Capítulo 33 | O Campeão da Floresta.
A floresta engoliu Teseu como o mar engole um náufrago. A névoa, que na estrada era apenas um véu, aqui se tornava uma presença física, espessa e úmida, que se agarrava à sua armadura de bronze e abafava todos os sons. O mundo se reduziu a um corredor de árvores escuras e sombras que se contorciam. Ele não via a criatura que o guiava, mas sentia seu chamado, um puxão em sua mente, uma promessa silenciosa de que estava sendo levado a algum lugar. O medo era um nó frio em seu estômago, mas a obediência, nascida de uma impotência absoluta, guiava seus pés.
Após o que pareceu uma eternidade, a floresta se abriu. Ele emergiu em uma pequena clareira circular, um santuário secreto escondido do mundo. As árvores ao redor formavam uma muralha natural, seus galhos se entrelaçando no alto como os dedos de mãos em prece, permitindo que apenas um feixe de luz da lua, pálido e prateado, iluminasse o centro do local. E no centro, havia um altar de pedra. Era antigo, quebrado pelo tempo, coberto por uma manta espessa de vinhas e musgo, como se a própria floresta estivesse tentando reclamá-lo para si.
A névoa parou na borda da clareira, recusando-se a entrar naquele espaço sagrado. O silêncio era profundo, antigo.
— Aproxime-se, pequeno herói.
A voz de uma legião ecoou em sua mente, mas agora parecia mais suave, mais focada. Teseu olhou em volta, procurando pela fonte. Foi quando uma das árvores maiores, um carvalho antigo cuja casca parecia um rosto enrugado, se moveu. Ou melhor, algo se moveu a partir dela.
Uma figura se desprendeu do tronco, não como alguém que estava escondido atrás dele, mas como se fosse parte da própria madeira, ganhando forma a partir da sombra. Era uma mulher. Ou algo que se parecia com uma. Era alta, mais alta que Hermes, com uma graça fluida e antinatural. Sua pele tinha a tonalidade suave da casca de um bétula, e seus cabelos longos e escuros pareciam feitos de musgo e folhas noturnas. Seus olhos… seus olhos brilhavam com uma luz verde e suave, a mesma cor da vida que pulsa sob a terra. Ela era linda, mas de uma forma selvagem, indomada, que não pertencia ao mundo dos homens. Uma dríade.
— Sua jornada tem sido difícil. — A voz dela, agora singular, soava como o sussurro das folhas ao vento. — Você viu a face da morte, a loucura dos homens e o poder de um deus caído.
Teseu recuou um passo, sua mão instintivamente procurando por uma espada que não estava lá. — Quem é você? O que quer de mim?
— Eu sou um eco desta floresta. E você, Teseu, é um escolhido. — Ela sorriu, um sorriso que não mostrava os dentes, mas que parecia carregar a sabedoria de mil estações. — Meu Mestre o observa há muito tempo. Sua jornada faz parte de uma canção antiga, uma profecia que está apenas começando a ser entoada.
— Mestre? Profecia? — A confusão de Teseu se sobrepôs ao seu medo. — Do que está falando?
A dríade deu um passo em sua direção, sua presença enchendo a clareira. — O homem que você chama de Hermes… suas suspeitas sobre ele não são infundadas. Há uma escuridão nele, uma tempestade que ele mal consegue conter.
A menção a Hermes despertou algo em Teseu, primeiro conivência. Estaria correto, afinal, em desconfiar do amigo? Poderia ser verdade que Hermes tinha objetivos ruins?
Ele refletia, quando um lampejo de memória veio a sua mente. Lembrou-se do abraço caloroso do rapaz que o confortou no seu momento de maior dor e desespero. E lembrou-se de suas palavras.
“Vai ficar tudo bem…”
O medo deu lugar a uma irritação protetora. Ele endireitou os ombros, a armadura pesada rangendo com o movimento.
— Não fale dele assim. — A voz de Teseu era firme, desafiadora. — Ele nos salvou. Ele é meu amigo.
— A amizade entre um mortal e uma tempestade raramente termina bem para o mortal. — A dríade disse, seu tom calmo, quase triste.
— Eu não tenho medo! — Teseu retrucou, sua coragem crescendo com sua lealdade. — Mesmo que ele tenha sombras no coração, eu serei a luz que o guiará para fora delas! É isso que um amigo de verdade faria! É isso que um herói faz!
A dríade o olhou com uma expressão que não era de zombaria, mas de uma compaixão melancólica.
— Sua nobreza é como uma flor em um campo de batalha, pequeno herói. Admiro sua coragem, mas não compreende a natureza da escuridão dele. Ela não é um defeito. Ela nasceu com ele, foi forjada nele com um propósito. As sombras que habitam o coração de Hermes nasceram para manter vocês dois separados.
Teseu a encarou, sem entender.
— O caminho de vocês seguirá lado a lado por um tempo — ela continuou, sua voz um sussurro profético. — Mas, eventualmente, ele se separará. Ele seguirá a estrada da noite, e você, a do dia. É inevitável. E quando esse dia chegar, você não deve se sentir mal, pois não terá sido por falta de amizade.
— Por quê? — Teseu perguntou, sua raiva agora dando lugar a uma curiosidade dolorosa.
A dríade o olhou com seus olhos verdes e sábios.
— Porque vocês são seres de ordens diferentes.
A frase pairou no ar, enigmática e final. Ordens diferentes. O que aquilo significava? Teseu sentiu um arrepio, a sensação de que estava na borda de um conhecimento vasto e perigoso demais para sua compreensão. A dríade sorriu tristemente, como se soubesse a confusão que suas palavras haviam plantado na mente do garoto.
— Isso — ela disse suavemente — será esclarecido com o tempo.
A frase da dríade — “seres de ordens diferentes” — pairou na clareira como a névoa que a cercava, fria e impenetrável. Teseu, frustrado com os enigmas, sentiu a urgência de sua situação real retornar com força. A vida de Sêneca se esvaía a cada segundo que ele passava ali, ouvindo profecias.
— Isso não importa agora. — Ele disse, a voz mais firme. — Você disse que podia ajudar. Meu amigo… ele está morrendo. Você pode curá-lo?
A dríade inclinou a cabeça, seu cabelo de musgo balançando suavemente. — O pequeno herói se enganou. Eu não disse que curaria o velho. Eu disse que o ajudaria.
A raiva brilhou nos olhos de Teseu. — Então você me enganou! Me trouxe até aqui com mentiras!
— Acalme-se. — A voz dela era como um bálsamo, acalmando a fúria do garoto contra a sua vontade. — A cura que seu amigo busca já está no caminho de vocês. Mas para chegar até ela, ele precisa sobreviver à jornada. A febre consome sua força, a infecção devora sua carne. É com isso que a floresta pode ajudar. Podemos dar a ele o tempo de que precisa.
Teseu a encarou, o conflito estampado em seu rosto. Era uma tábua de salvação, mas ele sabia, instintivamente, que ela não viria de graça.
— Faça. — Ele disse, sua voz um sussurro. — Se pode ajudá-lo, faça-o. O mais rápido possível.
— Para que o poder da floresta flua através de você e para seu amigo, há uma condição. — A dríade afirmou, seus olhos verdes fixos nos dele.
Teseu recuou um passo. Era isso. A armadilha. O pacto com uma criatura das sombras em troca de sua alma. Ele já ouvira histórias assim, contadas em sussurros ao redor das fogueiras.
Como se lesse sua mente, a dríade sorriu. — Não tema, pequeno herói. Não quero sua alma, nem nada que você precise perder.
— Então… qual é a condição? — Teseu perguntou, desconfiado.
A dríade deu um passo à frente, sua figura alta e etérea parecendo ainda mais imponente. Sua voz, antes um sussurro, agora era um convite, quase uma ordem.
— Torne-se nosso campeão.
A frase o deixou sem palavras. — Campeão? Campeão de quem? O que isso significa?
— Significa que você dará o primeiro passo para se tornar o herói que nasceu para ser. — Ela respondeu, sua voz novamente enigmática. — Que você lutará por nós quando o chamarmos. Que você será a espada da floresta no mundo dos homens.
Teseu ponderou, o peso da decisão esmagando-o. De um lado, Sêneca morrendo. Do outro, um pacto misterioso com uma entidade que ele não compreendia. Mas as palavras dela ecoavam em sua mente: “o primeiro passo para se tornar um herói”. Era o sonho de seu irmão. Era o seu sonho. Ele olhou para o chão, para suas mãos calejadas, e depois de volta para a dríade. Ele precisava aceitar. Por Sêneca. Por seu irmão. Por si mesmo.
— Eu aceito.
Um sorriso triste tocou os lábios da dríade. Ela olhou para o céu através da copa das árvores, como se ouvisse algo que ele não podia.
— O momento não é o ideal. — Ela disse, sua voz agora carregada de uma urgência sombria. — Há uma sombra perigosa que espreita o seu caminho, campeão. Por isso, você não terá tempo o suficiente para maturar no ritmo certo. Você precisava de anos; agora, só temos instantes.
Ela se voltou para ele, seus olhos verdes fixos nos dele. — Eu terei que pular algumas etapas. Forçar o desabrochar. E por isso… vai doer um pouco.
Ela ergueu o braço e acenou, pedindo em silêncio que ele se aproximasse. Um sorriso tenro em seu rosto.
Hesitante, Teseu deu um passo à frente, depois outro, até parar em frente a ela. Ela era mais alta do que ele, e ele teve que erguer a cabeça para encará-la. Com uma delicadeza que o surpreendeu, ela o segurou pelos ombros. Ele, tímido, desviou o olhar. Então, ela se inclinou e o beijou.
O beijo foi suave, com o gosto de terra úmida e folhas de menta. Ele se assustou e sentiu um calor estranho preencher seu corpo, uma sensação que não era mágica, mas natural, como o sol da primavera após um longo inverno.
Achou estranho, não sentira dor alguma. Teria o espírito da floresta se enganado?
Mas então, o calor se tornou fogo, uma explosão de energia verde e crua que invadiu sua boca. O gosto era de terra, ozônio e sangue. Sua língua queimou como se tivesse sido tocada por uma brasa, e a dor, uma agonia branca e ofuscante, disparou por cada nervo de seu corpo.
Ele gritou, um som abafado contra os lábios dela, e tentou se desvencilhar. Mas os dedos dela, agora fortes como raízes, cravaram-se em seus ombros, segurando-o no lugar. Ele sentiu seu corpo inteiro ardendo em chamas, como se estivesse sendo desfeito e refeito ao mesmo tempo, anos de crescimento e provação sendo forçados em segundos de tortura. As unhas dela, afiadas como espinhos, arranharam seu pescoço, e a dor se tornou insuportável. Ele fechou os olhos com força, lágrimas de pura agonia escorrendo por seu rosto, e se entregou à escuridão/.

Então, tão subitamente quanto começou, a dor cessou. O aperto diminuiu.
Ele abriu os olhos, ofegante. A dríade estava se afastando, seu corpo começando a se dissolver em milhares de pequenos pontos de luz verde, como vaga-lumes em uma noite de verão. Ela acenou para ele, um último sorriso em seus lábios.
— Obrigada… herói.
Quando ela sumiu por completo, deixando-o sozinho na clareira silenciosa, ele ouviu a voz dela mais uma vez, um sussurro relaxante em seu ouvido.
— Volte para a carroça. Toque a testa de seu amigo com a palma da mão.
Ele cambaleou para fora da clareira, seu corpo ainda tremendo, e voltou para a estrada. A névoa já havia se dissipado. Ele subiu na carroça. Hermes e Ágatha ainda dormiam profundamente. Com o coração aos pulos, ele se ajoelhou ao lado de Sêneca e, hesitantemente, colocou a palma de sua mão na testa quente do filósofo.
Ele sentiu. Aos poucos, o calor febril de Sêneca pareceu fluir para sua mão, mas não como uma queimadura. Era absorvido, neutralizado. Sua própria mão esquentou, depois seu braço, mas era um calor reconfortante. Ele observou, maravilhado, enquanto a respiração de Sêneca se tornava mais calma, mais regular.
Um sorriso de alívio e surpresa iluminou seu rosto. Funcionou.
Foi quando Hermes se mexeu. Ele acordou com um sobressalto, sentando-se abruptamente e olhando para o céu.
— Já anoiteceu… — ele murmurou, a voz rouca, olhando para Teseu com confusão e uma ponta de irritação. — Eu disse para me acordar…
Teseu, pensando rápido, escondeu a mão que ainda formigava. — A noite acabou de cair. Eu já estava… indo te acordar.
Hermes o encarou por um momento, seus olhos dourados tentando perscrutar a verdade no rosto do garoto. Mas a exaustão venceu. Ele suspirou. — Certo. Você fez bem. Eu estava certo em confiar em você.
O alívio de Teseu foi imenso, mas veio acompanhado de uma pontada de culpa. Ele forçou um sorriso.
— Eu nunca deixaria meus amigos na mão.
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