Índice de Capítulo

    Os dias na villa se arrastavam em uma rotina de beleza sufocante. Hermes cumpria suas tarefas no jardim com uma eficiência desapaixonada, suas mãos se movendo com uma memória muscular que não exigia pensamento. 

    Este vácuo mental era sua única defesa contra a ameaça constante que pairava sobre ele. A Lady Kratos não o convocara novamente, mas ele sentia seu olhar sobre si de vez em quando, uma presença paciente e predadora, como uma serpente esperando o momento certo para dar o bote. A ameaça dela não precisava ser repetida; ela ecoava em cada canto silencioso daquela casa.

    Impulsionado por uma necessidade sombria de ver o que estava em jogo, Hermes começou a usar os breves momentos de descanso para ir até a ala médica. Naquela tarde, encontrou Teseu não em seu leito, mas caminhando lentamente por um corredor de serviço nos fundos, um pátio estreito murado que conectava a enfermaria à cozinha. O médico o havia instruído a andar para fortalecer os pulmões.

    — Suas mãos estão cobertas de terra — observou Teseu quando Hermes se aproximou, um leve sorriso em seu rosto. Ele parecia melhor. A tosse era uma sombra do que fora, e havia uma nova luz em seus olhos.

    — É o meu trabalho — respondeu Hermes, sua voz um murmúrio, enquanto seus olhos varriam as janelas superiores, procurando por observadores.

    Eles caminharam em silêncio por um momento, o som de seus passos o único ruído naquele corredor isolado.

    — Eu nunca agradeci devidamente — continuou Teseu, o tom sério, a voz baixa. — Pelo que fez na mina. E por… por estar aqui. Agouri precisa de um freio às vezes e eu não consigo fazer isso. — O menino sorriu de maneira melancólica.

    Antes que Hermes pudesse formular uma resposta que não soasse como o peso do mundo, o som de passos apressados ecoou no corredor, e o próprio Agouri surgiu, virando a esquina com uma lufada de ar e energia. Ele carregava um cacho de uvas, tão roxas e perfeitas que pareciam joias.

    — Do próprio Jovem Lorde! — anunciou ele, radiante. — Ele disse que as vitaminas fariam bem a você! — Ele entregou as uvas a Teseu, que as aceitou com reverência. — Hoje nós passamos a manhã inteira na biblioteca. Ele tem rolos de papiro de toda a Hélade! Ele me ensinou a reconhecer os brasões das grandes famílias de Atenas.

    Hermes observava os dois. A devoção no rosto de Agouri era total, e a gratidão de Teseu não era menor. Eram dois pássaros em uma gaiola dourada, cantando louvores ao seu captor por lhes dar sementes melhores.

    — Ele parece… muito bom para nós, Agouri — disse Teseu, escolhendo uma uva com cuidado. Sua voz era baixa, hesitante. — Mas… tome cuidado.

    Agouri parou de sorrir. — Cuidado com o quê? Ele é a razão de você estar respirando melhor. É a razão de não estarmos quebrando as costas na escuridão.

    — Eu sei. E sou grato. — Teseu olhou para as próprias mãos, depois para o irmão. — É só que… os nobres são diferentes. Seus humores mudam como o vento. O que é um passatempo para eles, para nós é a vida ou a morte. Apenas… não confie cegamente.

    — Você se preocupa demais! — Agouri retrucou, embora com menos força do que antes. — Ele é diferente! Ele é gentil.

    Para provar seu ponto, ele se inclinou para frente, sua expressão conspiratória. — Hoje ele me mostrou uma coisa. Ele tem um pequeno tentilhão, um pássaro cantor, em uma gaiola de prata em seus aposentos. Ele o capturou no jardim na semana passada.

    Hermes sentiu um arrepio frio, uma premonição.

    — Ele o trata muito bem! — Agouri continuou, alheio à mudança na atmosfera. — Dá as melhores sementes, água fresca… Ele adora o pássaro. Fica o observando por horas, ouvindo seu canto. Mas às vezes… — Agouri franziu a testa, tentando lembrar as palavras exatas de seu mestre. — Às vezes, ele cobre a gaiola com um pano escuro, para que o pássaro pare de cantar. Ele me disse: “É preciso ensinar-lhe o valor do silêncio, para que ele cante com mais fervor quando eu remover o pano. Ele precisa entender que sua voz é um privilégio que eu concedo, e que eu posso retirar quando quiser.”

    Agouri sorriu, orgulhoso da lição filosófica. — Não é inteligente? Ele está me ensinando a pensar!

    O silêncio que se seguiu foi pesado. Teseu parou de mastigar sua uva, seu rosto subitamente pálido. A metáfora era tão clara e tão terrível que ele não conseguiu falar.

    Hermes, que permanecera como uma estátua de pedra, sentiu a fúria subir por sua garganta como bile. O pássaro na gaiola. Agouri, o cantor ingênuo, cujo privilégio de “cantar” dependia inteiramente do capricho de seu mestre sádico.

    Teseu finalmente quebrou o silêncio. Ele não olhou para Agouri, mas para Hermes, seus olhos cheios de uma compreensão assustada.

    — Você também vê, não é, Hermes? — A pergunta era quase um sussurro. — Que devemos ser cautelosos.

    A pergunta direta o puxou para o centro daquele frágil momento. Ele não podia lhes contar sobre a Lady. Não podia lhes contar que suas vidas eram uma moeda de troca. Mas ele podia lhes dar a verdade, a única que ele conhecia.

    Ele encontrou o olhar de Teseu, depois o de Agouri. Sua voz, quando falou, era baixa e cortante como vidro quebrado.

    — Nesta casa, a gentileza é uma corrente tão forte quanto qualquer grilhão. Só muda o som de quando se aperta no pescoço.

    A imagem fez Agouri recuar, uma expressão de ofensa e confusão em seu rosto. Mas Teseu assentiu lentamente, o brilho de esperança em seus olhos sendo substituído por uma sombra de medo resignado. Ele entendia.

    Seu olhar então caiu sobre o cacho de uvas perfeitas que Agouri havia trazido, o presente do Jovem Lorde, que repousava em um pequeno prato ao seu lado. Eram o símbolo da gentileza, da esperança que ele havia abraçado. Com um movimento lento e deliberado, Teseu estendeu a mão e empurrou o prato para o centro da mesa, afastando-o de si. Um ato silencioso de rejeição.

    Hermes observou o gesto e compreendeu. Não era mais o único que via as grades em volta dos três.

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