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    O silêncio que se seguiu ao choro de Agouri foi mais pesado do que qualquer grito. Naquela sala de horrores, cercados pela morte que eles mesmos haviam semeado, os dois rapazes permaneceram abraçados. Um, um deus caído cujo corpo protestava contra o poder que o habitava; o outro, um menino cuja alma acabara de retornar a um mundo de dor.

    Lá fora, a villa estava em um estado de caos sem liderança. Os gritos haviam se transformado em sussurros de pânico. Com a família Kratos e seu principal executor mortos, a estrutura de poder havia desmoronado. Os guardas haviam fugido, e os servos se escondiam, com medo tanto dos intrusos quanto da incerteza do amanhã.

    Hermes sabia que aquela janela de anarquia não duraria para sempre. Com um esforço que lhe custou um gemido de dor, ele se afastou de Agouri, que parecia catatônico, o olhar fixo no nada. A facada em seu ombro era uma dor aguda e latejante, mas era apenas mais uma nota na sinfonia de sua agonia.

    — Precisamos sair daqui — disse Hermes, sua voz um raspar de garganta.

    Ele rasgou pedaços da luxuosa tapeçaria da parede e, com uma habilidade que não sabia possuir, limpou e enfaixou o próprio ombro e cuidou dos ferimentos menores de Agouri. O rapaz se movia como uma marionete, os olhos vazios, permitindo que Hermes o guiasse.

    No caminho para a saída, Hermes coletou algumas coisas no quarto e guardou em uma bolsa simples e apanho do chão a xiphos que havia largado.

    A jornada para fora da villa foi surreal. Eles caminharam pelos corredores manchados de sangue, passando pelos corpos dos guardas e de seus mestres, fantasmas em sua própria história de vingança. Ninguém os deteve.

    Ao lado dos estábulos, ainda cheirando a fumaça, Hermes encontrou um cavalo assustado e o atrelou a uma carroça simples, usada para transportar suprimentos. Ele ajudou o apático Agouri a subir na parte de trás e então assumiu as rédeas.

    Contudo, ele não seguiu direto para a estrada principal, quis evitar os servos que haviam conseguido sobreviver e um ou outro guarda que poderia ter sobrado. Guiado por um instinto que não compreendia, ele conduziu a carroça para uma pequena colina na propriedade, um lugar de onde se podia ver o mar cintilando sob a luz que começava a despontar no horizonte. O amanhecer estava chegando.

    Ali, ele parou. Com a xiphos que pegara de Rinos, ele desenterrou uma pedra chata do solo. Então, usando a ponta afiada da lâmina, começou a entalhar, com esforço e precisão dolorosa, um único nome na superfície da pedra.

    TESEU

    Ele fincou a pedra na terra, uma lápide humilde para um rapaz que merecia um monumento.

    A visão do nome de seu irmão pareceu despertar algo em Agouri. Ele desceu da carroça, aproximando-se do túmulo improvisado, e tocou as letras recém-entalhadas.

    — Ele… ele queria ser um herói — a voz de Agouri era um sussurro quebrado, as primeiras palavras coerentes que pronunciava desde o massacre. — Não um como Aquiles ou Hércules. Ele me dizia que os verdadeiros heróis eram aqueles que protegiam os fracos, pois ele sabia o que era sentir-se fraco todos os dias. Ele queria que ninguém mais se sentisse tão pequeno quanto ele.

    A dor em sua voz era palpável. Ele olhou para Hermes, os olhos cheios de uma tristeza infinita. — E ele morreu. Sem nunca ter a chance.

    Hermes, encostado na carroça para suportar o peso de seu próprio corpo ferido, olhou para o rapaz e para o túmulo. Pela primeira vez, suas palavras não foram de cinismo ou distanciamento.

    — Então honre o sonho dele — disse Hermes, sua voz ainda rouca, mas firme. — O corpo dele está aqui, mas o sonho não precisa morrer com ele. Não deixe que a morte dele tenha sido em vão.

    Agouri olhou para o horizonte, onde o sol nascia, pintando o céu de laranja e roxo. Ele olhou para suas próprias mãos, ainda manchadas, e as fechou em punhos. Uma nova luz, uma centelha de determinação, começou a queimar em seus olhos, afugentando o vazio.

    — Eu vou — ele disse, com uma convicção que surpreendeu a si mesmo. Ele se virou para a lápide. — Meu nome… o nome que me deram… morreu naquela sala, com aquele monstro. Eu não sou mais ‘Agouri’.

    Ele tocou o nome gravado na pedra uma última vez.

    — De agora em diante, eu sou Teseu. E eu cumprirei a promessa dele.

    Hermes assentiu lentamente. Seu olhar se perdeu por um instante no horizonte. Parecia refletir sobre algo. Um sorriso curto e repentino surgiu em sua face. O ciclo de dor havia dado à luz a um novo propósito.

    — Então você terá que disputar esse nome com ele, quando formos tirá-lo dos braços de Hades. 

    Ele disse casualmente e subiu de volta na carroça, pegando as rédeas. 

    O garoto ergueu as sobrancelhas em surpresa. Teria ele ouvido corretamente?

    O recém-nomeado Teseu subiu na parte de trás, seu corpo ainda fraco, mas sua postura já era diferente.

    Enquanto a carroça se afastava da colina e da villa ainda fumegante, o sol da manhã iluminava a estrada poeirenta à frente deles. Eram duas figuras quebradas em um mundo hostil. Um, um deus caído que começava a entender o peso da humanidade. O outro, um menino que, para sobreviver ao seu passado, acabara de herdar o nome e o sonho de um herói. A jornada deles estava apenas começando.

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