Capítulo 34 | Boas Vindas a Therma.
Therma era um ataque aos sentidos, um monstro de ruído e cheiros que os engoliu por inteiro. Após semanas na quietude sombria de florestas e na desolação de estradas de terra, a cidade portuária era uma explosão de vida caótica. O ar era espesso com o cheiro de sal do mar, de peixe secando ao sol e de especiarias exóticas que vinham dos porões dos navios atracados no porto. O som era uma cacofonia constante: mercadores gritando suas ofertas com vozes roucas, marinheiros cantando canções obscenas em línguas que eles não compreendiam, o martelar distante de ferreiros e o murmúrio incessante de uma multidão que nunca parecia descansar.

Hermes guiou a carroça pelas ruas estreitas e apinhadas, seus olhos dourados varrendo cada rosto, cada beco, com uma cautela que beirava a paranoia. Finalmente, encontrou uma viela mais calma, um beco esquecido atrás de um armazém de grãos, para dar um momento de descanso aos cavalos e a si mesmo. O barulho da cidade foi abafado, tornando-se um zumbido distante.
Foi Ágatha quem trouxe a primeira boa notícia em dias. Ela desceu da parte de trás da carroça, seus olhos brilhando com uma esperança que não se via neles há muito tempo.
— Hermes, Teseu! — Ela chamou, a voz um sussurro animado. — A febre dele… está estável. Não piorou desde ontem à noite. Acho que as ervas e o seu toque estão funcionando!
Ela se ajoelhou ao lado de Sêneca, que dormia um sono menos agitado. A pele dele, antes ardente, agora estava apenas quente. Era uma pequena vitória, uma frágil promessa de que talvez houvesse uma chance.
Teseu, que estava sentado na beira da carroça, não compartilhou do otimismo dela. Seu rosto estava sério, o olhar fixo no chão de paralelepípedos.
— Não podemos contar com isso, Ágatha. — A voz dele era baixa e grave, a voz de alguém que envelhecera uma década na última semana. Ele ergueu os olhos, e neles havia um peso que ela não compreendia. — É um alívio, mas não é a cura. Precisamos continuar. Precisamos encontrar algo que possa salvá-lo de verdade.
Hermes, que observava a troca em silêncio, acenou em concordância com o garoto. A lógica de Teseu, nascida de seu próprio e terrível segredo, era a mesma de Hermes: a esperança era uma distração perigosa. O objetivo era Circe.
A busca, no entanto, provou ser um mergulho em um poço de silêncio e medo. Eles eram estrangeiros e faziam perguntas demais, as roupas estranhas os marcavam como párias. Na primeira taverna em que entraram, um lugar escuro que fedia a vinho barato e suor, Hermes se aproximou do taverneiro, um homem corpulento com uma cicatriz no rosto.
— Estamos procurando por uma mulher. Uma curandeira de nome Circe, dizem que ela é muito boa no que faz.
O taverneiro parou de limpar uma caneca e o encarou por um longo momento. Então, ele soltou uma gargalhada alta e rascante. — Circe? — Ele zombou. — Você está procurando encrenca ou é só um idiota, forasteiro? Não compra nada e já chega fazendo perguntas sem sentido.
Ele cuspiu no chão e voltou ao seu trabalho, ignorando-os completamente
Hermes se irritou, mas resolveu seguir para outro lugar. As respostas variaram tanto quanto a pergunta, ninguém parecia saber de nada.
Frustrada, Ágatha tentou uma abordagem diferente. Em uma pequena praça, perto de um santuário dedicado a Asclépio, ela viu uma mulher mais velha vendendo amuletos de proteção. Com uma voz tímida, ela perguntou:
— Com licença, senhora. Estamos desesperados. Nosso amigo está muito doente. Ouvimos falar de uma mulher… Circe…
A vendedora recuou como se tivesse visto uma serpente, seus olhos se arregalando de pavor. Ela fez um sinal com a mão para afastar o mal. — Não diga esse nome! — Ela sibilou, sua voz um sussurro assustado. — Ela não é uma curandeira, é uma bruxa! Uma demônia que vive na escuridão e se alimenta da desgraça alheia! Vão embora! Levem sua má sorte para longe daqui!
Ela se virou, recolhendo suas mercadorias apressadamente e os deixando sozinhos no meio da praça, sob os olhares desconfiados dos outros que apesar de não terem escutado a conversa, viram a reação assustada da moça que saiu de perto deles.
Hermes estalou a língua. Ele sabia que o nome de Circe era um tabu, envolto em medo e superstição, mas isso era só para quem acreditava nessas coisas. Pelo que ele sabia, ninguém nos tempos atuais deveria crer na existência dessa mulher, muito menos temê-la assim.
Ele pensou que se ela realmente estivesse por aqui, teria assumido a persona de uma curandeira ou algo do tipo e que, por isso, não seria tão difícil de encontrá-la. Aparentemente, estava enganado.
Cansados e desanimados, eles vagavam por uma área de mercado mais movimentada seguindo o fluxo da multidão, mergulhando mais fundo no coração de Therma enquanto o sol começava a se pôr. Para Hermes e Ágatha, o caos era uma frustração, um obstáculo. Para Teseu, no entanto, era uma revelação.
Ele andava com os olhos arregalados, a cabeça virando de um lado para o outro, tentando absorver tudo de uma vez. A mina era um mundo vertical, um poço de pedra cinza e escuridão. Therma era um labirinto horizontal, um emaranhado de vida pulsante e cores que ele não sabia que existiam.

As construções pareciam se espremer umas contra as outras, como se competissem por um pedaço de terra à beira-mar. Eram prédios de dois, três, até quatro andares, com paredes de estuque em tons de ocre e terracota, manchadas pela maresia e pelo tempo. Pequenas janelas com venezianas de madeira escura pontilhavam as fachadas, e varandas estreitas se projetavam sobre a rua, criando um teto improvisado sobre as cabeças da multidão. E acima de tudo, espreitando a cidade como um gigante adormecido, erguia-se a muralha imponente de uma montanha escura, cujas encostas íngremes pareciam abraçar e sufocar Therma ao mesmo tempo.
A rua principal era um rio de corpos que fluía entre as casas e o porto. Teseu nunca havia visto tantas pessoas em um só lugar. Eram homens de ombros largos e braços fortes, provavelmente estivadores e marinheiros com a pele curtida pelo sol, vestindo túnicas simples que deixavam seus torsos nus. Havia mercadores apressados, com suas túnicas de melhor qualidade, e mulheres que equilibravam cestos na cabeça com uma graça impressionante. O murmúrio constante de mil conversas se misturava ao grito das gaivotas e ao cheiro de peixe frito vindo das barracas de comida que se alinhavam sob toldos de lona gasta.
Para um garoto que crescera vendo os mesmos rostos de desespero todos os dias, aquela torrente de vida era avassaladora. Ele se sentia maravilhado. Cada rosto na multidão tinha uma história, cada navio no porto tinha um destino, cada prédio apertado guardava segredos. Ele era apenas uma gota anônima naquele oceano de humanidade, e a sensação, pela primeira vez em sua vida, não era de solidão, mas de uma liberdade estonteante. Pela primeira vez, ele não era o escravo Agouri, nem Teseu, o irmão de um herói morto. Ele era apenas… ninguém. E isso era magnífico.
Foi em meio a esse torpor de admiração que seus olhos pousaram em uma figura pequena e solitária, sentada em um caixote ao lado de um monte de maçãs brilhantes
Teseu sentiu uma pontada de pena. O garoto não era muito diferente do que ele mesmo fora um dia. Foi ele quem se aproximou. Hermes assistiu com curiosidade. Não entendeu como aquele menino poderia ser de alguma utilidade.
— Com licença. — Teseu disse, sua voz calma. — Estamos procurando por uma pessoa.
O garoto o olhou de cima a baixo, avaliando a armadura grande demais, o rosto cansado. — Todo mundo está procurando por alguém. — Ele respondeu, a voz mais esperta do que sua idade sugeria.
— Uma curandeira. Dizem que é poderosa. — Teseu perguntou com um sorriso curto e amistoso, tentando parecer amigável para o garoto.
O garoto pegou uma maçã e a poliu nos trapos sujos que vestia. — Curandeiras poderosas não gostam de ser encontradas. E informação custa caro nesta cidade, forasteiro. Uma maçã talvez?

Ele estendeu a fruta com um sorriso malicioso. Hermes estava prestes a tomar a frente, uma ponta de irritação surgindo por perceber que esse garoto claramente planejava passar a perna neles, quando o caos do mercado pareceu se intensificar ao redor deles. Um grupo de marinheiros passou rindo e empurrando, e no meio da confusão, alguém esbarrou com força em Ágatha.
O impacto a derrubou, fazendo-a cair no chão empoeirado.
— Olhe por onde anda! — Hermes rosnou, virando-se com uma irritação faiscante nos olhos para confrontar o responsável.
Mas não havia ninguém. A multidão já havia se movido, um rio de corpos anônimos. A pessoa que a havia derrubado desaparecera tão rápido quanto surgira. Com um suspiro de frustração, Hermes se abaixou e ajudou Ágatha a se levantar. Teseu fez o mesmo.
— Você está bem? — O garoto perguntou, preocupado.
— Estou… — ela começou a dizer, limpando a poeira de sua túnica com as mãos. Foi então que seu rosto empalideceu. Seus olhos se arregalaram em pânico. — As ervas!
Ela vasculhou a pequena bolsa de couro que levava na cintura. Estava vazia. O pequeno saco de lona, contendo a única esperança de Sêneca, havia sumido.
Ele se virou bruscamente para o garoto das frutas, buscando perguntar se ele havia visto o rosto da pessoa que derrubou a garota.
Mas a barraca estava vazia. O garoto e suas frutas haviam desaparecido. Hermes entendeu no mesmo instante o que havia acontecido.
Um estalo de língua, seco e irritado, escapou dos lábios de Hermes. Seus olhos dourados se estreitaram, a frustração dando lugar a uma fúria fria. Eles não haviam sido apenas roubados. Haviam sido enganados, jogados e vencidos no jogo de rua daquela cidade. E o ladrão levara consigo o bem mais urgente que eles tinham no momento: o tempo de Sêneca.
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