Capítulo 23 | Valsa de Lâminas.
O aço frio da xiphos contra a pele grossa de sua garganta era a única coisa real no mundo de Gérion. Por um instante, o som da própria respiração, o farfalhar das árvores e o crepitar distante das tochas do acampamento desapareceram. O ar, antes seu, agora parecia pertencer ao homem na escuridão, cujos olhos, de um dourado fosco e doentio, prometiam uma morte que ele nunca imaginara ser possível para si mesmo.
A voz que saíra da carroça fora um sussurro, mas ecoou em sua mente como um trovão.
— Gérion — A voz de Hermes era surpreendentemente calma, um oceano de tranquilidade paralelo ao olhar impetuoso. O contraste era aterrorizante. — Diga aos seus homens para largarem as armas. E se ajoelharem. Agora.
O ogro tentou engolir em seco, mas a lâmina pressionou, ameaçando cortar. O medo, um sentimento que ele só conhecia por infligi-lo, o paralisou por um instante. Ele abriu a boca, mas apenas um chiado saiu. Um gemido patético, o som de um animal grande e estúpido pego em uma armadilha.
— Faça — A pressão da espada aumentou, e uma linha fina de calor começou a escorrer por seu pescoço. Sangue. O seu próprio sangue.
O terror, finalmente, superou o orgulho. Com a voz trêmula e rouca, Gérion gritou para seus homens, que observavam a cena a alguns metros de distância, confusos e com as armas em punho.
— Larguem as armas! Todos vocês! Ajoelhem-se!
Vinte guardas, homens acostumados à brutalidade e à obediência cega, hesitaram. Seus cérebros não conseguiam processar a imagem de seu mestre, o monstro indomável, sendo mantido refém por uma figura que emergira das sombras de uma carroça de escravos. Foi o capitão com elmo, Theo, quem selou a ordem. Ele sacou a própria espada e, com um gesto rápido, seus homens, a recém-formada tropa de rebeldes, avançaram.
O som de aço, escudos e lanças caindo no chão de terra e cascalho se multiplicou, um barulho metálico e desordenado que soou como o desmoronar de um regime. Coordenados por um gesto de Theo, os rebeldes moveram-se com uma eficiência surpreendente.
Cinco outros, estes sem armaduras, surgiram de dentro das carroças e partiram para se juntar aos outros. Os servos pegaram cada arma, cada escudo, e se postaram ao lado de cada um dos soldados agora ajoelhados, com lâminas pressionadas contra suas nucas. A situação estava sob controle. A rebelião havia tomado o poder sem disparar um único golpe.
Com o tabuleiro de xadrez agora a seu favor, Hermes puxou sua xiphos de volta, a lâmina arranhando a pele de Gérion em um aviso final. Ele arrastou o ogro para fora da carroça pela parte de trás do pescoço, como se carrega um cão sarnento. Gérion cambaleou para a luz fraca da lua, tropeçando nos próprios pés, sua mente ainda em choque.
Ele tentou se virar, talvez para lutar, talvez para implorar. Não teve a chance.
Sem aviso, Hermes o chutou com uma força brutal na parte de trás dos joelhos. As pernas do gigante cederam, e ele urrou mais de surpresa do que de dor, caindo de cara no chão com um baque surdo que fez a terra tremer. A poeira subiu ao redor dele, sujando seu rosto humilhado.
Lentamente, Hermes caminhou até ficar à sua frente.
— Enfrente-me. — A voz de Hermes era calma. A implicação, clara.
Uma luta um contra um entre os líderes.
Gérion se virou, apoiando-se nos cotovelos, o rosto uma máscara de fúria e pânico. O medo inicial estava se transformando em uma raiva assassina.
— Você… — Gaguejou Gérion, cuspindo terra. — Devia ter me matado na carroça, seu tolo. Acha mesmo que pode me enfrentar de frente? Acha que eu sou como aqueles guardas fracos?
Hermes não respondeu. Ele apenas guardou sua xiphos na bainha com um clique suave, o som um convite deliberado para o inferno. Para ele, aquele momento era mais do que uma luta; era um exorcismo. Ele precisava enfrentar o monstro não com uma emboscada, mas de pé, olho no olho.
Enfrentar tanto o que ele era, quanto o que ele representava.
Gérion interpretou o silêncio e o gesto como arrogância. Com um rugido, ele se levantou, sacando sua própria espada, uma lâmina mais longa, mais larga e mais pesada. Ele riu, um som feio e quebrado, que ecoou pela planície silenciosa.
— Vou te quebrar de novo, desgraçado. Vou te ensinar qual é o seu lugar.

Os soldados ajoelhados adquiriram um brilho diferente nos olhos. A rebelião havia acabado. Não haviam chances de Gérion perder para aquele homem.
A batalha começou. E era exatamente como Hermes previra: a agilidade contra a força bruta. Gérion atacou com golpes pesados e selvagens, movendo sua espada em arcos poderosos que zuniam no ar, cada um com a força para esmagar ossos.
Os cabelos brancos de Hermes esvoaçavam ao vento, uma sombra, um vulto. Ele desviava, aparava quando necessário, sua própria xiphos movendo-se não para ferir, ainda não, mas para testar, para encontrar uma abertura na tempestade de aço do ogro.
A luta se movia pelo terreno baldio entre a caravana e o acampamento da mina. Os soldados ajoelhados assistiam com os olhos arregalados, a centelha de esperança começando a vacilar em alguns deles. Eles viam seu mestre, a personificação da força, sendo feito de tolo por um homem mais leve e mais rápido.
Gérion, frustrado, começou a gritar insultos. Cada palavra uma pá de terra que perturbava o caixão do trauma de Hermes.
— Você gritou como uma vadia naquela cela, não foi? Implorou para que eu parasse…
Hermes se esquivou de um golpe que teria partido seu crânio. A ponta da espada de Gérion atingiu o chão, levantando pedras e poeira. Hermes encarou a espada no chão e sorriu, estava se saindo bem.
O gigante, aproveitando a abertura, não tentou outro golpe de espada. Ele avançou e desferiu um soco com o punho livre, uma montanha de carne e osso que Hermes não esperava.
O punho de Gérion atingiu Hermes em cheio no rosto.
O impacto foi devastador. O mundo de Hermes girou, e ele foi arremessado para trás, caindo pesadamente no chão. O gosto de sangue encheu sua boca. A dor explodiu em seu nariz, aguda e nauseante. Os guardas de Gérion murmuraram, a esperança agora visível em seus rostos. Talvez a sorte estivesse virando.
Caído, com o nariz sangrando e a cabeça girando, Hermes sentiu o pânico subir. A dor física era um gatilho. Por um segundo, ele não estava mais na planície sob a lua. Estava de volta àquela cela fétida, indefeso, o peso esmagador do corpo do ogro sobre ele, o cheiro de suor e podridão, a dor… a humilhação…
— HAAAAAGH! — A voz de Gérion o trouxe de volta à realidade. O ogro se aproximava, a espada erguida para o golpe final. Brutal.
Hermes cuspiu sangue e se forçou a rolar para o lado, a espada de Gérion cravando-se na terra onde sua cabeça estava um segundo antes.
Ele se levantou, limpando o sangue do nariz com as costas da mão. Sua visão um pouco embaçada pela tontura.
— Isso doeu? — Gérion zombou, avançando novamente.
Ele desferiu um golpe vertical e poderoso. Hermes, em vez de desviar completamente, deu um passo para o lado e tentou aparar o golpe com sua xiphos. Foi um erro de cálculo. A força bruta do ataque de Gérion foi demais. A espada de Hermes desviou o golpe da morte, mas a lâmina pesada ainda raspou com violência em seu antebraço esquerdo, rasgando o chlamy e arrancando um pedaço de carne.
Hermes gritou, a dor aguda o forçando a recuar alguns passos, apertando o braço que agora sangrava profusamente. Ele olhou para o ferimento, para o seu próprio sangue manchando a terra, e depois para Gérion, que sorria triunfante.
Um riso alto e tenebroso saiu de seus lábios e encontrou o frio sombrio da noite que soprava a face ferida de Hermes.
Ele estava no chão, de joelhos, o gosto de sangue na boca. A dor era um fogo branco. Fechou os olhos por um segundo, respirando profusamente.
“Merda. Merda merda merda.” A dor nublou seus sentidos.
Gérion não permitiu que tivesse tempo para pensar e avançou mais uma vez. Uma enxurrada de golpes sem descanso. A espada descia como uma viga de ferro, empurrando Hermes para trás sempre que tentava aparar.
O braço ferido já envenenava sua mente com dúvidas.
Não teria chances aparando, decidiu desviar. Foi quando o ogro mostrou que não dependia só de força bruta para vencer.
Uma finta com aquela espada enorme fez Hermes se agachar para desviar. Seu peito esvaziou-se com um chute. Poderoso, brutal, cruel.
O rapaz voou para trás.
Mais uma risada ecoou pela noite. Dessa vez os soldados se sentiram confiantes o suficiente para rir também.
As estrelas o encararam de cima. Estava jogado no chão como um pássaro que teve suas asas cortadas.
O salão dos Kratos veio à mente, a explosão de luz dourada, a força avassaladora… Ele se agarrou àquela memória.
“Onde está?”, pensou desesperado. “Aquele poder… a luz… eu preciso dela AGORA!”
Ele tentou puxar aquela energia de dentro de si, mas encontrou apenas um vazio frio e doloroso.
Nada.
Era apenas um homem sangrando na poeira. O desespero ameaçou engoli-lo, até que uma voz rasgou o silêncio de sua mente.
— HERMES!
O grito de Teseu o atingiu como um raio. Ele abriu os olhos. A clareza o atingiu.
“Que tolice.”
Não haveriam milagres. Os céus já o haviam abandonado há muito tempo.
Havia deixado a raiva e o trauma ditarem a luta. Agora, ferido e sangrando, ele sabia o que tinha que fazer.
Apertou o ferimento no braço. A ardência afiada aflorou seus sentidos.
Não era mais sobre sobreviver ao trauma. Era sobre usar a dor, afiá-la e transformá-la em uma arma.
O choque de adrenalina limpou sua mente. Seu corpo ainda tremia, mas sua mente o acompanhava com uma clareza fria e cortante. Não podia vencer pela força.
Ele não podia permitir que as memórias o paralisassem, seus olhos dourados brilharam com um foco gélido.
A lua estava mudando de lado.
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