Capítulo 7 | A Jaula Dourada
A jornada para fora da mina foi uma ascensão do inferno para um purgatório desconhecido. A carroça de carga que os transportava balançava desconfortavelmente, mas para Agouri e Teseu, era como flutuar em uma nuvem. Depois de meses ou anos na escuridão perpétua, a luz do sol era uma divindade esquecida, pintando o mundo com cores que eles mal se lembravam.
— Olhe, Teseu! O mar! — Agouri exclamou, apontando com o dedo trêmulo para o azul cintilante no horizonte. Ele se virou para Hermes com um sorriso que ia de orelha a orelha. — Você acredita nisso? Ar puro! Vamos ter camas de verdade! E o Jovem Lorde vai conseguir um curandeiro para você!
Teseu, apoiado no canto da carroça, assentiu, um sorriso fraco, mas genuíno, em seus lábios pálidos. A tosse ainda o abalava, mas seus olhos, antes turvos de desespero, agora continham um brilho de esperança. A promessa de cuidado, a gentileza inesperada do Jovem Lorde, era um bálsamo para sua alma cansada.
Hermes permaneceu em silêncio. Ele via o mesmo mar, o mesmo céu azul, as mesmas colinas verdejantes da Calcídica. Mas para ele, a beleza era uma tortura. Cada vislumbre da vastidão do mundo era uma facada, um lembrete de sua liberdade perdida, de quando ele podia cruzar aquela distância em um piscar de olhos.
A brisa salgada que animava seus companheiros apenas trazia para ele o eco das palavras de Sêneca: “É apenas uma jaula diferente.” Ele olhava para a esperança nos rostos dos dois rapazes e via apenas a ingenuidade de cordeiros sendo levados para um matadouro mais bem decorado.
Após horas de viagem, os portões da villa surgiram. Eram imensos, feitos de madeira escura e reforçados com bronze polido. Ao passarem por eles, o queixo de Agouri caiu. Teseu arregalou os olhos.
Era um paraíso. Um complexo de edifícios de mármore branco interligados por pátios abertos, colunatas e jardins meticulosamente cuidados. O som suave de fontes ecoava pelo ar, misturando-se com o perfume de lavanda e jasmim.
Mosaicos coloridos decoravam os pisos, retratando cenas de deuses e heróis — uma ironia que queimou no peito de Hermes. Para ele, aquilo não era um paraíso. Era uma imitação vulgar e sem vida do Olimpo, uma maquete construída por mortais que não compreendiam a verdadeira divindade.
Eles foram recebidos não pelo Lorde ou sua família, mas por um homem mais velho, alto e esguio, com uma túnica cinza impecável e um rosto que parecia ter sido esculpido em pedra. Seus olhos não demonstravam crueldade nem bondade, apenas uma eficiência fria e absoluta.
— Eu sou Fílon, o administrador desta casa — ele anunciou, sua voz tão sem cor quanto sua túnica. — Vocês foram escolhidos para servir. Esqueçam a mina. Suas vidas antigas acabaram. Aqui, vocês seguirão as regras, ou desejarão a simplicidade de uma chicotada. Sigam-me.
Suas palavras eram um balde de água fria na excitação de Agouri. Eles foram conduzidos através dos pátios deslumbrantes até uma área de serviço mais austera, mas ainda assim infinitamente mais limpa que a mina. O primeiro destino foram os banhos.
A sensação da água quente foi um choque. Para Agouri e Teseu, era um luxo inimaginável que eles aproveitavam em meio a risadas e brincadeiras.
Mas para Hermes, ser despido e esfregado por outros escravos era uma nova humilhação. Suas cicatrizes, antes escondidas pela sujeira, ficaram vividamente expostas sob a luz.
A marca em seu peito, a cicatriz em forma de caduceu, pareceu pulsar friamente quando a água a tocou. Ele se sentia como um animal sendo limpo, sua história de dor sendo catalogada pelos olhos curiosos e temerosos dos outros servos.
Tudo corria de forma mecânica até que um dos servos, um homem mais velho, se aproximou com uma esponja para lavar seus cabelos. No instante em que a mão do homem se aproximou de sua nuca, Hermes recuou com um movimento brusco, quase violento, pressionando as costas contra a parede fria da tina.
— Não toque na minha cabeça — ele rosnou, a voz baixa e perigosa. O servo congelou, a mão pairando no ar, o rosto uma máscara de medo e confusão.
— Eu posso fazer isso sozinho — Hermes repetiu, a voz firme, pegando a esponja da mão trêmula do homem.
Um silêncio constrangedor tomou conta da casa de banho. Teseu e Agouri que há pouco brincavam e zombavam um do outro se aquietaram. Os outros servos que cochichavam entre si também se calaram.
…………
Após o banho, receberam túnicas simples de linho cru. A textura do tecido limpo em sua pele era estranha, vulnerável. Fílon retornou e os inspecionou com um olhar crítico.
— Suas funções foram designadas. — Ele consultou uma tabuleta. — Teseu.
Teseu se encolheu sob o olhar do administrador.
— O Jovem Lorde ordenou que você seja levado à ala médica. Receberá tratamento para sua enfermidade. — A confirmação da promessa fez o rosto de Teseu se iluminar, e Agouri sorriu abertamente para o irmão.
— Agouri. — Fílon continuou. — Você foi designado como atendente pessoal do Jovem Lorde. Responderá diretamente a ele. Não o desaponte. As consequências seriam… severas.
Agouri assentiu vigorosamente, a empolgação superando o medo. Servir ao homem que os salvara? Era uma honra.
— Hermes. — Fílon virou-se para ele, e seus olhos pareceram se demorar um pouco mais. — Você cuidará dos jardins do pátio oeste. Seu trabalho é manter a beleza do lugar. No entanto, a Lady expressou um interesse em sua… aparência única. Você permanecerá à disposição dela. Se ela o chamar, a qualquer hora, você obedecerá sem questionar. Entendido?
Hermes apenas assentiu, seu estômago se revirando. Ele era uma ferramenta para o jardim e um bibelô para a Senhora.
Um servo levou Teseu, que olhou para trás com gratidão e esperança. Outro gesticulou para Agouri, que seguiu com um passo saltitante, ansioso para encontrar seu novo e benevolente mestre.
Hermes foi deixado com Fílon, que o conduziu em silêncio até os jardins do pátio oeste.
…………
Teseu foi levado para longe da agitação da área de serviço, por um corredor de mármore branco e silencioso que parecia ressoar com cada passo hesitante que dava. O ar era fresco e cheirava a cera de abelha polida. Era o lugar mais limpo que o menino já vira em toda a sua vida.
O servo parou em frente a uma porta de madeira clara e a abriu. — A ala médica. O doutor o espera.
Teseu entrou timidamente. A sala era pequena, mas incrivelmente arejada, com uma grande janela que dava para um jardim interno. A luz do sol banhava o ambiente, iluminando prateleiras de madeira repletas de frascos de cerâmica e vidro, e feixes de ervas secas penduradas no teto. O cheiro de menta e camomila substituiu o odor de poeira e desespero da mina.
Um homem mais velho, com cabelos grisalhos e mãos manchadas de ervas, se levantou de um pequeno banco. Suas roupas eram as de um escravo, mas seus olhos continham a calma e a perícia de um profissional. Ele o avaliou com um olhar clínico, mas não desprovido de gentileza.
— Você deve ser Teseu. Sente-se aqui, por favor.
Teseu obedeceu, sentando-se na beira de um leito coberto com um lençol de linho limpo. A maciez do tecido era um choque. O médico-escravo o examinou com um toque suave, ouvindo sua respiração com a orelha encostada em suas costas e observando a palidez de sua pele.
— A enfermidade está em seus pulmões há muito tempo — disse o médico, a voz baixa e cansada. — Mas você é jovem. Forte. Com o tratamento certo, seu corpo pode se recuperar.
Ele se virou para uma pequena mesa, onde um almofariz e um pilão descansavam. Com movimentos precisos, ele moeu algumas folhas escuras e as misturou com um líquido quente de uma jarra, criando um chá escuro e aromático.
— Beba isto. Tudo. — Ele ofereceu a caneca a Teseu. Ao ver a hesitação no rosto do garoto, ele acrescentou, com um tom de reverência contida: — É uma ordem especial do Jovem Lorde. Ele mesmo selecionou estas ervas. Disse que elas o fariam se sentir mais forte.
Teseu pegou a caneca com as duas mãos, o calor aquecendo seus dedos frios. “Ele mesmo selecionou as ervas.” A frase ecoou em sua mente, um ato de cuidado tão profundo e inesperado que quase o fez chorar. Ele bebeu o líquido amargo, mas para ele, tinha o gosto da mais pura esperança.
— Descanse agora — disse o médico, indicando o leito.
Deitado naquele colchão macio, com o calor do chá se espalhando por seu corpo e o sol da tarde aquecendo seu rosto, Teseu se permitiu, pela primeira vez em anos, acreditar. Talvez as coisas realmente melhorassem dali pra frente.
…………
O servo que guiava Agouri era um homem mais velho, de ombros curvados e um rosto sem expressão. Ele o conduziu por corredores que pareciam cada vez mais luxuosos, o som de seus passos abafado por tapetes de lã. Pararam em frente a uma porta de cedro entalhada.
— Os aposentos do Jovem Lorde — o servo anunciou em um sussurro. — Mantenha a cabeça baixa. Fale apenas quando falarem com você. E, pelos deuses, não o aborreça.
Agouri engoliu em seco, o nervosismo fazendo seu estômago revirar, mas ele assentiu. O servo bateu suavemente na porta e, ao ouvir uma voz calma de dentro, a abriu e gesticulou para que Agouri entrasse, antes de se retirar e fechar a porta atrás dele.
O quarto era maior do que qualquer espaço que Agouri já vira. Uma brisa suave vinda de uma enorme varanda com vista para o mar balançava as cortinas de linho branco. Havia rolos de papiro empilhados em mesas baixas, uma lira polida descansava em um canto, e as paredes eram adornadas com mapas de terras distantes.
Perto da varanda, de costas para ele, estava o Jovem Lorde. Ele olhava para o mar, a luz do sol da tarde criando uma auréola em seus cabelos. Agouri, lembrando-se do aviso, baixou a cabeça e esperou em silêncio, o coração martelando.
— Erga o rosto, rapaz.
A voz era calma e gentil, sem o tom de comando que ele esperava. Hesitante, Agouri obedeceu. O Jovem Lorde o encarava com um sorriso suave, seus olhos continham uma curiosidade serena, não o tédio de sua mãe ou a dureza de seu pai.
— Fílon me disse que seu nome é Agouri. E que você tem um espírito… vibrante. — O Jovem Lorde caminhou até uma pequena mesa e pegou um figo maduro de uma tigela de prata.
Ele se aproximou e estendeu a fruta para Agouri.
— Quero que seja você mesmo. Sua lealdade a seu irmão no pátio… um sentimento tão puro e honesto. Algo que há muito já não via. Eu adoro isso.

Agouri pegou o figo, seus dedos trêmulos tocando os do nobre por um instante. Ele olhou para o rosto do Jovem Lorde, procurando por qualquer sinal de zombaria ou engano, mas não encontrou nada além de uma aparente sinceridade. Aquele homem não o via como um “item”, como seu pai via Teseu. Ele o via como uma pessoa.
Um menino, que nunca tivera nada, acabara de receber o presente mais precioso: reconhecimento.
— Meu senhor… — ele começou, a voz rouca. — Eu…
— Apenas faça seu trabalho bem, Agouri. E seja leal a mim como é a seu irmão. Isso é tudo que peço. — O Jovem Lorde sorriu novamente e se virou para olhar o mar. — Agora, leia para mim. Há um rolo sobre as Guerras Persas naquela mesa. Quero ouvir uma voz forte hoje.
Agouri ficou parado por um momento, o figo em sua mão parecendo o tesouro mais valioso do mundo. Sentiu vontade de chorar. Contente. Não era uma jaula.
Ele havia encontrado um protetor. Um amigo. Com um sorriso radiante e sincero, ele se apressou para pegar o rolo, ansioso para servir, para agradar, para provar que a confiança daquele homem bom não seria em vão.
…………
O jardim era de uma beleza estonteante. Rosas, lírios e hibiscos cresciam em profusão, dispostos em padrões geométricos ao redor de uma fonte de mármore que retratava ninfas dançando. O trabalho seria tedioso, mas pacífico.
Por um instante, sozinho entre as flores, sob o céu azul, Hermes sentiu o nó em seu peito se afrouxar minimamente.
A sensação durou pouco.
O farfalhar de seda anunciou sua chegada. A Lady Kratos caminhava pelo jardim, seus passos silenciosos sobre o caminho de pedras. Ela não olhou para ele diretamente, preferindo admirar uma rosa vermelha.
— A beleza exige cuidado constante — ela disse, sua voz musical, mas com um tom de aço por baixo. — Cada pétala, cada folha, deve estar perfeita. A menor imperfeição arruína o todo.
Ela finalmente se virou, e seus olhos azuis o avaliaram da cabeça aos pés, demorando-se em seu cabelo branco e em seu rosto. Hermes permaneceu imóvel, a cabeça baixa como Fílon havia instruído.
— Então, este é o anjo branco que minhas minas sujas escondiam. — Ela se aproximou, parando a poucos passos dele. Sua presença era avassaladora, carregada com o perfume caro e o peso da autoridade absoluta. — Erga o rosto, rapaz.
A ordem soou no jardim silencioso na forma de uma voz soberana, preenchendo o ambiente com uma atmosfera pesada.
Lentamente, Hermes ergueu o olhar, seus olhos encontrando os dela. Ele não mostrou medo, nem desafio. Apenas um vazio profundo.
Um sorriso enigmático tocou os lábios da Lady. — Veremos se você é tão bom em obedecer quanto é em ser… decorativo.
Ela se virou e se afastou com a mesma graça silenciosa, deixando-o sozinho com o perfume de seu rastro e o som da fonte.
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