Índice de Capítulo

    O trabalho nos jardins, sob o sol da Calcídica, era fisicamente mais leve do que o da mina, mas exigia uma atenção aos detalhes que era mentalmente exaustiva. 

    Hermes passava seus dias a podar rosas, limpar fontes e arrancar ervas daninhas com uma precisão robótica. O trabalho repetitivo era uma espécie de meditação sombria, um meio de silenciar os fantasmas de seu passado e a raiva latente que fervia sob sua pele. Naquele silêncio, ele quase encontrava paz.

    Ele via seus companheiros de longe. Teseu passava a maior parte do tempo na ala médica, um pequeno edifício arejado nos fundos da propriedade, próximo à casa da família. Nas raras vezes em que Hermes o via a caminhar lentamente por um pátio, notava a mudança. A cor voltava ao seu rosto, a tosse era menos frequente. A comida regular e os remédios de um médico-escravo faziam efeito. 

    A esperança havia se tornado uma chama real nos olhos de Teseu, uma chama alimentada pela reverência que ele agora nutria pelo “benevolente” Jovem Lorde.

    Agouri era um borrão de energia. Como atendente pessoal do herdeiro, ele estava sempre impecavelmente vestido, correndo pelos corredores em missões, seu rosto brilhava de orgulho e excitação.

    — Ele me pediu para ler para ele hoje! — Agouri sussurrou para Hermes uma tarde, perto das fontes. — Um rolo sobre as Guerras Persas! Ele disse que minha voz é forte. E Teseu comeu uma refeição completa hoje! O Jovem Lorde perguntou pessoalmente sobre ele! Não é maravilhoso, Hermes?

    Hermes apenas o encarou, sua expressão vazia. A alegria ingênua de Agouri era como sal em suas feridas. Ele não via a gentileza do Jovem Lorde, via apenas a teia de uma aranha em que eles dançavam sem se dar conta, convencidos de que eram convidados de honra. Ele se afastou do rapaz, buscando o silêncio de suas tarefas.

    Enquanto enchia um cântaro de água na cozinha dos servos, um lugar barulhento e cheio de vapor, ouviu duas mulheres mais velhas cochicharem enquanto descascavam vegetais.

    — A Senhora está admirando suas “rosas” de novo — murmurou uma, com um sorriso de escárnio que não alcançou seus olhos cansados, olhando por uma janela que dava para os jardins.

    A outra mulher soltou uma risada baixa, sem humor.

    — “Anjo branco”, é mole? — zombou uma delas — Ele acha que é especial. Todos eles acham, no início.

    — Lembro-me do último — continuou a primeira abaixando o tom para um sussurro conspiratório. — O tocador de flauta de Frígia. Belas mãos ele tinha. A Senhora o adorou. Por um verão inteiro.

    — Um verão? O escultor de Samos durou apenas até a primeira lua de inverno. — A segunda mulher retrucou, com um tom de quem vence uma aposta. — A Senhora disse que o cinzel dele ficou “sem inspiração”. O Lorde encontrou uma “inspiração” para ele no fundo do poço da mina.

    As duas trocaram um olhar cúmplice, uma centelha de prazer sombrio em seus rostos. A primeira mulher suspirou numa falsa piedade.

    — Vamos ver quanto tempo este aí dura.

    Hermes permaneceu imóvel por um instante, a água transbordava de seu cântaro. As palavras pairaram no ar enquanto ele rangia os dentes. Fechou a torneira e se afastou, o som dos cochichos desapareceram atrás dele.


    A Lady Kratos começou a fazer de seus jardins seu passeio preferido. No início, eram encontros “casuais”. Ela o observava trabalhar à distância, antes de se aproximar sob o pretexto de admirar uma flor.

    — É preciso ter mãos delicadas para não ferir algo tão belo — ela disse um dia pairando suas unhas perfeitas perto de uma gardênia que Hermes acabara de limpar.

    Seus dedos então se deslizaram, roçando o dorso da mão dele. O toque foi leve como a asa de uma mariposa, mas Hermes recuou como se tivesse sido queimado.

    Ele não disse nada, apenas voltou ao seu trabalho. O silêncio dele, sua recusa em reconhecer o jogo dela, parecia intrigá-la e, sutilmente, irritá-la.


    Certa noite, Fílon o convocou. A Lady precisava de ajuda para mover um pesado baú de cedro em seus aposentos. O estômago de Hermes se apertou. Ele sabia que aquilo não tinha nada a ver com um baú.

    Os aposentos dela eram um santuário de luxo e perfume. Sedas e veludos cobriam cada superfície, e o ar era denso com o cheiro de mirra e óleos exóticos. Ela o aguardava, vestida com uma túnica de seda fina que mal escondia as formas de seu corpo. Ela dispensou as outras servas com um aceno, deixando-os sozinhos.

    — O baú — apontou. — Ali.

    Hermes moveu o objeto com facilidade, herança dos meses de trabalho escravizado nas minas. Ele o colocou onde ela indicou e se virou para sair.

    — Espere — sua voz o deteve. — Um trabalho bem feito merece uma recompensa. Beba um pouco de vinho comigo.

    Em uma mesa próxima, uma ânfora de vinho e duas taças de prata o aguardavam. Era uma cena preparada.

    — Eu não bebo, Senhora — seus olhos estavam grudados no chão, e sua voz rouca pelo desuso.

    Um riso escapou, baixo e sarcástico.

    — Um escravo com preferências? Que fascinante. — aproximou-se adornada pelo farfalhar de sua túnica. — Um escravo inteligente, Hermes, aprende a agradar seus mestres. Ele descobre que a obediência pode ser muito… recompensadora. Posições melhores, comida melhor, proteção… 

    Parou bem na frente dele, perto o suficiente para que ele sentisse o calor de seu corpo. 

    — Um escravo tolo, por outro lado… descobre o que acontece com as coisas bonitas que não servem ao seu propósito. Elas quebram.

    Hermes encontrou o olhar dela, e por um momento, a fúria divina que ele mantinha acorrentada brilhou em seus olhos. Não disse nada. Apenas se curvou rigidamente e se moveu em direção à porta.

    — Pare.

    Ele parou com a mão na porta, de costas para ela.

    — Você é orgulhoso. Mas não é inalcançável. — Ela fez uma pausa, e quando falou novamente, sua voz estava carregada de veneno e disfarçada de doçura — Você parece se importar com seus amigos da mina. O rapaz doente e seu irmão barulhento. Uma pena.

    Hermes enrijeceu.

    — A saúde de um deles, a posição privilegiada do outro… tudo aqui é tão… frágil. — Ele podia sentir o sorriso dela em suas palavras. — Tudo depende da boa vontade de meu marido, da diversão de meu filho. E da minha. E a minha boa vontade… você parece determinado a desperdiçar.

    Ela o deixou absorver aquilo. Antes de bocejar.

    — Volte para seus aposentos, anjo branco. Pense na minha oferta. Pense no propósito de uma coisa bonita. E pense em seus amigos.

    Ele abriu a porta e saiu, sem olhar para trás. Os corredores imaculados da villa, banhados pela luz suave das lucernas, pareciam se fechar sobre ele, sufocantes. Ao longe, ouviu a risada despreocupada de Agouri vindo da ala do Jovem Lorde, um som que agora soava como o tilintar de uma corrente. A imagem de Teseu, com um traço de saúde em seu rosto, invadiu sua mente, o elo final da coleira que a Lady acabara de prender em seu pescoço.

    Ele, o Mensageiro dos Deuses, o Viajante, estava encurralado.

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