Índice de Capítulo

    Shidou voltou com uma notícia, após passar alguns minutos com o celular. 

    “Otohiko falou que as três facções começaram a lutar lá perto da cratera.”

    “Entendi”, Mayck respondeu com um olhar distante. 

    “É só isso?”

    “Sim. Vocês podem ir quando quiserem.”

    Shidou e seus companheiros estavam dispensados. Não tinha nada melhor para eles. Mesmo assim, ele parecia ter algo a dizer. 

    “Tem certeza que isso está bem assim?”

    “O que quer dizer?”

    “Bem”, ele fez uma breve pausa. “Tudo o que você pediu foi para lutarmos ao seu lado contra aquele monstro… Mas você fez alguma coisa com ele, não fez?”

    A pergunta do garoto de cabelos bagunçados não era infundada. Na realidade, depois que Mayck entrou em contato com o monstro, foi como se tivesse mudado algo em questão de segundos. Não era exatamente ‘como se algo tivesse mudado’, definitivamente, algo tinha mudado. 

    “O monstro foi embora, depois de tudo, quietinho. Ele nem olhou para trás. Você tem o poder de converter eles ou algo assim?”

    “Não é nada disso.” Mayck observou uma pequena explosão ao longe. Provavelmente tinha sido numa das áreas próximas à torre de Tóquio. 

    “Então o que é?”

    Shidou estava sendo irritantemente insistente. Porém, ao invés de um esporro por estar sendo tão chato, ele recebeu um suspiro profundo em resposta. 

    “Não importa o que foi. O trabalho que eu tinha para vocês acabou. Vamos nos encontrar com Otohiko e fechar isso de uma vez.”

    Mayck se levantou da borda do prédio, sob o olhar descontente e curioso do garoto que havia o ajudado junto aos outros membros da Golden Society. Eles certamente haviam cumprido seu propósito, então não tinha porque mantê-los por perto. 

    Então é assim que as coisas terminam… Assim que eles começaram a lutar do lado de lá, os homens que estavam espalhados por aqui também iniciaram um confronto. 

    Sob a Tóquio iluminada pela luz da lua e das estrelas, um show de luzes, brancas e incandescentes, e fumaça cobriam a cidade, fazendo-a adormecer sob o barulho de explosões e tiros que ecoavam num raio de centenas de metros. 

    Então aquele foi o resultado, no fim. 

    Então Caleb falhou em manter Takeru na linha… como esperado. 

    Os planos que ele tinha em mente eram diferentes do que foi combinado com o garoto da Nova Lótus. O ‘roteiro’ era só mais uma cena da peça que ele criou para aquela etapa. 

    “Não vai demorar muito para a Black Room aparecer aqui e controlar a situação. Como você é um portador de um grupo que está sendo observado, vai acabar se dando mal.”

    Diferente de Mayck que seria visto como um aliado devido à máscara em seu rosto, Shidou e seus companheiros seriam imediatamente subjugados como parte daquela comoção toda que estava acontecendo por toda a cidade, então alertou.

    Uma verdadeira guerra entre facções. Todos os pequenos conflitos entre eles tinham sido apenas isolados, nada em tão grande escala como o dito anteriormente, isso definitivamente traria a Black Room à tona. 

    Ele mencionou três facções. Então deu certo? Kurokawa se retirou da disputa?

    Se, depois de perder seu principal subordinado e ser ameaçado, Kurokawa ainda desse as caras, ele seria um problema muito maior que o esperado. Que bom que ele se retirou, Mayck pensou. 

    Abandonando seu posto, junto à Golden Society, ele seguiu para a cratera onde ocorreu o primeiro desastre que presenciou. O local ficava na região mais ao noroeste de Tóquio, o que significava uma bela caminhada de onde eles estavam naquele momento. 

    Mas não era um problema tão grande. Eles atravessaram o grande campo de batalha em que aquele lugar havia se tornado, tomando cuidado para não serem vistos por ninguém e não serem pegos no fogo cruzado

    Os rastros de destruição e corpos caídos devido ao conflito de grande escala eram tão visíveis quanto a lua no céu nublado, naquela noite caótica. 

    Mayck sentia o peso disso. Ele sabia que sua mão pairava sobre aquela situação, embora não fosse o único responsável. Aquilo aconteceria uma hora ou outra. Tudo o que ele fez foi acelerar o processo. 

    Depois de deixaram uma parte do conflito, outro estava à espera deles no horizonte. 

    Parecia mais brutal, mesmo que tivesse um número menor de pessoas, o qual com certeza havia diminuído drasticamente naquela meia hora desde o início. 

    Isso porque o centro de tudo estava ali. 

    Quando eles se aproximaram, Otohiko e os demais integrantes da Golden Society estavam à espera deles, próximos a uma pilha de escombros de metais e pedras. Há vários metros, podiam ouvir o som da guerra ocorrendo ali. 

    “O que acha? Era isso o que você queria?” Num tom sarcástico, Otohiko sorriu de canto assim que os viu se aproximar. 

    “Infelizmente, isso saiu bastante do caminho. Mas eu agradeço a vocês.” Suas provocações não afetavam o garoto, então ele estalou a língua, descontente. 

    “Mas esse era realmente o seu plano? Você, o herói dentre criminosos, não parece que faria isso sem um grande objetivo em mente.”

    “Eu queria juntar todos mundo em um lugar só. Se ficassem se escondendo, isso nunca teria um fim.”

    Enquanto as facções operassem em segredo, a Black Room nunca daria conta de mantê-los quietos. 

    Otohiko levantou uma sobrancelha e suspirou, perguntando se aquilo era tudo mesmo. 

    “A Black Room vai cuidar de tudo a partir daqui. Não precisam se preocupar, eu não vou denunciá-los”, disse Mayck. 

    “Ei, ei! Já está dispensando a gente? Está pensando que somos seus peões?” Millicent deu um passo e gritou. 

    “Ela está certa”, completou Edgar. “O trabalho ia até a resolução do conflito. Não pense em fingir que não prometeu nada pra a gente.”

    Os demais balançaram a cabeça. Eles estavam certos. Mayck havia dito que em troca da ajuda, daria crédito a eles como responsáveis por auxiliar na supressão daquele conflito, para aproximá-los um pouco da Black Room, para conseguirem algum reconhecimento.

    “Eu não esqueci, é claro. Bem, já que é assim, vamos lá. Não vamos perder mais tempo. Isso já se arrastou demais.”

    Mayck desviou-se para o conflito ao longe, os outros pareciam satisfeitos. 

    “Então, como vamos prosseguir agora? A essa altura, deve ter restado menos da metade dos homens de cada lado.”

    Já havia passado mais de meia hora desde o início. Perdas de todos os lados eram inevitáveis. 

    Mayck ponderou por um momento, depois arrumou sua postura e falou:

    “Vamos esperar ele fazer a brincadeira dele. Enquanto isso, vocês podem dar um jeito no restante que está na cidade.”

    “Ele?”

    Ignorando o fato que Mayck tinha os mandado voltar, Otohiko inclinou a cabeça em dúvida. Millicent e os outros olharam entre si. O ‘ele’ só poderia ser uma pessoa, ou melhor, coisa. 

    Todos ajustaram suas vistas para o campo de batalha, quando um urro forte ecoou pelos arredores. 

    Uma criatura pálida, de mais de dois metros de altura saltou sobre eles, se dirigindo ferozmente para o campo de batalha, parando-o por um momento. Um arrepio subiu pela espinha de todos. 

    Com suas garras e dentes afiados, ele começou a atacar todos os homens sem exceção, destruindo-os e banhando o chão em sangue. Não importava quem estivesse em seu caminho, certamente seria trucidado. 

    O objetivo dele é só um: matar a pessoa que o transformou naquilo e matou sua esposa.

    Depois de destruir o mal que assombrava a alma de Satoshi, pai de Rika, eles fizeram um pequeno acordo, onde Mayck o mataria quando sua consciência fosse completamente dominada pelos instintos do Ninkai no qual se transformara. Porém, antes disso, ele queria destruir o quanto pudesse de Akagi. 

    Eu não sou o maior fã de vinganças, mas acho que ele tem esse direito.

    Sua esposa, a mulher que ele mais amava, morreu de forma cruel em sua frente, agonizando até o último suspiro. Ele nunca mais veria sua filha, deixando-a para trás sem nem ao menos se despedir…

    Mayck sentia a dor dele perfurar seu coração como uma lâmina enferrujada. E isso lhe torturava. Talvez fosse isso que mantinha o garoto dentro de certos limites para tudo o que ele fizesse.


    No campo de batalha, o número de corpos caídos só aumentavam. Os mais fracos, morreram com tiros ou com cortes severos, causando-lhes hemorragias ou matando-os quase instantaneamente. 

    Aquele lugar tinha se tornado um completo inferno. Corpos caíam na profunda cratera, resultado de derrota em lutas corporais. 

    Os gritos de guerra não cessavam nem por um minuto, assim como o som das balas, facas e espadas cortando um e outro. 

    No centro disso tudo, os três líderes disputavam ferozmente a posse da vitória, lutando com vários inimigos ao mesmo tempo. Estes, no entanto, eram os predadores mais vorazes daquele local. 

    Takeru, habilmente e cruelmente, matava qualquer um que fosse até ele com intenção assassina, atirando e usando a coronha da arma. 

    Yamada carregava uma katana, cujo fio pingava o sangue dos adversários que ele cortava com maestria  — era como se ele tivesse nascido com o talento de um samurai nato, já que não havia hesitação em seus cortes limpos e quase invisíveis. 

    Por fim, Akagi. Ele era o mais brutal. As luvas em suas mãos eram adornadas com ligas de metal flexíveis, porém rígidas, e também possuíam placas de aço nos dedos, potencializando sua força. Seus golpes poderosos explodiam os crânios de todos os miseráveis que tinham a audácia de confrontá-lo. 

    Ele destruía suas armas e não perdoava nenhum que se aproximasse. 

    Em sua época servindo ao exército, diziam que ele tinha força o suficiente para derrubar um tanque com as mãos nuas, e isso sem ser um portador. 

    Rodeados de corpos e sujos de sangue, os três líderes se encontraram novamente no campo de batalha. 

    Se encararam em silêncio. A chacina ao redor deles não havia cessado, mas parecia que estava correndo em câmera lenta. Os três subordinados de Yamada também estavam ali. 

    Não tinha mais nada a ser conversado, o que faltava foi compensado com o olhar deles. 

    Takeru movimentou seus braços, apontando suas armas para ambos os lados, na direção de cada um. Sem hesitar, ele disparou. 

    Yamada correu, com o corpo inclinado para frente, desviando dos tiros, assim como seus homens. Akagi se protegeu com as mãos e logo foi surpreendido pela lâmina de Yamada, que brilhou em seu pescoço. 

    Ele escapou por pouco, ao inclinar o corpo para trás e saltar para longe, mas havia enxergado a ponta da lâmina bem perto de seu olho esquerdo. 

    Akagi socou as duas mãos no chão, usando somente força bruta, e arrancou uma peça de metal gigante — o que sobrou dos trilhos do antigo metrô — que estava enterrada ali e lançou contra Yamada como um meteoro.

    Porém, o homem calmamente a cortou como se cortasse um tablete de manteiga. 

    Nesse momento, Akagi surgiu em sua frente e o agarrou pelo braço direito com tamanha força que fez os ossos estalarem. Não havia forma de escapar. Akagi levantou sua voz e arremessou Yamada na direção de Takeru, o qual disparou várias vezes. 

    Desgraçado!

    Yamada estava em maus lençóis, mas cravou sua espada no chão e saltou no momento em que conseguiu alguma estabilidade, e com as costas da lâmina, desviou boa parte dos tiros, mas não saiu ileso. Foi atingido na perna direita, em sua lateral esquerda e outro raspou em seu rosto. 

    “Yamada-san!”

    Seus três subordinados gritaram e se juntaram a ele, colocando-se em posição de proteção ao redor de seu chefe. 

    “O senhor está bem?”, Aka perguntou com uma expressão preocupada, apesar de saber com quem ele estava falando. 

    “Vamos ajudar o senhor.”

    “Hmpf. Eu estou bem, não vou morrer só com isso”, respondeu, limpando o sangue escorrendo em sua bochecha. “Parece que a sintonia entre aluno e professor ainda não se desvaneceu, não é? Mesmo depois de tudo…”

    “Vocês são apenas dois moleques arrogantes. Me irrita pensar que vocês acham que podem me derrotar.”

    “Ah! Só calem a porra da boca! Ninguém aqui liga pro passado. Eu só preciso matar vocês e acabou!”

    Takeru recarregou suas armas como se isso fosse igual a respirar, em questão de segundos. 

    “É decepcionante. Quem diria que terminaríamos assim…”

    Yamada se recordou da boa época que foi quando estavam juntos anos atrás. Uma época em que lutavam juntos em busca de um único objetivo. 

    “Tudo isso ficou pra trás agora. Se vocês fossem um pouco mais inteligentes teriam concordado comigo até o final.”

    “Isso se você não fosse apenas um babaca pensando que está acima de tudo!”

    “Haha! Olhe só para você. Odiava tanto a ideia de usar portadores para seus trabalhos… Mas o que aconteceu?! Decidiu usar o poder deles, no fim. Você permanece fraco, Takeru. Nunca vai saber o que é poder de verdade.”

    Takeru e Akagi se alfinetaram. 

    “Você não tem orgulho como um ser humano… Eu te admirava por ter chegado ao auge mesmo sendo uma pessoa comum, sem poderes… Mas você escolheu depender deles, dizendo que não era suficiente. Todo o meu respeito por você acabou, seu velho de merda!”

    Três homens, dois alunos e seu professor. Era uma história que começou de baixo, se elevou, e no fim, afrouxou, desmanchando por uma divergência de ideais. 

    “Você é uma verdadeira decepção… Se corrompeu por merda nenhuma… Já que é assim, vou destruí-lo usando o poder que você buscou!”

    Akagi deu um passo à frente, elevando sua voz rouca e agressiva.

    “Moleque metido! Não pense que com suas capacidades limitadas vai conseguir chegar mais longe que isso. O verdadeiro poder está em todo lugar. Está em como você usa todos os recursos disponíveis no mundo. Mas claro, você é um tolo, e um tolo não enxerga o que não quer. Sendo assim, morra como o pedaço imundo de lixo que você é!”

    A efeito, um rugido distorcido como se inúmeras vozes gritavam em agonia ecoou pelo campo de batalha, trazendo um silêncio absoluto repentinamente. 

    Um monstro grotesco avançou entre todos os homens, destruindo quem estivesse na frente, abrindo passagem com suas garras tão afiadas quanto lâminas. Ele chegou até os três líderes, cheirando a sangue. 

    Seus olhos brilhando em verde fosforescente analisaram os arredores. Quando viu quem estava procurando, ele urrou estrondosamente, quebrando o silêncio de forma aterrorizante. 

    Akagi deu um sorriso sinistro.

    “Está vendo, Takeru? É disso que eu estou falando. São armas assim que fazem a maior diferença — !”

    Ele mal terminou de falar e as garras do monstro deslizaram em sua direção. Akagi desviou por pouco e olhou para ele com uma expressão mista de surpresa e raiva. Parte disso foi por ter sido atacado pelo monstro que ele havia criado, mas também porque percebeu a ausência de algo. 

    “O que é isso?” O volume de sua voz baixou drasticamente, ficando mais ameaçadora. “Que merda é essa?”

    O que tinha acontecido com aquela aura de morte e caos que o monstro emanava poucas horas atrás? Ele não a sentia mais ali. Onde estava o demônio que havia possuído aquele corpo?

    “Quem foi o filho da puta que tirou aquilo de você?!!”

    Enquanto se mordia de ódio, o monstro atacou mais uma vez com outro urro poderoso. Akagi foi atingido e a parte em que ele estava foi coberta por um cortina de poeira.

    “Mas que merda…” Yamada olhou com desdém para a criatura. 

    “Então era disso que você estava atrás? Ridículo. Uma arma que não pode obedecer o dono não passa de estorvo.”

    Takeru sentia que tinha vencido em seus argumentos. 

    Certamente Akagi tinha sido esmagado pelo monstro, todos pensaram, olhando para onde ele estava, atônitos. 

    Porém, eles sabiam que isso não aconteceria assim tão fácil. Aquele homem, que conquistou tudo com sua própria força, não morreria de um jeito tão patético. 

    “Assim como todos os outros, você é uma arma inútil. Esqueceu de quem eu sou tão rapidamente?”

    A mão do monstro foi levantada de forma relativamente fácil e Akagi surgiu da poeira, ileso, segurando o pulso. Suas pupilas estavam contraídas de forma amedrontadora, reflexo da ira que estava sentindo.

    O monstro urrou novamente depois de estremecer com a força do homem que ele planejava matar. O que sobrava de sua humanidade estava tremendo. 

    Com um aperto, Akagi fez a mão do monstro explodir. Sangue, carne e ossos voaram para todos os lados e a criatura berrou de dor.

    Como na primeira vez, o homem, furioso com seu próprio fracasso em conseguir uma arma útil e obediente, puxou-o para si pelo que restou do braço e ergueu seu punho direito. Após concentrar uma energia intensa com ódio em sua forma mais pura, desferiu um soco poderoso no peitoral da criatura. 

    Uma onda de choque percorreu seu corpo, quebrando seus ossos e arrancando seu braço quando foi lançado para longe, rasgando o chão e levando com ele algumas pessoas que estavam no caminho. 

    Todos pararam o que estavam fazendo. Ninguém mexia um músculo. Era sério que aquele homem não tinha uma ID? Era sério. Akagi nunca foi capaz de despertar sua ID, porém, enquanto ainda servia ao exército japonês, descobriu sobre os portadores em um conflito contra terroristas que invadiram o país, segundo as informações que recebeu. 

    No entanto, não eram apenas terroristas, eram portadores enviados para espionar o país. 

    Após ver o grande segredo escondido pelos órgãos governantes do Japão, ele se tornou obcecado por eles e passou a buscar formas de se conectar a esse mundo. Foi isso que o levou a abandonar o exército. 

    A obsessão em ter aquele poder imensurável nas mãos. 

    Através de seus contatos, descobriu que todos os seres vivos possuíam uma forma estranha de energia em seus corpos, então Akagi se dedicou a estudar e usar tal energia, e se tornou capaz de aprimorar todas as suas habilidades com ela. 

    Embora não tenha despertado um elemento base também, ele foi capaz de melhorar seus atributos básicos, os quais todos os humanos tinham acesso naturalmente.  

    Ensinou isso para seus alunos, então Takeru e Yamada tinham habilidades tão boas quanto as de portadores mal desenvolvidos. 

    “O que me diz agora, velho imbecil? Eu disse que essas coisas não servem para porra nenhuma a não ser atrapalhar. Mas, não, você ainda decidiu abraçá-las por completo. Ainda vai insistir que elas são melhores que armas que podemos usar da forma que quisermos?”

    Takeru não perdeu tempo para apontar os defeitos nas crenças de Akagi. Seu olhar era confiante e pretensioso, e tinha um sorriso convencido em seu rosto. 

    “Essa foi apenas mais uma falha”, respondeu. Parecia que ele não daria o braço a torcer tão facilmente. 

    “Idiota. Que seja. Eu não vou mais ficar aqui ouvindo suas baboseiras. Morra, velho lixo.”

    Takeru mirou suas armas em Akagi e se preparou para disparar. Foi quando uma ventania irrompeu pelo campo de batalha, atraindo a atenção de todo mundo. 

    “!!!”

    Era Caleb. Ele estava de volta. Saltando diretamente do buraco gigante, ele pousou em terra. Não só ele, mas Ginro também, e ambos estavam engajados em uma luta poderosa de golpes altamente destrutivos. 

    “Mas que cara chato do caralho!”, ele gritou, furioso. 

    Aparentemente, Caleb tinha tentado derrotar Ginro com a enorme energia que estava acumulando, porém, a determinação do homem em continuar em pé era maior. Ou talvez Caleb só não estivesse fazendo seu trabalho direito. 

    Apesar de tudo, ele tinha conseguido subir. Havia escalado igual a um maluco, com Ginro em sua cola, disposto a dar a própria vida para tirar a dele. 

    “Como não desiste?!”

    A essa altura, Ginro estava com sangue escorrendo por seu rosto e sua roupa já estava toda avermelhada. Parecia que ele havia levado uma surra, mas ainda estava de pé. 

    Depois de conter a raiva que o cegava, Caleb percebeu o caos à sua volta.  

    Fogo, sangue e corpos. Era tudo o que resumia aquele campo de batalha que cheirava à morte. Seus olhos se arregalaram. 

    Ele tinha certeza que estavam apenas ele, Takeru e Ginro quando chegaram nesse lugar, mas de onde tinha vindo tanta gente?

    Seus dentes se apertaram uns contra os outros ao perceber que a traição era verdadeiramente real. 

    Ele viu três grupos diferentes. Uns usavam roupas sociais e luvas de couro pretas; estes eram da facção Takeru. Os que estavam com uniformes militares eram de Akagi. O restante, portando casacos longos, brancos, e luvas de mesma cor eram da facção Yamada. 

    Pelo chão, havia corpos desses três grupos. 

    Caleb não soube o que dizer. Não era para ter chegado àquele ponto. Tinha tudo saído do controle. Tudo o que ele queria era parar esses caras antes que uma bagunça pior acontecesse. Mas ele falhou miseravelmente. 

    E onde estava aquele cara para o ajudar?

    Onde estava o Olhos azuis que deveria ajudá-lo?

    Será que pegaram ele?

    Pensar nisso o deixava apreensivo. Mas quem tinha descoberto a ligação entre os dois? Afinal de contas, Mayck não tinha se envolvido diretamente nenhuma vez, ele pensava. 

    Nem Takeru nem os outros mencionaram ele… Então o que foi que aconteceu?

    Com aquele caos todo rolando, não tinha como ele não ter percebido. Enquanto estava perdido em pensamentos, Takeru cuspiu, irritado. 

    “Vocês estão de volta, é?” Ele olhou com desprezo para o garoto. “Ginro não foi capaz de te matar, hein…”

    “Parece que seus homens são tão fracos quanto você”, Akagi mencionou, com um tom irônico.

    “Por que os trouxe aqui? O plano não era esse”, disse Caleb, com sua voz quase sussurrando, num tom que só alguns puderam ouvir. 

    “Você ainda tá nessa? Qual o seu problema? É tão difícil de entender que você foi só uma ferramenta pra chegarmos até aqui?”

    Takeru pensou que teria de dizer com todas as letras para o menino que parecia desacreditado da realidade.

    “Eu traí você. Nunca pensei em cooperar de verdade. Entendeu agora? Eu só precisava de você para recuperar os frascos”, declarou Takeru. 

    De repente, Caleb lembrou-se de sua mãe. Tinha destruído totalmente a confiança dela. O que ele deveria fazer? O que transbordava de seu corpo não era nada mais que ódio. Ódio por Mayck, ódio pelas facções… E também ódio por ele mesmo por ter se deixado enganar tão facilmente. 

    Sua mente estava nublada.

    O que eu devo fazer agora?

    Só havia uma solução à vista: destruir os três líderes. 

    Mas antes que ele pudesse pensar em começar o trabalho sujo, um urro aterrorizante ecoou em suas costas, ressoando por seus ossos de forma assustadora. 

    Caleb se virou, espantado, e só pôde ver a criatura saltando por cima dele e atacando a primeira pessoa que estava em sua visão.

    Ginro foi atingido por suas garras afiadíssimas. Seu sangue se espalhou no ar e ele quicou como uma bola três vezes no chão antes de se chocar com uma pilha de escombros e ser soterrado por ela.

    “GROOOAARHH!”

    O monstro ainda estava furioso. Sua raiva era palpável e os urros faziam o chão estremecer. 

    “Agora sim você está fazendo seu trabalho.” Akagi aplaudiu, satisfeito ao ver o subordinado de Takeru se espatifar sem reação. 

    Takeru cerrou os dentes com força. 

    “Essa coisa…!”

    Sem hesitar, ele mirou no monstro e atirou até suas balas acabarem. Mas, apesar da criatura reagir aos disparos, as feridas se curaram de forma quase instantânea. 

    Agora o alvo mudou para Takeru. O monstro ergueu suas garras e rasgou o ar na vertical. Ele não estava tão perto para acertar o homem, mas o objetivo era outro. 

    No momento em que as garras atravessaram o ar, uma explosão de calor estourou ao seu redor, e uma luz cegante irrompeu na direção de Takeru, numa velocidade que ele não poderia reagir de forma alguma. 

    “ARGH—!”

    O plasma gerado o atingiu em cheio. O som de carne sendo queimada ecoou pelo ar, e o cheiro de pele sendo incinerado impregnou as narinas dos que estavam perto, olhando sem reação para aquilo. 

    Takeru foi lançado para trás. Seu corpo estava, literalmente, fumegando. 

    Surpreso, a princípio, Akagi começou a rir alto e de forma histérica. Finalmente seu ponto estava mais do que provado. 

    “Hahahaha! Está vendo, Takeru?! Minhas armas são melhores que as suas. Esse poder é só uma parte do que eu posso ter em breve. Parece que você foi um tolo miserável até o final, não é?!”

    Ele era o único se divertindo com isso. Yamada não conseguia manter sua postura séria ao ver aquilo. 

    “É sério…?” Ele apertou os olhos levemente. Já conhecia a natureza dos Ninkais. Ele sabia que existiam esses monstros capazes de coisas terríveis, mas nunca imaginara ver aquilo pessoalmente. 

    Seus homens tiveram exatamente a mesma reação. A arma de Akagi era, inegavelmente, poderosa. Provavelmente tinha mais de onde isso veio.

    Mas não havia tempo para espanto. O monstro ainda estava vivo e com uma enorme sede de sangue. 

    “GROOOAARHH!”

    Ele urrou e começou a lançar cortes de plasma para todos os lados. 

    Todos começaram a fugir. O desespero já havia tomado conta de seus corações e mentes e eles até se esqueceram do que estavam fazendo em primeiro lugar. 

    Em poucos segundos, o campo de batalha foi tomado por chamas, gritos de agonia e dor, e cheiro de carne queimada. 

    Os mais habilidosos conseguiam fugir daqueles ataques que garantiam caixão fechado após uma morte dolorosa, mas isso não iria durar por muito tempo. 

    Caleb estava entre eles. 

    Quem trouxe essa coisa pra cá?!

    Ele corria e se esquivava dos gigantescos cortes. Até queria matar o monstro, mas se aproximar era uma ideia distante. A criatura estava enlouquecida. 

    Caleb parou sobre uma pilha de escombros, um pouco mais distante daquele caos — finalmente conseguiu parar um momento. 

    Eu tenho que parar essa coisa antes que seja tarde demais. Se isso se estender… então…

    “Gin…ro…” Uma voz rouca soando como um gemido arranhando, com dificuldade para sair, chegou aos seus ouvidos. “Gin… ro…”

    “O quê?” Caleb olhou ao redor. 

    Como se fosse um rito de invocação, os escombros abaixo de seus pés balançaram, e depois de chacoalharem bruscamente, revelaram uma figura, que saiu de lá usando força bruta.

    Caleb desceu dali rapidamente. 

    Mãos de aço destruíram as pedras e a silhueta de Ginro foi revelada. Suas roupas estavam todas acabadas, sujas e rasgadas. A poeira estava toda grudada no sangue em todo o seu corpo. 

    Ele olhou ao redor e avaliou a situação. Tudo mudou muito rapidamente e o cheiro de fumo impregnou suas narinas. 

    “Gin…ro…”

    A voz falha chegou aos seus ouvidos.

    “Takeru-san!”

    Ele se levantou e disparou como uma bala na direção de seu superior, encontrando-o perto de um emaranhado de vigas metálicas e restos de concretos. 

    Ginro arregalou os olhos ao vê-lo, suas pernas vacilaram pela primeira vez desde que se juntou à facção. 

    Mas era justificável. 

    A pele de Takeru havia sido vaporizada, não havia pupilas para cobrir seus olhos, até porque eles nem estavam mais lá. Os ossos dos braços e da caixa torácica estavam expostos, porém, carbonizados. Os órgãos também tinham sido destruídos. Como então Takeru estava falando?

    “Senhor…”

    Ginro se ajoelhou ao lado do corpo, seus olhos baixos e silenciosos. 

    “Gin… ro… Desculpe…”

    Ele não conseguia falar mais que isso. Porém, ao ver uma seringa intacta perto do que restou da mão de Takeru, Ginro entendeu tudo. 

    Aquela era a última carta na manga dele. E também a última de sua vida. 

    Silenciosamente, Takeru partiu. Sem as últimas palavras ou agradecimento.

    Ginro fechou os olhos. Não havia lágrimas, apesar da tristeza. Afinal, ele estava acompanhando a morte do homem que salvou sua vida; estava presenciando a morte de seu chefe, a quem ele jurou ser leal pelo resto da vida. 

    “Eu vou te seguir até o fim, senhor Takeru”, disse, por fim. 

    Caleb assistiu aquilo com a guarda pronta para qualquer conflito repentino. Ele viu Ginro pegar algo e, em seguida, enterrar com a mão no pescoço. 

    Caleb arregalou os olhos. Aquele brilho roxo era inconfundível. 

    Nem ferrando…!

    Depois de alguns segundos, o líquido já estava correndo nas veias de Ginro, mexendo com todo o seu sistema nervoso. Em um reflexo, ele gritou de dor, abraçando o corpo ante aquela sensação de tortura. Ele podia sentir seus ossos quebrando e rasgando sua pele, assim como seus órgãos sendo destruídos um a um. 

    Antes humano, o corpo dele foi mudando completamente. Os segundos que se passaram foram tão lentos que Caleb podia se lembrar de cada detalhe da metamorfose que parecia algo tirado de um livro de horror. 

    Cada estalo, cada rasgo. Ele se lembrava de todos os mínimos detalhes. 

    Ginro foi trocado por uma criatura de pele com tom acinzentado pálido e texturizado, como se tivesse sido modelado em um vulcão. Um corpo esguio e esquelético, com membros finos e alongados. Seus olhos brancos brilhavam como faróis, e fechados, poderiam camuflá-lo completamente na escuridão. Nas mãos, garras afiadas e com um tom mais escuro que o restante do corpo, parecendo metal. 

    O monstro recém-nascido estufou o peito e um grunhido estridente saiu de sua boca, ressoando por todo o campo de batalha, causando dor aos ouvidos de todos que podiam ouvi-lo. Era um som como se um garfo arranhasse algum material de vidro.

    Caleb piscou duas vezes. O monstro desapareceu nas sombras e nas chamas, correndo loucamente até o monstro pálido. 

    Assim que se encontraram, iniciaram um confronto brutal. 

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