Índice de Capítulo

    Os dois estavam paralisados com as costas contra a parede da carroça. As sensações escaparam de seus sentidos. O mundo pareceu parar quando aquele cadáver se ergueu no ar. 

    O brilho verde fosco, necrótico, obscuro, enchia de angústia e dúvida a mente dos dois rapazes. Teseu principalmente. O garoto havia se preparado mentalmente quando seu companheiro o aconselhou a rezar, mas com certeza não esperava nada do que estava acontecendo.

    A voz falhou em sair de sua garganta quando ele, desesperado e com o corpo tremendo, clamando pela fuga, tentou chamar a atenção de Hermes para pedir que eles saíssem dali. Seus olhos, também, não conseguiam se desgrudar da coisa.

    Hermes, por outro lado, movido não pelo medo, mas por uma curiosidade mórbida, jazia também paralisado contra a parede. Seu queixo caído e os olhos abertos em espanto tentando discernir o que estava acontecendo ao corpo do Arconte.

    Quando o cadáver tremeu, em mais um espasmo de sua cabeça invertida, Teseu finalmente se viu livre de seu torpor e conseguiu transfigurar seu desespero em palavras.

    — He-Hermes- — Ele gaguejou. A voz saiu falhada, sussurrante, como se o próprio ar do ambiente estivesse impedindo que ele se pronunciasse.

    O garoto engoliu em seco, e tentou continuar, mas…

    — Huuuuuugh-

    A boca do Arconte se moveu, um som grotesco cavando seu caminho para fora dela. Um lamento, um gemido, úmido, engasgado que inundou e ressoou nas paredes de madeira de uma maneira não natural.

    Hermes tomou a frente do garoto com o braço que mais uma vez havia se virado para o corpo com um semblante assustado. Seu rosto agora estava sério, seus dentes rangidos, não sabia o que esperar.

    Levou a outra mão ao cabo da espada, pronto para sacá-la.

    Foi quando a cabeça de Dídimo, que antes estava virada para uma das paredes da carroça, girou, observando os dois rapazes com a mesma expressão sombria e profana de alguém que nada mais devia observar.

    Hermes observou com cautela por um tempo e, quando percebeu que a criatura não se movia mais, começou a refletir.

    Seus olhos caminharam por toda a figura do morto e então pararam na moeda. Sua mente estava a mil e, por um motivo que ele próprio parecia desconhecer, uma sugestão surgiu.

    Ele respirou fundo, a mão ainda no cabo da espada.

    — Q-Quem é você? — A voz do Deus ecoou no silêncio absoluto do interior da carroça, repleta de incerteza.

    Um segundo de silêncio se passou, Teseu encarava Hermes com as sobrancelhas franzidas em espanto.

    Foi quando a coisa falou. Sua boca se movia lentamente.

    — Eu… Sou… Arconte… Dídimo… — Cada palavra saía de maneira estranha da boca da criatura fazendo seu caminho pela garganta de uma maneira quase física. Ou era o que aparentava com toda aquela ondulação visível quando o morto produzia algum som.

    Hermes sorriu com uma admiração mórbida. Teseu deu mais um passo para trás, se afastando do amigo. Seu rosto num misto de espanto e tormento.

    O deus caído entendeu. Era o poder da moeda. A energia maligna do tártaro somada ao domínio da morte. Aquilo havia trazido Dídimo de volta de alguma forma e por algum motivo.

    O Arconte morto, aparentemente, não oferecia riscos naquela forma.

    — O que houve com você?

    — Morto… Ladrões… Estrada… — A voz medonha e ecoante mais uma vez preencheu o espaço entre as paredes de madeira.

    A dúvida apareceu no rosto de Hermes, a resposta não foi muito satisfatória. Talvez precisasse ser mais específico. Pôs-se a pensar por mais algum tempo antes de resolver fazer outra pergunta. Foi então que se lembrou do que deu início a toda a situação.

    — Por que você veio até esta mina comprar escravos?

    A resposta não demorou a vir. Um gargarejo sinistro a antecedeu, uma fumaça verde escapando da boca completamente aberta de Dídimo.

    — Ordem… Pessoa… Manto…

    Com a constatação, Hermes sorriu mais amplamente. Parece que tudo estava mesmo conectado. Descobrir mais aqui seria um passo gigantesco para solucionar esse mistério.

    O interesse mórbido de Hermes despertou ainda mais o espanto de Teseu. O pequeno garoto estava paralisado, ainda sem conseguir considerar como verdade a cena que estava vendo. O cadáver podre do Arconte, morto a um dia inteiro, frio, fétido. Este corpo estava flutuando na sua frente com um brilho esverdeado. O mesmo brilho que havia escapado do corpo morto de Gérion na forma de fumaça e se alojado naquela moeda misteriosa que Hermes carregava.

    Toda a situação parecia fora da realidade. Desde que encontrou aquele monstro lobo, nada parecia normal. Haveria ele morrido e encontrado os caminhos do submundo?

    Tudo isto era um sonho, ou melhor, um pesadelo?

    Por que Hermes agia com tanta naturalidade frente àquilo?

    Naquele momento, no entanto, parecia que só lhe restava o papel de observar.

    Hermes, concentrado em sua atividade investigativa, seguia com o interrogatório. Seus olhos focados na figura do Arconte flutuante. A próxima pergunta pairava em sua mente, era óbvia, mas sua resposta também o parecia.

    — Quem era a pessoa? — Ele perguntou, sua voz e olhar repletos de expectativa. Seu rosto se projetou um pouco para frente, ansioso para ouvir a resposta.

    Silêncio.

    A boca do Arconte não se moveu. Hermes estalou a língua.

    “Tch. Acho que ele também não sabe.” Constatou.

    — E por que ela queria que você comprasse esses escravos daqui? — Hermes prosseguiu, impaciente.

    A garganta do morto mais uma vez se agitou, como se um líquido a percorresse por dentro de uma maneira bizarra, mas o que saiu foi apenas a voz rouca e grotesca de Dídimo, em um eco profano e explicativo.

    — Sacrifícios… Poder… Deus… — As palavras saíram com dificuldade.

    A resposta aflorou a curiosidade de Hermes. Seus pensamentos conflituosos foram interrompidos por uma voz atrás dele.

    — Um sacrifício? Mas quem seria louco de matar tantas pessoas em nome de deuses mortos? — A voz do pequeno Teseu cortou o clima solitário que prevalecera até então naquela carroça.

    Pela primeira vez no que parecia ser uma eternidade, uma voz quebrou aquele interrogatório linear e sem saída.

    A pergunta de Teseu, nascida da mais pura e aterrorizada curiosidade, pairou no ar por um instante. Hermes, que estava prestes a fazer outra pergunta tática, virou-se para o garoto. A interrupção o irritou por uma fração de segundo, mas a lógica na questão de Teseu era inegável. Por que sacrificar tantos em nome de divindades que os próprios homens haviam esquecido? Ele voltou seu olhar para o cadáver flutuante.

    — O garoto perguntou — disse Hermes, sua voz agora um comando afiado. — Para qual deus seriam os sacrifícios?

    A figura de Dídimo tremeu, e o brilho verde em seus olhos pareceu piscar, como a chama de uma vela em uma corrente de ar. A voz que saiu de sua garganta era ainda mais fraca, um sussurro que soava como folhas secas se arrastando no chão.

    — O… Esquecido… Aquele… que… anseia…

    A resposta era um enigma, uma charada que apenas aprofundava o mistério em vez de solucioná-lo. “O Esquecido”. Hermes franziu o cenho. Havia muitos deuses e entidades menores que haviam se perdido no tempo. A resposta não ajudava. Ele se preparou para pressionar por um nome, por algo mais concreto, mas percebeu com um alarme crescente que a luz nos olhos do cadáver estava diminuindo visivelmente. A levitação do tronco estava menos estável, oscilando levemente no ar. O poder da moeda, a energia que animava aquela casca, estava se esvaindo.

    Ele sentiu um leve desespero. Estava tão perto de desvendar uma parte daquele quebra-cabeça, mas sua ferramenta estava falhando. Que outras pistas ele poderia arrancar daquele receptáculo moribundo antes que o silêncio o tomasse para sempre? Sua mente correu, pensando no que mais poderia ajudá-lo, no que mais importava.

    — Hermes! — A voz de Teseu era um apelo urgente, que o tirou de sua frustração. — Sêneca! Pergunte sobre Sêneca! Uma cura!

    Hermes olhou para Teseu. O rosto do garoto era uma mistura de medo e esperança desesperada. Em meio a deuses esquecidos e conspirações cósmicas, o problema real, o problema que importava naquele instante, era a vida de um velho filósofo morrendo em um túnel escuro. Por um momento, Hermes sentiu o impulso de dispensar o pedido, de usar os últimos segundos de poder para arrancar um segredo maior. Mas então ele olhou para os olhos de Teseu e viu neles não apenas um pedido por um amigo, mas um teste para ele mesmo. Que tipo de homem ele seria? Um que sacrificava os seus por um mistério, ou um que lutava por cada vida sob sua responsabilidade?

    Ele se virou para o cadáver, cuja luz agora era apenas um brilho fraco.

    — Há uma cura para a infecção que consome o velho? — perguntou ele, sua voz clara e urgente.

    O corpo de Dídimo deu um último e violento espasmo. Sua boca se abriu em um esforço final, a luz verde em sua garganta quase se apagando.

    — Therma… — a voz foi um último e arrastado suspiro. — A… feiticeira… Circe…

    E com essa palavra final, o brilho verde nos olhos e na boca de Dídimo se extinguiu por completo. O corpo, livre da força profana que o animava, caiu pesadamente sobre a pilha de outros cadáveres com um baque surdo e final. O silêncio voltou a reinar na carroça, um silêncio agora absoluto e pesado.

    Hermes ficou parado, seu olhar se estreitou, processando o nome. Circe. Uma feiticeira lendária. Se ela ainda vivesse, seria uma entidade de poder imenso. Ele olhou para Teseu, que o encarava com uma expectativa ansiosa.

    Sem uma palavra, Hermes se aproximou da pilha de corpos e, cuidadosamente, estendeu a mão para a testa de Dídimo.

    — Não toque nisso! — Teseu advertiu mais uma vez, mas Hermes o ignorou.

    Ele segurou a borda da moeda e a puxou. Ela saiu da carne do nobre sem qualquer dificuldade, como se nunca tivesse estado presa ali. Ao segurá-la, Hermes notou a mudança imediatamente. O frio que queimava sua pele havia sumido. A moeda estava em uma temperatura neutra, quase morna, como uma pedra que ficara sob o sol. Estava dormente. Saciada.

    Mas no instante em que a moeda se soltou, o buraco na testa de Dídimo não ficou vazio. Dele, irrompeu uma nova nuvem de fumaça esverdeada, densa e rápida, idêntica à que ele vira sair do corpo de Gérion. A névoa necrótica se lançou em sua direção.

    Desta vez, Hermes não a largou.

    Ele segurou a moeda com firmeza, preparando-se para o impacto. O medo e o instinto gritavam para que ele a soltasse, para que fugisse daquela energia profana. Mas sua curiosidade, sua necessidade de entender aquele poder, foi mais forte. Ele não seria mais uma vítima de forças que não compreendia. Ele as confrontaria.

    A nuvem de fumaça esverdeada o atingiu e, em vez de feri-lo, o atravessou, focando-se inteiramente na moeda em sua mão. Ele sentiu a força da absorção, uma corrente de vento violenta que fez seu chlamy preto e seus cabelos brancos esvoaçarem descontroladamente. A energia penetrava o metal escuro com um zumbido baixo e faminto.

    — Hermes, largue isso! É perigoso! — Teseu gritou, correndo em sua direção para tentar arrancar a moeda de sua mão.

    Ele não conseguiu alcançá-lo. Antes que pudesse tocá-lo, uma onda de energia invisível emanou de Hermes e da moeda, arremessando o garoto para longe. Teseu voou para trás e bateu com força contra uma das paredes de madeira da carroça, caindo no chão, atordoado.

    O fenômeno durou mais alguns segundos. Toda a fumaça foi sugada para dentro da moeda até que a última partícula de névoa desaparecesse. E então, o silêncio. O vento parou. O zumbido cessou.

    Hermes abriu os olhos, que havia fechado durante o impacto. Ele olhou para a moeda em sua mão. Ela estava diferente. Mais pesada. Mais fria do que nunca. E o brilho verde em seu interior parecia mais forte, mais vivo.

    Ele se virou lentamente e encontrou o olhar de Teseu, que se levantava com dificuldade do outro lado da carroça. O garoto não dizia nada. Apenas o encarava, seu rosto uma mistura de medo, confusão e talvez, pela primeira vez, uma ponta de pavor direcionada não ao que estava lá fora, mas ao homem à sua frente.

    Eles se encararam em silêncio por um longo momento, o deus caído e o garoto mortal, o abismo entre eles agora preenchido por um poder antigo e terrível.

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