Capítulo 31 | Sussurros na Estrada.
A carroça rangia, um som monótono e constante que era a única trilha sonora de sua jornada. As rodas esmagavam a terra seca da estrada, levantando uma poeira fina que dançava sob a luz da lua crescente. O mundo ao redor era uma vastidão de campos escuros e colinas distantes, silhuetas silenciosas contra um céu salpicado de estrelas. A noite avançava com eles, uma companheira fria e indiferente.
Na frente, Hermes conduzia os cavalos com uma firmeza silenciosa. Seus ombros estavam tensos, sua atenção totalmente voltada para a estrada à frente, como se esperasse que uma ameaça surgisse da escuridão a qualquer momento. Mas seus ouvidos não estavam na estrada. Estavam na conversa que se desenrolava em voz baixa atrás dele.
Na parte de trás da carroça, o espaço era apertado e cheirava a feno e a remédio de ervas. Sêneca jazia sob um cobertor, sua respiração um chiado raso e febril. Ao seu lado, Ágatha e Teseu estavam sentados, a proximidade forçada criando uma intimidade desconfortável.
Foi Ágatha quem quebrou o silêncio que já durava horas.
— Agouri? — Ela sussurrou, usando o nome que conhecera na mina, o nome do menino assustado que se escondia atrás de seu irmão mais velho.
Teseu demorou um momento para responder, o nome o atingindo como um eco de um passado distante, de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.
— Meu nome não é mais Agouri. — Ele disse, sua voz mais baixa e rouca do que ela se lembrava. — Agora é Teseu.
Ágatha franziu a testa, confusa. — Mas Teseu era…
— Meu irmão. — Ele completou, seus olhos fixos na escuridão da estrada. — Eu peguei o nome dele. Para… para que ele não seja esquecido.
Um silêncio pesado caiu entre eles. Ágatha absorveu a informação, seus olhos grandes e tristes estudando o perfil do garoto ao seu lado. Ele parecia mais velho do que quando o vira pela última vez. Havia uma seriedade em seu rosto, uma sombra em seus olhos que não estava lá antes.
— O que aconteceu? — ela perguntou, sua voz cuidadosa, quase temerosa da resposta. — Depois que vocês saíram. Depois que levaram você e… e ele.
Teseu engoliu em seco. Ele podia sentir o olhar de Hermes em suas costas, mesmo que o homem não se virasse. Ele não queria reviver aquilo, a villa, a crueldade, o sangue.
— Fomos levados para o leste. Para a propriedade de um nobre. — Ele começou, sua voz vaga. — As coisas… foram difíceis. Hermes nos tirou de lá.
— E seu irmão? — A pergunta de Ágatha era inevitável, um fio de esperança em sua voz. — Onde ele está?
Teseu fechou os olhos. A imagem do corpo sem vida de seu irmão no chão daquele salão luxuoso veio à sua mente, tão nítida e dolorosa como se tivesse acontecido há um segundo.
— Ele não conseguiu. — A voz de Teseu era um sussurro quebrado. — Ele… ele morreu lá. Mas morreu como um herói. Protegendo a todos nós.
Ágatha levou a mão à boca, um soluço abafado escapando. Ela não fez mais perguntas sobre ele, entendendo a dor na voz do amigo. Ela apenas estendeu a mão e, hesitando por um momento, tocou o braço dele. Um pequeno gesto de conforto em um mundo que não oferecia nenhum.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, o único som sendo o ranger da carroça e a respiração febril de Sêneca.
— Coisas estranhas estão acontecendo, Ágatha. — Teseu disse de repente, sua voz baixa, como se compartilhasse um segredo proibido. — Desde que saímos da mina… eu vi coisas. Coisas que não deveriam existir.
Ágatha o ouvia com atenção, seus olhos fixos nos dele na penumbra.
— Eu já não sei mais o que é real e o que não é. — Ele continuou, seu corpo se inclinando um pouco mais para perto dela, instintivamente se afastando da figura que conduzia a carroça.
Ele olhou para a frente por um instante, para as costas retas e imóveis de Hermes, antes de baixar a voz ainda mais, até que se tornasse um sussurro que mal podia ser ouvido acima do ranger das rodas.
Ele continuou, sua voz uma confissão na escuridão.
— Vi um monstro que era maior que as árvores. Vi um homem morto se levantar e falar. Vi… vi Hermes controlar uma energia que… que não pertencia a este mundo.
Ele estremeceu, a memória do corpo de Dídimo levitando e da fumaça verde o assombrando.
— Eu não sei quem ele é. Ou o que ele é. Ele nos salvou, nos libertou. Mas há uma escuridão nele, Ágatha. Uma escuridão que me assusta. Às vezes, quando olho para ele, sinto o mesmo medo que senti quando encarei aquele monstro na floresta.
Na frente da carroça, Hermes não se moveu. Seu corpo permaneceu uma estátua de concentração, os ombros tensos, o olhar fixo na estrada escura à frente. Para qualquer um que o observasse, ele parecia alheio a tudo, perdido na monotonia da viagem. Mas, em um movimento quase imperceptível, seus dedos se apertaram em torno das rédeas de couro, com força suficiente para deixar as marcas de suas unhas na superfície gasta. Cada palavra sussurrada, cada respiração de medo de Teseu, havia chegado a ele tão claramente como se tivesse sido gritada em seu ouvido.
A noite avançava junto a eles, indiferente aos medos sussurrados de um garoto e aos segredos silenciosamente ouvidos por um deus.
As horas se arrastaram com a mesma monotonia do ranger das rodas. A lua subiu ao seu ápice e começou sua lenta descida, pintando o mundo em tons de prata e cinza. O cansaço, um inimigo que Hermes não conhecia em sua vida divina, agora era um predador que o caçava implacavelmente. Seus ombros doíam, seus olhos ardiam pela falta de sono, e sua mente, normalmente afiada como uma lâmina, estava turva pela exaustão de dias de viagem quase ininterrupta.
Ele olhou por cima do ombro. Na parte de trás da carroça, a conversa havia morrido há muito tempo. Ágatha dormia, a cabeça encostada no feno, seu rosto finalmente em paz. Teseu também havia cedido ao cansaço, seu corpo esparramado de forma desajeitada na armadura grande demais. O som da respiração febril de Sêneca era o único sinal de que ele ainda estava ali. Estavam vulneráveis. Dependiam dele.
“Não posso parar. Não posso fechar os olhos.” A frase se tornou um mantra em sua mente. Ele pensou nos sussurros de Teseu. “Uma escuridão que me assusta.” As palavras do garoto eram como cacos de vidro em seu peito. Ele os estava protegendo, mas a que custo? Eles o viam não como um salvador, mas como algo a ser temido, outro monstro em um mundo já repleto deles. A ironia era amarga.
Ele sentiu uma vontade súbita de descer, de caminhar ao lado da carroça para esticar as pernas e sentir o chão sob seus pés, para lutar contra a sonolência. Mas ao analisar a escuridão que os envolvia — as árvores retorcidas que pareciam garras, as sombras que dançavam na beira da estrada — ele desistiu da ideia.
Uma sensação incômoda começou a subir por sua espinha. Ele se sentia observado.
Não era o olhar de um animal noturno ou de um batedor escondido. Era algo mais. Uma pressão no ar, um peso em sua nuca, como se olhos que não pertenciam a este mundo estivessem fixos nele. Seria real, ou apenas sua mente, exausta, criando fantasmas na escuridão? Ele apertou as rédeas, forçando-se a focar na estrada.
A viagem seguiu por mais algum tempo. O balanço da carroça era hipnótico, o som das rodas, uma canção de ninar monótona. Seus pensamentos vagaram para a moeda em seu bolso, para a energia fria que ela continha, para a voz que saíra da boca de um morto. Circe. Therma. A missão. As palavras se embaralharam em sua mente…
Ele fechou os olhos. Apenas por um instante. Um único e pesado instante de escuridão e alívio.
Um solavanco violento.
Hermes abriu os olhos de repente, o coração disparado no peito. O pânico o inundou. Ele havia cochilado. Os cavalos, sem guia, haviam desviado da estrada e a roda da frente da carroça estava a centímetros de uma vala profunda, uma queda que certamente os teria esmagado.
Com um grito rouco, ele puxou as rédeas com uma força violenta, forçando os cavalos assustados a pararem e a recuarem para a segurança da estrada. Seu corpo tremia com a adrenalina. Ele se levantou, o suor frio escorrendo por sua testa, e olhou de novo para trás.
Seus amigos ainda dormiam pesadamente, alheios ao desastre que quase os atingira. A culpa o atingiu com força. Ele, o guardião, quase os levara à morte por um momento de fraqueza.
Ele se sentou novamente, o corpo ainda tenso, e foi então que percebeu.
Algo estava cravado na madeira do banco ao seu lado. Uma flecha.
Não era uma flecha comum. Era negra como a noite, com penas escuras e silenciosas. Não fizera barulho algum ao atingir a carroça. Preso à sua haste, havia um pequeno pedaço de papiro enrolado.

Suas mãos tremiam levemente enquanto ele pegava o papel e o desenrolava sob a luz da lua.
As palavras, escritas com uma tinta escura e elegante, eram poucas, mas carregadas de uma ameaça inconfundível.
“Pare de investigar. Que o que está esquecido assim permaneça.”
Um arrepio gélido percorreu Hermes, um arrepio que nada tinha a ver com o cansaço ou com a brisa da noite. Era um aviso direto. Alguém sabia. Sabia sobre a moeda, sobre o interrogatório, sobre sua busca. Seus olhos varreram a escuridão ao redor, procurando pela origem da flecha. E, por acaso, ou talvez por instinto, sua atenção se voltou para a linha de árvores em uma floresta distante, à sua esquerda.
Lá, entre os galhos escuros, ele viu.
Dois pontos de um vermelho carmesim, brilhando na escuridão. Olhos. Eles o observavam com uma intensidade predatória, sem piscar. A figura a que pertenciam estava completamente envolta pelas sombras, indistinguível. Mas os olhos… os olhos eram inconfundíveis.
A figura pareceu perceber que havia sido avistada. Os olhos vermelhos se estreitaram e, em um movimento fluido, recuaram para dentro da floresta, desaparecendo por completo.
Hermes ficou parado, a respiração presa na garganta. Ele não estava sendo seguido por soldados ou bandidos. Estava sendo caçado por algo mais. Algo que se movia nas sombras, que conhecia seus segredos e que o queria longe da verdade. Lentamente, sua mão desceu e apertou com força o cabo de sua xiphos, o aço frio um consolo pequeno e insuficiente contra o terror sobrenatural que agora o cercava.
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