Índice de Capítulo

    O silêncio na caverna era uma mortalha pesada, rompida apenas pelo crepitar suave da fogueira e pela respiração ritmada de Sêneca e Ágatha, que haviam sucumbido ao cansaço em suas redes improvisadas. 

    Hermes, no entanto, permanecia desperto. Deitado, sentia cada uma de suas feridas como um mapa de sua nova e miserável existência. A dor na costela quebrada era uma pontada aguda a cada respiração mais funda, seu couro cabeludo queimava com a memória da violência de Gérion, e suas costas eram uma teia de cicatrizes ardentes que o lembravam de sua impotência.

    Ele fechou os olhos, mas o sono não veio. Em vez disso, sua mente, contra a sua vontade, derivou para o Olimpo. Viu o rosto enfurecido de seu pai, o brilho púrpura nos olhos de Hera enquanto o amaldiçoava, e o olhar abatido de Apolo, uma ferida mais profunda que qualquer corte físico. 

    A tentativa de se aprofundar nessas memórias trouxe a dor familiar, uma agonia que emanava da marca em seu peito, forçando-o a recuar de seu próprio passado. Ele era um prisioneiro não apenas daquela mina, mas de seu próprio corpo e de suas memórias.

    O som de uma trompa rude ecoou pelos túneis, o chamado áspero para mais um dia de labuta. Sêneca se moveu primeiro, levantando-se com a economia de movimentos de quem repetia aquele ato há vinte anos. Ágatha gemeu, encolhendo-se em sua rede antes de se forçar a sentar, seus olhos jovens já carregados com o peso de uma vida inteira de sofrimento.

    — Beba. — A voz de Sêneca era calma, como sempre. Ele estendeu um odre de couro para Hermes. — Precisará de forças.

    Hermes aceitou, a água morna e com gosto de terra descendo por sua garganta. Levantar-se foi uma provação. Cada músculo protestou, e a dor em sua costela o fez ofegar. Apoiado na parede fria da caverna, ele seguiu os outros dois para fora, para a boca do túnel que agora era seu lar.

    A visão que o saudou foi a mesma de ontem: um poço circular e profundo, cujas paredes eram repletas de túneis escavados, conectados por rampas precárias de madeira e terra. Dezenas de figuras esqueléticas, vestidas com os mesmos trapos que ele, já se moviam lentamente, suas silhuetas recortadas contra a luz fraca que descia do topo da mina. O ar era pesado, carregado com o pó de pedra, o cheiro de suor e desespero.

    Um guarda atirou uma picareta aos seus pés, o metal batendo contra a pedra com um som seco. — Para o trabalho, verme. — O guarda cuspiu as palavras com desdém.

    Hermes encarou a ferramenta. Em suas mãos divinas, ele havia empunhado o Caduceu, um símbolo de poder e autoridade, mas também de sua ruína. Agora, suas mãos, feridas e calejadas, teriam que empunhar isto. Sêneca colocou uma mão firme em seu ombro.

    — Não pense. Apenas faça. — Ele aconselhou em voz baixa. — Encontre um ritmo. Deixe o corpo trabalhar enquanto a mente descansa. É o único jeito de sobreviver aqui.

    E assim, Hermes começou. O primeiro golpe da picareta contra a rocha enviou uma vibração dolorosa por seus braços e de volta para sua costela quebrada. Ele grunhiu, mas golpeou de novo, e de novo. O trabalho era brutal, sem sentido. Ele, o deus da velocidade, estava agora acorrentado a um único ponto, lascando pedaços de pedra por horas a fio.

    Os dias se fundiram em uma névoa indistinta de dor e exaustão. As semanas se tornaram meses. O corpo de Hermes, antes uma escultura divina, mudou. A massa muscular esculpida por néctar e ambrósia deu lugar a uma força fibrosa e resistente, nascida do trabalho incessante. 

    Suas mãos, antes imaculadas, tornaram-se um mapa de calos e cicatrizes. Seus cabelos brancos, a última marca visível de sua antiga glória, cresceram novamente, mas viviam quase sempre emaranhados e sujos pela poeira da mina. 

    Seus olhos, que um dia brilharam com a luz dourada do Olimpo, tornaram-se mais opacos, embora por vezes um lampejo da antiga fúria ainda brilhasse neles quando um guarda era particularmente cruel.

    Ele aprendeu as regras não ditas daquele inferno. Aprendeu a reconhecer o som dos passos dos guardas mais sádicos. Mas havia um som que transformava seu sangue em gelo: o arrastar pesado e arrogante das botas de Gérion.

    A presença do ogro era uma tortura em si. O cheiro de seu suor azedo e hálito de vinho barato chegava aos túneis antes mesmo dele, e cada vez que Hermes o sentia, seu corpo se enrijecia involuntariamente. A mão apertava o cabo da picareta com uma força que deixava os nós dos dedos brancos, e a memória daquela noite na cela, da dor, da humilhação, voltava com uma clareza nauseante. Ele não sentia medo. Sentia um ódio tão profundo e uma repulsa tão visceral que ameaçavam sufocá-lo.

    Evitar Gérion tornou-se seu principal objetivo, um jogo mortal de sobrevivência que ele não jogava sozinho. Sêneca e Ágatha, sem que uma única palavra fosse trocada sobre o assunto, tornaram-se seus olhos e ouvidos.

    Sêneca, com sua percepção aguçada por décadas naquele abismo, sentia a aproximação do perigo. Um padrão sutil de batidas de sua picareta contra a rocha — tuc… tuc-tuc — era o sinal. Ao ouvi-lo, Hermes entendia. Ele se movia para o fundo de um túnel lateral, ou se misturava a outro grupo de trabalho, desaparecendo nas sombras momentos antes de Gérion aparecer, com o chicote na mão, procurando por um alvo para sua crueldade.

    Ágatha, por sua vez, usava sua mobilidade. Sendo uma das mais jovens, era frequentemente enviada para levar água ou ferramentas. Se via Gérion se aproximando do setor deles, ela passava correndo, e um gesto sutil — coçar o nariz, ajeitar o cabelo de uma maneira específica — era o aviso. Era um sistema silencioso, uma aliança forjada na dor compartilhada e no entendimento mútuo de que, naquele inferno, a sobrevivência dependia uns dos outros.

    Sêneca era seu guia silencioso, ensinando-o com gestos e poucas palavras. Ágatha, com sua presença quieta, era um lembrete constante da fragilidade humana que ele antes desprezava, mas que agora compartilhava. A tatuagem da sandália alada em seu ombro era uma ironia amarga que ele via todos os dias, um eco de uma fé que ele próprio havia esquecido e uma lembreança daqueles que o haviam derrubado.

    Foi em uma tarde particularmente sufocante, durante a parca refeição no fundo do poço, que ele os notou pela primeira vez. A comoção começou com um grito de raiva, seguido por uma risada desafiadora.

    Hermes ergueu o olhar de seu pedaço de pão velho e viu um garoto magro, talvez com catorze anos, com uma energia que não pertencia àquele lugar. O garoto tinha cabelos escuros e rebeldes, e um sorriso travesso no rosto, mesmo enquanto um escravo maior e mais velho o segurava pelo colarinho de seus trapos.

    — Devolva, seu rato! — O homem rosnou.

    — Eu não sei do que você está falando! — O garoto respondeu, sua voz alta e cheia de uma vida que a mina deveria ter esmagado há muito tempo.

    Ao lado deles, um segundo rapaz interveio. Este era o oposto do primeiro: pálido, magro a ponto de parecer frágil, e com uma tosse seca que sacudia todo o seu corpo. Apesar de sua aparência doentia, seus olhos eram calmos e ele se movia com uma gentileza que parecia sagrada naquele ambiente profano.

    — Por favor, solte-o. — A voz do rapaz doente era suave, mas firme. — Foi apenas uma brincadeira. Aqui está. — Ele estendeu um pedaço de pão que tirou de seu próprio bolso, oferecendo-o ao homem furioso. — Agouri não queria fazer mal.

    O homem olhou para o pão, depois para o garoto doente, Teseu, e para o que ele chamava de Agouri. Com um grunhido, ele empurrou Agouri para o chão e arrancou o pão da mão de Teseu, afastando-se para devorá-lo.

    Agouri levantou-se, limpando a poeira de suas roupas. — Você não precisava fazer isso, Teseu! Eu teria conseguido me livrar dele!

    — E teria apanhado dos guardas depois. — Teseu respondeu, sua mão indo ao peito enquanto outra crise de tosse o abalava. — Coma sua comida. Precisamos manter as forças.

    Hermes observou a interação em silêncio. A imprudência de Agouri o irritava, pois era um espelho de sua própria arrogância esquecida. E a lealdade de Teseu, sua calma protetora mesmo sendo o mais fraco… aquilo era uma faca em seu peito. Era Apolo. A mesma gentileza, a mesma devoção. 

    Ele rapidamente afastou o pensamento, sentindo a dor familiar da marca em seu peito como um aviso para não se aprofundar em memórias que poderiam destruí-lo.

    Nas semanas que se seguiram, o trio de Hermes, Sêneca e Ágatha passou a cruzar caminhos com a dupla de Teseu e Agouri. Agouri estava sempre no centro de alguma confusão, seja tentando enganar um guarda, organizando corridas de ratos para apostas de migalhas de pão, ou contando piadas em voz alta demais. E Teseu estava sempre lá para mitigar os danos, sua presença calmante sendo a única coisa que mantinha o irmão adotivo vivo.

    Uma noite, a tensão na mina estava mais alta que o normal. Gérion, o ogro que comprara Hermes, estava fazendo uma de suas raras visitas, e sua presença sempre significava mais violência. Os guardas estavam nervosos, distribuindo chicotadas por qualquer infração, real ou imaginária.

    Agouri, em sua infinita capacidade de escolher o pior momento possível para suas travessuras, decidiu que um dos guardas mais cruéis parecia um javali e começou a imitar seus grunhidos pelas costas do homem. A risada abafada de alguns escravos próximos foi o suficiente para o guarda se virar.

    Seus olhos se fixaram em Agouri. — Você. — A palavra foi um chicote.

    Teseu deu um passo à frente, pálido. — Senhor, ele não…

    — Cale a boca, seu esqueleto ambulante! — O guarda empurrou Teseu para o lado com tanta força que o garoto caiu, sua cabeça batendo contra a parede de rocha com um baque surdo.

    Agouri parou de sorrir. Um rosnado baixo surgiu de sua garganta.

    O guarda sorriu, um sorriso feio. — Ah, o cachorrinho mostra os dentes? Vou te ensinar uma lição. — Ele desenrolou o chicote de sua cintura.

    Hermes observou de longe. Seu instinto, forjado em meses de sobrevivência, gritava para ele não se envolver. Chamar a atenção era suicídio. Ele não era mais um deus, não era um herói. Era apenas poeira e cinzas, um fantasma em uma mina.

    Mas então ele viu o olhar no rosto de Agouri. Não era mais travessura, era ódio puro, o tipo de ódio que leva um homem à morte. E viu Teseu no chão, lutando para se levantar, com um fio de sangue escorrendo de sua têmpora. Aquela imagem… a de um irmão tentando proteger o outro, e falhando… quebrou algo dentro dele.

    A culpa que ele tentava enterrar sob meses de poeira e exaustão explodiu em seu peito, mais dolorosa que qualquer chicotada.

    Antes que pudesse pensar, seu corpo se moveu. No exato momento em que o braço do guarda subia para o primeiro golpe, Hermes chutou uma pequena pilha de cascalho com a ponta de sua bota gasta. As pedras se espalharam sob os pés do guarda.

    O homem, pego de surpresa no meio de seu movimento, perdeu o equilíbrio. Seu pé escorregou e ele tropeçou para a frente, o chicote estalando inofensivamente no ar.

    Hermes já estava se afastando, fingindo estar ocupado com uma viga de madeira solta, seu rosto uma máscara de indiferença.

    O guarda se levantou, furioso e confuso, olhando ao redor para encontrar o culpado. Mas tudo o que viu foram escravos com os olhos baixos, fingindo não ter visto nada. A humilhação de quase cair sozinho na frente de todos foi o suficiente para ele. Com um último olhar assassino para Agouri, ele se afastou, estalando o chicote no ar como uma promessa vazia.

    O silêncio voltou, mais pesado do que antes.

    Mais tarde, enquanto se dirigiam de volta aos seus túneis para dormir, uma voz o chamou.

    — Ei. Branquelo.

    Hermes parou, mas não se virou. Agouri se aproximou, com Teseu logo atrás, mancando um pouco.

    — Aquilo… com o cascalho. Foi você, não foi? — perguntou Agouri, sua voz mais baixa do que o normal.

    Hermes permaneceu em silêncio. Admitir seria perigoso.

    Foi Teseu quem falou, sua voz suave, mas clara. — Obrigado. — Ele disse, simplesmente. Seus olhos calmos encontraram os de Hermes. Neles, não havia a admiração ingênua de Agouri, mas um entendimento profundo, um reconhecimento do risco que Hermes havia corrido.

    Hermes finalmente se virou para encará-los. Ele olhou para o rosto vibrante e teimoso de Agouri, e para a figura frágil mas resoluta de Teseu. Ele não queria aquilo. Não queria se conectar a ninguém. Vínculos eram fraquezas, e ele não podia mais se dar ao luxo de ter fraquezas.

    Mas ao olhar para eles, viu mais do que apenas dois escravos. Viu uma centelha de desafio em um mundo de submissão, uma lealdade feroz em um lugar de traição. Era estúpido. Era perigoso. E, por alguma razão que ele não conseguia explicar, era a primeira coisa que fazia sentido desde que havia caído do céu.

    Ele deu um aceno curto, quase imperceptível, e se virou, caminhando em direção à sua caverna, para Sêneca e Ágatha que o esperavam. Um fio invisível havia sido tecido, ligando seu destino ao dos dois garotos. Hermes sentiu um peso familiar em seu peito, mas desta vez, não era a dor de sua marca divina. Era o peso de uma escolha.

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