Índice de Capítulo

    Uma semana antes da noite em que o sangue de um tirano mancharia a terra, o inferno da mina já havia encontrado novas e mais profundas camadas de sofrimento. A loucura de Gérion, antes uma tempestade contida, havia transbordado, inundando cada túnel e cada alma com uma nova e imprevisível onda de terror. A mudança havia sido sutil no início, mas agora era a lei daquele lugar.

    Gérion podia ser visto caminhando pelas passarelas mais altas, não mais apenas para inspecionar o trabalho, mas para declamar ordens para o vento, seus gritos ecoando pelas paredes do poço e se perdendo no céu. Às vezes, ele parava e gargalhava sozinho, um som gutural e feio que fazia os escravos abaixo encolherem os ombros, sem saber se ele se divertia ou se preparava para um novo acesso de fúria. Outras vezes, ele segurava a pequena moeda escura contra a luz fraca das tochas, sussurrando para ela como se fosse uma amante, seus lábios se movendo em uma conversa silenciosa e demente.

    Lá embaixo, na escuridão e na poeira, o ritmo das picaretas não era mais ditado pela resistência dos homens, mas pela ponta do açoite. As porções de comida, já miseráveis, diminuíram. As jornadas de trabalho se estendiam para dentro da noite, e o poço, antes silencioso após o pôr do sol, agora ecoava com os gemidos dos feridos e o choro abafado dos desesperados.

    Neste cenário de desolação, um vínculo silencioso florescia. Sêneca, o homem que fizera do estoicismo uma armadura por décadas, encontrava-se cada vez mais atento aos movimentos de Ágatha. Ele não admitia para si mesmo, mas seus olhos a seguiam com uma constância protetora. Durante o trabalho, se ele notasse uma seção do túnel onde as vigas de madeira pareciam velhas ou a rocha, instável, ele se movia com uma naturalidade estudada, posicionando-se entre ela e o perigo, guiando-a para um local mais seguro com um simples gesto de cabeça. Ele nunca explicava. Ela nunca perguntava. Apenas entendia.

    Quando as rações se tornaram ainda mais comedidas, ele passou a guardar um pedaço de seu pão endurecido, escondendo-o na dobra de sua túnica. Quando se recolhiam ao túnel úmido que chamavam de lar, ele o entregava a ela em silêncio, quando achava que os outros não estavam olhando. 

    Na primeira vez, ela tentou recusar, seus olhos grandes e assustados. Ele apenas empurrou o pão para a mão dela e se virou, sentando-se de costas, como se o assunto estivesse encerrado. 

    Ele, com sua expressão habitual, dizia estar acostumado com a fome. Afirmava que ossos mais jovens precisavam de mais comida para crescer.

    Ágatha, por sua vez, via em Sêneca a única rocha em um mar de caos. Ela encontrou um pedaço de linha grossa e, à noite, sob a luz fraca de uma fogueira distante, usava uma lasca de osso como agulha para remendar os rasgos na túnica surrada do homem mais velho.

    Ele fingia não notar, mas sentia o cuidado dela como um calor estranho e esquecido em seu peito. Eram duas almas solitárias se apoiando, construindo um pequeno santuário de humanidade em meio à barbárie.

    Naquela noite, sentados na entrada de seu túnel, observando as tochas distantes que marcavam os postos de vigia, o silêncio entre eles era confortável. Sêneca partiu o último pedaço de seu pão e estendeu metade para ela.

    — Está ficando pior, não está? — A voz de Ágatha foi um sussurro, quebrando a quietude. — As chicotadas… estão mais frequentes.

    Sêneca mastigou lentamente o pão seco, seus olhos fixos na escuridão. — A natureza das coisas é a mudança. A maré sobe, a maré desce. A dor vem, a dor vai. É o fluxo.

    — Sinto falta deles — disse ela de repente. — De Hermes e dos meninos. Às vezes me pego pensando se não foi melhor para eles seguirem em frente… para longe daqui.

    Sêneca demorou a responder, o maxilar trabalhando. — Não há nada reservado além da dor àqueles que tentam controlar e prever o próprio destino e o dos outros. — Ele afirmou, seus olhos calmos, como se descrevesse um fato natural.  — Perder pessoas… é a única constância na vida de um escravo. Acostuma-te com a perda, pois ela é a ordem natural das coisas.

    Suas palavras, que deveriam ser um consolo filosófico, pareceram despertar uma dor diferente em Ágatha. Seus ombros pequenos encolheram.

    — Meu irmão… — ela começou, a voz trêmula. — Ele também foi levado. Naquela caravana, na mesma em que eu cheguei com Hermes. Ele era forte. Tinha um sorriso que faria todo mundo rir, mesmo aqui, mesmo agora.

    O rosto da menina se contraiu, e uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha suja de fuligem. 

    — Eu queria ter esperança, Sêneca. Eu tento, todos os dias. Mas é tão difícil aqui… A esperança… dói. A cada dia que passa, a imagem do rosto dele fica mais… turva. E se eu o esquecer? E se ele já se esqueceu de mim?

    Ela começou a chorar, um choro silencioso e desesperado que sacudia seu corpo pequeno.

    Sêneca sentiu algo se torcer dentro dele. Uma sensação desconfortável, um erro em sua lógica cuidadosamente construída. Ele, um homem que já vivera sua vida, que não tinha nada a perder além da própria existência, podia se dar ao luxo de encarar a perda como “natural”. Mas ela… ela era uma criança. Tinha um irmão para encontrar, uma vida inteira para perder.

    Sua filosofia, tão clara e reconfortante em sua própria mente, de repente pareceu cruel e vazia diante da dor genuína dela. As palavras que ele estava prestes a dizer — sobre a aceitação, sobre a inutilidade do desejo — morreram em sua garganta. Soavam como cinzas.

    Ele hesitou por um longo momento. Então, desajeitadamente, estendeu a mão e a pousou no ombro trêmulo de Ágatha. O toque foi estranho para ele, um ato de afeto que ele não praticava há anos.

    — A esperança não é uma armadilha quando é a única coisa que nos resta. — As palavras saíram dele antes que pudesse contê-las. Não eram de seus mestres estóicos. Eram suas. — Não o esqueça. A memória é a única propriedade que eles não podem nos tirar. Apegue-se a ela.

    Ele não sabia consolar, mas pela primeira vez, sentiu que precisava tentar. E ao sentir o calor do ombro da menina sob sua mão, Sêneca percebeu a profundidade da rachadura em sua armadura. 

    Ele não era mais apenas um observador apático do fluxo da vida. Ele era parte dele. E, para seu terror, havia alguém naquele fluxo cuja segurança importava mais do que sua própria paz de espírito.

    A rotina, por mais brutal que fosse, seguia sendo a mesma. Os escravos estavam se acostumando com o fedor pútrido da morte que emanava de um dos túneis. O poço.

    Trabalhar tão abaixo da terra não era fácil, ainda mais nas condições pérfidas em que todos se encontravam.

    O ponto crítico se aproximava de Sêneca como uma cobra que persegue um calcanhar suculento.

    Em uma tarde particularmente brutal. O ar na mina era uma névoa de pó de carvão que arranhava os pulmões. Um garoto, não muito mais velho que Ágatha, cujo corpo já era um esqueleto coberto de pele, finalmente cedeu. Ele desabou de exaustão, sua picareta caindo com um baque surdo.

    Lyco, o guarda sádico que estava de vigia naquele setor, aproximou-se com o chicote já na mão, o prazer da crueldade brilhando em seus olhos.

    — Cansado, verme? Vou te dar um motivo para descansar por uma semana.

    O açoite se ergueu, pronto para cortar o ar. Os outros escravos desviaram o olhar, uma submissão aprendida pela dor. Sêneca, que estava perto, viu o olhar de Ágatha se fixar na cena, e o mesmo terror da noite anterior voltou ao rosto dela. Foi a visão da dor dela, e não a do garoto, que o fez se mover. Ele se interpôs entre o guarda e a vítima.

    — Ele não é preguiçoso. Está exausto. — A voz de Sêneca era baixa e desprovida de emoção. — Ele será inútil para o trabalho se for aleijado.

    Lyco parou, chocado pela ousadia. Nenhum escravo jamais o havia confrontado.

    — Saia da minha frente, velho. — Rosnou Lyco, empurrando Sêneca com o braço livre.

    Sêneca não se moveu. Ele apenas encarou o guarda com seus olhos calmos e vazios, sua postura uma muralha de desafio silencioso. A insolência foi demais para Lyco. Sua raiva, antes direcionada ao garoto fraco, agora encontrou um novo alvo.

    — Ah, você quer protegê-lo? Você quer sentir a dor por ele? — Lyco sorriu, um sorriso feio e cruel. — Pois bem, falador. Seu desejo é uma ordem.

    O primeiro estalo do chicote cortou o ar. O golpe atingiu as costas de Sêneca com a força de uma martelada, rasgando a túnica e a pele. Ele grunhiu, seus músculos se contraindo com o impacto, mas não caiu. Manteve-se de pé, um pilar de resistência. Um segundo golpe. Um terceiro. Sêneca cerrou os dentes, o suor brotando em sua testa. Ele se recusava a dar ao guarda a satisfação de um grito. 

    Seu corpo tremia com a agonia, mas sua mente estava focada em uma única coisa: o rosto de Ágatha. Ele a via, encolhida, as mãos na boca, as lágrimas escorrendo por seu rosto empoeirado. E a dor dela era pior que qualquer chicotada.

    — ATENÇÃO, SEUS VERMES!

    Era Gérion. Ele estava de pé na plataforma de observação, sua figura maciça projetada contra a luz fraca que vinha do céu.

    — O Arconte Dídimo e sua caravana chegam na próxima semana para comprar um novo lote! — Ele gritou, sua voz cheia de uma alegria avarenta. — Sabe o que isso significa?  — Ele fez uma pausa dramática. — Vocês vão trabalhar em dobro para estarem em forma quando eles chegarem. — Ele riu alto com o nariz, pareceu um porco. — E NEM PENSEM EM MORRER ATÉ LÁ!

    O anúncio pairou no ar, carregado de ameaça. Lyco, pego de surpresa com o braço ainda erguido, abaixou o chicote lentamente, sua fúria evaporando e sendo substituída pelo medo de desagradar seu mestre. Foi por pura sorte que a ordem geral de Gérion o impediu de cometer um erro custoso.

    Sêneca respirava com dificuldades, quando percebeu que o chicote não mais desceria sobre si, seus joelhos falharam.

    Os guardas o agarraram pelos braços. Ele não resistiu. Seu corpo estava em chamas, mas seu rosto permanecia uma máscara de apatia. Enquanto era arrastado, seus olhos encontraram os de Ágatha. Ele viu o pânico absoluto no rosto dela, o medo de ser deixada sozinha, completamente sozinha. E naquele instante, Sêneca sentiu a primeira rachadura profunda em sua armadura de estoicismo.

    Naquela noite, a filosofia de Sêneca o abandonou por completo. No túnel úmido, Ágatha se aproximou dele em silêncio. Ele estava sentado de costas contra a parede de rocha, a respiração lenta e controlada, tentando meditar sobre a dor, como fora ensinado. Ágatha ajoelhou-se ao seu lado. Trazia consigo um pedaço de pano roubado e uma pequena tigela de cerâmica com a água de sua própria parca ração.

    Sem dizer uma palavra, ela mergulhou o pano na água e, com uma delicadeza que contrastava com a brutalidade do mundo ao redor, começou a limpar os vergões sangrentos nas costas dele. Cada toque era gentil, mas cada gota de água fria em sua pele rasgada era uma nova onda de agonia. Sêneca permaneceu imóvel, os olhos fechados, mas seus punhos estavam cerrados com tanta força que as unhas cravavam em suas palmas. Ele não estava resistindo à dor física, mas à avalanche de emoções que ameaçava afogá-lo.

    O cuidado dela, a compaixão em seus gestos, era uma tortura mais profunda que o chicote de Lyco. Era um lembrete de tudo o que ele estava prestes a perder. Era um lembrete de que ele se importava.

    Quando ela terminou, ele ainda não se moveu. Ágatha se encolheu ao seu lado, e após alguns minutos de silêncio, sua cabeça pendeu para o lado, e ela adormeceu, exausta, com o rosto ainda manchado de lágrimas e fuligem.

    O dia da visita chegava num trotar barulhento dos pés dos escravos que acelerava cada vez mais o ritmo de trabalho.

    Na véspera do dia em que a caravana chegaria para levá-lo, Sêneca não dormiu. Estava reflexivo. Não era sua primeira vez trocando de mestres. Sua vida até então era moldada pelo enrijecimento da mente frente ao sofrimento.

    A irredutibilidade de uma mente impassível frente a uma vontade sonhadora.

    Sêneca abriu os olhos em sua rede. Ele olhou para a pequena figura adormecida ao seu lado, tão frágil e tão resiliente. E sua fortaleza de apatia desmoronou. “Aceite o que não pode mudar”, diziam os mestres. Ele passou duas décadas aceitando.

    Por que hoje seria o dia de mudar sua mente e modo de viver?

    Seus olhos se fecharam mais uma vez.

    Uma tosse seca tirou Sêneca de seu torpor noturno.

    Era tarde da noite. Ágatha, com a garganta seca, esgueirou-se para fora para pegar água. O velho se forçou a permanecer deitado. Não devia fazer nada. O próximo dia logo chegaria e tudo se resolveria.

    Foi quando viu uma sombra passar em frente ao túnel. Uma sombra conhecida.

    Seus olhos se arregalaram e antes que sua mente pudesse protestar, já estava de pé. 

    Esgueirou-se entre as vigas de madeira nas paredes de pedra, seguindo na direção que Ágatha havia seguido. Um ruído estranho o fez sobressaltar, seus passos se tornaram mais leves. 

    Ágata enchia seu odre com a água de um balde sujo, Sêneca estava prestes a se aproximar para puxá-la de volta para o túnel, quando ele viu Lyco, o guarda, surgindo das sombras de uma das vigas de madeira com um sorriso predatório.

    — O que uma ratinha como você faz acordada a essa hora? — Sua voz frígida e sorridente.

    Ágatha se virou assustada, derrubando o balde no chão.

    Ela não teve tempo de gritar. Lyco pulou e tapou sua boca com a mão. Os grandes olhos assustados da garota o encararam com pavor.

    — Shhhhh- Não acorde os outros. — Ele sussurrou.

    A pobre menina ficou paralisada de medo.

    Lyco sorriu com perversidade e apertou o braço da garota com força. — Que tal fazermos uma visitinha aos mortos essa noite?

    A frase acompanhou um puxão. Ele a conduziu forçadamente até o túnel fétido. O poço. O lugar onde os mortos dessa temporada de crueldade fria e sem sentido da história das minas estavam sendo descartados.

    O silêncio retornou ao terreiro das minas. A noite voltou a chilrear com seus ventos inconstantes que assobiaram ao entrar por cima, pelo topo da mina.

    A cabeça de Sêneca latejava. Sua mão forçava com violência um aperto contra o próprio peito. Um  oco se expandia em seu espírito a cada segundo que se passava.

    “Não chore pelo que não pode ser mudado.” Ele pensou.

    “O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário.” Ele afirmou.

    Os mantras ecoavam em sua mente, esvaziando-o não dos sentimentos que ele queria se recusar a sentir, mas sim da crença que tinha naqueles ensinamentos.

    Sua respiração se tornou irregular, até o momento em que parou.

    — Muitas vezes erra não apenas quem faz, mas também quem deixa de fazer alguma coisa.

    Do fundo do túnel dos mortos, o mundo era uma moldura retangular de escuridão, a única fresta de luz do luar que ousava adentrar o poço, se perdia em sua primeira curva. 

    Lyco arrastou a garota por aquele chão imundo e rançoso que fedia a lama de sangue. Agatha tentou gritar mas tinha sua boca coberta.

    O ar aqui era parado, pesado, espesso com o cheiro adocicado e rançoso da decomposição.

    Quando se deu por si, Ágatha estava sendo jogada no chão. A violência a fez escapar do choque do rapto.

    Quando abriu os olhos, sua visão foi obstruída por uma parede grotesca, uma barricada de corpos empilhados uns sobre os outros. Membros rígidos e silhuetas de cabeças se projetavam na escuridão, criando frestas macabras através das quais apenas os vermes da terra se aventuravam.

    Lyco andou até a garota que estava jogada no chão, e com um movimento violento, puxou a túnica da garota pelo ombro.

    O ruído que ela fez rasgando pareceu alto demais no silêncio do túmulo de escravos. A menina chorou em pânico com sua parte superior agora desnuda. Um gemido de puro pavor ecoou fracamente entre os corpos empilhados.

    Com um sorriso perverso e diabólico, o predador afrouxou sua cinta, prestes a consumar sua crueldade na entrada daquela cova.

    — Agora você pode gritar bastante, ratinha. — Sua voz repleta de sádica satisfação. — Ou melhor, eu quero que você grite-

    Foi quando percebeu na penumbra a mudança de expressão no rosto da garota, o pavor direcionado a ele, sendo substituído pelo susto.

    Um rugido. Extremamente humano, brutal. Não o de uma fúria bestial, mas o grunhido que pareceu vir das próprias entranhas da montanha, contido por décadas. Não continha raiva, nem desespero. Continha força, certeza.

    Lyco não teve tempo de se virar completamente, sua cabeça parou no meio do caminho quando uma picareta desceu com o furor de um trovão, cravando-se na parte de trás de sua cabeça.

    — Kuhghgkhhh- — Os olhos do guarda reviraram, sua cabeça se tornando uma pintura mórbida de sangue.

    Seu corpo tremeu e seus joelhos despencaram na hora, e ele ficou pendurado pela ferramenta que ainda jazia presa em sua cabeça.

    Outro grunhido acompanhou o golpe que soltou o corpo do guarda da ponta da picareta.

    Acima do predador, a silhueta de Sêneca ficou parada, o peito subindo e descendo, a picareta ainda em suas mãos. Ele olhou para o corpo em sua frente, agora parte da montanha que ele havia ajudado a criar.

    Ele então se virou para a figura trêmula de Ágatha.

    Sêneca largou o instrumento no mesmo instante. O som metálico no chão de pedra foi agudo e final. 

    Ele se aproximou da menina, ajudando-a a se levantar e a cobrir os ombros com os restos de sua túnica. Pegou a espada caída do guarda morto. Do fundo do túnel, o que se via era apenas o contorno de um homem protegendo uma criança na soleira de uma tumba.

    Ele a tranquilizou, disse que tudo ficaria bem. 

    e as duas silhuetas desapareceram no pátio iluminado pela lua, deixando o túnel dos mortos para sua paz profana. Só que agora, havia um corpo a mais na escuridão. Um corpo que não morrera de fome ou exaustão, mas de uma justiça terrível e necessária.

    — Volte para o túnel, pequena. — Sua voz era suave, mas firme. — Descanse. Vai ficar tudo bem.

    Ela o fitou com os olhos marejados, antes de fungar. Havia aprendido a confiar em sua palavra. Enxugou as lágrimas e se levantou, segurando o tecido rasgado contra seu seio nu, e apressou-se para a saída do poço.

    O velho a observou virar a esquina do túnel e desaparecer para a noite. Então, ele se levantou, com a espada na mão, e olhou para a escuridão da mina. Sua filosofia não o havia abandonado. Ela apenas havia mudado. 

    Pensando no que se seguiria ao amanhecer, ele ponderou com a espada em mãos, não queria correr o risco de deixar a garota para trás. E então, ajoelhou-se, usando sua perna de apoio para o braço, a mão apenas um pouco à frente do joelho. Uma guilhotina improvisada.

    Ele ergue a espada no alto e sorri satisfeito. O homem que erra não é apenas quem faz, mas também quem deixa de fazer. Naquela noite, Sêneca havia escolhido não errar.

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