Índice de Capítulo

    A estrada que ligava as ruínas fumegantes de Pella às terras do sul não era pavimentada com o mármore ou a pedra polida das grandes pólis. Era um rastro irregular de terra batida e cascalho que cortava a geografia acidentada, serpenteando entre colinas íngremes cobertas por uma vegetação rasteira e seca.

    O sol do meio-dia castigava o solo, levantando ondas de calor que distorciam o horizonte, mas o grupo caminhava sob a sombra irregular de uma floresta antiga que começava a adensar-se à medida que se afastavam da costa.

    Procuravam sombra e proteção contra o escaldo, mas encontraram uma floresta de pinheiros e carvalhos velhos, com raízes grossas que rompiam a terra como veias de madeira, exigindo atenção constante a cada passo. O cheiro no ar era forte, uma mistura de resina de pinheiro aquecida pelo sol e poeira seca.

    O grupo avançava em fila. Licaão seguia à frente. Não parecia cansado pela batalha recente. Movia-se com tenaz vivacidade a passos rápidos como alguém que há muito não caminhava. Seus ombros, largos e tensos sob os trapos que vestia mal balançavam com o passo.

    Um tanto atrás, Teseu sentia o peso de sua armadura de bronze. O metal, aquecido pelo sol, pressionava seus ombros e incomodava em um aperto que ele nunca se acostumava, e a xiphos embainhada batia ritmicamente contra sua coxa a cada passada. Mas o desconforto físico era menor do que a inquietação que lhe apertava o estômago. Seus olhos estavam fixos nas costas de Licaão.

    Ele se lembrava da imagem na praça de Pella: o corpo do homem se rasgando para dar lugar à besta, o focinho alongado, a violência pura que desmembrara quimeras como se fossem bonecos de palha. Hermes o chamara “cão de caça”. Pensava se o amigo teria algo mais a revelar sobre a natureza desse desconhecido que, agora, prometia acompanhá-los por algum tempo na descida à Hélade.

    Plutarco vinha por último. O escriba respirava com dificuldade devido à inclinação do terreno, ajeitando constantemente a bolsa de couro que protegia seus rolos de papiro. Ele parou por um momento para limpar o suor da testa com a manga da túnica e observou as árvores ao redor.

    — O terreno é íngreme — comentou Plutarco, recuperando o fôlego. Ele apontou para a densidade da mata. — As árvores bloqueiam quase toda a luz aqui.

    Licaão parou por um instante. Inclinou a cabeça levemente, escutando algo na floresta, mas não se virou para responder. Seguiu caminhando logo em seguida.

    — É apenas uma floresta — disse Teseu, em voz baixa.

    Ele olhou para as copas das árvores. Galhos se moviam sutilmente sem a presença de vento. A Dríade os acompanhava.

    O grupo continuou a marcha em silêncio. Teseu apertou o passo, diminuindo a distância entre ele e Licaão. Precisava resolver a dúvida que carregava desde a conversa com Hermes. Licaão parou bruscamente diante de uma bifurcação onde a estrada se alargava. Ele permaneceu de costas, imóvel.

    O ar quente da tarde parecia estagnar naquele entroncamento, e o zumbido dos insetos na mata era o único som que competia com a respiração pesada do grupo. Ele olhou para a nuca de Licaão, para os cabelos negros e desgrenhados que caíam sobre o tecido sujo, e sentiu a dúvida pesar mais que a armadura.

    — Diga-me de verdade… quem é você? — Teseu perguntou. Seu olhar estava focado à frente, evitando encarar o homem diretamente.

    Tinha certeza de que não o temia, já havia lutado ao lado dele e contra ele, mas um instinto antigo e primal o comandava a ser cuidadoso naquela conversa.

    Licaão não se virou de imediato. Ele inspirou profundamente, o peito expandindo-se sob os trapos, e soltou o ar em um bufo curto, como se a pergunta fosse mais cansativa do que a caminhada. Lentamente, ele girou nos calcanhares e ficou de frente para Teseu.

    — Creio que depois de tentar te matar duas vezes, o mínimo que poderia fazer é ter descoberto meu nome, não garoto? 

    Licaão exibiu um sorriso amarelo e curto, lábios finos repuxados de tal modo que mal apareciam na barba cheia e desgrenhada. Havia escárnio em seus olhos escuros, mas também uma ponta de desafio arrogante.

    — Eu sou Licaão, o Rei, e tenho a impressão de que já sabe disso.

    O silêncio caiu sobre o grupo por um segundo, pesado e denso. Teseu franziu o cenho e Plutarco mais ainda. Rei Licaão. O nome carregava um peso mítico, uma história de horror que as amas contavam para assustar crianças, mas ouvir aquilo da boca do homem sujo e selvagem à sua frente parecia absurdo.

    Antes que Teseu pudesse responder, um som frenético de raspagem quebrou a tensão.

    — Você é Licaão? Bem, isto é impressionante.

    Plutarco, que havia se sentado em uma pedra próxima para descansar as pernas, agora escrevia fervorosamente em sua tabuleta de cera, o estilete movia-se com tamanha velocidade que quase furava a superfície.

    Teseu olhou para o escriba, incrédulo.

    — Você não duvida de nada do que eu falo antes de escrever? Não sei se é sábio ou louco.

    Plutarco não parou de escrever. Ele apenas ergueu um dedo, pedindo um momento para terminar a frase, antes de levantar o olhar com um brilho de satisfação profissional.

    — Não me importo se você está mentindo ou não, meu caro. Um bom cronista transforma tudo o que ouve em uma boa história. Além do mais, não é a coisa mais estranha que já ouvi desde que comecei a acompanhar o garoto.

    Licaão soltou uma risada curta com olhos fechados. Parecia se divertir genuinamente.

    A mudança de foco fez Teseu bufar, impaciente, e dar um passo à frente.

    — Hermes o chamou de cão de caça — Teseu insistiu, a voz mais dura. — Ele disse que você serve a Ártemis. Se você é um rei, por que carrega uma maldição? Por que age como uma besta?

    O sorriso no rosto de Licaão desapareceu instantaneamente. A diversão arrogante deu lugar à hostilidade. Ele deu um passo na direção de Teseu, invadindo seu espaço pessoal, e o cheiro de suor e sangue seco que emanava dele era intenso.

    — Cuidado com o tom, rapaz — Licaão disse, a voz baixa, vibrando no peito. — Minha coroa foi tirada, mas meus dentes permanecem. O que eu fiz ou deixei de fazer, e a quem eu sirvo ou deixo de servir, não é da sua conta.

    — É da minha conta se eu tiver que viajar e lutar ao seu lado — Teseu retrucou, recusando-se a recuar, embora sua mão tenha se fechado em punho ao lado do corpo. — Você é um homem ou um monstro, Licaão?

    Licaão o encarou, as narinas dilatando. A irritação pulsava nele, visível na tensão de seu pescoço. Ele parecia prestes a atacar, ou a se transformar, mas algo o deteve. Ele virou a cabeça bruscamente para a esquerda, olhando para a orla da floresta densa, como se tivesse sido picado por um inseto.

    Seus punhos se cerraram. A insistência do garoto já era irritante o suficiente, mas a sensação de vigilância constante, aquele peso invisível sobre seus ombros que o acompanhava desde Pella, tornou-se insuportável naquele momento de raiva.

    — Pare de me vigiar como uma carcereira — ele não respondeu a Teseu. Em vez disso, rosnou para as árvores. — Apareça.

    Teseu virou-se atentamente levando a mão instintivamente ao cabo da espada. Plutarco ajeitou a bolsa ao lado do corpo, olhando em volta, procurando o alvo daquela hostilidade.

    O vento parou. O farfalhar das folhas cessou abruptamente, e o ar na clareira tornou-se pesado, carregado com o cheiro de terra revirada e flores silvestres.

    De um tronco antigo e retorcido à esquerda da estrada, a casca pareceu se desfazer e se reagrupar. A madeira se tornou pele, o musgo se transformou em cabelos longos e escuros, e a Dríade se materializou. Separou-se da árvore e seus pés tocaram a terra sem emitir som algum, como se dela fizessem parte. Tinha no rosto um sorriso sereno e olhar brilhante, o que, para Licaão, era ainda mais enervante.

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