O silêncio da ala médica da Nexus era diferente de qualquer outro.

    Lance estava sentado na maca, o tronco enfaixado, os braços pesados como se não lhe pertencessem mais. Cada vez que respirava fundo, sentia a gravidade dentro do próprio corpo responder de forma errada, instável, como se ainda estivesse presa ao combate.

    Do outro lado da sala, Rivna permanecia sentada, os joelhos juntos, as mãos apertadas uma contra a outra. O olhar estava baixo, fixo no chão branco. Desde que haviam retornado, ela não disse uma palavra.

    Rays estava em pé, alguns metros afastado. O ombro enfaixado, o maxilar travado. Não reclamava da dor. Não perguntava nada. Apenas observava.

    A reunião com James foi curta.

    — Que bom que sobreviveram — disse James, com lágrimas. — Não quero perder meu novo grupo na primeira missão.

    Lance fica sem reação.

    “Não sabia que ele era assim; ele parecia tão sério antes.” 

    James respira e se acalma.

    — Perdão, não pude segurar a preocupação. Alguma informação importante?

    — Tínhamos achado uma anotação… sobre tirar poderes das pessoas.

    A notícia trouxe peso.

    — Obrigado, agora vocês precisam descansar.

    James fica com um pressentimento ruim sobre a notícia e envia um relatório para a central da 3ª divisão.

    Horas depois, a base parecia grande demais.

    Rays estava sozinho na área de treino.

    Não havia holofotes. Não havia espectadores. Apenas ele, o chão marcado e o silêncio.

    Ele atacou.

    Rápido. Preciso.

    — Ele não lutou com tudo. — Murmurou.

    Ele aperta os punhos.

    — Tsk…

    Rays se apoiou nos joelhos por um instante, respirando fundo.

    “Sozinho… eu não consegui. Mas depender deles é ainda pior.” 

    O pensamento irritou-o mais do que qualquer ferimento.

    Lance continuou pelo corredor até a área externa da Nexus. O vento noturno atravessava o espaço aberto, frio demais para ser ignorado.

    Rivna estava sentada sozinha, os braços cruzados sobre as pernas.

    — Rivna…

    Ela ergueu o olhar lentamente, sem dizer nada.

    — Eu… — Lance parou no meio da frase. Respirou fundo. — Você não teve culpa.

    Rivna desviou o rosto, os dedos apertando o tecido da roupa.

    — Eu travei. — A voz saiu baixa. — Fui inútil.

    Lance deu um passo à frente.

    — Não foi.

    — Eu atrapalhei a missão. — Ela o interrompeu, a frase saindo mais dura do que pretendia. — Você teve que me proteger. Logo eu…

    O silêncio se estendeu por alguns segundos.

    — O orgulho da família Isleen. — Concluiu, sem olhar para ele.

    Lance permaneceu ali, em silêncio. Não tentou corrigir aquelas palavras de imediato.

    Sentou-se ao lado dela.

    — Você sabe por que eu consegui lutar daquele jeito? — ele disse, por fim.

    Rivna não respondeu, mas não se afastou.

    — Porque eu estava com medo. — Lance sorriu de leve, sem humor. — Medo de perder um amigo.

    Rivna apertou os lábios.

    — Mesmo assim, eu deveria ter feito algo.

    — Você fez. — A voz dele saiu firme, sem dureza. — Você confiou em mim quando não conseguia se mover. Isso também é coragem.

    Ela o encarou pela primeira vez desde que ele chegara.

    — A Nexus não precisa de alguém perfeito, Rivna. — continuou. — Precisa de pessoas que se levantem depois de cair, e você sempre levanta.

    O vento passou entre eles, trazendo um breve silêncio.

    — Eu mesmo ainda estou aprendendo a usar meu poder — falou com vergonha.

    Rivna respirou fundo, como se soltasse um peso antigo.

    — Você fala como se já tivesse vivido isso muitas vezes.

    Lance desviou o olhar.

    — Já vivi.

    Rivna abaixa a cabeça e relembra a sua infância com seu pai.

    Quando mais nova, Rivna teve uma de suas crises. Ela estava deitada, tremendo no chão, mas seu pai agia de forma diferente com ela.

    — Levante-se, Rivna! Você nunca vai poder honrar o nome da nossa família se continuar essa medrosa! — gritava seu pai, brigando com ela.

    — Amor, não fale assim com a nossa filha, ela é só uma criança. — Sua mãe tenta acalmar a situação.

    — Ela vai ficar um peso inútil se continuar assim! — Ele vira as costas e sai do local.

    Rivna respirou fundo.

    — Obrigada… — murmurou. — Por não me ver como um peso.

    Ele se levantou, estendendo a mão.

    — Todos podem ajudar, cada um com o seu jeito.

    Rivna hesitou por um instante antes de aceitar. Ao se levantar, percebeu algo diferente.

    Não era apenas gratidão.

    Era confiança.

    E, pela primeira vez, Rivna não o viu apenas como um aliado…

    Mas como alguém em quem podia realmente se apoiar e que também confiava nela.

    Em uma sala distante da sala principal, um relatório era exibido em holograma.

    — Quem era esse cara? Tem algum relatório sobre ele? — murmurou James.

    — Não, senhor, parece que ele lutou só com força bruta.

    — Alguém assim pode ser perigoso para eles, a maioria ainda é novata…

    James abaixou a cabeça, pensativo.

    — Vice-capitão James, achamos algumas imagens do suspeito.

    — Onde? Mande-me as informações do local, irei hoje à noite.

    “Tentei parecer o líder forte, despreocupado, mas acabei colocando-os em perigo, isso não vai acontecer de novo.” 

    James sai da sala e se prepara para a sua busca.

    Ao cair da noite, ele chega ao local.

    O lugar parece uma casa abandonada em meio à floresta, várias árvores à sua volta, e apenas o silêncio e o vento passavam pelo local. Ele olha ao redor da casa e resolve entrar.

    Dentro da casa, manchas de sangue e curativos jogados.

     — Isso pode ser útil; talvez, se detectarmos o DNA deste sangue, possamos saber quem é.

    Ele escuta um barulho vindo do lado de fora. Os pássaros voam assustados, o silêncio foi quebrado. James sai de dentro da casa, desconfiado. Olha para os lados e não consegue encontrar ninguém.

    — Estou com um sentimento ruim…

    — Quem diria que o vice-capitão estaria aqui!

    James olha de canto para o homem que apareceu em meio às árvores.

    — E quem seria você? — James se vira desconfiado, mantendo a visão no inimigo.

    — O seu pesadelo!

    Em um piscar de olhos, o homem some da sua frente.

    James arma sua guarda e se prepara, olhando para todos os lados, esperando de onde virá o ataque.

    Uma faca vai em sua direção, mas ele reage e pega-a no ar.

    Mas, quando olha para cima, uma chuva de várias facas vem das árvores. Ele tenta desviar e defender, mas acaba sofrendo vários cortes e arranhões pelo corpo.

    — Isso é tudo o que pode fazer? — James olha pelos cantos, procurando o homem.

    — Agradeça que não era eu naquele laboratório, senão todos estariam mortos — fala o homem enquanto aparece por trás de James.

    James reage tentando acertar um soco, mas o homem novamente some.

    — Se você é tão forte assim, apareça e me enfrente — fala, provocando.

    Quando um frio chega ao ar.

    Um cheiro de sangue rodeia.

    Várias lâminas perfuraram o peito de James.

    — Esperava mais, que sem graça! — murmurou o homem.

    James caiu no chão, envolvido por sangue.

    — Meu nome é Rector, guarde meu nome após a sua morte.

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