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    A floresta do Sátiro era um mundo à parte. Nos primeiros momentos, a mudança foi um alívio. O ar parecia mais fresco, a luz do sol, antes um inimigo implacável, agora era filtrada por uma copa densa de folhas de carvalho e pinho, pintando o chão da floresta com manchas douradas e dançantes. O silêncio da fome foi substituído pelo farfalhar das folhas, pelo canto de pássaros que eles não reconheciam e pelo som constante e antinatural dos cascos do Sátiro na terra fofa.

    Ele se movia à frente, não como um guia, mas como o dono do lugar, a flauta de Pã presa em sua cintura balançando a cada passo saltitante. Ele não olhava para trás para ver se o seguiam; ele simplesmente sabia que o fariam. O desespero era uma coleira mais forte que qualquer corrente.

    — Vejam! — ele exclamou, apontando com um dedo nodoso para um arbusto com pequenas frutas vermelhas. — Boas para enganar a barriga. Mas cuidado com as que crescem ao lado — ele apontou para um arbusto quase idêntico, cujas frutas tinham um tom ligeiramente mais escuro. — Essas… bem, essas lhes dariam um sono do qual nem mesmo o chamado de Hades os despertaria. A floresta oferece o banquete e o veneno na mesma mesa. Basta saber escolher o prato.

    Ele riu de sua própria piada, uma gargalhada rouca que não convidava ninguém a acompanhá-lo. O grupo, no entanto, devorou as frutas seguras com uma avidez desesperada, o suco doce e ácido uma explosão de vida em suas bocas ressecadas. Era a primeira fagulha de esperança real em semanas, e eles se agarraram a ela.

    Enquanto caminhavam, a esperança começou a ser corroída pela inquietação. O Sátiro parecia se deliciar com a fragilidade deles. Ele os observava com seus olhos de bode, um divertimento cruel brilhando em seu olhar enquanto via os mais velhos tropeçarem em raízes ou as crianças choramingarem de exaustão.

    Durante uma breve pausa para descanso, Silvo, o jovem observador, sentou-se perto de Lycomedes, que afiava uma faca curta com uma pedra lisa. 

    — Acha que podemos confiar nele? — sussurrou Silvo, o olhar fixo na figura do Sátiro, que estava empoleirado em uma rocha, observando-os como um abutre paciente.

    Lycomedes não ergueu o olhar da lâmina. Sua voz era baixa, um murmúrio cansado. — Confiança é o que se dá a um cão leal, não a um lobo que sorri. Observe-o, aprenda com ele, mas entenda que, para aquela criatura, não somos um povo a ser salvo, somos um bando ferido.

    Silvo absorveu as palavras, sentindo o peso delas se assentar em seu coração. Ele olhou para o velho, para o rosto sulcado pela exaustão e para as mãos que, apesar de tremerem levemente, afiavam a lâmina com uma firmeza obstinada. Havia uma clareza nos olhos cansados de Lycomedes, uma sabedoria que parecia enxergar além da fome imediata e das promessas fáceis.

    Ele olhou para Theo, que discutia a formação da vigília noturna com uma intensidade feroz, e para Callisto, que já inspecionava o estado de seu arco, ambos focados no “aqui e agora”, na batalha pela sobrevivência. Silvo os admirava. Eram a força e a perícia que mantinham o grupo vivo. Mas Lycomedes… Lycomedes era diferente.

    O velho não estava apenas lutando pela sobrevivência deles, ele estava lutando pela alma deles. Naquele momento, Silvo entendeu. Lycomedes parecia o único a se perguntar sobre o preço daquela comida.

    Uma admiração profunda e silenciosa pelo velho se solidificou no peito do garoto. A cautela dele era invejável mesmo em uma situação como a que eles estavam agora.

    Do outro lado da clareira improvisada, Theo e Callisto tinham uma conversa igualmente tensa. — Ele nos leva em círculos — rosnou Theo, o braço ferido latejando sob as bandagens improvisadas. — Sinto que estamos apenas a um passo de onde começamos.

    — Não estamos — respondeu Callisto, a voz calma e precisa como sempre. Ela apontava com o queixo para o musgo que crescia no lado norte dos troncos. — Estamos indo para o noroeste. Ele cumpre sua parte do caminho. Mas os olhos dele… ele não olha para a trilha. Ele olha para nós. Ele está nos caçando com os olhos, avaliando-nos.

    — Que avalie — retrucou Theo. — Contanto que nos leve à comida. Depois disso, ele que tome cuidado com o que vai pedir como recompensa.

    A jornada continuou. A floresta se tornou mais sombria, mais antiga. As árvores eram gigantes retorcidos, cobertos de musgo, e o silêncio era tão profundo que podiam ouvir a própria respiração. Após o que pareceram horas de caminhada, o Sátiro parou abruptamente. Ele ergueu a mão, e o grupo congelou atrás dele.

    — Chegamos — ele sussurrou, um sorriso se espalhando por seu rosto.

    Ele os guiou através de uma última cortina de samambaias e eles emergiram em uma grande clareira. O que viram fez com que seus corações exaustos disparassem. Diante deles, na entrada de uma caverna escura, havia uma pilha de suprimentos: sacos de lona estufados de grãos, barris que prometiam vinho ou água, e caixotes de madeira. Os restos de uma caravana de mercadores.

    Um grito de alegria surgiu de um dos homens, e o resto do grupo ecoou, uma onda de alívio e júbilo. Eles começaram a correr em direção à comida, a disciplina esquecida, a fome agora a única comandante.

    — ESPEREM! — O grito de Callisto foi agudo como o silvo de uma flecha.

    Todos pararam, virando-se para ela. Ela não olhava para os suprimentos. Olhava para o chão em frente à caverna. Para as pegadas. Eram enormes, com marcas de garras longas e profundas cravadas na terra. E olhava para os ossos espalhados, ossos de cavalos e, sem dúvida, de homens, roídos até ficarem limpos.

    Foi então que o Sátiro, que os observava com um interesse clínico, falou. — Eita. Parece que o banquete tem guardiões.

    Da escuridão da caverna, um rosnado baixo e gutural ecoou, um som que fez o sangue do grupo gelar. Dois ursos imensos, maiores do que qualquer um que já tivessem visto, emergiram para a luz. Eram bestas de pelo escuro e emaranhado, com cicatrizes antigas em seus focinhos e olhos pequenos e inteligentes que os fixavam com ódio territorial.

    Enquanto o pânico se instaurava, o Sátiro caminhou calmamente até um tronco caído na borda da clareira. Ele se sentou, cruzou as pernas de bode, retirou a flauta de Pã de sua cintura e, ignorando completamente o terror da cena, levou o instrumento aos lábios.

    Uma melodia começou, dissonante, saltitante e terrivelmente inadequada.

    …………

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