Índice de Capítulo

    O silêncio que se seguiu à ordem de Hermes foi pesado, denso, um vácuo preenchido apenas pelo som do vento uivando suavemente e pelo choro baixo de um dos homens de Gérion, um som patético de alguém que havia finalmente entendido seu destino. 

    Teseu, de pé um pouco atrás de Theo, olhou para Hermes, o horror estampado em seu rosto jovem, a boca se abrindo para formar uma objeção, um apelo. Mas o olhar que recebeu de volta o congelou. Não eram os olhos de seu amigo, nem mesmo os do protetor cínico que conhecera. Eram os olhos de um juiz e carrasco, frios como o aço de sua lâmina, inabaláveis e desprovidos de qualquer paixão. A palavra morreu na garganta de Teseu antes mesmo de nascer.

    Theo foi o primeiro a se mover. Sua reação não foi de alegria sádica ou de hesitação moral. Foi de uma eficiência sombria e pragmática. Ele pegou a espada de um dos rebeldes próximos e, com um único golpe limpo e rápido, silenciou o choro do soldado mais próximo. Foi o sinal. A barragem se rompeu. O que se seguiu foi um massacre rápido, brutal e estranhamente silencioso. 

    Os rebeldes, cujas mãos tremiam de medo ou de uma fúria contida por anos, executaram os homens que, até poucas horas antes, eram seus senhores e algozes. Alguns fecharam os olhos ao desferir o golpe. Outros o fizeram com um ódio que deformava seus rostos. O som de aço cortando carne e de gritos abafados durou menos de um minuto. Quando terminou, vinte corpos se juntaram ao de Gérion.

    A noite voltou a ficar silenciosa, mas agora era um silêncio diferente. Um silêncio de finalidade, de um limiar que fora irrevogavelmente cruzado.

    — Peguem tudo. — A voz de Hermes cortou a quietude. Não era uma ordem gritada, mas uma declaração de fato, fria e controlada. — Armaduras, espadas, lanças e escudos. O que servir, vistam. O que não servir, carreguem. Armas são mais úteis que cadáveres. A batalha de verdade começa agora!

    A ordem despertou o grupo do torpor. Os dezoito homens e duas mulheres, que antes só conheciam o peso das correntes e das ferramentas de mineração, agora se aproximavam dos corpos de seus antigos opressores com uma hesitação mórbida. O ato de despir um morto era íntimo e profano. Hermes foi o primeiro a seguir seu próprio conselho e vestiu uma couraça de couro por cima da Chlamys.

    Um homem magro, com as costas marcadas por cicatrizes de chicote, tentava com as mãos trêmulas soltar as fivelas da couraça de couro de um guarda corpulento. A armadura, que antes representava uma autoridade aterrorizante, era agora apenas um pedaço de couro e metal pesado e desajeitado. Ele a vestiu. Ficou larga em seus ombros, o peso estranho e opressor, mas pela primeira vez em sua vida, ele sentia algo além de sua própria pele vulnerável entre ele e o mundo. 

    A cena se repetiu por todo o pequeno campo. Era uma transformação macabra. Teseu observava, encolhido em sua armadura grande demais, enquanto as pessoas que conhecera como companheiros de sofrimento se tornavam guerreiros sombrios e desajeitados, vestidos com as peles de seus inimigos sob a luz pálida da lua.

    Quando a pilhagem terminou, Hermes reuniu os líderes improvisados do grupo: Theo, um homem mais velho chamado Lycomedes, cuja calma o destacava, este era aquele que havia lhe contado sobre a figura encapuzada, e uma mulher de olhar feroz chamada Callisto. Ele os levou para a base da colina, de onde podiam ver a estrutura da mina.

    No topo da colina aplainada, a entrada principal da mina estava fortificada. Uma paliçada de madeira alta e robusta, com uma passarela para arqueiros, cercava um pátio que levava à boca da mina. Um portão pesado de madeira, reforçado com ferro, barrava a entrada. As tochas dos guardas restantes brilhavam lá dentro como os olhos vigilantes de uma besta encurralada.

    — Dez guardas. Talvez onze. — Hermes disse, seu olhar varrendo a fortificação. Sua voz era a de um estrategista avaliando um problema, não a de um homem que acabara de liderar um massacre. — Eles nos viram. Estão esperando. Atacar o portão de frente é suicídio.

    — Podemos cercá-los. Esperar que se desesperem e desçam para nos pegar. — Sugeriu Lycomedes, sua voz rouca.

    — Não temos tempo. — Hermes respondeu de imediato. Seu rosto pensativo, lembrando de todos os fantasmas que havia feito nas últimas semanas, e também da criatura que atacara Teseu. — Não temos suprimentos o suficiente para vinte pessoas. Eles tem. Precisamos tomar este lugar e desaparecer antes do amanhecer.

    Esta também era uma verdade, mas não a que preocupava Hermes.

    Theo, que estava ao seu lado, apontou para o lado mais íngreme da colina. — Aquele lado é mais rochoso. Menos vigiado. Se houver outra entrada, estará lá. Uma saída de ventilação, um túnel de serviço esquecido.

    Hermes refletiu por um momento, antes de acenar com a cabeça. 

    — Theo, você é o mais forte e o mais barulhento. Leve metade dos nossos… soldados. — A palavra soou estranha em sua boca, mas era o que eles eram agora. Precisavam ser. — Contorne a colina pelo leste. Encontre outra entrada ou finja que encontrou uma. Faça barulho. Grite. Batalhe com as pedras se for preciso. Quero que todos os guardas daquele muro corram na sua direção. Quero que pensem que o ataque principal vem de lá.

    Theo compreendeu. Era um papel que se encaixava nele. A isca. Ele acenou com a cabeça, seus olhos brilhando com uma compreensão tática, e começou a reunir seu grupo, escolhendo os homens e mulheres maiores e mais intimidadores.

    Hermes se voltou para os que ficaram. Eram cerca de quinze, incluindo Teseu e os mais ágeis. Alguns ainda pareciam incertos. Uma verdadeira batalha estava se aproximando e não mais um massacre preordenado como fora agora a pouco.

    Eles estavam correndo para a boca do leão.

    Não fazia bem o seu estilo, mas Hermes sabia que precisava dizer alguma coisa caso quisesse chegar aos portões.

    — A vida que vocês conheceram acabou. — Ele disse, seu tom impessoal, quase didático. — A que começa agora provavelmente será mais curta, mas será de vocês.

    As palavras pesadas mais amedrontaram do que encorajaram. Ninguém ali estava preparado para jogar sua vida fora, mesmo que a tivesse recém adquirido de volta.

    Hermes percebeu, e então respirou fundo.

    — O medo é uma ferramenta que nossos inimigos usam. Hoje, nós o usaremos contra eles. Quando ouvirem o barulho de Theo, a atenção deles estará dividida. É a nossa chance. Pisaremos na cabeça da serpente e seu veneno não será mais capaz de nos alcançar. — Ele afirmou, seu rosto rígido com convicção.

    Os olhos do deus caído brilhavam com a chama da batalha. A mesma convicção de momentos antes quando ordenou que estes escravos, muitos sequer tendo  segurado uma espada na vida, assassinassem seus antigos algozes.

    Ele não esperou por uma resposta ou por um grito de guerra. Ele não estava buscando inspirá-los pelas palavras como um Theo, mas pelo exemplo. Com um gesto, começou a subida silenciosa pela encosta escura, movendo-se com uma leveza que contrastava com a armadura improvisada de seus seguidores.

    Lá dentro, os dez guardas restantes estavam exatamente como Hermes previra: em pânico. Eles haviam ouvido os gritos da execução, e o silêncio que se seguiu era ainda mais aterrorizante. Eles se amontoaram na passarela sobre o portão, arqueiros com as flechas prontas, esperando um ataque que não vinha.

    Então, o caos começou. Gritos e o som de luta ecoaram do lado leste da mina. Parecia um ataque em grande escala.

    Os brilhos das tochas sambaram lá dentro em caos. Os guardas perdidos nesse cenário caótico.

    As luzes das tochas se afastaram correndo pela passarela em direção à comoção, deixando a noite vigiando o portão principal.

    Foi quando o ataque de Hermes veio.

    Silenciosos como fantasmas, eles emergiram da escuridão na base do portão. Não havia aríete. Apenas alavancas de metal, improvisadas com as próprias espadas e lanças recém roubadas, e a força concentrada do grupo.

    — Agora. — Gritou Lycomedes rangendo os dentes.

    Eles enfiaram as pontas das ‘alavancas’ na fresta entre o portão e a moldura. Com um esforço coordenado, liderado pela força surpreendente de Hermes, eles forçaram. A madeira gemeu. 

    Foi então que um dos guardas na passarela olhou para baixo, seu rosto se contorcendo em alarme, ele havia ficado para trás a mando dos outros. Gritou, mas era tarde demais. Uma flecha, disparada por Callisto, que se revelou uma arqueira habilidosa, o silenciou. 

    Um segundo guarda mal teve tempo de reagir antes que outra flecha o atingisse. Uma caçadora, ela havia dito.

    Com um estalo alto, a tranca interna do portão cedeu. E após um estrondo do choque da madeira contra o chão, tão alto e poderoso quanto um trovão, eles estavam dentro.

    A batalha que se seguiu no pátio da mina foi um caos de aço e gritos. Os oito guardas, percebendo que haviam sido enganados, voltaram correndo, mas foram pegos em um terreno aberto. Os ex-escravos, agora com a vantagem numérica e da surpresa e movidos por um ódio primitivo, lutaram com uma ferocidade que superava sua falta de treinamento.

    Um homem, cujo filho havia morrido de exaustão na mina, ignorou uma ferida em seu ombro para cravar sua espada repetidamente em um guarda, chorando e gritando em uma mistura de dor e triunfo. Callisto, de longe, abatia os inimigos com uma precisão mortal com seu arco. Mas a vitória teve seu custo. Um rebelde, um garoto que mal tinha idade para ter barba, hesitou por um segundo e foi perfurado por uma lança. Outro tropeçou e foi rapidamente dominado e morto.

    A batalha que se seguiu no pátio da mina foi um caos de aço e gritos. Os guardas, em menor número e desmoralizados, lutaram com o desespero de homens encurralados. Mas os ex-escravos lutavam com uma ferocidade nascida de anos de ódio reprimido.

    Teseu sentia-se perdido no meio do furacão. O barulho era ensurdecedor: o choque de lâminas, os gritos de dor e fúria, o som úmido de metal cortando carne. O cheiro de sangue e suor era espesso no ar. Ele segurava a xiphos com as duas mãos, o peso da arma e da couraça grande demais o tornando desajeitado. 

    Tentou encontrar um alvo, um inimigo, mas tudo era um borrão de movimento e terror.

    Em um momento de confusão, ele se virou e trombou com força contra um corpo. Era um dos guardas de Gérion. O homem, que não parecia muito mais velho que o próprio Teseu, tinha os olhos arregalados de pânico. Por uma fração de segundo, os dois apenas se encararam, dois garotos assustados em lados opostos de uma carnificina. 

    Teseu hesitou. Seu braço tremeu. Ele viu o medo no rosto do guarda e, por um instante, não viu um inimigo, mas apenas outro ser humano apavorado.

    Essa hesitação foi seu erro. O medo do guarda se transformou em instinto de sobrevivência. Com um grito, ele avançou, sua espada cortando o ar em direção ao peito de Teseu.

    O tempo pareceu desacelerar. Teseu reagiu por puro reflexo, erguendo sua própria lâmina para aparar o golpe. O som do impacto foi um CLANG agudo e vibrante que sacudiu seu corpo inteiro. A força do guarda era muito superior. A espada de Teseu voou de suas mãos, girando no ar antes de cair no chão de terra a alguns metros de distância.

    Ele estava desarmado. Vulnerável.

    O guarda sorriu, um esgar de alívio e crueldade. Ele viu a vitória. Ergueu sua espada para o golpe final, a lâmina prateada brilhando sob a luz das tochas. Teseu fechou os olhos, esperando o fim.

    Mas o golpe nunca veio.

    Em vez disso, ele ouviu um som estranho, um zumbido rápido e agudo, como o de uma vespa furiosa, seguido por um baque surdo. Ele abriu os olhos. O guarda ainda estava de pé, mas seus olhos estavam vazios, a expressão de triunfo congelada em seu rosto. 

    Engasgando-se, sua boca se abriu para deixar fluir o sangue. Então, seu corpo pendeu para a frente, sem vida, e caiu por cima de Teseu, o peso morto o derrubando e o prendendo no chão.

    Preso sob o cadáver, Teseu olhou para cima, ofegante. Ele viu um vulto de chlamy preto, um furacão de lâminas. 

    Hermes já estava a metros de distância, sua xiphos uma mancha prateada que dançava entre outros dois guardas, cortando, aparando e finalizando com uma eficiência desumana. Ele não olhou para trás. Não parou. 

    Teseu, coberto pelo sangue quente de seu quase assassino, apenas pôde encarar a cena de luta que se seguia, compreendendo a distância abismal que existia entre um garoto com uma espada e um verdadeiro deus da carnificina.

    Hermes era o centro da tempestade. Ele se movia com uma economia de movimento letal, sua xiphos um borrão de aço. Ele não lutava com a fúria que usara contra Gérion, mas com uma eficiência fria e distante. 

    Ele matava não por vingança, mas para eliminar obstáculos. Cada um de seus movimentos era preciso, final.

    Quando o último guarda caiu, com a espada de Hermes em seu peito, o silêncio desceu sobre a mina mais uma vez. Mais três rebeldes jaziam mortos no chão, o preço final pela conquista.

    Hermes não celebrou. Ele olhou para os cadáveres de seu lado. Viu como seus aliados comemoraram, alguns lamentavam a morte dos que ficaram. 

    Viu Teseu empurrando o corpo do soldado que havia caído por cima dele para se libertar. E viu Theo sorrindo, triunfante com Lycomedes.

    A batalha havia acabado, mas seu papel aqui ainda não.

    Atravessou o pátio, ignorando os sobreviventes exaustos e feridos, e se dirigiu diretamente para a construção que servia de alojamento para Gérion, próxima à descida da mina. Sua mente já estava no próximo passo, no mistério que o levara até ali.

    O quarto de Gérion era como ele: sujo, funcional e brutal. Uma enxerga de feno que fedia, uma mesa tosca manchada de gordura, o cheiro de suor e vinho azedo impregnado nas paredes de madeira. Hermes revirou o lugar com uma eficiência fria. Vasculhou debaixo da cama, chutou um baú velho que continha apenas roupas sujas, procurou por qualquer coisa fora do lugar. Não havia cartas, não havia documentos, nada que indicasse a identidade da figura misteriosa.

    Ele estava prestes a desistir, a frustração começando a corroer sua compostura, quando seus olhos foram atraídos para a pequena lucerna na mesa de canto. Havia algo de estranho nela. Estava ligeiramente torta. Ele se aproximou e, cuidadosamente, ergueu o lampião de cerâmica.

    Lá, em uma pequena depressão circular na madeira, perfeitamente escondida, estava ela. A moeda.

    Não era de ouro nem de prata. Era feita de um metal escuro, quase negro, frio ao toque. Um frio anormal, uma energia que parecia sugar o calor de seus dedos e o próprio ar ao seu redor. Ao virá-la, a luz fraca da lucerna revelou a gravura em uma de suas faces. Não era o brasão de nenhum deus do Olimpo que ele conhecia. Parecia antigo. Ancestral.

    A gravura mostrava uma única asa negra, com penas detalhadas com uma precisão impossível, apontando para baixo. O símbolo da passagem final, do voo silencioso para o além. Um sigilo que todos os deuses conheciam, mas raramente ousavam nomear.

    O símbolo de Tânatos, a própria Morte.

    Mas havia algo mais, algo que fez um arrepio de um medo que ele não sentia há séculos percorrer sua espinha. Girando a moeda em seus dedos, ele notou o mesmo brilho fraco e necrótico que se lembrava de causar arrepios em si na última vez que visitou Hades. Um rastro esverdeado e doentio. Uma energia corrupta e vil que ele conhecia muito bem, uma energia que não deveria existir fora de sua prisão eterna.

    Era a energia do Tártaro. A essência dos Titãs aprisionados. A pergunta que se formou em sua mente era tão vasta e aterrorizante que quase o fez cair. 

    Por quê? Por que a própria Morte, uma força neutra e inevitável do cosmos, estaria usando a essência do maior inimigo do Olimpo para interferir nos assuntos dos mortais?

    Foi quando ele a ouviu sussurrar. Seus olhos se arregalaram.

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