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    O silêncio no quarto de Gérion era uma entidade física. Pesado, opressivo, cheirando a suor velho e ao odor metálico do sangue derramado lá fora. Hermes estava sentado na beira da enxerga de feno do ogro, o mundo exterior parecendo distante, abafado. Seus ouvidos ainda zumbiam com os ecos da batalha, com o estalo do açoite e com o silêncio final de seu algoz. Em sua mão, a moeda repousava, uma ilha de frio antinatural em sua palma suja.

    Ele a virou e revirou sob a luz fraca da lucerna. O sigilo de Tânatos, a asa negra da passagem final, parecia encará-lo de volta, um segredo cósmico em suas mãos. E a energia que emanava dela… Era a essência do Tártaro, inconfundível. Uma energia de caos primordial, de ódio eterno, que não deveria existir fora de sua prisão. 

    A ideia de a própria Morte, uma força neutra e inevitável, se aliando à essência dos Titãs para interferir nos assuntos dos mortais era uma heresia tão profunda que fazia a traição de seu próprio pai parecer uma briga de crianças. A conspiração era mais vasta, mais antiga e mais perigosa do que ele jamais poderia ter imaginado.

    As perguntas borbulhavam em sua mente. O que era aquilo? De onde viera? E, principalmente, por que um monstro ganancioso e brutal como Gérion guardaria algo assim com um zelo quase religioso? Aquela moeda era a chave para a súbita loucura e ousadia do ogro. Hermes tinha certeza disso. Mas uma chave que abria uma porta para um mistério ainda maior e mais sombrio do que ele previra.

    Ele estava tão imerso em seus pensamentos, no frio da moeda contra sua pele, que mal ouviu os passos hesitantes se aproximando da porta.

    — Hermes?

    A voz de Teseu, ainda a de um garoto, o puxou de volta da beira daquele abismo de pensamentos. O menino estava parado na entrada do quarto, a couraça de bronze ainda grande demais para seus ombros, o capacete agora em suas mãos. Seu rosto estava manchado de fuligem, mas seus olhos estavam claros, fixos nele com uma preocupação genuína.

    — Acabou? — Teseu perguntou, sua voz um sussurro.

    Hermes fechou a mão em torno da moeda, escondendo-a. Ele acenou com a cabeça. — Sim. Nós vencemos.

    O garoto recebeu a resposta com incerteza. Podia mesmo chamar aquilo de vitória?

    Seus olhos recaíram sobre o elmo que carregava nas mãos. O fardo o forçou a lembrar. O tempo não fora suficientes para processar, quanto mais esquecer.

    O peso do soldado sobre seu corpo. A expressão de desespero dele seguida pelo abandono da luz em seus olhos.

    A imagem do solo de morte, dor e sangue que tomou conta do pátio da mina. Lembrou-se da ordem de Hermes para matar os guardas ajoelhados e rendidos.

    Mas aqueles homens tinham merecido aquilo, não tinham?

    Era do que queria se convencer, mas a certeza sobre a questão nunca o atingira.

    Um suspiro de Hermes o acordou das divagações.

    Teseu o encarou e então deu um passo para dentro do cômodo, seus olhos varrendo o quarto imundo. — Então… o que estamos esperando? Os outros… nossos amigos… eles ainda estão lá dentro. Precisamos levar as notícias a eles.

    A simplicidade da pergunta atingiu Hermes como um beliscão. Em meio a conspirações divinas e energias primordiais, ele quase se esquecera do núcleo humano de sua missão, da promessa feita não a um panteão, mas a um grupo de almas quebradas. Ele olhou para Teseu, para a honestidade em seu olhar, e viu a âncora que o impedia de se perder na vastidão de seus próprios problemas. Problemas que ninguém parecia entender.

    — Você está certo. — Hermes se levantou, a exaustão pesando em seus ombros. — Vamos libertá-los.

    Juntos, eles saíram do quarto. O pátio da mina era um cemitério recente. Corpos de guardas e rebeldes jaziam onde haviam caído, testemunhas silenciosas do preço daquela conquista. Hermes e Theo se encontraram no meio do caminho, o gigante com um olhar sombrio, mas resolvido. Sem uma palavra, os dois homens caminharam em direção à boca escura do túnel principal da mina, o coração daquele inferno.

    Ao se aproximarem, as sombras dentro da escuridão começaram a se mover. Rostos surgiram, centenas deles, iluminados de forma fantasmagórica pelas poucas tochas que ainda ardiam. Eram rostos emaciados, cobertos de fuligem, mas o que mais se destacava eram os olhos. Olhos cheios de um medo profundo, de uma desconfiança arraigada por anos de sofrimento. Eles haviam acordado com os gritos da batalha, com o som do massacre, e se encolheram na escuridão, esperando apenas por um novo mestre, talvez um ainda mais cruel que o anterior.

    Theo parou na entrada do túnel, sua figura grande e imponente bloqueando a luz da lua. Ele respirou fundo, não como um conquistador, mas como um irmão que voltava para casa.

    — Gérion está morto. — Sua voz ecoou na caverna, mas não houve reação. Apenas o silêncio tenso de centenas de pessoas prendendo a respiração. — Os guardas se foram. A mina… a mina é nossa.

    A multidão permaneceu imóvel, incerta. Liberdade era uma palavra que não ouviam há tanto tempo que haviam esquecido seu significado. Seus olhos passaram por Theo e se fixaram em Hermes, o estranho de cabelos brancos parado atrás dele, uma figura silenciosa e manchada de sangue que eles não reconheciam. 

    Era ele o novo mestre?

    A tensão era quase insuportável. Poderia ter se quebrado em pânico ou em violência. Mas se quebrou com um soluço.

    Uma figura pequena e ágil emergiu da frente da multidão. Uma jovem mulher de cabelos escuros e emaranhados, o rosto sujo de lágrimas e carvão. Era Ágatha. Seus olhos se arregalaram ao reconhecer a figura ao lado do gigante.

    — Hermes?

    A palavra foi um sussurro, mas cortou o silêncio como uma lâmina. Ela deu um passo, depois outro, e então correu. Lançou-se nos braços de Hermes, abraçando-o com uma força que desmentia seu corpo frágil, e começou a chorar. Um choro de alívio, de dor, de uma esperança que ela pensava estar morta. 

    Hermes, pego de surpresa, hesitou por um segundo antes de seus braços envolverem a garota em um abraço desajeitado, protetor.

    A multidão assistiu, perplexa. Aquela demonstração de afeto puro e genuíno era algo que não viam há anos. Foi a primeira rachadura na parede de sua desconfiança.

    Então, Ágatha se afastou e seus olhos encontraram o menino na armadura grande demais. — Agouri? É você?

    O sorriso cansado de Teseu foi a segunda rachadura. O nome antigo que trazia as lembranças boas das conversas de meses atrás entre o grupo de amigos nas minas.

    Um abraço caloroso que não envolvia o menino há muito tempo floreou o cenário sombrio das minas. Uma flor nascendo em um lixão.

    E então, Ágatha, afogando o pequeno menino em seu carinho e tenro afeto, lançou uma pergunta que abalou suas estruturas.

    — E seu irmão? — Perguntou ela em um tom inocente. — Onde está?

    A expressão de Teseu mudou. Obscureceu. A felicidade momentânea escapou entre os nós de seus dedos. Ágatha não pareceu perceber.

    Nesse exato momento, o resto do grupo rebelde, liderado por Lycomedes e Callisto, chegou descendo a rampa, seus rostos exaustos, mas triunfantes. Foi quando a represa se rompeu.

    — Mãe!

    — Irmão!

    Gritos de reconhecimento começaram a ecoar de ambos os lados. Pessoas do grupo de Hermes encontravam seus familiares, seus amigos, aqueles que pensavam que nunca mais veriam. 

    A multidão de escravos, antes paralisada pelo medo, agora se movia. Abraços desesperados, lágrimas de alegria e dor se misturavam em uma onda avassaladora de emoção. A incerteza deu lugar a ovações, a gritos de liberdade que subiam pelo poço da mina e ecoavam contra as estrelas.

    E então, como se respondesse àquele clamor, o primeiro raio de sol tocou a borda da colina, derramando uma luz dourada e quente sobre o pátio. Um novo dia. O primeiro dia de liberdade. A luz do sol banhava os rostos que choravam, limpando as sombras da noite e prometendo algo que eles mal ousavam acreditar. A liberdade cantava na madrugada, anunciada pelo nascer de um novo sol.

    Em meio ao clima caloroso, à celebração catártica, Hermes permanecia como um observador silencioso no centro da tempestade de alegria. Ele via as famílias se reunindo, os amigos se abraçando, mas algo o incomodava. 

    Um sentimento de que uma peça estava faltando naquele quebra-cabeça de reencontros. Sua mente, instintivamente detalhista , varreu a multidão.

    Ele se aproximou de Ágatha, que agora questionava Teseu com um ar preocupado à medida em que era também saudada por outras mulheres. O garoto não parecia compartilhar de sua empolgação com seus olhos voltados para o chão.

    — Ágatha. — Hermes a chamou gentilmente.

    Ela se virou, um sorriso radiante no rosto. — Sim?

    — Onde está Sêneca?

    O sorriso de Ágatha vacilou. Uma sombra de confusão e preocupação passou por seus olhos.

    — Hermes… ele- ele- — A expressão da garota se desfigurou quando, engasgando em suas palavras, ela chorou.

    O olhar de Hermes se estreitou.

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