Índice de Capítulo

    Splash

    — ACORDA MALDITO!

    Um grito e balde d’água retiraram Hermes de seu profundo descanso.

    O susto o fez espernear em cima daquele frio piso de madeira. Ele se virou, desnorteado, na direção a qual havia vindo, tanto o grito, quanto a água.

    Avistou um grupo de pessoas. Miseráveis, sujas, doentes. Velhos, mulheres, homens e crianças.

    Todos olhavam para ele inexpressivos. O ambiente, porém, transparecia o sentimento de tristeza e exploração.

    Hermes sentiu adentrar suas narinas, junto a um ar pesado e úmido, um cheiro fétido de excrementos, urina, sangue, e todo o tipo de imundícies de que se lembrava.

    — Levanta daí, branquelo! — Um homem de aparência rude e com uma armadura de couro grunhiu entre dentes para Hermes, que repousava recolhido contra as grades no fundo daquela gaiola enorme de madeira.

    Aquelas pessoas seguiam atravessando a curta entrada da jaula. Todas ligadas por uma corrente, dos pés e mãos de um, aos pés e mãos do outro, e assim por diante.

    Hermes tentou adquirir algum discernimento daquela situação. Não tinha ideia de como havia vindo parar ali. Sua mente estava nebulosa e suas memórias embaralhadas e sombrias.

    Olhou em volta, reconhecendo o local como uma espécie de cela de madeira.

    Não foi deixado com muito tempo para pensar. Um puxão em seus braços e pernas o fizeram perceber que também estava preso às mesmas correntes as quais estavam os outros.

    O bruto encarou impacientemente o homem de cabelos brancos, rangendo os dentes.

    Hermes olha para o lado, percebendo então que estava numa carroça.

    — Onde eu estou, mortal? — O rapaz pergunta para o bruto, com um olhar perdido.

    “Mortal?” O homem sentiu que estava sendo inferiorizado. A fúria o tomou.

    Um mero escravo, como poderia?

    — Esse desgraçado! — Ele se põe a entrar na gaiola.

    Hermes o encarou confuso.

    O homem então puxou de sua cintura um chicote. Um chicote de couro, fino e delgado.

    Hermes não parecia amedrontado. O homem rangeu os dentes e força o aperto no cabo do chicote, o erguendo ao alto.

    Schlap

    Uma chicotada acertou Hermes direto em sua face, o fazendo virar o rosto.

    Ele arregalou os olhos, surpreso, e então levou dois de seus dedos à face, constatando então um corte na região de sua bochecha. E, por fim, uma ardência crescente naquela região.

    “Dor?” O choque tomou conta de seu rosto.

    Como pôde um mero mortal provocar dor em um Deus? E o pior, ferí-lo?

    O guarda não o deu tempo de se virar, e seguiu o golpeando.

    Schlap Schlap Schlap

    Hermes levantou os braços na frente do rosto, tentando evitar os golpes. 

    Não adiantou.

    Sua boca se contorceu com a dor. Seus olhos se fecharam.

    Ele apertou o punho e enrijeceu todos os músculos em seu corpo, os forçando, como se tentando realizar algo. Nada aconteceu.

    Seus olhos se abriram, ainda mais chocados que antes.

    “Ma-mas o que aconteceu com os meus-” O homem não lhe deixou tempo para refletir.

    As chicotadas continuaram.

    Hermes rangeu os dentes, se recolhendo no chão. Impotente.

    A água nele arremessada anteriormente potencializa a sensação de ardência ao escorrer em cada um dos cortes provocados pelos golpes.

     — Hump- Hak — O soldado ruge, utilizando cada vez mais força em seus golpes.

    — Ghahah- Gah- Argh- — Hermes gemeu de dor, agonizando no chão molhado de madeira.

    Arqueou as costas aflito.

    O sangue do rapaz começara a voar dentro da gaiola, arremessado tanto pelos impactos, quanto pelo balançar do ensopado chicote.

    Hermes estava atônito. Sua mente e corpo estavam um caos.

    De tanto ranger os dentes para suportar a dor, sua boca também havia começado a sangrar. 

    Hermes pareceu indefeso, submisso à dor, e isto pareceu fazer o homem se sentir realizado. Ele sorriu de maneira doentia, balançando o chicote de maneira rítmica, como se escutasse música no barulho dos impactos do objeto contra as costas do pobre rapaz.

    As pessoas conversavam um tanto desesperadas do lado de fora da carroça, algumas gritando, clamando por auxílio para o jovem que era surrado covardemente.

    Hermes não conseguia escutá-los.

    Alguém entrou na carroça de maneira apressada.

    — HUMP!

    Pump

    O chicote cessou de repente.

    O soldado estava no chão, uma marca de punho jazia vermelha em sua face.

    — Você quer morrer? — Um homem alto e intimidante de armadura negra perguntou em um tom raivoso.

    — Ma-mas capitão Íxion, ele- — O homem no chão tentou retrucar, apontando para Hermes que se retorcia no chão com dores.

    — ENTÃO VOCÊ QUER MORRER!? — Íxion repetiu maneira muito mais agressiva. — VOCÊ QUER MATAR A MERCADORIA DO LORDE? — Ele gritou cuspindo rudemente no rosto de seu subordinado.

    — Na-Não senhor, eu só- — O homem no chão, amedrontado, se recolhe no canto da cela. Tal qual havia feito Hermes anteriormente.

    Íxion não lhe deu chances. 

    PUMP Creck

    Um soco encontrou o nariz do guarda no chão, claramente o quebrando pelo som ecoando na quase vazia carroça.

    O capitão segurou seu subordinado pelo colarinho, o arrastando para a entrada da carroça, e então o arremessando de lá para fora.

    Ele se virou, e encontrou Hermes no chão. Tremendo com a ardência em suas costas.

    — Humpf- Está vivo. — Ele refletiu em voz alta, seu rosto rígido agora mais relaxado.

    Se aproximando do rapaz, ele agachou ao seu lado. Segurando a axila do rapaz que encarava o chão, chocado, ele tentou erguê-lo. Hermes resistiu.

    — Levanta, senão eu mesmo finalizo o trabalho. — Íxion falou em um tom ameaçador.

    Hermes não viu alternativas.

    Em meio à dor e ardência de suas costas, e a fraqueza em suas pernas, ele se força a levantar. Suas pernas bambeiam, e ele é segurado pelo pescoço por Íxion.

    Este o arrasta, do mesmo jeito que fez com o soldado de antes, e então o joga para fora, de novo, do mesmo jeito que fez antes.

    O rapaz cai de cara num chão lamacento, manchando toda sua fronte. Seu rosto, parcialmente afogado em lama, força-se a se levantar.

    E então, ele consegue, com ajuda do mesmo que o havia posto naquela situação, ficar de pé.

    Sua visão contempla, finalmente, o ambiente no qual se encontra.

    Inúmeras pessoas, ainda mais miseráveis quanto as anteriores, todas enfileiradas lateralmente.

    O lugar é uma espécie de colina gramada, com uma estrada de lama ao centro em direção ao topo. O sol não parece brilhar tanto. Provavelmente falta pouco para que se ponha.

    Hermes olhou em volta, ainda tremendo, e constatou o que já sabia. Não tinha ideia do que estava acontecendo.

    — Vai, vai pra fila. — Íxion ordenou, empurrando rudemente o rapaz pelas costas.

    A dor do toque rude em suas feridas fez com que Hermes nem sequer relutasse. Ele seguiu andando até a frente de uma das fileiras mais próximas. Íxion ficou para trás, conversando com alguns outros homens de armadura.

    Hermes continuou olhando em volta, seu corpo recolhido, suas costas ardiam com feridas abertas.

    Ele se sentiu surpreso e ao mesmo tempo confuso. Eram muitas pessoas acorrentadas. Sua mente, de repente, teve um estalo.

    — Isso é uma caravana de escravos!? — Ele perguntou com os olhos arregalados.

    “Mas como eu vim parar aqui?” Sua mente confusa buscou respostas que muito provavelmente não o ajudariam em nada. “Eu estava no Olimpo e então—”

    A tentativa de forçar a passagem pela névoa em sua mente foi um erro. A memória não veio, mas fragmentos dela o atacaram. Um clarão de olhos amarelos arregalados em choque e traição. O som agudo e dissonante de uma corda de lira se partindo. A sensação doentia e macia de seu Caduceu perfurando algo que não deveria.

    — Garghh!

    Ele levou as mãos à cabeça, uma dor excruciante penetrando seu crânio como uma lâmina de gelo. Era uma agonia que não vinha de seus ferimentos, mas de sua própria alma, uma barreira violenta que se erguia para impedi-lo de encarar a verdade. Em meio a respirações ofegantes, ele sentiu a dor recuar lentamente, arrastando consigo os fragmentos de memória.

    Ele não conseguia se lembrar do que acontecera, mas o eco da tragédia, a mancha de um pecado imperdoável, permaneceu, fria e pesada em seu peito.

    No topo da colina, pouco acima de onde todos estavam, havia uma espécie de muros de madeira em formato circular cercando todo o local.

    Não demorou muito e um grupo desce de lá, se aproximando dos soldados. Todos em vestes de panos e portando em um lado da cintura, uma espada e noutro um chicote presos por uma faixa de pano.

    Um deles, um tanto barrigudo e maior que todos os outros, se aproximou de Íxion com um sorriso sujo. Possuía cabelo apenas aos lados e uma falha enorme no topo de sua cabeça, além de uma farta barba e um olho aparentemente cego, marcado por uma cicatriz que ia de sua testa até sua bochecha.

    Eles se aproximam lentamente das fileiras de ‘mercadoria’ enquanto conversam calmamente.

    Quando estavam perto o suficiente, Hermes pôde ouvir parte de sua conversa.

    — Dessa vez eu quem estou responsável pelas vendas. E com isso, pelos valores também. — Íxion afirmou em um tom contente com um sorriso vanglorioso.

    — Não pense que vai conseguir me enganar, imbecil! — O outro homem responde com desdém. — Seu chefe já tentou e não conseguiu.

    — Te enganar, Gérion? — Íxion pergunta, levantando a sobrancelha. — Eu jamais tentaria algo assim. — Ele completa com um sorriso malicioso.

    Gérion não pareceu notar, fungou e seguiu analisando as fileiras.

    Íxion parou na primeira fileira, e Gérion seguiu andando em frente a esta, encarando e analisando cada uma das pessoas pelas quais passava.

    Todos olhavam para o chão, com medo de encarar de volta o ogro em sua frente.

    Os homens que vieram com ele acompanhavam de longe a sua caminhada.

    — Este aqui. — Gérion apontou para um rapaz de aparência forte com um olhar vazio.

    Seus homens se aproximaram e soltaram as correntes do homem, levando-o para longe. Ele nem tentou resistir.

    — Este. — Novamente, aponta para outro homem na fila.

    Ele seleciona algumas pessoas, até que chega em um homem com expressão perturbada e de aparência forte.

    Ele ergueu o rosto, adotando uma cor pálida e uma expressão desesperada.

    — Nã-Não! Por favor, eu não! — Ele implorou, juntando as mãos.

    Os homens de Gérion se aproximaram novamente enquanto o ogro seguia caminhando paralelamente à fileira, tendo ignorado completamente o rapaz de há pouco.

    O homem esperneou, lutando contra os homens que o soltavam das correntes e o arrastavam para longe. Ele gritou para Íxion, chamando-o de chefe, e ele o ignorou, observando Gérion em sua seleção criteriosa.

    O homem foi carregado entre a socos e pontapés, até que parasse de resistir.

    Hermes encarou tudo extasiado, observando de longe na segunda fileira.

    Logo, Gérion contornou o fim da primeira fileira.

    Hermes sentiu um calafrio.

    “Eu preciso sair daqui!” Ele pensou.

    Mas, percebendo a situação de seu corpo, e tomando consciência de todo o seu entorno, viu que seria suicídio.

    Ele fechou os olhos, rangeu os dentes e novamente enrijeceu todos os músculos de seu corpo, os forçando. Nada aconteceu.

    Ele sentiu como se estivesse sendo desobedecido. Seu corpo não fazia o que ele estava ordenando.

    Hermes deixou de resistir.

    “Eu… Meu corpo… Eu virei um mortal?” Ele se perguntou, ainda sem querer acreditar.

    Viu-se sem saída.

    — NÃO! MINHA IRMÃ! — Um garoto pequeno atravessou a fileira, correndo de maneira desesperada em direção a Gérion, que segurava pelo braço uma jovem garota.

    O pequeno correu em direção a sua irmã que o encarava com temor.

    — Não! — Ela gritou estendendo o braço para que este parasse.

     Schlap 

    Um chicote acertou o garoto no rosto, o jogando no chão.

    Gérion o encara por cima com desdém.

    E então o menino, com lágrimas em seus olhos, olhou para cima com o lado ferido da face coberto pela mão.

    O ogro sorriu para ele de maneira repugnante, revelando dentes tortos e amarelos dos quais um estava faltando.

    — Não se preocupe, pequeno. — Ele apertou o braço da garota ainda mais forte, a fazendo grunhir com a dor. — Nós vamos cuidar muito bem da sua irmã.

    Gérion lambeu os beiços de uma maneira nojenta. A menina olhou para ele retorcendo os lábios e com os olhos cheios de lágrimas.

    O garotinho se levantou de novo, desesperado, e tentou pular na direção de Gérion, mas foi parado pelos seus homens.

    — NÃO! Não machuquem ele, por favor! — A menina implorou enquanto tentava correr na direção do garoto.

    Gérion a segurou no lugar, e então a puxou pelo queixo, forçando-a a olhar diretamente para ele.

    — Eu me preocuparia mais comigo, se fosse você. — Ele ri de maneira assustadora revelando.

    A menina chora enquanto encara seu irmão sendo levado pelos homens. O menino gritava, se debatendo e chamando pelo nome da garota. Ágatha.

    Logo, ela também foi levada para longe enquanto chamava pelo pequeno irmão. Dante.

    Hermes encarava o chão, pensativo.

    Suas costas ainda ardiam, mas já bem menos que antes.

    — Este aqui está todo arrebentado! — Gérion gritou. — Eu vou querer desconto.

    Hermes levantou o rosto, o grito havia chamado a sua atenção.

    Só então, Hermes percebeu que era a ele a quem as palavras eram direcionadas.

    — Não acho que ele vai conseguir trabalhar tão bem, chefe. — Um dos homens de Gérion afirmou enquanto se aproximava com as chaves. — Me parece meio fraco. — O homem disse com uma expressão casual enquanto usava as chaves nas algemas de Hermes.

    — Que trabalhar o que, Lyco. — Gérion desdenhou — Esse cabelinho dele me deu uma coisa no meio  das pernas! — A afirmação veio acompanhada de um riso alto e escandaloso. — Ele vai ter outra função… — Gérion começou a massagear suas partes com uma expressão nojenta.

    Hermes arregalou os olhos com fúria.

    Não iria aguentar esse ultraje.

    Gérion sorriu para Hermes antes de se virar e fazer gesto de continuar seguindo sua caminhada.

    Logo que foi liberto das correntes, segurou seus grilhões em suas duas mãos, pulando nas costas do ogro. Ele as enrolou em volta do pescoço do gigante e puxou com toda a força que pôde.

    Gérion se assustou e, com os olhos arregalados começou a cambalear com o peso em suas costas, segurando e puxando as correntes.

    — DESGRA- KUHAAK! — Gérion gritou com uma voz rouca, lutando contra o aperto em seu pescoço.

    O companheiro dele encarou boquiaberto, sem saber o que fazer. Não queria acertar o chefe por engano.

    As pessoas na fila fizeram o mesmo. Algumas pareceram assustadas, outras pareciam torcer pelo rapaz.

    Íxion se aproximou com uma expressão séria.

    Gérion tentou socar Hermes no lado de sua cabeça, sem muito sucesso.

    O rapaz havia se colocado completamente nas costas daquele gigante, impedindo-o de acertá-lo diretamente.

    Hermes torceu os grilhões contra o pescoço de Gérion, cruzando os braços com as correntes.

    Íxion chegou.

    Num movimento rápido, ele chutou o calcanhar de Gérion, que caiu para trás desequilibrado, esmagando Hermes. O rapaz revirou os olhos com o imenso peso acima dele.

    O aperto em seu pescoço se soltou e ele se levantou rapidamente.

    — MALDITO! — Gérion gritou rangendo os dentes.

     PUMP  PUMP  THUMP  PUMP 

    Toda a sua raiva foi transmitida a Hermes na forma de chutes e socos.

    O rapaz estava indefeso no chão e pôde apenas se recolher, mais uma vez, com os braços à frente do rosto.

    Hermes não tinha o que fazer.

    Como um deus como ele havia acabado em tal situação?

    Como poderia alguém como ele se sentir tão incapacitado tal qual estava naquele momento?

    Íxion puxou Gérion pelo ombro, o impedindo de continuar.

    Este se virou com um olhar furioso e revoltado.

    — Não antes de pagar, amigo. — Íxion afirmou em um tom sério.

    Gérion encarou Íxion em meio a respiradas fundas, e então puxou seu ombro como um bruto, dando as costas para ele.

    Íxion olhou para Hermes no chão, e então acenou para o companheiro de Gérion ao seu lado.

    — Já que danificaram a mercadoria, vão ter que levar.

    O homem não pareceu ter coragem de retrucar, apesar de claramente o querer.

    Ele levantou Hermes com dificuldade, já que o rapaz era bem mais alto que ele próprio.

    Erguendo o rosto, Hermes encarou Íxion com um olhar mortal rangendo os dentes.

    O homem hesitou, dando uma pequena recuada com o tronco.

    Ele sentiu algo nos olhos de Hermes. Algo ameaçador.

    — Tire esse desgraçado daqui! — Ordenou para o rapaz que já o carregava com dificuldade.

    Íxion encarou os dois fazendo seu caminho para longe.

    O soldado sentiu calafrios encarando as costas feridas de Hermes, e vendo aquele sangue escorrendo de cada ferida.

    Ele sentiu como se, cada cicatriz daquela, fosse um espaço na cela de um monstro que constantemente tentava escapar.

    Tentou afastar esse devaneio sem sentido. Voltou para a ponta da caravana, e esperou até que Gérion estivesse pronto para realizar o pagamento, querendo sair logo daquele lugar. 

    ……………………

    Hermes estava jogado no canto de uma cela suja e fedorenta. Retorcido e abraçado em si mesmo cobrindo seus próprios ferimentos. Até mesmo seus cabelos brancos estavam imundos, da lama, do sangue, do suor.

    Não entendera o motivo de todos os outros escravos terem sido transportados para os andares inferiores da mina e apenas ele ter sido jogado aqui.

    Os guardas não o disseram nada, apenas olhavam com desdém para ele enquanto o carregavam.

    Hermes por muitas vezes os olhou de volta com um olhar furioso e ameaçador, mas a resposta que recebeu deles foram sorrisos e olhares de zombaria.

    A cela tinha uma pequena janela gradeada no centro do teto, e apenas por isso ele sabia que horas haviam se passado e a noite havia chegado.

    Seu corpo quase nu sentia ainda a ardência dos golpes e a friagem do anoitecer. A ele foi concedido apenas uma clâmide rasgada acima da cintura por seus captores, que malmente servia para cobrir suas partes.

    Estava refletindo sobre sua situação atual, e tentando se lembrar de como havia chegado naquele ponto, quando ouviu vários passos se aproximando no corredor de sua prisão.

    Elevou o rosto de seus joelhos na posição em que estava, e esperou seus visitantes se revelarem.

    Uns 4 guardas chegaram e se colocaram de frente às grades, aos lados do portão. Hermes os encarou com um olhar vingativo.

    Eles sorriram.

    E então, atrás deles surgiu. O ogro.

    Gérion caminhou atrás dos guardas encarando Hermes com um sorriso malicioso.

    — Estava me esperando, branquelinho? — Perguntou com seu sorriso repugnante parado em frente ao portão.

    Hermes não respondeu.

    Gérion, deixando um pouco de seu sorriso se esvair, pega a argola com chaves em sua cintura, e então destranca a porta da cela.

    Ele se agacha um pouco e passa pelo pequeno portão enquanto usa uma das mãos para apoiar a base superior da entrada. Gérion é enorme, e isto só se torna mais perceptível em um ambiente apertado como este.

    Os guardas entram logo após ele, e se põem numa fileira atrás do ogro.

    Hermes começa a se levantar, com dificuldade, se apoiando no próprio joelho.

    — Ah, mas nem se preocupe em se levantar- — Gérion disse tomando a frente com um passo. — Você vai passar essa noite inteira no chão.

    Os guardas riram, e Gérion também.

    E então, ele puxa o chicote de sua cintura, dando mais um passo em direção a Hermes.

    Os guardas permaneceram olhando e sorrindo.

    Hermes encarou o gigante à sua frente, de baixo para cima e sem medo.

    A situação de alguma forma lhe parecia familiar, mas ele não sabia o porquê.

    O ogro exalava um odor nojento. Como de excrementos, podridão, sujeira, e suor.

    Hermes tinha a plena certeza que este homem não tomava banho há eras.

    Com um sorriso distorcido, Gérion apertou o punho em volta do cabo do chicote.

    O abrir de sua boca revelou a Hermes mais um de seus componentes fedorentos.

    — Eu não pude terminar o serviço antes. Íxion sempre foi um estraga prazeres. — O titã disse enquanto levantava o chicote.

    Hermes respirou profundamente, se preparando.

    — GRAH-! — Gérion rugiu balançando a arma.

    Hermes estendeu a mão com agilidade em direção ao chicote. E, com muito esforço, conseguiu segurar o chicote antes que o atingisse.

    Sua mão ardeu. Seu rosto se retorceu um pouco com a dor. Mas ele não se permitiu vacilar.

    — Se-Seu merdinha! — Gérion gritou com raiva.

    E então, chutou Hermes diretamente na barriga. Ele não teve forças para desviar, apesar de ter percebido o golpe vindo.

    Seu corpo estava muito fragilizado.

    Seu corpo se chocou contra a parede da cela e caiu no chão.

    — Kuhk- — Hermes gemeu, cuspindo um pouco de sangue.

    E então tentou, mais uma vez, se levantar.

    No movimento abrupto, sentiu sua costela quebrada pelos golpes de mais cedo cutucar alguns de seus órgãos e causar uma dor excruciante.

    Ficou ali de quatro, com a mão sobre a costela e uma expressão de dor.

    Gérion sorriu mais uma vez, dessa vez com um pouco mais de prazer com o sofrimento do rapaz.

    E então, deixou seus olhos percorrerem as costas feridas de Hermes, até seu traseiro quase desnudo coberto parcialmente por uma clâmide rasgada e também com feridas de chicote. Uma gota de suor escorreu de sua testa.

    Ele olhou para o rosto de Hermes que grunhia com a dor de sua costela, e então mostrou um sorriso demoníaco.

    — Eu até estava planejando usar aquela vadiazinha de mais cedo hoje… — Gérion fala se aproximando de Hermes que ainda estava no chão. — Mas você fez por merecer.

    Gérion então usa seu chicote para enforcar Hermes, que assustado leva os braços em direção ao pescoço para tentar se desvencilhar enquanto sufocava com um rosto angustiado.

    — Kuhaaak-!

    — Prendam as mãos dele com o grilhão! — Gérion ordena para seus homens que se aproximam prontamente, e um tanto nervosos, para o obedecerem.

    Hermes olhou para os homens de lado, mesmo em meio ao seu desespero, e os encarou com um olhar assassino. Eles olharam de volta e não vacilaram.

    Certamente tinham mais medo de seu chefe do que de um mero escravo.

    Dois se uniram para segurar as mãos de Hermes em suas costas, e os outros dois se juntaram para prendê-las nas algemas de madeira.

    Gérion então o soltou de seu aperto. E Hermes caiu de cara no chão, sem poder usar seus braços presos para se apoiar.

    Sentiu o rosto sujo por algo fedorento que estava no chão abaixo dele, e o cheiro forte da cela imunda, mais uma vez, invadir suas narinas. Por um momento, teve vontade de vomitar.

    — Kukukuku- — Gérion riu com sua voz repugnante, e então se sentou em cima das pernas de Hermes.

    O rapaz sentiu o peso esvaziar seus pulmões de ar.

    Gérion, então, levou suas mãos e segurou um tufo de cabelo de Hermes, o puxando para mais perto de si.

    — Você sabe, eu gosto que se submetam a mim. — Disse ele no ouvido do rapaz que grunhia com seu tronco sendo esticado e sua costela quebrada sendo forçada. — Mas eu amo quando eles resistem! — Ele disse e então bateu com a cabeça do rapaz contra o chão de pedra da cela.

    Hermes sentiu a dor do impacto e algo escorrer de sua testa. Sua consciência vacilou por um momento, mas ele se manteve acordado.

    Gérion sorriu mais uma vez, e então lambeu os beiços com uma expressão repugnante.

    E então, Gérion desamarrou o pano em sua cintura, deixando sua clâmide cair.

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