Capítulo 35 | O Gatuno
Nos telhados de terracota de Therma, uma figura se movia com a agilidade silenciosa de um felino. Magno conhecia cada telha solta, cada viga exposta, cada beco sem saída daquele labirinto de ruas.
Era o seu reino.
Daquela altura, a cidade era um tabuleiro de petéia, e ele era o jogador que via todas as peças. Mas, nos últimos dias, algumas de suas peças mais importantes estavam desaparecendo. Crianças. Seus pequenos batedores, seus olhos e ouvidos nas ruas, estavam sumindo um a um, sem deixar rastros. E isso o deixava inquieto, uma sensação estranha de perda que ele não gostava de sentir.
Seu olhar varria as vielas abaixo, não em busca de uma bolsa para cortar, mas de respostas. Foi quando ele viu.
De um beco escuro e fétido, um homem saiu correndo como se o próprio Hades estivesse em seus calcanhares. Seu rosto era uma máscara de puro terror, os olhos arregalados, e ele tropeçava nos próprios pés em sua fuga desesperada, desaparecendo entre as labirínticas ruas de Therma.
Um momento depois, uma segunda figura emergiu do mesmo beco. Este não corria. Caminhava com uma calma sobrenatural, uma postura ereta e um passo deliberado que contrastava violentamente com o pânico do homem anterior. A figura estava envolta em um chlamy escuro, o capuz puxado para baixo, escondendo completamente seu rosto na penumbra da noite que chegava.
Magno sorriu para si mesmo. Um predador havia acabado de encurralar sua presa naquele beco. E agora, o predador, satisfeito, saía para a noite. Uma oportunidade perfeita. Com a graça de uma sombra, ele desceu do telhado, usando as saliências das paredes para aterrissar em um amontoado de caixotes em outro beco, antes de emergir na rua principal, bem a tempo de interceptar o caminho do homem encapuzado.
— Boa noite, meteco. — A voz de Magno era casual, quase amigável, mas com um fio de aço por baixo.
A figura sombria parou. Ele se virou lentamente para encarar o homem que havia bloqueado seu caminho. Era um pouco mais baixo que ele, magro, mas com uma energia nervosa e perversa em sua postura.

— Eu odeio ver um forasteiro roubando minhas coisas na minha cidade. — Magno continuou, um sorriso se espalhando por seu rosto. — Mas eu sou um homem razoável. O que acha de me passar tudo o que tirou daquele cara, e eu esqueço o que acabei de ver?
O silêncio reinou por um momento, a cabeça do homem ainda baixa, o rosto oculto pelo capuz. Magno sentiu um arrepio. Havia algo de errado naquela quietude.
Então, a figura encapuzada ergueu a cabeça, e mesmo na escuridão, Magno pôde ver o brilho fraco de um par de olhos dourados.
— Eu tenho uma ideia melhor. — A voz dele era calma, melódica, mas carregada de uma autoridade que fez Magno hesitar por uma fração de segundo. — Que tal você me dizer tudo o que sabe?
E então, ele começou a andar. Calmamente, deliberadamente, na direção de Magno.
O ladrão, surpreso pela inversão de papéis, reagiu por instinto. Ele não era um tolo de lutar de mãos vazias contra um oponente tão estranhamente confiante. Com um movimento rápido, ele sacou uma pequena faca de sua cintura, a lâmina gasta brilhando sob a luz da lua.
— Um passo a mais, meteco, e eu te sangro aqui mesmo. — Ameaçou, a faca posicionada de forma defensiva.
O homem parou. Ele olhou para a pequena lâmina e depois para Magno, e um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios sob o capuz. O ar ficou mais frio.
Sua capa tremulou com uma brisa fria e um feixe de luz lunar resvalou numa lâmina na cintura do homem misterioso. E então, um avanço.
Sua xiphos cortou o ar, forçando Magno a recuar, a pequena faca parecendo um brinquedo contra a espada. A viela estreita, que deveria ser a vantagem de Magno, tornou-se sua prisão. Ele usava as paredes para se esquivar, sua agilidade de rua o mantendo vivo por um fio. Cada estocada da espada era precisa, cada corte era um teste, forçando Magno a uma dança desesperada de desvios e aparos. O som de aço contra aço ecoava, agudo e rápido.
Para alguém de fora, a luta parecia mais um gato encurralando um rato, e o rato claramente era Magno. Seu rosto assustado ajudava a compor essa ideia. No entanto, seus movimentos com a faca eram maestrais, desviando a trajetória da espada apenas um centésimo de segundo antes que ela o atingisse.
Magno usava as paredes para se impulsionar, mudando de ângulo, sua agilidade de rua o mantendo vivo por um fio. Ele não tentava atacar, apenas sobreviver à tempestade de aço.
Percebendo que a pressão direta não quebraria a defesa ágil do ladrão, o encapuzado mudou de tática. Ele diminuiu o ritmo, seus movimentos se tornando mais calculados. Ele começou a usar fintas, a ponta de sua espada ameaçando um ataque alto para então desviar para um corte baixo.
Magno, se adaptou rapidamente. Ele parou de recuar e começou a usar o ambiente.
Com um movimento rápido, ele chutou um caixote de madeira solto na direção do adversário, forçando-o a dar um passo para o lado para não tropeçar. Foi a abertura que Magno precisava. Ele avançou, não com a faca, mas com o corpo, tentando usar seu peso para encurralar o adversário contra a parede.
Mas era como tentar agarrar fumaça. O homem girou sobre os calcanhares, permitindo que o impulso de Magno o levasse para o vazio, e por um instante, as costas do ladrão ficaram expostas. O encapuzado atacou, mas Magno, sentindo o perigo, jogou-se no chão, rolando para longe e se pondo de pé em um único movimento fluido, o sorriso malicioso de volta em seu rosto.
Sorrindo, ele pulou algumas vezes nas pontas dos pés de um lado para o outro, esticando os braços como que para alongá-los. E então, olhou de novo de maneira provocante para o homem que segurava a espada parado alguns metros à sua frente.
Talvez não tenha sido pela provocação, mas ele avançou novamente.
Uma troca de fintas, aparos e esquivas. A resiliência e a astúcia do ladrão eram de impressionar.
Magno, por sua vez, estava cada vez mais certo de que não enfrentava um homem comum. A velocidade e a cadência de seu oponente eram sobrenaturais.
Magno precisava de uma abertura. De repente, seus olhos se arregalaram e ele olhou para além da figura sombria que estava enfrentando na viela.
— Meu Deus, o que é isso!? — Sua boca se abriu em choque encarando algo atrás do homem encapuzado.
Ele se virou para olhar, rapidamente.
Nada. Apenas as paredes sujas da viela.
Tap tap tap
Não teve tempo de se virar completamente. Seu torso se dobrou para trás, quase caindo enquanto ele via a ponta de uma faca passar no exato local onde estava sua cabeça a um segundo atrás, cortando um pedaço do capuz que deu o azar de ficar no caminho. Cambaleou para trás, surpreso.
Magno saltou de um pé para o outro sorrindo.
— Tá devendo né safado? — Ele perguntou em um tom zombeteiro.
O homem encapuzado respondeu erguendo a espada em silêncio.
Magno começou a suar frio.
“Como esse desgraçado conseguiu desviar daquele jeito? Eu tive certeza de que já tava pra furar a cabeça dele!”
Ele é um monstro. Pensou.
Em um movimento ousado, ele se jogou para frente, a faca guiando seu movimento, buscando o braço desarmado do inimigo.
A espada se ergueu para protegê-lo do golpe, mas era uma armadilha. Magno usou de sua flexibilidade estarrecedora e, enquanto se deslocava velozmente a centímetros do chão, levou o pé de trás para frente, quase o raspando no paralelepípedo, e cessou o movimento, pegando o encapuzado de surpresa.
A faca mudou a trajetória e subiu, buscando o outro braço, agora à frente e desprotegido.
No entanto, a astúcia do ladrão encontrou a destreza do misterioso homem, que girou o pulso com a espada. Em vez de cortar, bateu com a lateral de sua lâmina pesada contra a mão de Magno com uma força calculada.
O impacto foi seco e brutal. Os dedos de Magno se afrouxaram com a dor, e um chute encontrou sua barriga logo em seguida o lançando contra a parede da viela, sua faca voou, caindo com um tilintar metálico nos paralelepípedos a alguns metros de distância dele próprio.
Magno tinha o rosto deformado em dor. Sua mão apoiando a lombar enquanto a outra no chão o ajudava a permanecer sentado.
Com a ponta de sua xiphos, o encapuzado avançou, preparado para o que parecia ser um golpe final.
— Chega de brincar. — Disse a voz fria sob o capuz.
— Calma, calma, calma! — O ladrão gritou levando uma de suas mãos à frente com o rosto desesperado.
A um passo de distância do homem, o ladrão sorriu de volta.
Em um movimento rápido e com uma flexibilidade que desafiava as noções de ‘humano’, ele avançou sem nem ao menos se levantar para a surpresa do encapuzado.
Ambos pararam ao mesmo tempo.
A ponta faca que Magno mantinha escondida estava a um milímetro da jugular do misterioso rapaz. E a ponta de sua xiphos, estava a um milímetro do peito de Magno. Um movimento em falso, e ambos estariam mortos.
Magno tinha uma expressão tensa.
O vento, assobiando pela viela com o ímpeto dos movimentos, soprou o capuz de Hermes para trás.
A luz da lua revelou seu rosto. O cabelo branco como a neve, os traços finos e, acima de tudo, os olhos dourados que brilhavam com uma intensidade que não era humana.
Magno olhou para aquele rosto, para aqueles olhos, e o choque em sua expressão deu lugar a algo novo. Um sorriso lento, astuto, como o de uma raposa que acaba de encurralar algo muito mais interessante do que um simples coelho.
— Ora, ora… — Magno sussurrou, a faca ainda firme, a voz cheia de uma nova e perigosa curiosidade. — Parece que nós dois temos perguntas que precisam de respostas, não é mesmo, forasteiro?

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