uma moeda. Uma moeda estranha. Para olhos mais atentos, podia-se jurar que continha uma espécie de rastro brilhoso e minimamente esverdeado em seu movimento.

    O sol que iluminava as costas do ogro deu seu último adeus antes de sumir no horizonte, e ele sorriu de novo.

    Levou a moeda aos lábios sujos e beijou-a, enchendo ela de saliva. Seus dentes amarelados mais uma vez se mostraram de maneira asquerosa.

    Ele murmurou algo sozinho na escuridão, e então escutou batidas na porta de seu quarto. Batidas fortes.

    — JÁ NÃO FALEI PARA NÃO ME PERTURBAREM? — Gérion gritou com os dentes rangendo de raiva.

    — Mas chefe-

    — DESGRAÇADO! QUER QUE EU TE JOGUE NAS MINAS COMO UM DOS MALDITOS ESCRAVOS? — Gérion se levantou da cama, gritando com ainda mais fervor.

    Apertou com força a moeda em sua mão.

    Um momento de silêncio se seguiu. O soldado não tinha coragem de rompê-lo, por mais urgente que fosse a notificação que tinha para fazer. No entanto, ele sabia que caso deixasse de dar a notícia, seria castigado ainda mais ferozmente depois.

    Relutante, ele falou.

    — Tem uma caravana chegando.

    A fala foi acompanhada de um som de passos rápidos se afastando da porta. O soldado não ficou para descobrir qual seria a reação de seu chefe.

    Gérion franziu o cenho. Em raiva e confusão.

    E então virou-se para a janela atrás de si e caminhou até ela com passos pesados.

    Um grupo pequeno de carroças surgia no horizonte que há pouco engolia o sol.

    Gérion observou aquilo com um olhar curioso, pareciam estar vindo diretamente para as minas.

    Puxou ar como um javali e então deu uma cuspida no chão.

    Deixou seus olhos varrerem o quarto até encontrar a mesa de canto com a lucerna.

    ……

    …………

    Em cerca de trinta minutos, Gérion havia organizado um grupo de vinte guardas nos portões da mina. Ele deu instruções para os dez que ficariam para trás e, com um gesto, ordenou que os vinte escolhidos o acompanhassem.

    A caravana era visível na parte superior da descida da colina.

    Homens de armadura se punham nas laterais e entre as carroças, pareciam ser cerca de quinze.

    Um homem alto e musculoso, mas não tão corpulento quanto Gérion, havia tomado a frente dos demais.

    Chegando ao sopé do morro, Gérion ordenou que seus homens permanecessem de guarda.

    Ele próprio tinha seu açoite preso à cintura e, algo que tinha se tornado comum nos últimos dias, uma espada amarrada do outro lado.

    Gérion se aproximou do homem que usava um elmo e uma armadura apertada. Apenas seus olhos podiam ser vistos na escuridão do capacete. Mantinha os braços para trás.

    — Gérion. — Uma voz grossa entoou o nome num ar de contemplação sórdida.

    O ogro não percebeu, ou fingiu não perceber.

    — O que fazem aqui? — Gérion perguntou com uma carranca irritada. — A esta altura já deveriam estar em Therma.

    — O Arconte decidiu voltar. Quer tratar de negócios.

    Gérion ergueu uma das sobrancelhas. Seus olhos vagaram pelos arredores e analisaram as feições sombrias dos outros soldados da caravana.

     Estavam distantes demais, a noite não permitia que seus rostos fossem vistos claramente.

    — E onde ele está então?

    — Em sua carruagem. Descansando.

    O ogro grunhiu. Estaria ele sendo esnobado?

    — HUNK- E QUEM AQUELE DESGRAÇADO PENSA QUE É PARA ME ENVIAR LACAIOS PARA TRATAR DE NEGÓCIOS?! — O ogro se aproximou do homem de capacete e apontou o dedo em sua cara com agressividade.

    O homem não reagiu.

    — Tenha calma, meu senhor. — O soldado falou com uma calma invejável. —  Dídimo não se sente bem após alguns poucos dias de viagem. Você deve saber o quão frágeis são os nobres. — Ele completou, gesticulando de forma apaziguadora com uma das mãos.

    Gérion, bufando, o encarou, e então varreu mais uma vez a caravana, visualizando agora a carroça coberta que estava mais à frente da caravana, onde uma espécie de luz fraca iluminava de dentro para fora.

    — Não precisa se preocupar. Ele me deu autoridade para negociar em seu lugar.

    — Eu espero muito que valha a pena, Capitão. Por que se não… —  Gérion falou com seu olhar fulminante, sua mão desenhou um percurso até a espada em sua cintura. Os soldados atrás dele repetiram o gesto.

    O homem, mais uma vez, não se abalou com a postura bruta do ogro.

    — Não se preocupe. Valerá muito a pena. — Pela primeira vez, na escuridão daquele capacete, um sorriso se formou.

    Sua segunda mão, que até então ainda estava para trás, foi posta à mostra, revelando um saco grande de linho.

    Com um balanço que liberou um som forte de tilintar, os olhos do ogro cresceram. A ganância queimou mais forte que a raiva, e ele se forçou a se acalmar.

    Um sorriso amarelado e asqueroso se mostrou em sua face.

    Gérion limpou a garganta, escondendo os dentes. Queria mostrar controle.

    — E qual é o negócio que fez vocês darem meia volta estando a menos de um dia de Therma? —  O ogro perguntou.

    O soldado manteve o silêncio por um momento enquanto pendurava mais uma vez o saco de moedas na cintura, pouco ao lado da espada que portava.

    Gérion assistiu o movimento com interesse.

    — Temos uma oferta. —  O soldado começou, juntando as mãos na altura do peito. — Levaremos mais vinte de seus escravos, pagando o mesmo que antes.

    Gérion ergueu a sobrancelha. Essa era uma oferta muito estranha.

    O Arconte estava desesperado para jogar dinheiro fora?

    Antes que Gérion pudesse abrir sua boca para perguntar sobre essa oferta suspeita, o soldado prosseguiu.

    — Desde que… —  Ele ergueu uma das mãos com o dedo indicador a mostra, ressaltando a ideia de que haveria uma condição. —  Você troque outros cinco conosco entre aqueles que já havíamos levado.

    Gérion ouvia com atenção, até o momento em que ouviu ‘troque’. Sua face se desfez de ódio e ele levou a mão à arma em sua cintura.

    — Eu não vos disse antes que não haveriam devoluções? — Ele perguntou, seu punho se apertando no cabo da espada. — Sob nenhuma circunstância?

    O soldado pensou por um momento.

    — Sim, meu senhor. — Ele respondeu. Sua voz se alterou por um momento. Parecia conter raiva. Mas foi quase imperceptível. — Eu me lembro muito bem.

    Um silêncio ensurdecedor tomou conta do espaço entre eles, até que uma tosse foi ouvida nas carroças.

    Gérion olhou na direção. Nada.

    Devia ter sido um dos servos.

    O homem com elmo suspirou.

    — No entanto, o Arconte teve certeza de que o senhor seria benevolente o suficiente para reconsiderar. Ele argumenta que por ter comprado os escravos à noite, não pôde distinguir com clareza suas feições. Quando o dia chegou, e seus rostos se tornaram mais nítidos, o Arconte se arrependeu da compra de alguns. — Seu tom de voz era calmo e explicativo.

    Gérion ouvia com atenção.

    — Não viemos devolver nada. Queremos apenas trocar as mercadorias que não nos agradaram tanto assim. Estamos, inclusive, nos oferecendo para pagar a mais por outro lote. — O capitão falou de maneira eloquente, gesticulando como um bom negociador.

    Gérion cruzou os braços, largando a arma de volta na cintura.

    — E quantos seriam trocados? — Ele perguntou, seu rosto carrancudo tentando fingir desinteresse.

    Um sorriso apareceu entre as frestas do elmo.

    — Apenas cinco. Eles estão em perfeito estado, da mesma forma que os pegamos com vocês, se não estiverem ainda melhores. — A voz um pouco abafada pelo capacete dizia com um sorriso ardiloso. — Uma pena serem tão feios.

    A última frase foi acompanhada de uma risada.

    Gérion ouviu, sério. Sua feição passou a mostrar desconfiança.

    — Você não espera que eu simplesmente acredite que vocês vieram até aqui só para fazer uma oferta tão boa assim não é?

    A boca do capitão se abriu com um pouco de receio. Seu sorriso anterior sumira. Sua postura enrijeceu.

    O silêncio pairou entre os dois por alguns segundos. 

    Gérion grunhiu. Seus braços se cruzaram.

    — Acha que eu sou um idiota? — O ogro perguntou.

    O homem não respondeu, alguns soldados entre os que estavam próximos às carroças cochichavam uns para os outros.

    A sombra do ogro pareceu crescer sobre a figura do capitão, quase a engolindo por inteiro.

    Ele sabia muito bem como ser intimidador.

    — Meu senhor- — O capitão começou a falar, sua voz com um pouco de inquietação.

    — Acha mesmo que eu sou tolo para acreditar que esses escravos estão em perfeito estado? — Gérion o interrompeu. — Que vocês viriam até aqui para trocar escravos bons por outros e ainda pagar por isso? E tudo por que eles são feios?

    Gérion parecia ultrajado.

    O capitão, há pouco paralisado, tinha sua boca aberta em surpresa.

    Após um momento de silêncio, ele sorriu. Alívio.

    — Ora, eu penso o mesmo que você, meu senhor. — Ele começou a falar, se aproximando a passos curtos de Gérion. — Mas você sabe como são os nobres e seu apego pela beleza, não?

    O homem perguntou, erguendo os braços como quem diz ‘e o que se pode fazer sobre isso?’. 

    Gérion cuspiu no chão.

    — Além disso- — O homem continuou. — Por mais que não seja o que o Arconte me pediu, eu, como forma de confirmar nossa boa-fé, o deixarei inspecionar as peças que separamos para serem trocadas.

    O ogro encarou as carroças com atenção. A que estava mais ao fundo era a única que não estava cercada de guardas.

    O rosto do gigante, ainda com uma expressão sortida de irritação e desconfiança, se voltou para o soldado.

    Dentro do elmo os olhos se mantinham fixos nos de Gérion.

    O capitão pegou, mais uma vez a bolsa com moedas da cintura, e a balançou levemente ao lado do rosto.

    Gérion fitou a bolsa e, depois de soltar ar pelas narinas como se fosse um javali, adotou uma postura mais leve. 

    — Que seja. Mas não pense que irei aceitar trocar todos eles. 

    O capitão deu um aceno de cabeça respeitoso.

    — Claro, meu senhor. A decisão final é sua. — Ele gesticulou em direção à carroça isolada no final da fila. — As ‘peças’ estão na última carroça, o arconte pediu que ficassem longe para que não o contaminassem com suas deformidades.

    Gérion grunhiu em concordância e começou a andar, seus passos pesados esmagando o cascalho sob os pés. Olhou por cima do ombro para seus próprios homens, que permaneciam em formação.

    — Fiquem aí. Eu resolvo isso. — Ordenou, sua voz cheia de uma arrogância que o fazia sentir-se no controle total da situação.

    O capitão o acompanhou em silêncio. A única luz vinha da lua crescente e das tochas distantes do acampamento da mina, deixando o caminho até a carroça mergulhado em sombras. Em poucos passos, ele sentiu a mão enorme de Gérion contra seu peito.

    — Fique aí! Não gosto que andem nas minhas costas. — O ogro falou de maneira irritadiça, dando um empurrão rude no peitoral do capitão.

    — Eles são um pouco… ariscos, meu senhor. — Disse o homem com elmo. — Se me permite a sugestão-

    Gérion o fuzilou com o olhar, enraivecido por ser contrariado. Além disso, a ideia de inspecionar sozinho as “mercadorias defeituosas” que preocupavam esses soldados inflava seu ego.  Ele era Gérion. O que um punhado de escravos feios e moribundos poderiam fazer contra ele?

    Ele manteve essa mina nos trilhos durante anos. Após ele mesmo ter matado o último administrador e posto a culpa em um escravo. Todos o temiam. Ele não precisava de conselhos ou sugestões de mercenários malditos e fracos.

    — Humpf. Não preciso de sua ajuda para lidar com lixo. — Resmungou, virando-se para a traseira da carroça.

    O soldado suspirou e assentiu.

    O cheiro de feno velho e suor emanava do interior escuro do veículo. Gérion não viu movimento algum lá dentro, apenas a escuridão impenetrável. Impaciente, ele agarrou a lona que cobria a entrada e a puxou para o lado com um movimento brusco.

    — Vamos, saiam daí, seus vermes inúteis! — Rosnou para o negrume, inclinando sua cabeça grande para dentro, tentando enxergar na penumbra.

    Um erro fatal.

    Em um piscar de olhos, uma sombra dentro da carroça se moveu com uma velocidade desumana. Antes que o cérebro de Gérion pudesse sequer processar o movimento, ele sentiu o toque gélido de aço puro contra a pele de sua garganta e uma mão forte agarrando a parte de trás de seu pescoço com uma força que o paralisou.

    O ogro congelou, seus olhos arregalados em choque e terror. Dentro da escuridão da carroça, um par de olhos de um dourado fosco o encarava com um ódio frio e antigo. O ar escapou dos pulmões de Gérion não como um grito, mas como um chiado patético.

    A voz que sussurrou em seu ouvido não era a de um escravo, mas a de um deus caído prometendo o inferno.

    — Acho que a troca não será necessária.

    1. Lampião de cerâmica usado na grécia antiga[]

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