Capítulo 6 | O Olhar do Lorde
A intervenção de Hermes, por mais sutil que tenha sido, alterou o delicado e pútrido ecossistema da mina. Ele, que por meses se esforçara para ser invisível, para se tornar apenas mais um vulto cinzento em meio a tantos outros, agora tinha um nome e um rosto aos olhos de pelo menos duas pessoas.
Agouri, com sua energia indomável, passou a orbitá-lo com uma curiosidade barulhenta, fazendo perguntas que Hermes não tinha intenção de responder e oferecendo-lhe parte de sua ração com um sorriso cúmplice, um gesto que o ex-deus recusava com um aceno seco. A gratidão do rapaz era um fardo, um lembrete constante de seu envolvimento.
Teseu, por outro lado, era diferente. Sua gratidão era silenciosa, expressa em um olhar de entendimento que era quase mais perturbador. Ele via Hermes não como um herói acidental, mas como uma peça anômala no tabuleiro daquela prisão, uma força cuja natureza ele não compreendia, mas cujo peso ele podia sentir.
Hermes tentava ignorá-los, focando-se na monotonia anestesiante do trabalho. Ele se apegava à sua rotina com Sêneca e Ágatha, um pequeno e sombrio simulacro de família forjado na miséria. Mas o fio havia sido tecido. Inevitavelmente, durante as parcas refeições ou no trajeto para os túneis, os cinco acabavam próximos, uma pequena ilha de rostos familiares no mar de estranhos sofredores.
A tensão instigada pelas visitas de Gérion não diminuiu. Pelo contrário, intensificou-se. Rumores começaram a correr pelos túneis, sussurrados entre os golpes de picareta e as tosses secas dos doentes. Não era apenas Gérion, o capataz brutal. Alguém muito mais importante estava para chegar. O dono de tudo. O Lorde daquelas terras e de suas vidas.
A confirmação veio na forma de uma crueldade ainda mais metódica. Os guardas, antes brutais por sadismo, tornaram-se brutais por eficiência. As chicotadas não eram para punir, mas para acelerar.
Enquanto trabalhava, Hermes ouviu dois escravos mais velhos sussurrando em um túnel próximo.
— Eles ainda estão com raiva por causa de Theo — disse um, a voz baixa e temerosa.
— Claro que estão — respondeu o outro. — Ele fez um dos homens de confiança de Gérion parecer um tolo na frente de todos. Ninguém nunca ousou revidar daquele jeito. — Mas o que ele podia fazer? O guarda estava prestes a quebrar o braço da velha Eleni por derrubar um balde de água. Theo apenas… interveio. — E agora está apodrecendo na solitária por isso. Se já não estiver morto.
Hermes processou a informação em silêncio. Um ato de desafio, nobre em sua intenção, mas fútil em seu resultado. Apenas mais uma prova de que, naquele inferno, qualquer centelha de honra era rapidamente extinta pela bota dos opressores.
A violência dos guardas, agora, fazia mais sentido. Eles estavam “limpando a casa” para a visita do Lorde.
…………
Na noite que antecedeu a visita, o ar no túnel que os cinco chamavam de lar estava mais pesado que o normal. Reunidos ao redor de uma fogueira pequena e trêmula, eles dividiam uma porção miserável de pão amanhecido, o silêncio preenchido apenas pelo crepitar das chamas e pela tosse seca de Teseu.
Foi Agouri, como sempre, quem tentou quebrar a melancolia.
— Dizem que a villa do Lorde tem fontes que jorram vinho e árvores que dão frutas de ouro! — ele disse, a voz cheia de uma esperança forçada. — Talvez ele nos escolha! Pelo menos teríamos comida de verdade.
— Primeiro precisamos sobreviver à inspeção, Agouri — respondeu Teseu, a voz fraca, enquanto Ágatha, sentada ao seu lado, ajeitava um pano fino sobre seus ombros para protegê-lo do frio que emanava das paredes de pedra.
Sêneca, que observava as chamas com seus olhos calmos, finalmente falou, sua voz um contraponto grave ao otimismo de Agouri.
— Não anseiem pelo olhar do Lorde. A atenção dos poderosos é como uma tempestade. É melhor ser a grama que se curva do que o carvalho que se quebra. — Disse Sêneca, sua voz, como sempre, era desprovida de emoção. — Acontece a cada dois ou três anos. Ele olha para nós, conta suas cabeças, e às vezes leva alguns dos mais fortes ou… interessantes… para sua villa.
— E isso é bom? — perguntou Ágatha, sua voz um fio de esperança.
Sêneca parou seu trabalho e a encarou. Pela primeira vez, Hermes viu um lampejo de algo que se assemelhava a piedade em seus olhos cansados.
O deus caído permaneceu em silêncio, observando a cena de seu canto. Ele via a esperança tola de Agouri, a lealdade protetora de Teseu, a compaixão silenciosa de Ágatha e a sabedoria resignada de Sêneca.
Eram um simulacro de família, uma ilha frágil de humanidade forjada na miséria.
Ele se dizia que eram fardos, pesos que ele não pedira para carregar. No entanto, quando Agouri fez uma careta para Teseu em resposta à dose de sabedoria noturna de Sêneca, Hermes se pegou com um curto sorriso de canto.
…………
No dia da visita, eles foram arrancados de seus túneis antes do amanhecer e forçados a se alinhar no pátio principal, no fundo do poço da mina. Baldes de água fria foram jogados sobre eles, não por higiene, mas para assentar a poeira e tornar sua musculatura e suas cicatrizes mais visíveis sob a luz do sol. Eram gado sendo preparado para o leilão.
Então, eles chegaram.
A descida pela rampa principal foi um espetáculo de opulência que era uma afronta à miséria ao redor. O Lorde era um homem de meia-idade, alto e de ombros largos, vestido com uma túnica de um branco tão puro que feria os olhos. Seu rosto era uma máscara de indiferença aristocrática, seus olhos cinzentos percorrendo as fileiras de escravos como um fazendeiro avaliando sua colheita.
Ao seu lado, sua esposa, a Lady, flutuava em sedas tingidas de azul e púrpura. Joias de ouro e lápis-lazúli adornavam seu pescoço e pulsos. Seu rosto era belo, mas marcado pelo tédio e por um desdém mal disfarçado por tudo o que via.
E atrás deles, vinha o Jovem Lorde, seu filho. Um rapaz no final da adolescência, com uma expressão serena que contrastava fortemente com a dureza de seu pai e o tédio de sua mãe. Seus olhos percorriam as fileiras de escravos não com interesse, mas com uma sombra de tristeza, como se o sofrimento abjeto à sua frente o afetasse genuinamente.

Gérion os seguia como um cão de caça, curvando-se e apontando, sua voz oleosa ecoando pelo pátio.
Hermes baixou a cabeça, tentando se fundir com a multidão. Ele sentiu o olhar do Lorde passar por ele, frio e calculista. Mas foi o olhar da Lady que se demorou. Ele sentiu-o como um toque físico, uma curiosidade mórbida. Ele sabia o porquê. Mesmo coberto de sujeira, seu cabelo era de um branco antinatural. E mesmo emagrecido pelo trabalho, a estrutura de seu corpo ainda continha um eco de proporções divinas. Ele era uma anomalia estética.
Ela se inclinou e sussurrou algo no ouvido do marido. O Lorde olhou para Hermes novamente, desta vez com mais atenção, e deu um aceno quase imperceptível.
O coração de Hermes gelou.
A procissão continuou. Então, o olhar do Jovem Lorde encontrou o de Agouri. O rapaz, incapaz de fingir submissão completa, manteve os olhos erguidos, e o Jovem Lorde ofereceu-lhe um sorriso mínimo, quase solidário.
O desfile de horrores terminou. Gérion caminhou até o centro do pátio, com uma tabuleta de cera em mãos.
— Por ordem do nobre Lorde Kratos, os seguintes bens serão transferidos para o serviço doméstico. — A voz de Gérion era um trovão falso. — O de cabelo branco!
Guardas se moveram em direção a Hermes. Ele não resistiu. Sentiu os olhos de Sêneca e Ágatha sobre ele, pesados de preocupação. Ele estava sendo levado. A jaula estava mudando.
— O magricela com a cicatriz na sobrancelha! — Gérion gritou em seguida. — Você!
Dois outros guardas foram em direção a Agouri. O rapaz empalideceu, mas manteve-se firme. Quando um guarda agarrou seu braço, ele o puxou de volta com força.
— Não! — A voz de Agouri ecoou, chocando a todos com sua audácia.
O guarda ergueu a mão para golpeá-lo, mas antes que o couro pudesse descer, uma voz calma, porém cheia de autoridade, o interrompeu.
— Basta.
Era o Jovem Lorde. Ele se adiantou, seu movimento gracioso e deliberado, colocando-se sutilmente entre o guarda e Agouri. Seu rosto não demonstrava diversão, mas uma desaprovação contida em relação à violência. O guarda recuou imediatamente, curvando-se.
— O que o aflige, rapaz? — perguntou o Jovem Lorde a Agouri, sua voz surpreendentemente gentil.
— Eu não vou sem meu irmão! — Agouri gritou, apontando para Teseu, que observava a cena com os olhos arregalados de pavor, uma tosse sacudindo seu corpo frágil.
Um silêncio mortal caiu sobre o pátio. Gérion parecia prestes a explodir. O Lorde Kratos franziu a testa, irritado com a interrupção.
O Jovem Lorde, no entanto, olhou de Agouri para Teseu, e seu rosto se suavizou com o que parecia ser genuína compaixão. Ele se virou para seu pai.
— Pai, eu peço por eles. — Sua voz era respeitosa, mas firme. — A lealdade desse rapaz é uma virtude, não um crime. Seria uma crueldade desnecessária separá-los. — Ele fez uma pausa, seu olhar encontrando o de Teseu, que tremia visivelmente. — Eu cuidarei pessoalmente para que o doente receba tratamento adequado na villa. Considere-os minha responsabilidade.
O Lorde Kratos encarou seu filho por um longo momento, uma expressão indecifrável em seu rosto. Finalmente, ele deu de ombros, um gesto de concessão. A vontade de seu herdeiro, especialmente quando expressa com tal eloquência, era um pequeno preço a pagar pela paz.
— Que seja. Levem os três. — A ordem do Lorde foi final.
Os guardas, agora com novas instruções, agarraram Hermes, Agouri e um Teseu completamente atônito, que olhava para o Jovem Lorde com uma expressão de reverência e incredulidade. Foram puxados para fora da formação. Enquanto era arrastado, Hermes olhou para trás uma última vez. Ele viu Ágatha, com as mãos na boca, uma mistura de medo e talvez alívio em seu rosto. E viu Sêneca, que o encarava com uma expressão que não era de pena, mas de um profundo e sombrio aviso. Era o olhar de um homem que sabia que a benevolência em um lugar como aquele era, muitas vezes, a máscara mais perigosa de todas.
Eles foram conduzidos para cima, para fora da escuridão da mina e para a luz ofuscante do sol. Hermes, pela primeira vez em meses, sentiu o vento em seu rosto. Não era o sopro da liberdade. Era apenas o ar de uma nova prisão, uma cujas grades, disfarçadas de gentileza, ele sentia se fechando ao seu redor, mais complexas e talvez mais sufocantes do que nunca.
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