Capítulo 4 | Servo
Gérion prendia seu chicote na cintura quando percebeu, enfim, que a luz que iluminava seu rosto já não vinha mais da tocha na porta da cela.
Ele olhou para a janela no teto da cela com seu sorriso amarelo de sempre e então se virou para trás.
Hermes estava jogado no chão em uma postura encolhida contra a parede. E agora, para além dos ferimentos da tarde anterior, tinha também em sua cabeça a marca da violência que sofrera.
Já não tinha mais suas lindas mechas de cabelo branco que iam até o pescoço.
Seu couro cabeludo estava marcado. Cortes, esfoliações, pancadas. Marcas de resistência.
Infelizmente para ele, resistir não foi suficiente.
Abaixo dele, um rio de sangue.
Alguns tufos de seu cabelo nadavam sobre as poças de seu sofrimento enquanto outros se misturam com a sujeira do chão da cela.
Ele não respondia.
Sentia-se sujo.
Tão sujo quanto o chão desta cela.
Não. Até mais.
Teve sua divindade violada, sua essência contaminada.
Como poderia ser ainda considerado um deus?
Gérion sorria amplamente atestando a submissão do rapaz.
A visão à sua frente o dizia que finalmente havia colocado o escravo em seu devido lugar.
— Levantem-no, e levem-no para baixo. — Disse a seus homens que estavam no portão da cela — Não o deixem descansar.
Os guardas entraram na cela ao passo que o gigante a deixou e correram para levantar o rapaz.
Hermes não resistiu e se levantou com o apoio dos homens.
Seu olhar vazio não transmitia a dor que estava sentindo, mas um turbilhão de tormenta se agitava por dentro.
“Isso é a humanidade?”, ele pensou, a amargura corroendo sua mente. “Toda a minha insolência, toda a minha rebeldia… foi por eles. Por defendê-los da paranoia de meu pai e…”
A imagem o atingiu, não como uma lembrança, mas como uma pontada no topo da cabeça. Os olhos amarelos de Apolo, arregalados em choque. O som doentio do Caduceu perfurando a carne de seu irmão. O silêncio que se seguiu.
“Não…”, a negação foi um grito silencioso em sua alma. “Não foi por eles. Foi por mim. Meu orgulho. Minha fúria cega.”
Ele sentiu o eco da violência de Gérion em seu corpo, a humilhação, a sensação de ser um objeto, e uma verdade terrível e venenosa se formou em sua mente. O monstro na cela o havia violado, o havia quebrado… exatamente como ele, em sua própria fúria, havia quebrado e apagado seu irmão.
“Este inferno…”, ele concluiu, o desespero o afogando. “Esta dor… é a minha punição. É o eco do meu próprio pecado.”
Suas pernas falharam e ele cambaleou, mesmo apoiado pelos braços em um dos guardas. Logo, outro guarda o segurou pelo outro braço, e eles o arrastaram para fora.
Eles desceram uma rampa circular e Hermes, no cúmulo de sua fraqueza, consegue enxergar algumas pessoas com vestes sujas e rasgadas, todas com picaretas e minerando algo dentro dos túneis que ficam ao lado da rampa em que está descendo.
Apesar de sua visão, tudo parecia fugir de seus sentidos, e tudo no que conseguia se concentrar era na dor que lhe fora infligida.
Chegando ao fundo do poço, os guardas finalmente o largaram.
O rapaz caiu de cara no chão, em meio à poeira e aos outros escravos que já haviam começado a trabalhar.
“É isso o que eu mereço pelo que fiz?”
Uma expressão vazia se concentrou no nada. Logo, uma picareta caiu em sua frente, ao lado de seu rosto.
— Sem moleza aqui vagabundo. — Um dos guardas grasna para ele com os dentes cerrados e desprezo no olhar.
Hermes encara a picareta com um olhar desesperançoso, e não se move.
— Não quer trabalhar hum? — O guarda fala com presunção, e caça o chicote em sua cintura.
Ele ergueu o braço.
Mas é parado por uma mão que segura seu pulso antes que ele golpeie o rapaz.
Ele se virou, irritado.
— Meu senhor Lyco, permita-me ajudá-lo. — Falou num tom sereno um homem barbudo de aparência experiente sem camisa e com uma calça surrada.
O guarda fez gesto de reclamar, mas foi interrompido novamente pela fala do homem.
— Não podemos perder mais mão de obra, meu senhor. — Ele diz com sua expressão tranquila. — Ficaria feliz o mestre Gérion em saber que um servo recém adquirido já não lhe é mais útil?
O guarda abriu a boca para retrucar, mas desistiu ao ser lembrado da figura de seu superior.
Ele puxou seu braço com força, se livrando do aperto do homem.
O guarda colocou seu chicote novamente em sua cintura e amaciou o pulso com uma expressão disfarçada de dor, provavelmente por conta do aperto do homem.
— Leve este imundo daqui, e ponha-o para trabalhar o quanto antes! — Disse apontando para o rapaz no chão. — Se o vir vadiando, apanharão os dois! — Tinha o dedo apontado no rosto do homem numa pose ameaçadora.
Ele não reagiu. Nem um piscar, nem tensão, nem raiva.
O guarda estalou a língua com um rosto irritado, e então se pôs noutra direção deixando os dois para trás, procurando outras vítimas para castigar.
— Levanta-te jovem. — Disse o homem se agachando ao lado do rapaz
Ele segurou Hermes pela axila, e então com certo esforço o ajudou a se levantar.
Pegou também a picareta que havia sido jogada ao rapaz.
Hermes sentiu sua consciência se vacilar. Seu corpo e mente estavam exaustos e massacrados.
Sua visão se escureceu, uma voz nova se aproximava como uma silhueta borrada.
— Ele está bem? — Uma voz feminina e preocupada.
…………..
Hermes abriu os olhos.
Para a sua surpresa, não estava mais no lugar de agora a pouco. As paredes de pedra, o ogro, nada.
Se viu numa floresta escura, fria e úmida.
Estava com suas roupas de sempre. Não aquelas sujas e surradas, mas sim as suas vestes divinas.
O caduceu estava preso à sua cintura.
As árvores à sua volta se serpenteavam entre si, criando e tapando caminhos um depois do outro.
Olhar em volta revelava um labirinto de árvores.
Olhou para o céu e viu nada além da noite.
As estrelas reluziam.
Apesar da tranquilidade e do silêncio, exceto pelos sons das cigarras, Hermes sentiu-se inquieto. Seu coração palpitava mais rápido do que o normal.
Resolveu andar, sair daquele lugar.
Tentou pular e voar, usando suas habilidades divinas. Falhou.
As asas em suas sandálias pareciam teimosas demais para tal.
Sentiu um incômodo incessante. Seu coração não destoava de sua mente na inquietação.
Olhou em volta mais uma vez, e viu a mesma coisa que antes.
Entretanto, atrás dele, as árvores pareciam se entrelaçar. Era como um aviso da natureza.
‘Sem volta.’
Decidiu caminhar pelo chão, e seguiu fazendo seu caminho entre as árvores em sua frente que ainda permitiam a sua passagem.
Após algum tempo nisso, percebeu que não chegava a lugar nenhum. Pelo contrário, as árvores à sua frente pareciam fechar seus caminhos cada vez mais.
Passou a ouvir dentro da floresta alguns sons estranhos.
Sussurros, sons animais.
Sentiu seu coração acelerar, sua mente trabalhava para tentar entender toda a cena que estava acontecendo.
De repente, sentiu uma pontada no peito. Levou a mão até lá, passando-a por baixo do vão de seu Quitón. Sentiu uma cicatriz naquele local. Uma marca em um formato estranho.
CLACK VUUSH
De repente, escutou às suas costas o barulho de um estalo monstruoso, seguido de algo cortando o ar.
Seu peito bateu mais rápido que nunca.
Virou-se assustado.
O medo o tomou.
Avistou um raio, partindo os céus, consumindo as estrelas que cruzavam o seu caminho, e o pior, vindo em sua direção.
Deu passos para trás, com uma expressão assustada, e ao mesmo tempo sem conseguir entender.
VUUUUUSH
Viu aquela flecha de luz e eletricidade romper o céu e tudo em seu caminho, o buscando.
Se virou e correu, com todas as suas forças, driblando seu caminho por entre as árvores.
Sentiu sua cabeça esquentar. Seu peito doer com a intensidade das batidas de seu coração que se aparentavam a socos.
Não conseguiu correr como sempre o fez. Sentiu que sua velocidade não estava lá, e toda vez que a buscava, sentia seu peito doer ainda mais.
A dor vinha da marca.
O barulho atrás dele só se intensificava e aproximava.
No alto de seu desespero ele tentou gritar. Clamar pela ajuda de seu pai.
Sua voz não saiu.
Sentiu então algo escorrer de seu peito. Algo viscoso.
Olhou para baixo e viu uma mancha negra em seu Quitón na altura do mamilo.
No meio de sua corrida, mais uma vez levou a mão ao local da marca. Estava molhada. Algo como ferro, mas mais sujo.
Sentiu suas forças que já não eram as mesmas vacilarem.
Sua corrida estava perdendo velocidade.

Puxou a mão do peito. Viu seu sangue, mas não era dourado como sempre. Estava negro. Grosso. Sujo.
Ofegante, teve que diminuir a corrida, e foi parando com o tempo, até parar por completo se apoiando numa árvore.
Diferente dele, a lança de raios apenas se tornava mais veloz
Fechou os olhos com a dor em seu peito que havia se tornado insuportável.
VUUUSH CLACK TLACK
Escutou, por fim, o som da floresta cedendo, abrindo espaço para a passagem de seu algoz.
Um clarão se revelou para ele, mesmo com os olhos fechados. Ele rangeu os dentes. A dor só piorou.
…………..
Click Tec
Hermes recobra sua consciência com o estalar de uma crepitação e o sentimento de alguém passando a mão em sua cabeça.
Ele pula apoiando as mãos no pano que estava abaixo dele, e então se desequilibra, sentindo o balanço daquilo em que ele havia se apoiado.
BLAM
Despencou dali, a poucos centímetros do chão.
Então, sentiu a dor da batida de sua cabeça no chão e se levantou rapidamente, ainda em estado de alerta.
Encontrou, para sua surpresa, uma garota sentada no chão ao lado de uma rede. Alguém que já havia visto antes. Tudo parece escuro, a noite parece ter chegado, mas ele a reconhece mesmo assim.
Seus cabelos amarrados na altura do pescoço parecem mais escuros do que aquele castanho de que Hermes se lembrava. Seu rosto fino e delicado contribuía para a inocência que essa garota transmitia, ingenuidade, própria da juventude que essa menina parecia desfrutar.
No colo de sua, agora suja, túnica azul escura, estava um pano encardido com algo vermelho.
Ela o encara com dúvida e certo medo.
— Gulp- Que-quem é- — Hermes engole em seco enquanto encara a garota com um rosto tenso.
— Á-Ágatha! — Ela responde prontamente olhando-o de volta com certa dúvida.
— Ajude-o a levantar, pequena. — Pede uma voz masculina vinda de trás da garota em um tom calmo.
Hermes fica alerta novamente e se afasta em direção à parede daquilo que parece ser uma caverna.
Ele se choca contra a parede e sente, novamente, uma pontada em seu tórax. A dor de sua costela quebrada. Ele leva a mão à região com uma expressão de dor.
— Kuhk- — Ele geme, rangendo os dentes com uma dor excruciante.
— Acalma-te rapaz — Diz o homem se levantando atrás da garota. — Assim como tu, somos servos, não há razões para nos temer. — Ele afirma, ainda parado, com sua expressão calma.
Hermes o encara, respirando um tanto profusamente por conta da dor.
Ainda desconfiado, ele analisa o local em que se encontra.
Uma espécie de caverna, provavelmente de uma mina. Nas paredes algumas poucas vigas de madeira para a sustentação deste túnel. Ao lado da garota que se encontrava ainda sentada no chão estavam redes.
Hermes percebe que era aonde estava repousando todo este tempo. Olhando para as mãos da garota, sujas de sangue, e suas roupas também. E o pano que ela carregava, encardido com algo vermelho, mas parecia ser originalmente branco, ou de alguma cor clara. Ela estava toda marcada com seu sangue.
Olhando para baixo, percebeu que seu tronco estava todo enfaixado com panos finos. Só então percebeu que não sentia ardência nenhuma nas costas, os ferimentos secos pareciam já ter sido tratados.
A imagem de Gérion vem à sua mente, e ele encara os dois com uma raiva contida.
O rapaz tenta se levantar sozinho, mas um movimento brusco o faz forçar um pouco a costela quebrada, e o leva ao chão novamente, acompanhado por um gemido de dor.
Ágatha esboça certa preocupação, e então se levanta rapidamente, andando na direção de Hermes para ajudá-lo.
Ela tenta ajudá-lo a se levantar e, sem querer, seu cotovelo toca a parte de trás da cabeça dele, onde o cabelo estava mais ralo devido aos tufos arrancados.
O toque foi leve, acidental. Mas para Hermes, foi como se o peso esmagador da mão de Gérion estivesse sobre ele novamente. O cheiro de suor e podridão do ogro voltou a suas narinas, o som de sua risada repugnante ecoou em seus ouvidos, e a memória da dor e da humilhação inundou sua mente. Não era Ágatha quem o tocava. Era ele. O monstro.
— SAIA! — O grito de Hermes foi um som gutural, animal. Ele a empurrou rudemente, não por raiva, mas por um pavor cego, o instinto de uma criatura encurralada se debatendo contra seu agressor.
Ela cai com um gemido baixo sentada no chão.
Ágatha encolhe sua mão com um rosto assustado e magoado, e então abre a boca levemente para falar algo. Entretanto, com uma expressão pesarosa, ela decide não falar nada e volta para se sentar ao pé da fogueira, ao lado do homem de antes.
Hermes os encara, a respiração pesada, o corpo tremendo. Não era a raiva de um deus sendo tocado por um mortal. Era o pânico de uma vítima revivendo seu tormento. O simples toque em seu couro cabeludo o havia transportado de volta para o inferno daquela cela, uma agonia indescritível que o deixou nu e aterrorizado.
O simples toque dela em seu couro cabeludo o fez sentir uma agonia indescritível. Desespero.
O homem encarou Hermes de cima, ainda sem se desfazer de sua expressão serena habitual.
— Dê-lhe tempo. — Disse ele para a garota atrás dele. — Já cuidamos de seu corpo, agora ele precisa de paz para cuidar da própria mente. — Ele fala olhando para Hermes enquanto segura um pano molhado em mãos.
O homem se aproxima um pouco, e deixa o pano na rede em que Hermes estava deitado antes. E então, ele volta e se senta no chão ao lado de uma fogueira percebida por Hermes apenas agora.
O silêncio toma conta da caverna por alguns segundos.
A garota encara Hermes com certa dúvida, e parece abrir a boca para falar algo, mas acaba não o fazendo. No lugar, ela simplesmente se recosta na parede do túnel e descansa observando o trepidar das chamas da fogueira.
…
Com o passar de alguns minutos, Hermes se acalma, e a dor em seu tórax passa, e ele decide se levantar, mais uma vez.
Desta vez, se apoiando na parede, ele consegue sem muitos esforços, e com cuidado evita que sua costela o machuque ainda mais.
Ele caminha apoiado na parede e segue até a rede em que estava antes.
Pegando o pano que estava ali, ele se deita cautelosamente na rede e coloca o pano sobre a testa, vítima de inúmeras pancadas na noite anterior.
Em meio à dor, Hermes encarava os dois em volta da fogueira. O homem repousa sentado ao lado do fogo com os olhos fechados. Uma perna cruzada à sua frente no chão enquanto a outra apoiava o seu braço com o joelho.
“O que ele está planejando?” Pensou Hermes franzindo a sobrancelha em um rosto confuso.
Se virou para a garota que observava a parte exterior da caverna com um semblante distraído.
Logo, suspirou percebendo a inutilidade em tentar compreender manias mortais e resolveu se reter aos questionamentos realmente importantes.
— Onde estamos?
A garota permanece em silêncio, observando a saída.
Ela abre a boca por um momento, mas volta a fechá-la. Claramente tem tanto conhecimento quanto Hermes acerca da situação em que se encontra.
“Ela chegou na mesma caravana que eu.” Constatou.
— Estamos ao norte da Tessália. — Afirma o homem, ainda de olhos fechados. — Mais precisamente em Calcídicie.
Hermes franziu a sobrancelha.
“Na península?” Se perguntou. “Como vim parar aqui?”
Ele olha para a chama, ponderando.
E então, enquanto tenta entender, se lembrar, uma dor aparece em seu peito. A mesma de seu sonho.
Ele grunhe um pouco levando a mão à região enfaixada.
Sentiu, passando a ponta dos dedos por entre os vãos dos panos, a cicatriz no centro de seu peitoral. A marca.
Engoliu em seco.
O que isso queria dizer?
Quando ele foi marcado? E por quem? E por quê?
A dor perfurava seu peito mais à medida que ele tentava entender tudo aquilo.
Quando a dor se tornou insuportável ele parou.
Respirando inquietamente, ele se virou para os dois novamente.
O homem ainda ‘refletia’ e a garota encarava Hermes com curiosidade.
— Huff- Como vieram parar aqui? — Hermes perguntou, engasgando um pouco nas palavras devido à dor que ainda se esvaia lentamente em seu peito.
A garota pensou um pouco, o homem nem se moveu.
— Eu sou de Corínto… — Ágatha revela com um olhar pesaroso. — Papai acabou devendo dinheiro para as pessoas erradas… — Ela falou encarando a fogueira com uma expressão distante. — Eu e meu irmão acabamos tendo que pagar por isso… — A garota engoliu em seco e sua boca se curvou levemente, como se se forçasse a permanecer fechada.
Hermes percebe o pesar no rosto da garota.
Seus olhos brilharam olhando para a fogueira, mas ela logo se virou para a saída da caverna.
Hermes segue sem reação.
A sensação vívida em sua mente da violência que sofrera o deixou anestesiado para a dor alheia. Desprezou a banalidade que condenou a garota, e viu nela a encarnação da fragilidade da raça humana. Um erro que ela não havia cometido, mas que estava condenada a pagar.
Apesar disso, algo ainda tocava Hermes. A garota, tão jovem, passava por dificuldades que alguns na Grécia, privilegiados, jamais sonhariam em conhecer.
Hermes suspirou encarando Ágatha enquanto ela lamuriava encarando o lado de fora.
— E você, homem? — Perguntou ao homem que nem por um momento vacilou de sua posição.
O silêncio tomou conta do ambiente, o que deixou Hermes um pouco irritado. E então, ele respirou profundamente, abrindo os olhos em direção à fogueira.
— Atenas. — Ele falou calmamente. — Nasci na casa de um Eupátrida, fruto da infidelidade e do abuso de um patrão com sua serva. Minha mãe adoeceu pouco depois de eu nascer, e foi abandonada para morrer. — Seguia encarando a fogueira. — Sirvo desde então. Fui educado para ser capaz de auxiliar meus patronos em tarefas. Quando meu progenitor morreu, fui vendido para o local mais longínquo para o qual conseguiram encontrar um mercante de escravos. Minha patroa tinha medo que eu exigisse algum direito sobre suas posses, mas não podia me matar por conta das leis.
Ágatha estava agora ouvindo ele atentamente, parecia saber tanto quanto Hermes sobre o passado do homem, e estava chocada com a tranquilidade com a qual este contava sua história.
Hermes ouvia tudo atentamente. Ainda que não sentisse pena do homem, se sentia incomodado com o tom impessoal no qual ele contava tal história. Era como se ele nem se importasse com nada do que estava falando.
— Servi em algumas casas ao passar dos anos, mas sempre acabava vendido. Ao fim, acabei aqui, aonde fazem vinte anos desde que cheguei. Nasci para servir e morrerei servindo.
A expressão de Hermes não se alterou, mas ele se percebeu curioso.
Ele conhecia bem a expectativa de vida de um escravo que trabalhava em minas e certamente não era comum que durassem tanto tempo nas condições em que estavam.
— E se me permite, chamo-me Sêneca, e não homem. — Revelou, se virando para encarar Hermes com seu olhar sereno.
Hermes o encarou de volta, tentando ler algo em sua expressão, mas nada conseguiu.
Após um suspiro, o rapaz encara o lado de fora da caverna, percebendo nada além de mais túneis e paredes da mina.
— Hermes. — Seu tom era distante, seco, como se mesmo ele duvidasse dessa informação neste momento.
— Como o deus? — Ágatha levanta as sobrancelhas com curiosidade.
Os lábios de Hermes se contraíram. Ele olhou para o chão com uma expressão distante, e se recostou na rede.
— Sim. Como o deus. — Sua voz tingida de desânimo e melancolia.
Sêneca ergueu um pouco a sobrancelha franzindo o cenho, abandonando por um momento a sua expressão vazia.
— Entendo- Vim de uma família de mercadores. — Ágatha afirmou em um tom meio áspero — Seguidores de Hermes.
Ela desceu um pouco da gola do vestido para seu ombro direito e revelou, na região do trapézio, uma tatuagem pequena de uma sandália com pequenas asas.
Ágatha sorriu para o rapaz de maneira desanimada.
— Não que ele tenha me ajudado em alguma coisa até aqui.
Encarou a garota com a sobrancelha levantada em um olhar um tanto surpreso. Tinha certeza de que pouquíssimas pessoas ainda criam em deuses na Grécia atualmente.
Um gosto amargo tomou sua boca, sua língua azedou com a palavra que preencheu sua mente.
Seguidores…
Há quanto tempo já não os tinha. Ou melhor, a quanto tempo já não ligava para eles.
Ponderou encarando o teto da caverna.
— Logo os guardas reclamarão se nos ouvirem conversando — Sêneca disse se levantando. — Pare de importunar o rapaz, senhorita Ágatha. Ele tem trabalho a fazer amanhã.
Passou por ela em direção a uma das redes próximas a Hermes.
— Certo- Desculpe… — respondeu a garota em um tom um pouco arrependido se levantando um pouco apressada.
Ágatha e Sêneca se deitaram cada um em sua rede, e mais uma vez o silêncio se apossou da caverna.
Hermes encarou os dois com um rosto pensativo. Aquela raiva ainda pairava em sua mente.-
Ainda se sentia vazio, encontrar um suposto seguidor levou sua mente de volta ao Olimpo.
Ao mesmo tempo, o fez querer pensar de novo sobre o que o havia levado até ali.
Como tudo havia chegado àquele ponto.
Por que precisava sofrer tanto. Ele estava errado em ter defendido os humanos?
— Humpf- — Suspirou em um enorme cansaço.
Antes que sua marca começasse a doer, afastou suas ponderações e se virou para a parede fechando os olhos.
Buscou se aconchegar na rede o máximo que seu corpo surrado permitia.
A única certeza que tinha neste momento era que precisava dormir.
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