Capítulo 92 | A Verdadeira Face do Amor
Teseu baixou o braço ao sentir uma dor aguda onde a cerâmica havia impactado. Cacos de barro e água cobriam o chão da caverna ao seu redor. Diante dele, Eudora arfava com os punhos cerrados ao lado do corpo e o rosto corado de fúria, sem medo algum em sua postura com o maxilar cerrado numa determinação feroz.
Plutarco surgiu na entrada, apoiando-se na rocha para recuperar o fôlego após a subida final. Seus olhos varreram a cena rapidamente: os destroços no chão, a mulher enfurecida e Teseu recuando, com a expressão atordoada. Antes que o escriba pudesse perguntar algo, Eudora se moveu, contornou o atordoado Teseu e correu para a saída, empurrando o pobre Plutarco que caiu contra a parede da caverna indefeso.
Sem qualquer grau de compreensão, Teseu correu atrás dela, com medo de que o monstro se levantasse e a atacasse de novo.
No estreito corredor de pedra, sob a luz implacável do meio-dia, o corpo de Argos Panoptes permanecia imóvel onde caíra. A poeira da batalha já havia assentado sobre sua pele cinzenta e áspera.
Eudora se jogou de joelhos ao lado da cabeça do gigante e suas mãos tocaram a face da criatura sem hesitação. Ela limpou o sangue que escorria de um corte na testa dele com a manga de sua túnica de lã.
— Argos… — ela chamou, a voz embargada.
Ela acariciou as pálpebras fechadas dos muitos olhos que pontilhavam o ombro e o pescoço do monstro. Teseu observou o toque com estranheza enquanto apertava o cabo de sua espada.
Eudora era firme e familiar, sem mostrar qualquer repulsa pela criatura. Ela ergueu a cabeça pesada de Argos levemente, acomodando-a em seu colo, e inclinou o corpo para frente, protegendo o rosto dele do sol direto com sua própria sombra.

Teseu parou a alguns metros de distância, embainhando a espada lentamente. A confusão nublava sua mente à mesma medida em que o sol do meio-dia torrava os seus miolos.
Plutarco parou ao lado de Teseu. O escriba observou a mulher cuidando da besta caída, notando o contraste entre a pele clara dela e a textura rochosa de Argos.
— Parece que a história que nos contaram tinha falhas graves — murmurou Plutarco.
Teseu balançou a cabeça, recusando-se a aceitar a cena que se desenrolava à sua frente.
— Não… — ele disse, a voz tensa. Ele deu um passo à frente, apontando a espada para o gigante caído. — Afaste-se dele, senhora. Ele fez algo com sua mente? Enfeitiçou você para que o protegesse?
Eudora levantou os olhos. O carinho que dedicava a Argos desapareceu instantaneamente, substituído por um ranger de dentes incandescido voltado para Teseu.
— Enfeitiçada? — ela repetiu a palavra como um cuspe. — Você acha que preciso de magia para distinguir um monstro de um homem?
— Ele é uma besta! — Teseu insistiu, apontando para os múltiplos olhos fechados no corpo de Argos. — Olhe para ele! Kreon disse que ele a levou à força. Você não está pensando com clareza.
Eudora soltou uma risada curta e amarga, um som sem qualquer alegria.
— Kreon? — Ela se levantou, colocando-se entre Teseu e Argos, os braços abertos como um escudo humano. — Que ironia ele falar que alguém me levou à força. Argos é bondoso! Algo que você, com sua espada e sua armadura brilhante, parece desconhecer completamente.
Teseu engasgou frente às acusações. Não via o olhar da moça vacilar. Estaria mesmo hipnotizada?
A narrativa do herói salvador, que ele havia construído em sua mente desde a praça de Mylae, estava desmoronando tijolo por tijolo.
— Do que você está falando? — Teseu perguntou, a voz áspera. — Ele implorou por ajuda na praça da cidade. Disse que um monstro a havia levado à força. Ele estava… desesperado.
— Desesperado? — a pergunta veio acompanhada de um sorriso irônico. — Sim, imagino que estivesse. Não faz o tipo dele desistir de algo depois de pagar tão caro.
Ela fechou os braços e seu rosto finalmente abaixou um pouco. Sua pose firme e protetiva vacilou por um momento e deu lugar a um pesar mnêmico.
— Meu pai era um mercador de azeite de Corinto, o mais famoso e requisitado da região… — começou ela após um suspiro pesado — Um dia, ele conheceu uma moça em Atenas, aparentemente desconhecida, de bom caráter e família. Ela o convenceu a investir em um negócio novo na cidade, disse que teria um retorno rápido e seguro…
Ao lado de Teseu, Plutarco raspava suas tabuletas com fervor, registrando cada palavra com entusiasmo.
— Dias depois, a moça contou que as mercadorias haviam sido furtadas e que, por isso, o dinheiro do meu pai foi perdido… Ficamos sem fundos pra manter os negócios… — As mãos de Eudora se apertaram contra o tecido da túnica.
Teseu ouvia pacientemente, dividindo sua atenção entre a história da moça e o monstro adormecido no chão, ainda desconfiado.
Os grandes olhos caídos de Eudora então se crivaram em raiva. Ela se voltou do chão para o rapaz à sua frente e, rangendo os dentes, continuou.
— Foi quando Kreon apareceu oferecendo herdar as dívidas da minha família e ceder terras férteis ao meu pai em troca da minha mão. Eu não fui cortejada, garoto. Eu fui vendida. Como uma cabra ou um pedaço de mobília.
Teseu olhou para Plutarco, que mantinha a expressão neutra, mas anotava cada palavra dedicadamente. A história de Kreon sobre o “amor roubado” começava a parecer uma peça de teatro mal escrita.
— Ele me trancou em sua casa — continuou Eudora, abraçando a si mesma como se sentisse frio, apesar do calor do dia. — Dizia que era para minha proteção, mas eu via a chave girar na porta todas as noites.
Ela se virou para a figura imóvel de Argos.
— Então eu fugi. Escolhi a morte nas montanhas à vida naquela gaiola de mármore. Subi até aqui apenas com um cavalo, sem comida, sem água, esperando que os lobos ou o frio me levassem. — Sua voz suavizou. — Mas quem me encontrou foi ele.
Teseu olhou para o gigante. A pele cinzenta, os muitos olhos fechados. Era difícil ver benevolência naquela forma.
— Eu desmaiei de exaustão perto do riacho — disse ela. — Quando acordei, estava aqui, nesta caverna. Havia fogo, comida e peles quentes. E ele estava lá fora, vigiando.
Ela caminhou de volta e se ajoelhou ao lado do monstro.
— Ele nunca me tocou. Nunca exigiu nada. Por semanas, ele apenas… cuidou. Deixava frutas na entrada, trazia água fresca. Ele me deu a liberdade que meu próprio pai me negou. E com o tempo, eu parei de ver os olhos e comecei a ver o homem. — Ela encarou Teseu com desafio. — O que seu amigo chama de sequestro, eu chamo de salvação.
O peso daquelas palavras esmagou Teseu. Seus ombros pesavam mais agora do que quando vestia a armadura. Ele havia subido a montanha para matar uma besta e resgatar uma donzela. Em vez disso, atacou seu guardião e tentou devolvê-la ao cárcere.
— Eu… — Teseu começou, mas as palavras de desculpas pareciam insuficientes.
Um som baixo e profundo interrompeu o momento. Um gemido que vibrou no chão da caverna.
Argos se mexeu.
Eudora segurou a mão imensa do gigante.
— Estou aqui. Está tudo bem.
Os olhos de Argos começaram a se abrir. Não apenas os dois em seu rosto, mas dezenas deles em seu peito e ombros, piscando desordenadamente enquanto a consciência retornava. Ele tentou se sentar, mas a dor nos calcanhares o fez grunhir.
Ele olhou para Eudora, verificando se ela estava ferida. Ao ver que ela estava bem, seus muitos olhos se voltaram para Teseu. O garoto levou a mão ao cabo da espada por instinto, esperando fúria, esperando um ataque.
Mas o gigante não rugiu, nem se levantou.
— Porventura, feneceu a virtude dos Tempos Áureos, ou foi a cegueira da estirpe mortal que se erigiu em suprema regra?
Quando Argos abriu a boca, sua voz grave e profunda preencheu o espaço. O grego era antigo, formal, com uma cadência que não se ouvia há séculos.
Teseu ficou paralisado. O “monstro” falava melhor do que todos os nobres que ele já conhecera e não ter entendido a sua pergunta machucava mais a sua honra que os golpes durante a luta.

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