Índice de Capítulo

    Hermes e Teseu retornaram ao túnel onde Sêneca jazia, o silêncio entre eles pesado e denso. Teseu caminhava com o olhar baixo, a imagem do cadáver levitando e da fumaça verde se contorcendo gravada em sua mente. O mundo que ele conhecia, um mundo de sofrimento físico e real, havia se estilhaçado, revelando uma camada de horror sobrenatural que ele não conseguia compreender. E Hermes, o homem que caminhava ao seu lado, parecia ser o epicentro daquele terror.

    Dentro do túnel, a atmosfera era ainda mais sufocante. Ágatha não havia se afastado do lado de Sêneca. Ela segurava a mão sã do filósofo, seus olhos vermelhos e inchados fixos no rosto febril dele, como se sua mera presença pudesse mantê-lo ancorado ao mundo dos vivos. Callisto estava ao lado dela, trocando os panos úmidos na testa de Sêneca com uma expressão de profunda preocupação.

    Hermes se aproximou, carregando um pequeno saco de lona que encontrara entre os pertences de Dídimo. Ele o abriu no chão, revelando um punhado de ervas secas e alguns frascos de cerâmica.

    — Encontramos isso. — Disse ele, sua voz um tom neutro que cortava o ar pesado de emoção.

    Callisto se ajoelhou ao seu lado, pegando as ervas e as cheirando com o nariz franzido. Seus dedos, acostumados a rastrear animais e a ler os sinais da floresta, agora analisavam as folhas secas com uma perícia nascida da necessidade.

    — Conheço algumas delas. — Ela disse, separando um punhado de folhas escuras e outras de um verde mais pálido. — Esta é boa para febre. E esta… esta estanca o sangue. Eu era uma caçadora, antes… antes disso tudo. Aprendi com minha avó. Mas a podridão… — Ela olhou para o braço de Sêneca com um desespero profissional. — Nunca vi nada assim.

    Juntas, Callisto e uma Ágatha de olhar atento começaram a preparar um remédio improvisado. Esmagaram as ervas com uma pedra, misturando-as com um pouco de água para formar uma pasta verde e espessa. Com uma delicadeza que contrastava com a crueza do preparado, Callisto começou a aplicá-lo sobre a ferida necrosada de Sêneca, depois de limpar a área com um cuidado extremo. Sêneca gemeu em sua inconsciência, seu corpo se contorcendo de dor. Ágatha segurou sua mão com mais força, sussurrando palavras de conforto que eram mais para si mesma do que para ele.

    Hermes observava a cena, seu rosto uma máscara impenetrável.

    — Isso não vai curá-lo. — Ele afirmou, não com crueldade, mas com a certeza fria de um fato. — Apenas vai retardar o inevitável.

    — Então o que faremos? — A voz de Ágatha era um fio, cheia de desafio e medo. — Vamos deixá-lo morrer?

    — Não. — Hermes respondeu, e pela primeira vez, havia algo diferente em sua voz. Uma resolução. — A única esperança que ele tem não está aqui. Está em Therma.

    Callisto ergueu o olhar, surpresa. — Therma? É uma viagem de dias. E o que há em Therma? Um milagre?

    — Algo parecido. — Disse Hermes. — Há uma curandeira lá. Uma mulher que pode tratar de feridas que até mesmo os deuses temeriam tocar.

    — E como você pode ter tanta certeza? — Ágatha o confrontou, seus olhos marejados fixos nos dele. — Como sabe que essa pessoa existe? Que ela poderá nos ajudar? É arriscado demais! Ele pode morrer no caminho!

    Teseu, que havia permanecido em silêncio no canto do túnel, observava a troca com uma curiosidade intensa. A certeza na voz de Hermes era a mesma que ele usara ao falar sobre Ártemis. Era a certeza de quem não supõe, mas sabe.

    Hermes encontrou o olhar desafiador de Ágatha. Ele desviou o seu por um instante, como se acessasse uma memória distante.

    — Um conhecido… — ele começou, escolhendo as palavras com cuidado. — Alguém que conheci há muito tempo, me falou sobre ela. Uma mulher de poder imenso que vive reclusa nos arredores de Therma. Seu nome é Circe. Se alguém pode salvar Sêneca, é ela.

    O nome pairou no ar, carregado de um peso mítico. Ágatha e Callisto se entreolharam, a dúvida ainda estampada em seus rostos, mas agora misturada com uma centelha de algo que se parecia com esperança. Levar um homem moribundo em uma longa viagem para encontrar uma curandeira lendária era uma aposta desesperada. Mas era a única aposta que eles tinham.

    À metade daquele longo e sangrento dia, um novo tipo de trabalho começou na mina. Não era um trabalho de extração, mas de purificação. Sob as ordens de Theo e Lycomedes, os corpos dos guardas mortos, tanto os da emboscada quanto os da conquista do pátio, foram despidos de tudo de valor que carregavam e arrastados de onde haviam caído. Não havia cerimônia ou lamento. Os rostos dos ex-escravos eram máscaras de determinação sombria. Cada cadáver arrastado era um elo de uma corrente sendo quebrado, um peso do passado sendo removido para que o futuro pudesse nascer.

    Theo, com seu porte imponente, supervisionava o trabalho com uma eficiência silenciosa. Em dado momento, ele se aproximou de Lycomedes, seu rosto com uma expressão intrigada.

    — Encontramos mais um. — Disse ele em voz baixa. — Um dos guardas de Gérion, dentro do túnel dos mortos. Tinha a cabeça esmagada por uma picareta. Estranho.

    Lycomedes apenas acenou com a cabeça, guardando a informação para si. Havia muitos segredos naquela mina, e aquele era apenas mais um.

    Todos os corpos foram empilhados no centro do pátio principal, uma montanha grotesca de sangue e carne. Então, a mando de Theo, carroças e mais carroças de carvão, o mesmo carvão que eles haviam extraído com seu suor e sangue, foram trazidas e despejadas sobre a pilha, criando uma pira funerária colossal e escura. Não era um funeral para honrar os mortos, mas um ritual para apagá-los da existência. Para garantir que ninguém jamais descobrisse o que havia acontecido ali. Para que o passado se tornasse cinzas.

    Hermes observava à distância, ao lado da tenda improvisada onde Sêneca ardia em febre. Ao lado dele, Teseu e Ágatha assistiam em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos.

    Com um aceno de Theo, um dos rebeldes se aproximou com uma tocha. Ele a arremessou sobre a montanha de carvão. Por um momento, nada aconteceu. Então, uma pequena chama lambeu o carvão, depois outra, e em poucos minutos, a pira inteira irrompeu em um inferno crepitante. O fogo subia alto, as chamas alaranjadas dançando contra o céu que começava a escurecer, consumindo a carne, o couro e o metal com uma fome voraz. O cheiro de carne queimada encheu o ar, mas para os ex-escravos, não era um cheiro de morte. Era o cheiro da liberdade. Um passo final e necessário.

    Foi em frente a essa fogueira purificadora que Theo e Lycomedes se aproximaram de Hermes. As chamas dançavam em seus rostos, criando sombras que se contorciam.

    — O passado foi reduzido a cinzas. — Disse Lycomedes, sua voz calma como sempre, mas com um novo peso. — Agora, precisamos olhar para o futuro.

    — E o futuro é incerto. — Theo completou, cruzando os braços. — Somos livres, mas também somos alvos. Quando a notícia da queda desta mina se espalhar, outros virão. Exércitos, caçadores de escravos… Não podemos ficar aqui para sempre. Precisamos de um líder.

    O olhar dos dois homens estava fixo em Hermes.

    — Nós precisamos de você. — Theo afirmou, sem rodeios. — Você nos mostrou que a força pode ser guiada pela astúcia. Você tem o poder para nos proteger e a ambição para nos levar adiante. As pessoas aqui… elas temem você, mas também o respeitam. Elas o seguirão. — Ele fez uma pausa, um sorriso sombrio tocando seus lábios. — Se você ao menos praticasse um pouco mais de sua simpatia.

    Hermes ouviu em silêncio, seu rosto impassível iluminado pelo brilho da pira. Um sorriso de canto, quase imperceptível, surgiu em seu rosto.

    — Sua fé em mim é… equivocada. — Ele disse, sua voz calma. — Eu tenho meus próprios assuntos inacabados para perseguir. Assuntos que me levariam para longe daqui, para caminhos que vocês não podem seguir. Não tenho tempo para governar um grupo, e menos ainda o desejo de liderar um.

    Ele olhou de Theo para Lycomedes, e seu olhar era de uma avaliação genuína.

    — Vocês não precisam de mim. Vocês têm a si mesmos. Você, Theo, tem a força e o carisma para inspirá-los a lutar. E você, Lycomedes, tem a sabedoria e a calma para guiá-los na paz. Vocês são os líderes de que este povo precisa.

    Ele deu um passo mais perto, sua voz agora um conselho. — Deixem a Calcídica. Este lugar está manchado de sangue e memórias. Sigam para o sul, para as partes mais baixas de Hélade. Encontrem terras vazias, longe das grandes pólis. Construam algo novo, algo de vocês. Façam com que a liberdade que conquistaram hoje tenha um significado amanhã.

    O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo crepitar do fogo. Theo e Lycomedes se entreolharam, absorvendo a verdade e o peso das palavras de Hermes. Ele não estava os abandonando; estava lhes dando a sua própria soberania.

    Ao final daquele dia, com a grande pira agora apenas um monte de brasas brilhantes, a despedida aconteceu. Uma única carroça foi preparada, carregando suprimentos, um Sêneca inconsciente e febril, e os três companheiros de destino. O restante do grupo, agora uma comunidade livre sob a liderança de Theo e Lycomedes, reuniu-se na entrada da mina para se despedir.

    Houve abraços, promessas de reencontro e lágrimas silenciosas. Ágatha se despediu de Callisto, que lhe deu um pequeno saco com as ervas restantes. Teseu recebeu um aceno de cabeça respeitoso de Theo.

    Então, com um último olhar para a mina que fora sua prisão e seu campo de batalha, Hermes subiu na carroça. Ele estalou as rédeas, e o veículo começou a se mover lentamente, afastando-se da multidão.

    O capítulo terminou com a carroça solitária seguindo por uma estrada de terra, emoldurada por um pôr do sol magnífico que pintava o céu de laranja, roxo e dourado. Atrás deles, a mina e seu passado de cinzas. À frente, a cidade de Therma e um futuro tão incerto quanto belo.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota