Capítulo 24 | Carne e Osso, Mente e Alma.
O sorriso no rosto de Gérion era largo e grotesco, uma fenda de dentes amarelados em meio à sua barba suja de sangue e poeira. Ele vira o ferimento no braço de Hermes, sentira o cheiro do sangue do homem no ar e aquilo o inebriou. A vitória parecia, mais uma vez, uma certeza. Os seus guardas ajoelhados, antes tomados pelo medo, agora trocavam olhares esperançosos e sorrisos contidos.
Do outro lado do campo de batalha improvisado, Theo observava com uma tensão que enrijecia os músculos de seu pescoço. Ao seu lado, o pequeno Teseu tremia dentro de uma couraça de bronze que lhe fora dada por um dos rebeldes. A armadura, grande demais para seu corpo franzino, parecia uma casca de tartaruga irônica. Seus olhos estavam fixos em Hermes, no sangue que escorria pelo braço e no filete que manchava seu rosto. O medo que sentia não era por si, mas pelo homem que, apesar de toda a sua força aparente, parecia perigosamente mortal naquele momento.
Hermes, no entanto, não olhava para o próprio ferimento. Seus olhos dourados, antes turvos pela dor e pela memória, agora possuíam um brilho gélido e analítico. Ele apertou o braço ferido por um instante, o bastante para sentir a dor aguda e usá-la como uma âncora, um lembrete.
O pânico havia se esvaído, substituído por um propósito frio. Ele não era mais a vítima revivendo seu trauma; era o caçador que havia sido ferido e, por isso mesmo, se tornara infinitamente mais perigoso.
Ele mudou sua postura. O corpo, antes tenso, agora parecia mais fluido, relaxado. A xiphos em sua mão não estava mais erguida em um desafio direto, mas baixa, quase displicente, convidando ao ataque.
— O que foi, desgraçado? Cansou de lutar? — Gérion zombou, interpretando a mudança como fraqueza. — Vou arrancar esse seu outro braço e dá-lo aos cães!
“Um homem. Ele é apenas um homem.” Hermes disse para si mesmo.
Ele avançou, sua espada pesada cortando o ar em um arco selvagem. Mas Hermes já não estava lá.
A luta se transformou em uma dança macabra. Hermes não mais aparava os golpes; ele os fluía. Usava sua velocidade não para atacar de forma imprudente, mas para se manter na periferia da fúria de Gérion, como uma mariposa dançando perigosamente perto de uma chama.
Ele se movia em círculos, seus pés deslizando pela terra deixando rastros como os saltos de uma raposa que contrastavam com a brutalidade dos ataques pesados do ogro. As marcas das pegadas de Gérion afundaram uma após a outra no chão.
Os golpes pesados de Gérion, brutos, selvagens, sem técnica, tornaram-se previsíveis agora que Hermes estava mais calmo e atento.

E então, ele começou a atacar. Seus golpes não eram direcionados ao peito ou ao pescoço. Eram ataques rápidos, quase invisíveis, Gérion não parecia sentí-los a princípio. Eram baixos e não muito profundos.
Brincando com o alcance do gigante, Hermes desviou de uma das estocadas saltando para o lado e com dois passos curtos já estava atrás do ogro.
Um corte rápido na coxa. Gérion urrou e girou, mas Hermes já estava a metros de distância. Outro avanço do ogro, outra esquiva fluida de Hermes, seguida por um novo corte, desta vez na parte de trás do joelho. Cada ferimento era superficial, mas preciso. Eram como as picadas de mil vespas. Insignificantes sozinhas, mas mortais em seu acúmulo.
— Lute como homem! — Gérion berrava, sua frustração crescendo a cada golpe fantasma que errava e a cada nova dor que sentia em sua perna. Ele estava sendo desmontado, humilhado, e a raiva o tornava mais lento, mais previsível.
“Você é meu. Seu corpo é meu. Seus gritos são meus.” A voz de Gérion, não a de agora, mas a daquela noite na cela, ecoou na mente de Hermes. Ele rangeu os dentes, usando a lembrança não como um gatilho para o pânico, mas como combustível final para a brutalidade precisa de seus golpes.
Ele se esquivou de outro corte e, com um giro, sua lâmina abriu um talho profundo na canela de Gérion. O gigante tropeçou, sua perna esquerda agora um emaranhado de dor e sangue, mal conseguindo sustentar seu peso.
Hermes não respirou, aproveitou o tropeço do ogro que reduziu sua altura e girou sua espada rangendo os dentes com um rugido em um corte horizontal. Precisão letal.
— GAAAAAHAAKK!
Gérion urrou. Dor. Agonia. Apoiou-se com a espada cravando-a com a ponta no chão e levou a outra mão ao rosto.
No chão, um pedaço de seu nariz e lábio superior.
Os guardas ajoelhados já não sorriam. O medo havia retornado aos seus olhos. Eles viam seu mestre, o pilar de força inabalável, sendo metodicamente fatiado por uma sombra veloz. Theo, por sua vez, permitiu-se um sorriso sombrio. Ele via a astúcia, a inteligência por trás da valsa mortal.
O silêncio se apossou da noite mais uma vez. Hermes mantinha sua postura atenta. Sua respiração ofegante pela intensa movimentação contrastava com a firmeza com a qual segurava a xiphos.
Gérion, ofegante, apoiando-se em sua espada como uma muleta, olhou para Hermes com um ódio que transcendia a dor física. Seu olho esquerdo fechado com uma mancha de sangue que havia espirrado do nariz. Vendo que perderia nesse ritmo, o Ogro decidiu usar sua maior arma. O medo.
— Sabe… Eu mudei de ideia… Quando eu terminar aqui, não vou te matar. — Disse ele, sua voz um sussurro doentio que cortou o silêncio da noite. — Eu aprendi a lição. Coisas bonitas como você não devem ser quebradas por completo. — Ele sorriu, o rosto ensanguentado sem nariz e lábio uma visão de pesadelo. — Vou arrancar seus braços e pernas, sim. Mas vou te manter vivo. E então… nós vamos poder relembrar daquela noite de prazer que tivemos juntos. Todos os dias. Para sempre.
Hermes permaneceu impassível por um momento, antes que sua respiração se alterasse. A calma estratégica, a precisão fria, tudo se dissolveu em uma onda de puro e primordial ódio. O trauma, que ele havia tentado controlar e usar, explodiu. Com um grito que não era humano nem divino, mas o som de uma alma sendo rasgada, ele avançou.
Gérion, esperando uma reação de fúria cega, sorriu. Era a abertura que ele precisava. Ele ergueu a espada para o golpe final.
Mas a fúria de Hermes não era cega. Nem descontrolada. Toda a sua dor, toda a sua humilhação, todo o seu ódio se canalizaram em um único ponto, em um único movimento.
Ele sabia por onde a espada desceria. Usando o ponto cego de Gérion criado pelo olho fechado ele se abaixou sob o golpe, sentindo a lâmina roçar em seus cabelos, e desferiu um corte horizontal devastador, com toda a força de seu corpo, na perna esquerda já mutilada de Gérion, logo abaixo do joelho.
A xiphos cantou ao cortar carne, músculo e, com um estalo nauseante, osso.
A perna do ogro foi arrancada. Por um segundo surreal, Gérion pareceu flutuar, seu rosto congelado em choque, antes de seu corpo colossal desabar no chão com um urro gutural que misturava dor e descrença.
Ele caiu de costas e, em um ato de puro pânico, tentou erguer o braço que ainda segurava a espada para se defender. Hermes foi mais rápido. Pareceu um rastro de sombra. Outro golpe, limpo e brutal, e o braço de Gérion, junto com sua arma, voou pelo ar, caindo a alguns metros de distância com um baque oco e úmido.
A luta havia acabado. Indefeso, mutilado, sangrando profusamente, Gérion agonizava no chão, o terror absoluto em seus olhos.
Hermes parou sobre ele, o peito arfando, o corpo tremendo, não de cansaço, mas de uma raiva que ainda não havia se extinguido. Ele olhou para o monstro no chão e não sentiu satisfação. Apenas um vazio gelado que precisava ser preenchido. Com um movimento fluido, ele se abaixou e arrancou o açoite da cintura de Gérion. O mesmo açoite.
Ele o ergueu, e o estalo cortou o ar, seguido pelo primeiro grito agudo de Gérion.
— Quem era aquela pessoa? — A voz de Hermes era fria, cada palavra um golpe. — A figura que te visitou na mina.
— Eu não… AARGH! …não sei! — Gérion choramingou, seu corpo se contorcendo. — Eu juro! Ela nunca… mostrou o rosto!
— O que ela te disse? — Os estalos violentos acompanhavam a voz calma de Hermes criando um contraste bizarro.
— Ele me disse que os Kratos não voltariam! Que tudo ficaria pra mim se eu- — Ele hesitou. Seu rosto parecia desesperado.
O braço decepado à frente do rosto tentava conter o impacto dos golpes. Incapaz.
O demônio branco rangeu os dentes e contraiu os olhos em fúria.
— DIGA! — Hermes urrou. Ódio.
— Se eu vendesse aqueles escravos pro Arconte! Era isso! — Gérion chorou. Lágrimas vermelhas.
O chicote estralou mais uma vez.
— Pare. Por favor. Eu te peço. — A voz do ogro saiu como um gargarejo, engasgado no sangue e na dor.
O olhar de Gérion, mesmo em agonia, não parecia mentir. Ele tinha medo, como um rato. Mas para Hermes, naquele momento, a verdade não importava tanto quanto a retribuição.
Ele o encarou por um momento e viu em seu rosto o pavor, mas sua atenção não permitia deixar escapar toda a minúcia de sua expressão.
Estava lá. O ódio.
Viu no ranger dos dentes do ogro. Entendeu que ele faria tudo de novo se tivesse a chance. Enxergou naquela banguça de sangue e feridas sem lábio e nariz o sorriso maldito na cela que o perseguia, mas que o abandonaria hoje mesmo.
Sorriu. O açoite se ergueu mais uma vez.
— Maldito seja… você… — Gérion cuspiu sangue e ódio, em um último ato de desafio. — seu-
A palavra morreu em sua garganta quando o ódio de Hermes transbordou. Ele o chicoteou com uma fúria cega, sem mais perguntas, apenas punição. Os estalos ecoavam pela planície, cada um uma nota na sinfonia de sua vingança. Ele continuou, golpe após golpe, até que seus braços cansaram e sua respiração se tornou ofegante.
Ele parou, o suor misturado com a sujeira e o sangue em seu rosto. Olhou para baixo. Gérion estava imóvel, seus olhos abertos e vazios, fixos no nada. Morto.

Hermes largou o açoite na poeira. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Ele se virou lentamente. Seu olhar varreu os vinte soldados de Gérion, ainda ajoelhados, tremendo de medo. Então, ele olhou para seus próprios seguidores. Viu a dúvida e o horror nos olhos de alguns, que agora o olhavam não como um salvador, mas como o monstro que acabara de matar o outro. Mas viu a satisfação sombria no rosto de outros. Viu Theo, que o olhava com um aceno de cabeça lento, uma expressão de aprovação dura e compreensiva.
Teseu tinha um rosto tenso, a boca entreaberta mostrava incerteza. Seus olhos encontraram os de Hermes por um momento, antes que o garoto se virasse para o chão. Algo se acumulou em sua garganta e ele não conseguia soltar.
Os olhos de Hermes, por fim, voltaram-se para os soldados capturados, para os instrumentos de sua antiga tortura. Não sentiu compaixão. Apenas o peso frio de uma decisão já tomada.
Com uma voz que cortou o silêncio da noite, uma voz que não pertencia a um homem nem a um deus, mas a um fantasma da dor, ele ordenou.
— Matem todos.
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