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    A melodia que brotou da flauta do Sátiro era uma blasfêmia. Era leve, saltitante e completamente alheia ao terror que se desenrolava na clareira. Enquanto os ursos rugiam, um som gutural que parecia abalar a própria terra, a música da flauta dançava no ar, um contraponto zombeteiro ao pânico puro que tomou conta do grupo.

    O feitiço foi quebrado pela investida. O primeiro urso, uma montanha de pelos e fúria, avançou. A reação inicial do grupo foi um caos de instinto e medo. Homens e mulheres que haviam enfrentado guardas armados agora se dispersavam diante da fúria primal da natureza.

    — FORMEM UMA LINHA! ESCUDOS À FRENTE! — A voz de Theo foi um trovão que tentou impor ordem ao pânico. Ele e outros quatro homens, os mais fortes, ergueram os escudos de bronze roubados, uma parede frágil contra a avalanche que se aproximava.

    — OS OUTROS, PARA TRÁS! PROTEJAM AS CRIANÇAS! — gritou Lycomedes, empurrando os mais fracos para a retaguarda, seu rosto uma máscara de urgência. Ele não era um guerreiro, mas entendia de estratégia: o grupo precisava de espaço para lutar.

    Os ursos não eram soldados; não tinham tática, apenas um poder esmagador. O primeiro impacto contra a linha de escudos de Theo foi como uma onda quebrando contra um dique de areia. Um dos homens foi arremessado para trás, o escudo de bronze amassado como uma folha de metal. O urso rugiu, as garras rasgando o ar, e foi Callisto quem respondeu.

    Twang.

    Uma flecha sibilou, cravando-se no ombro da fera. Não foi um ferimento grave, mas a dor foi o suficiente para desviar sua atenção por um segundo. — Mantenham distância! Mirem nos olhos! — A voz de Callisto era a única coisa calma e focada em meio ao caos. Ela se movia pelas bordas da clareira, uma sombra ágil, seu arco cantando uma canção de morte que contrastava com a melodia indiferente da flauta do Sátiro.

    A necessidade de proteger os seus apenas tornou a luta ainda mais difícil. Cada vez que Theo ou Callisto encontravam uma abertura, eram forçados a recuar para defender alguém que havia tropeçado ou ficado para trás.

    O desespero não diminuiu desde o início do embate, nem com ele o ritmo da música dissonante e destoante que entoava da flauta que dançava nos lábios sorridentes do sátiro em seu tronco.

    O segundo urso, mais astuto, ignorou a linha de frente de Theo e contornou a batalha, investindo diretamente contra o grupo de não-combatentes que Lycomedes tentava proteger. O pânico explodiu. Uma menina, filha do homem que discutira pelo pássaro, tropeçou e caiu, o rosto congelado em um grito silencioso de terror. Seu pai viu, mas estava longe, lutando na linha de frente tendo confiado a Lycomedes a guarda de sua pequena. Ele se virou numa tentativa vã de correr para salvar sua filha. Longe demais.

    Silvo viu. O mundo pareceu desacelerar. Ele viu o urso se aproximando, a boca aberta, e a menina no chão. Não houve tempo para pensar. Agindo por puro instinto, ele se jogou na frente dela, erguendo a espada curta que mal sabia usar.

    A pata do urso desceu. Silvo conseguiu desviar o pior do golpe, mas as garras, longas como adagas, rasgaram sua coxa, abrindo um sulco profundo de onde o sangue jorrou imediatamente. Ele gritou, mais de choque do que de dor, e caiu, mas seu sacrifício havia dado à mãe da menina o segundo que ela precisava para arrastar a filha para longe.

    Ao ver Silvo cair, a fúria de Theo explodiu. Com um rugido que rivalizava com o da própria fera, ele abandonou a formação e investiu contra o urso que ferira o garoto. Foi uma investida heroica, mas taticamente desastrosa. O primeiro urso, livre da pressão de Theo, avançou sobre a linha de escudos agora enfraquecida. E o segundo, vendo Theo se aproximar, virou-se para ele, encurralando-o.

    Theo se viu entre duas frentes. Ele conseguiu aparar um golpe do primeiro urso com o escudo, mas o segundo o atacou por seu lado cego. As mandíbulas se fecharam em seu antebraço direito. Ele gritou, um som agudo de agonia, ao sentir o couro de sua braçadeira se rasgar e os dentes do animal rangerem contra seu osso. A dor era branca, ofuscante. Seu braço seria arrancado.

    Foi nesse instante que a melodia da flauta foi cortada pelo twang agudo do arco de Callisto. A flecha, disparada de um ângulo desconhecido, cruzou a clareira em um silvo quase inaudível. Ela não atingiu o corpo do urso, nem seu pescoço. Atingiu seu olho.

    A fera soltou um rugido estridente de pura agonia, a cabeça se jogando para trás, as mandíbulas se abrindo em um espasmo de dor e soltando o braço mutilado de Theo que urrou segurando seu ferimento com um rosto retorcido em dor.

    Cego de um olho e enlouquecido pela dor, o urso se tornou um redemoinho de fúria cega. Ele se ergueu sobre as patas traseiras e desabou, não em um ataque direcionado, mas em um acesso de violência, as garras rasgando o ar e o chão indiscriminadamente. A linha de frente de Theo foi forçada a recuar para não ser pega na tempestade de garras. Um dos homens tropeçou e foi atingido de raspão no peito, um golpe que rasgou sua couraça de couro e o deixou ofegante no chão, ferido, mas vivo.

    O segundo urso, vendo seu parceiro em agonia, abandonou qualquer cautela e investiu com uma ferocidade renovada, um guardião desesperado protegendo seu companheiro ferido. A batalha, que antes era uma defesa caótica, agora se tornou uma luta de atrito brutal.

    — Mantenham-no ocupado! — gritou Callisto, sua voz cortando o pandemônio. Ela disparava flecha após flecha no segundo urso, forçando-o a se concentrar nela que mantinha a distância em pedras altas, enquanto Theo, ignorando a dor lancinante em seu braço, reunia os homens com lanças.

    — CERCÁ-LO! PELOS FLANCOS! — ele urrou.

    Seguindo suas ordens, eles se moveram como uma alcateia hesitante, cutucando a fera cega com as pontas das lanças, recuando sempre que ela se virava em sua direção. Foi uma dança mortal e exaustiva. Mais dois homens foram feridos, um com o ombro deslocado, outro com um corte profundo na perna. Mas eles não cederam. Finalmente, após minutos que pareceram uma eternidade, o urso cego, exausto e sangrando de múltiplos ferimentos, caiu com um último e triste rugido. Com o primeiro inimigo abatido, a tripulação inteira, movida por uma fúria vingativa, virou-se para o último. Encurralado e ferido pelas flechas de Callisto, ele não teve chance.

    Quando o último urso caiu, o silêncio finalmente desceu sobre a clareira, era um silêncio quebrado pela respiração ofegante, pelos gemidos dos feridos e, após um momento, pela nota final e suave da flauta do Sátiro.

    Ele se levantou e se aproximou, o rosto uma máscara de curiosidade divertida. Ele olhou para os corpos dos ursos, para o sangue que manchava a terra, e para os feridos sendo amparados pelos outros. Lycomedes e Silvo, que ajudava a estancar o sangramento em sua própria coxa, o viram parar perto de Theo, que estava sendo cuidado por Callisto. E o ouviram sussurrar para si mesmo, um riso abafado em sua voz: — Hum, todos vivos, hã?

    Theo, o rosto pálido de dor, ergueu o olhar. A fúria em seus olhos superava a agonia. — Você sabia! — ele rosnou, a voz rouca.

    O Sátiro abriu um sorriso inocente, mostrando os dentes amarelados. — É claro que não. Acham que se eu soubesse não contaria pra vocês? — Ele gesticulou para os suprimentos na caverna. — Agora que derrotaram os reis desta floresta, o caminho está livre. Nenhuma outra criatura ousará desafiá-los. Aproveitem sua recompensa!

    Seu voz continha uma alegria serena. Callisto apertou o ombro do homem e balançou a cabeça, pedindo para que ele se acalmasse.

    As respirações ofegantes do grupo mostravam que não haveria espaço para discussão. Eles precisavam daqueles suprimentos, e precisavam agora. Theo conteve sua raiva rangendo os dentes. Ele não acreditava em uma palavra sequer daquela criatura, mas sabia que ele estava certo sobre uma coisa. Não era hora de brigar.

    O grupo, exausto demais para discutir, começou a tarefa de transportar os suprimentos da caverna. A visão de sacos de grãos, barris de água e frutas secas foi um bálsamo para suas almas cansadas. Naquela noite, pela primeira vez em semanas, eles comeram até se fartar. O cheiro de carne de urso assando na fogueira era o perfume da vitória, e o som de conversas e risadas aliviadas preencheu o ar.

    Mas nem todos celebravam.

    Sentados um pouco afastados da fogueira principal, Lycomedes e Silvo comiam em silêncio. Seus olhares não estavam na comida ou em seus companheiros. Estavam fixos no Sátiro.

    A criatura não se juntara ao banquete. Sentara-se em seu tronco de antes, a flauta agora de lado, observando-os. 

    Ele não parecia um guia satisfeito ou um aliado. Com a mão ossuda apoiada no queixo e um leve sorriso nos lábios, seus olhos de bode percorriam o acampamento com atenção. Ele observava as crianças que finalmente riam, os feridos que eram cuidados, os homens e mulheres que comiam com gratidão. 

    Para Lycomedes e Silvo, em seu olhar não havia benevolência. Havia a paciência de um credor. A expectativa de um carniceiro ansioso, esperando a carcaça esfriar antes de reclamar sua parte.

    Os outros, no entanto, pareciam famintos demais para se importar com isso por hora.

    …………

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