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    O sileno abriu caminho por entre a multidão aglomerada nas ruas esburacadas. Ele afastava os corpos peludos e as mulheres com toques curtos nos ombros, garantindo espaço para os quatro homens passarem.

    — Porquanto caminhamos juntos pela minha casa, é de bom tom saber teus nomes — o guia olhava para o grupo por cima do ombro com um sorriso solene.

    Os quatro responderam de forma breve, pronunciando apenas os primeiros nomes em sequência: Hermes, Magno, Sêneca e Anaxímenes.

    — Muito bem. Vocês podem me chamar de Sileno — a criatura declarou, abrindo um sorriso largo que expôs seus dentes amarelados e pontiagudos.

    Hermes deu um sorriso de canto e soltou uma lufada de ar pelo nariz.

    — Um sileno chamado Sileno. Seus pais tiveram pouca criatividade — Hermes zombou.

    O guia soltou uma gargalhada alta e rouca, exagerada a ponto de deixar Hermes e os outro desconfortáveis. Ele voltou o rosto para a frente e retomou a caminhada pelas ruínas festivas.

    Anaxímenes reduziu os passos e distanciou-se de Hermes, Magno e Sêneca. Caminhou até um muro de pedra desmoronado, onde algumas mulheres de roupas de folhas despejavam vinho escuro em recipientes de barro. O rapaz pegou uma das taças cheias da beirada do muro, bebeu um gole longo e continuou a andar pela lateral da rua, inspecionando as construções destruídas.

    Logo adiante, dois silenos de braços largos começaram a trocar empurrões violentos no meio do caminho. Anaxímenes andou na direção da briga e parou a poucos centímetros de distância dos dois. Ele observou a tensão muscular das criaturas com os olhos focados e a taça na mão. 

    Um dos silenos sofreu um solavanco forte no peito, cambaleou para trás e passou raspando pelo ombro de Anaxímenes. O rapaz de Mileto apenas deu um passo curto para o lado, evitou o impacto direto, bebeu o restante do vinho e retornou para junto do grupo com uma postura relaxada.

    Magno parou de andar, cravou os olhos em Anaxímenes e travou o maxilar.

    — Em Mileto nascem homens também, ou apenas asnos? — perguntou em um tom áspero. 

    O rapaz franziu o cenho e levou a taça à boca outra vez, apenas para perceber que ela estava vazia e então jogá-la longe.

    — Há um homem de Mileto logo à sua frente.

    — É mesmo? — O gatuno mostrou um sorriso jocoso, — Nós estamos cercados por criaturas estranhas. Você se distancia, bebe os líquidos servidos por eles sem hesitar e se posiciona no centro de um embate físico.

    Anaxímenes parou de frente para Magno e sustentou o olhar de forma despreocupada.

    — Eu sei cuidar da minha própria segurança e sei mensurar os riscos ao meu redor — levou a mão à boca em um bocejo. — Eu não vim até aqui para me esconder. E eu definitivamente não preciso da supervisão ou das broncas de um bandido rabugento.

    Magno estreitou os olhos e tensionou os ombros, preparando-se para prolongar a discussão, na verdade, para transformá-la em algo mais físico.

    Hermes passou no meio dos dois em passos duros, esbarrando propositalmente no braço do colega. O deus exigiu silêncio imediato com um gesto rígido de mão, indicando que ambos encerrassem a troca de farpas e a acelerassem o passo para alcançarem o guia sileno.

    Anaxímenes deu de ombros e seguiu. Magno massageou a ponte do nariz em uma luta mental por comedimento antes de ir atrás.

    O som de tambores e o cheiro de suor e vinho aumentavam à medida que adentravam o centro das festividades.

    Eles chegaram a uma clareira demarcada por pedras empilhadas. No meio do espaço rodeados por inúmeros iguais e ninfas, dois silenos colidiam as cabeças repetidas vezes, gerando estalos ocos que ecoavam pelo ar. 

    O responsável por organizar as disputas estava de pé sobre um muro baixo na lateral. Ele possuía chifres extremamente longos, que nasciam no topo da testa e se curvavam para trás, descendo contínuos até a altura do meio das costas.

    Hermes acelerou o passo e emparelhou com o guia.

    — Você mencionou os objetos que eu carrego — Hermes falou, mantendo a voz firme e direta. — O que você sabe essas moedas? Onde você as viu?

    O sileno virou o rosto para a arena, ignorou a aproximação de Hermes e esticou o braço direito para apontar na direção do organizador sobre o muro.

    — Olhem para a estrutura daquele ali! — o guia exclamou, animado. — A curvatura dos chifres garante o equilíbrio perfeito e absorve o impacto frontal. É o nosso melhor juiz para a modalidade de colisão.

    Poucos metros à frente, passaram por uma estrutura de pedra circular coberta de poças escuras. No chão, ocupando quase todo o centro do círculo, um sileno coordenava um campeonato de bebedeira. 

    A criatura possuía uma obesidade severa. Seu ventre redondo cobria completamente as pernas flexionadas, impossibilitando-o de se levantar do chão. Ele recebia ânforas cheias de vinho diretamente das mãos de duas mulheres, entornava o líquido na garganta sem pausas para respirar e gritava incentivos para os competidores ao redor.

    O grupo avançou e alcançou a base de uma parede íngreme de rocha natural. 

    Dezenas de silenos subiam a superfície vertical saltando e impulsionando o corpo usando apenas a força dos cascos traseiros. O líder responsável por essa modalidade aguardava no topo da estrutura. Ele exibia um aspecto físico muito magro, caracterizado por pernas desproporcionalmente longas e finas em relação ao tronco estreito.

    Sêneca apertou o passo a custo de uma respiração um pouco alterada e se posicionou do outro lado do guia.

    — Sabe algo sobre totens deônticos? — seus olhos apertados e a voz contribuíam para um tom inquiridor. — E sobre a Arché? As moedas que procuramos funcionam sob esse mesmo princípio de manipulação de energia essencial?

    O sileno olhou para Sêneca, abriu a boca e soltou uma risada alta que fez seus ombros sacudirem. Então, bateu a mão aberta nas costas do estudioso e apontou o dedo indicador para a parede de pedra.

    — A regra da nossa escalada é muito rigorosa, meu jovem — o guia respondeu em tom professoral, mudando o foco da conversa de imediato. — Os competidores usam apenas os dois apoios traseiros. Quem encostar as mãos na pedra ou perder o equilíbrio e cair, está automaticamente desclassificado.

    Hermes travou o maxilar e cerrou os punhos ao lado do corpo. Ele trocou um olhar rápido com Sêneca, atestando a recusa sistemática do guia em fornecer qualquer resposta real durante a caminhada.

    Seguiram o guia por uma viela estreita entre duas fundações destruídas. O barulho dos tambores e dos gritos aos poucos ficava para trás. 

    No lado direito do caminho, erguia-se a estrutura de um armazém extenso. O teto e as paredes originais estavam desmoronados, e dezenas de tecidos velhos e remendados cobriam as aberturas e fechavam o local por completo.

    Sons abafados de respirações arrastadas e gemidos curtos escapavam pelas frestas dos panos. Sêneca parou de caminhar e virou o rosto para a estrutura, focado nos ruídos. Deu dois passos na direção da parede provisória, segurou a borda de um dos tecidos com o polegar e o indicador e abriu uma pequena fresta para espiar o interior.

    O espaço interno estava ocupado por silenos e mulheres sem roupas, deitados no chão de terra. No centro do armazém, uma figura destacava-se. Era uma náiade. Ela possuía traços faciais de uma beleza irreal e cabelos curtos de um azul claro vibrante. A náiade andava entre os corpos e coordenava as dinâmicas físicas de cópula, instruindo os outros e participando ativamente dos atos.

    Sêneca soltou o tecido de supetão e puxou o rosto para trás em um movimento brusco. Suas bochechas ficaram imediatamente vermelhas.

    — Se-selvagens… — sussurrou ao desviar o olhar do armazém.

    Magno jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada alta. 

    Quando Sêneca aproximou-se, levou um empurrão no ombro do colega com a mão aberta.

    — Você gostou do que viu aí dentro? — O gatuno perguntou em tom de deboche, apontando para o armazém com o polegar.

    Sêneca engoliu em seco e ajeitou a própria roupa, desconfortável com a situação. 

    Ao lado deles, Anaxímenes fixou os olhos na tenda coberta enquanto esticava o pescoço na tentativa de encontrar outra fresta aberta.

    Hermes ignorou a cena inteira e continuou atrás do sileno pela viela. Os três precisaram apressar o passo para não perderem o deus e o guia de vista.

    — Diga o que quer por informações sobre as moedas. — pediu o rapaz de cabelos brancos, impaciente.

    Em silêncio, o guia prosseguiu.

    Logo, o calçamento de pedras rachadas terminou e deu lugar a um terreno plano de terra batida. No centro desse espaço, erguia-se uma cabana grande e bem estruturada, construída com toras grossas de madeira alinhadas e um teto alto de palha trançada.

    O distanciamento do centro das ruínas tornava o som dos tambores e dos gritos mais baixo e tolerável.

    Sileno parou em frente à porta de entrada da cabana, girou nos calcanhares, virou-se para os quatro homens e abriu os braços com um movimento amplo.

    — Vocês são nossos convidados de honra — declarou com um sorris largo. — Aproveitem. Divirtam-se o quanto quiserem. A festa inteira foi preparada para vocês, e apenas para vocês.

    Hermes travou o maxilar. Ele deu dois passos duros à frente, encurtando a distância até ficar a poucos palmos do peito da criatura.

    — Minha paciência acabou — Hermes disse. A voz saiu em um tom ríspido e autoritário. — Eu não vou participar de nenhum festival. Eu não vou competir em nada e não vou dar mais nenhum passo por estas ruínas. Eu quero as respostas sobre as moedas. Agora.

    O sileno abaixou os braços devagar. O sorriso sumiu de seu rosto. Ele puxou o ar e soltou um suspiro longo, enchendo o peito e movendo os ombros de forma propositadamente teatral.

    — Vocês jovens são tão apressados, como se o tempo fosse o pior dos inimigos.

    A criatura cruzou os braços sobre a clâmide de pele de onça e inclinou o corpo levemente para a frente.

    — Façamos pelos moldes corretos, então — o guia propôs. — Vocês quatro participarão dos jogos da nossa festa. Se vocês competirem e vencerem, eu darei todas as respostas que procuram sobre as moedas.

    Hermes estreitou os olhos.

    — E o que ocorre se perdermos?

    — Bem… — Sileno levou a mão ao queixo peludo.

    A mão direita do deus caído deslizou lentamente em direção ao cinto e roçou os dedos no tecido logo acima de onde as moedas místicas estavam escondidos.

    “Deixa eu adivinhar. ‘Dêem-me as moedas’” A sugestão parecia óbvia em sua mente.

    O sileno inclinou a cabeça para o lado. Os cantos de sua boca subiram novamente, formando um sorriso lento que revelou os dentes amarelados.

    — Se vocês perderem, um de vocês ficará aqui na vila. Participando da nossa festa. Para sempre.

    Todos arregalaram os olhos.

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