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    Um feixe de luz da manhã, dourado e suave, atravessou uma fresta na lona da carroça, dançando sobre as partículas de poeira suspensas no ar. O som constante das rodas havia cessado. O silêncio era tão profundo que pareceu estranho, quase alarmante. Foi isso que despertou Ágatha.

    Ela se sentou, o corpo dolorido pela posição desajeitada em que dormira. Seus primeiros pensamentos, como haviam sido em todas as manhãs desde que deixaram a mina, foram para Sêneca. Ela se inclinou sobre o corpo do filósofo e, com a mão trêmula, tocou sua testa. Um suspiro de alívio escapou de seus lábios. A febre não havia desaparecido, mas parecia ter baixado. A pele dele, antes ardente como uma brasa, agora estava apenas quente. Ele descansava, a respiração ainda rasa, mas mais estável. A pasta de ervas de Callisto parecia ter feito algum efeito. Era uma pequena vitória, uma frágil centelha de esperança na escuridão.

    Com o coração um pouco mais leve, ela olhou para a frente da carroça. Estava vazia. Hermes não estava lá.

    Um pânico sutil começou a subir por sua garganta. Ele os teria abandonado? A ideia pareceu absurda no momento em que surgiu. Apesar de sua escuridão e de seu comportamento assustador, ele os havia salvado, os havia guiado. Ele não iria simplesmente desaparecer.

    Cuidadosamente para não acordar Teseu, ela desceu da carroça. O ar da manhã era fresco e limpo, carregado com o cheiro de orvalho e terra úmida. Estavam parados na beira de uma estrada de terra, ao lado de uma floresta densa e verdejante. Foi quando ela ouviu. Um som que ela quase havia esquecido. O som suave e constante de água corrente.

    A curiosidade, uma emoção que a miséria quase extinguira nela, falou mais alto. Ela seguiu o som, embrenhando-se na floresta. As árvores altas filtravam a luz do sol, criando um santuário de sombras e luz. O chão era macio sob seus pés, coberto de folhas e musgo. Era um mundo diferente daquele que conhecia, um mundo de pedra fria, poeira e escuridão.

    Após alguns minutos de caminhada, ela o encontrou. Um rio. Não era grande, mas a água era cristalina, correndo sobre pedras lisas e arredondadas, brilhando sob o sol da manhã. Ela se aproximou da margem, maravilhada. Havia tanto tempo que não via água limpa. A visão a transportou para uma infância distante, para memórias de um tempo antes das minas, antes da dor.

    Foi então que ela o viu.

    Do outro lado do rio, um pouco mais abaixo na correnteza, estava Hermes. Ele estava de costas para ela, a água batendo em sua cintura, completamente nu. A luz do sol iluminava suas costas, e o que Ágatha viu a fez prender a respiração.

    Cicatrizes. Dezenas delas. Era uma tapeçaria de dor. Havia as marcas finas e entrelaçadas das chicotadas, algumas antigas, outras mais recentes. Havia as cicatrizes redondas e feias de queimaduras. Havia cortes, perfurações, feridas que contavam a história de batalhas e torturas que ela mal podia imaginar que ele havia enfrentado. Quase todas estavam completamente curadas, pálidas contra sua pele, mas uma, em seu antebraço esquerdo, ainda era uma linha vermelha e irritada. Ele se banhava com uma calma despreocupada, alheio ao fato de que estava sendo observado, lavando a sujeira e o sangue de seu corpo como se lavasse as memórias.

    Ágatha ficou paralisada, chocada. O que havia acontecido com aquele homem para que seu corpo se tornasse um mapa de tanto sofrimento?

    Como se sentisse seu olhar, Hermes parou. Ele se virou lentamente, a água escorrendo por seu peito e ombros. E seus olhos dourados encontraram os dela.

    Um silêncio constrangedor e pesado caiu sobre a clareira. Ágatha sentiu o sangue subir ao seu rosto. Ela queria se explicar, dizer que estava apenas procurando por ele, que não queria espioná-lo. Mas as palavras não saíam. Ela estava congelada, a vergonha e a surpresa a prendendo no lugar. Sentia que havia visto algo que não devia. Algo que ele não tinha vontade de mostrar.

    Hermes a encarou por um momento, a boca ligeiramente entreaberta, como se também estivesse surpreso. Então, para o completo espanto de Ágatha, um sorriso se formou em seus lábios. Não era o sorriso frio e distante que ela vira antes. Era um sorriso zombeteiro, cheio de uma arrogância antiga e divertida, algo que não parecia pertencer àquele homem ferido.

    — A vista daqui é agradável, não acha? — A voz dele era provocadora, tingida de uma ironia que ela não ouvia há muito tempo.

    A frase quebrou o feitiço. A vergonha de Ágatha se transformou em surpresa e então, em irritação. Seu rosto, antes pálido, agora estava ruborizado.

    — Seu abusado! — ela gritou, a voz mais alta do que pretendia.

    Ela se virou bruscamente e saiu correndo pela floresta, de volta para a carroça, sem olhar para trás.

    Hermes ergueu uma sobrancelha, o sorriso zombeteiro dando lugar a uma expressão confusa. Não entendeu a raiva dela, era apenas uma brincadeira. Ele apenas deu de ombros e voltou a se banhar, a água fria um alívio para seus músculos cansados.

    Mas a leveza do momento se foi. Ele mergulhou a cabeça na água e, quando emergiu, seu rosto estava sério novamente. Os eventos da noite anterior voltaram com força. A flecha negra. O aviso. Os olhos vermelhos na escuridão. Ele estava sendo caçado, e sua exaustão o tornara descuidado. Quase os matara.

    Ele precisava descansar. Precisava dormir por um dia inteiro, talvez mais, para recuperar sua força e sua clareza mental. Mas não podia. A condição de Sêneca era uma sentença de morte que corria contra o tempo. Cada hora parada era uma hora a menos para o velho. Ele olhou para o céu, frustrado. Não havia saída. Tinha que seguir viagem, e mais rápido. Torcer para que chegassem a uma aldeia, uma cidade, qualquer lugar que oferecesse mais proteção do que uma estrada aberta antes que seu algoz decidisse atacar novamente.

    Com um suspiro pesado, ele saiu da água. Recolheu suas roupas que estavam jogadas na margem e as vestiu. Antes de calçar as sandálias, ele cavou um pouco na terra macia embaixo delas. Dali, ele tirou a pequena moeda escura. Olhou para ela por um momento, para o brilho verde que parecia pulsar fracamente mesmo sob a luz do sol. Ele a guardou em um bolso interno de sua túnica e, depois de esconder cuidadosamente qualquer vestígio de sua presença, começou a caminhada de volta.

    Ao chegar à carroça, Teseu estava acordando, se espreguiçando de forma desajeitada em sua armadura. Ágatha estava sentada na parte de trás, de braços cruzados e com o rosto emburrado, olhando para o lado oposto.

    Hermes coçou a parte de trás da cabeça, ainda sem entender o motivo da irritação dela.

    — Hermes? Já chegamos? — Teseu perguntou, a voz rouca de sono.

    — Ainda falta muito. — A resposta de Hermes foi fria e direta, não com grosseria, mas com cansaço. Ele apontou para a floresta. — Há um rio logo ali. Podem beber água ou se lavar, se quiserem. Mas sejam breves. Partiremos em poucos minutos.

    O rosto de Teseu se iluminou com a notícia. Um banho. Fazia dias que não tomava um banho de verdade. Ao seu lado, Ágatha, apesar de sua irritação, também sentiu uma pontada de desejo. A sensação da água fria e limpa… Era uma lembrança de um mundo que ela pensava ter perdido para sempre. Ela se levantou e, ao passar por Hermes, lançou-lhe um último olhar irritado antes de seguir Teseu em direção ao rio.

    O sol começou sua lenta descida no horizonte, pintando o céu com pinceladas de laranja e púrpura. A breve pausa no rio havia feito bem a Teseu e Ágatha, mas o retorno à estrada trouxe de volta a realidade sombria de sua jornada. Na frente

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