Capítulo 4 | Herói Impaciente
Esta era uma floresta antiga. Um santuário silencioso onde o tempo se movia de forma diferente, medido não em horas, mas em estações.
A luz do sol, dourada e quente, lutava para perfurar a copa densa das árvores, derramando-se em feixes oblíquos que pintavam o chão de terra úmida e folhas em decomposição com manchas luminosas e dançantes. O ar fresco, carregado com o cheiro de musgo e do ciclo eterno de vida e morte da mata, balançava algumas folhagens. O único som era o canto melancólico de um pássaro solitário e o farfalhar suave da brisa, que parecia sussurrar segredos entre os troncos milenares.
Nesse cenário de paz primordial, um pequeno drama se desenrolava. Um esquilo, não maior que a mão de um homem, debatia-se em pânico silencioso. Sua pata traseira estava irremediavelmente presa em um emaranhado de vinhas espinhosas, e a cada movimento desesperado, os espinhos se cravavam mais fundo em sua pele delicada. Seus olhos negros e brilhantes, arregalados de terror, varriam a floresta, tementes por um predador, esperançosos por um salvador.
Foi quando uma sombra se moveu. Não a de um predador, mas a de uma presença calma e deliberada. Passos pesados, mas surpreendentemente silenciosos, esmagaram as folhas secas. A figura que emergiu para a clareira era um estudo em contrastes.
Um jovem guerreiro, cujo corpo, forjado em um ano de treinamento implacável, era uma escultura de músculos definidos. Ombros largos forçavam os limites de uma velha couraça de bronze, que agora parecia um brinquedo de criança, pequena e desconfortável, mal cobrindo um abdômen talhado que certamente não existia um ano antes. Seu rosto, antes arredondado e infantil, tornara-se mais anguloso e sério, emoldurado por sobrancelhas grossas e escuras e um cabelo castanho e curto, cortado de forma prática.
Ele parou, observando a luta do pequeno animal. Então, com uma lentidão fluida que desmentia sua força bruta aparente, ajoelhou-se.
— Calma, pequeno. Ninguém vai te machucar — ele sussurrou, a voz baixa e apaziguadora, um som que parecia pertencer à tranquilidade da própria floresta.
Com dedos surpreendentemente ágeis e delicados apesar de sua rudeza, ele começou seu trabalho delicado. Afastou os espinhos afiados um a um, sua concentração total, a ponta da língua presa entre os dentes. O esquilo, sentindo a gentileza no toque, parou de se debater, seu pequeno corpo tremendo. Com um último e cuidadoso puxão, a pata se soltou.
O animal ficou imóvel por uma fração de segundo, encarando seu salvador com uma curiosidade que superou o medo. Então, com um rápido chilrear, disparou pelo tronco de um carvalho e desapareceu na segurança da folhagem.
O rapaz observou-o sumir antes de se levantar, limpando a terra das mãos na barra de seu quitón gasto. Ele soltou um suspiro pesado, um som que parecia deslocado naquela paz, tingido por uma camada de tédio profundo.
— Mais um dia, mais um esquilo salvo — ele resmungou para o ar, a voz carregada de uma inquietação contida. — Quando teremos uma aventura de verdade? Já faz meses. O máximo de emoção que tive foi salvar aquele velho de um javali que nem sequer quis lutar…
Uma figura etérea se materializou a partir da própria luz e sombra da floresta. Era jovem, de uma graça fluida e antinatural. Sua pele tinha a tonalidade suave da casca de um bétula, e seus cabelos longos e escuros pareciam feitos de musgo e folhas noturnas. Seus olhos brilhavam com uma luz verde e suave, a mesma cor da vida que pulsa sob a terra. Ela era linda de uma forma selvagem, indomada.
Uma dríade, jovial, eterna.
Sua voz, que não era uma voz, mas o próprio som do farfalhar das folhas, o repreendeu gentilmente.
— A paciência não é uma virtude, Pequeno Herói, ela é A virtude.
O rapaz se virou, a irritação vincando sua testa. Pois aquele jovem guerreiro, cuja força agora superava a de muitos homens, era Teseu, e a alcunha o feria como um espinho.
— Não me chame de “pequeno” — ele protestou, como se discutisse com a própria alma da floresta. — Eu cresci. Estou mais forte.
Ele encarou a figura etérea por um momento silencioso e longo, antes de estalar a língua impacientemente e se virar novamente para outro ponto da floresta.
— Mas de que adianta toda essa força, se passo meus dias resgatando roedores? Também não me chame de herói. Ainda não fiz nada para merecer esse título. —Irritado, ele chutou um galho seco a alguns metros.
A dríade suspirou.
— A impaciência é uma erva daninha que sufoca o crescimento, Teseu — a Dríade respondeu, sua forma tremeluzindo. — E sua falta de respeito com seus anciãos é igualmente improdutiva.
— Falta de respeito? — Teseu bufou, apontando com um gesto exasperado na direção de uma figura sentada de costas em um tronco caído, a alguns metros de distância. — O velho só tem olhos para aqueles papiros empoeirados. Não deve ouvir nossas vozes há dias!
Antes que a Dríade pudesse responder, a figura se pronunciou, sem se virar, a voz calma e metódica, com uma clareza que cortava o ar.
— Eu estava, sim, ouvindo com extrema atenção, jovem Teseu. — Sua fala era lenta, acompanhada do som riscado das marcações que seguia fazendo na tabuleta em suas mãos. — É meu dever registrar tudo para a crônica, incluindo, e talvez especialmente, seus lamentos sobre o tédio existencial e sua avaliação imprecisa da minha idade.
O “velho” se virou parcialmente, e a luz revelou um homem de talvez vinte e oito anos, com uma aparência concentrada e acadêmica, cujos olhos inteligentes brilhavam com uma diversão contida. Parecia absorto em seu trabalho, desenrolando um rolo de papiro com uma mão enquanto, com a outra, fazia anotações cuidadosas com um estilete em uma tabuleta de cera.
Ele fez uma pausa, mergulhando o estilete na cera com a precisão de um cirurgião.
— E, para que conste em meus registros — acrescentou ele com um leve sorriso —, não me importo de ser chamado de velho. A sabedoria, afinal, costuma ser associada à idade. Considero um elogio, embora, talvez, um pouco prematuro.
Teseu ficou sem palavras, o rosto corando com uma mistura de irritação e constrangimento. Plutarco, o escriba, possuía uma habilidade única e exasperante de desarmá-lo com sua lógica serena e seu humor seco.
A voz da Dríade, um suspiro que pareceu carregar a paciência de mil estações, pôs um fim à pequena tensão.
— O sol não espera pelos lamentos de um herói impaciente, Teseu. A estrada nos chama.
A leveza do momento se dissipou, substituída pela pragmática necessidade da jornada. Plutarco, com um cuidado quase reverente, guardou seus rolos e tabuletas em uma bolsa de couro. Teseu, ainda com o rosto levemente corado, embainhou sua xiphos com um som metálico e seco e ajeitou a couraça desconfortável nos ombros. Eles retomaram a marcha, deixando a clareira para trás.
O caminho para fora da floresta foi uma transição lenta. As árvores antigas e imponentes foram gradualmente dando lugar a uma mata mais jovem e esparsa. Enquanto caminhavam, Plutarco, que andava um passo atrás de Teseu, observava o jovem guerreiro com um olhar analítico.
— Fazem apenas três meses que nossas jornadas se cruzaram, jovem Teseu — disse o escriba, a ponta de seu estilete pairando sobre a tabuleta de cera. — Minhas crônicas sobre você têm um hiato considerável. O que um rapaz fazia sozinho por estas terras antes de encontrar um javali e, seu maior inimigo, um velho escriba?
Teseu não respondeu de imediato. A pergunta abriu uma porta em sua mente, e as memórias do último ano vieram à tona, não como uma história coesa, mas como fragmentos vívidos e agridoces. Começou a falar sonhadoramente sobre suas memórias para o escritor atento.
Ele se lembrou do treinamento implacável da Dríade. Viu-se, em sua mente, ofegante, os braços ardendo pela tensão da corda de um arco que parecia pesado demais, errando flecha após flecha até que seus dedos sangrassem.
Sentiu a dor surda nos músculos após dias de treinos de espada, repetindo os mesmos movimentos até que se tornassem instinto. Sentiu o choque gelado de rios e cachoeiras onde fora forçado a nadar até a exaustão, aprendendo a ler as correntes e a respeitar a força da água.
Lembrou-se dos dias de caça solitária, do gosto da primeira lebre que abateu, da fome que o ensinou a seguir rastros e a ter paciência. Das noites frias que passou ao relento, encolhido sob uma manta fina, aprendendo a encontrar abrigo e a ler as estrelas, sentindo na pele a solidão e a vastidão do mundo.
Uma memória em particular o atingiu com a força de uma onda: o dia em que quase morreu. Sua xiphos, a lâmina que o conectava ao passado, presente de seu amigo, escorregou de suas mãos e foi levada pela correnteza furiosa de uma cachoeira.
Sem pensar, ele mergulhou, lutando contra a água que o esmagava contra as rochas, o ar escapando de seus pulmões, até que seus dedos finalmente se fecharam em torno do cabo da espada, arrastando-se para a margem, cuspindo água e tremendo de frio e alívio.
E houve o urso. Um jovem urso pardo que ele encontrou ferido em uma armadilha de caçadores. Em vez de matá-lo, Teseu o libertou e cuidou de sua ferida. Por alguns dias, a criatura o seguiu a uma distância respeitosa, uma companhia silenciosa e improvável que aliviou o peso de sua solidão.
Teseu sorriu com a lembrança, um sorriso breve e melancólico. Realmente, muita coisa havia acontecido. Ele olhou para as palmas de suas mãos. Eram as mãos de um estranho, cobertas de calos grossos e cicatrizes finas, um mapa de sua evolução. Ele havia mudado.
O sorriso desapareceu, substituído pela mesma inquietação de antes. Ele ergueu a voz, contrastando com o tom tranquilo que usava para relatar as lembranças para Plutarco, como se falasse para a Dríade que, ele sabia, o ouvia de algum lugar entre as árvores.
— Mas nada disso adianta se eu não entrar em um combate de verdade, né?
Uma brisa soprou, como se a própria floresta suspirasse.
Plutarco, que caminhava em silêncio, anotou algo em sua tabuleta com um leve aceno de cabeça, registrando a essência teimosa do jovem herói.
A floresta finalmente cedeu a um céu aberto e vasto. Colinas ondulantes, cobertas por uma relva seca e dourada pelo sol, se estendiam até onde a vista alcançava. E então, eles a viram. Aninhada ao pé de uma colina rochosa, como um animal cansado, erguia-se a cidade de Pella.

À medida que se aproximavam, a sensação de cansaço da cidade se tornava mais palpável. O portão principal, feito de madeira escura e reforçado com tiras de ferro corroídas pela ferrugem, estava entreaberto. Os poucos guardas que o vigiavam não tinham a postura alerta de soldados, mas o olhar abatido de homens que cumpriam uma tarefa sem propósito. Seus olhares, antes entediados, tornaram-se aguçados e desconfiados quando o trio se aproximou, fixando-se com hostilidade na couraça de mercenário de Teseu.
A cidade não parecia acolhedora nem próspera. Parecia ferida. O ar mudou, tornando-se mais pesado, carregado com uma tensão silenciosa. A tranquilidade da floresta já parecia uma memória distante.
Diante deles, os portões de Pella eram uma boca escura e os guardas com suas lanças, dentes afiados, a estadia prometia ser nada agradável.
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