Olá, pessoal. Espero que estejam bem. Vejam o aviso no final do capítulo. Boa leitura.
Capítulo 119 - Um abalo invisível
O céu continuava nublado no dia seguinte aos eventos na floresta.
Mayck antecipou que esfriaria um pouco mais, então lembrou de colocar um agasalho revestido de algodão que estava em seu armário.
Novembro chegou, e logo as provas de inverno chegariam também, seguidas das férias de inverno, então ele tinha que focar um pouco mais nas atividades escolares, apesar de se perguntar o motivo.
O mundo estava sendo assolado por desordem, monstros e pessoas com poderes sobrenaturais; e ele estava extremamente envolvido nessas situações. Qual era o sentido em continuar levando uma vida normal, indo para a escola e tudo mais?
O garoto não sabia responder a isso, mas um sentimento pulsante em seu peito dizia que ele precisava manter sua vida antiga, talvez por medo de se perder ou deixar coisas valiosas para trás. Era uma questão difícil de responder.
Pronto, ele saiu de casa. Não encontrou Hana no caminho, então pensou que ele tinha ido mais cedo devido às atividades do clube que participava, já que Haruna também fazia parte do mesmo clube e tinha ido mais cedo.
Quer dizer que Rika também está lá.
Outra coisa que pesava em sua mente. Ele queria confirmar como a garota estava com a ausência dos pais. Ele não iria revelar que eles estavam mortos e que lhe pediram para cuidar dela, obviamente. Só queria ver como ela estava.
Foi ontem… mas nem parece que aconteceu.
Aquela situação foi incrivelmente inesperada, como uma piada do destino. Chegava a ser irônico.
Mayck chegou ao portão movimentado da escola. Seguiu o fluxo de alunos e entrou. Quando trocou seus calçados, viu alguns conhecidos passando por ele, os quais o cumprimentaram e seguiram seus caminhos.
Depois de fechar o armário, viu Chika com os olhos fixos nele. Não havia uma expressão muito feliz, como a que ele estava acostumado a ver, mas uma expressão séria que mais parecia uma convocação. Ela mostrou o celular antes de ir embora, então Mayck assumiu que ele devia ver alguma mensagem.
Ele o fez, e como esperado, havia uma mensagem de Chika dizendo para ele ir até o telhado antes do segundo período.
Ele não tinha objeções, mas se perguntava sobre o que seria.
Mas antes de descobrir, ele tinha que enfrentar algumas aulas em sua sala, junto a vários outros alunos. Mayck conhecia bem sua turma, se perguntassem ele saberia dizer o nome da maioria, mas não era muito chegado a todos eles, então raramente falava com alguém fora do seu grupo habitual composto por Haruki, Chika e outros.
Falando em Haruki, ele não estava presente na sala, talvez, devido aos acontecimento anteriores, mas não era algo tão alarmante, então Mayck não se preocupou muito com isso. Mas, claro, isso só valia para ele. Quando o professor fez a chamada, mostrou certa preocupação pelas faltas injustificáveis do garoto há quase uma semana.
Porém, não era a primeira vez que isso acontecia, então ele se conformou por um breve momento.
Além do mais, o garoto percebeu que Akari não estava usando o tapa-olho que cobria seu olho esquerdo ferido em combate. Isso porque o olho estava lá, intacto, ou pelo menos era o que Mayck pensava, mas provavelmente a Black Room não sabia como restaurar um olho perdido.
Um olho falso?
Era o mais realista.
“Bom dia, Mayck-kun.”
Enquanto ele se distraía pensando sobre isso, foi cumprimentado com um sorriso amável da garota, que ficou um pouco envergonhada por estar sendo encarada por tanto tempo.
“Ah… Bom dia”, ele respondeu e desviou-se, um pouco constrangido.
Chika assistiu à interação, mas ignorou completamente, com um “hunf” indescritível.
Assim, o primeiro período se concluiu e veio o horário do almoço. Assim que o sinal tocou, Chika se levantou imediatamente e saiu da sala. Akari também saiu, mas tomou um caminho diferente, na direção do refeitório.
Isso indicava que ela não sabia ou pelo menos não precisava comparecer na reunião marcada mais cedo.
Mayck esperou um pouco mais e também saiu, indo na mesma direção que Chika para o telhado.
Depois de subir as escadas, ele notou a porta entreaberta e não hesitou em empurrá-la. Ele esperava ver Chika logo a frente, mas não foi isso que aconteceu.
“Pensei que você fosse me deixar esperando mais tempo”, disse a garota encostada na parede bem ao lado.
“Você queria esperar?”
“Provavelmente não.”
Com os olhos levemente fechados e as mãos para trás, ela se afastou da porta, ignorando completamente o susto que deu no garoto, o qual tentava acalmar seu coração abalado, secretamente.
“Ficou sabendo da comoção de ontem?”
Ela foi direto ao ponto.
“Sim…”
“Uma grande parte dos times especiais foram convocados para conter aquela loucura. Onde você estava?”
“Foi mal. Eu tive uns assuntos para resolver.”
“Isso tem algo a ver com o fato da Haruki não estar aqui?”
Perspicaz, Chika virou-se e encarou Mayck nos olhos, garantindo que nenhuma mentira fosse dita.
“Você descobriu sozinha? É. Tem algo a ver com isso sim.”
“Hmpf! Na última vez que você foi até a base, falou apenas com Michio, nem sequer foi nos cumprimentar. O que foi fazer lá?”
“Você tá muito curiosa hoje… Foi Nikkie que mandou?”
“Sim!” Um sorriso brilhante e inocente pintou em seu rosto, mudando totalmente aquele semblante sério.
“Sabia…” Mayck tentou se esconder daquele brilho com as mãos. “Mas foi pelo mesmo motivo. Eu estava com bastante pressa, então não pensei muito sobre outras coisas.”
“Entendi, entendi. Então faça um relatório depois, tá bom? Eu não sou sua líder afinal de contas.”
Com um ar despreocupado, ela andou sorridente até as grades do telhado.
Mayck a acompanhou e ambos ficaram em silêncio, observando a multidão de alunos lá embaixo.
Um raio de sol os atingiu, sendo o primeiro indício que o céu logo se abriria. O calor acariciava seus rostos enquanto uma brisa leve soprava seus cabelos.
“Parece que Akari está se recuperando bem”, disse o garoto para quebrar o silêncio que estava começando a ficar constrangedor.
“Uhum.” Chika acenou levemente com a cabeça. “Apesar de tudo, o que aconteceu ajudou bastante no relacionamento da equipe. Antes, parecia que tinha um peso nas costas de todo mundo e mesmo nos momentos idiotas tudo parecia frio demais.”
Era como se tudo não passasse de fingimento. Após a morte de Clair, uma espécie de teatro se iniciou, todos colocaram suas máscaras sorridentes e subiram no palco.
“Quando perdemos Flame, foi mais difícil ainda. Ele vivia brigando com Isha, mas era uma interação que nós podíamos usar para descontrair… Ela também ficou arrasada. Nós nem conseguimos dar uma boa recepção para Lucy, mesmo que ela merecesse.”
“Entendo…” Mayck observou um grupo de amigos perto de uma árvore. Apesar de estarem juntos, estavam todos olhando para o celular em suas mãos. Chika também refletiu sobre isso. Eles pareciam o exemplo perfeito para a antiga situação do time Delta.
“É irônico. Estávamos tão pertos uns dos outros, mas também tão longe… Cada interação era uma forma desesperada de não cair na escuridão…” Um sorriso amargo surgiu em seus lábios.
Então eles se silenciaram mais uma vez, as palavras inaudíveis das centenas de alunos ecoavam por todo o terreno da escola.
Depois de alguns segundos, Chika moveu os lábios novamente e se virou para Mayck, com as mãos para trás e um olhar leve.
“De qualquer forma, depois que resolvemos o caso de Clair-senpai, nós conseguimos olhar nos olhos uns dos outros de novo. Agora podemos ver quem somos de verdade, sem as máscaras. Até mesmo Keize começou a falar com mais frequência.”
“É mesmo? Isso é uma boa notícia”, respondeu Mayck. Seu olhar, no entanto, não demonstrava uma alegria sincera.
Na realidade, ele sabia bem que suas ações não foram as corretas. Ele deliberadamente empurrou Akari para um precipício e a incitou a voar. Foi perigoso, mas ela conseguiu. Até mesmo atraiu o restante da equipe. Mesmo assim, ele não conseguia aliviar o peso de ter tomado aquele caminho alternativo, colocando a vida dela em perigo.
Estava tudo bem se ninguém o perdoasse por isso. Ele não poderia reclamar. Mesmo que fosse julgado, insultado por suas ações maldosas, ele só poderia aceitar.
Talvez eu tenha feito algo imperdoável no fim das contas.
Mas, de repente, Chika moveu seus lábios lentamente.
“Obrigada, Mayck.”
Suas palavras soaram com muita serenidade e naturalidade. Não havia segundas intenções em seu olhar, diferente do que Mayck esperava.
“Chika…”
“Ah… Como é que se diz? Há males que vem para o bem? Apesar de ter sido perigoso, bem… isso realmente ajudou a nos reerguer. Bom, eu não posso dizer que gostei dos seus métodos de usar meus amigos em seus planos.”
As últimas linhas pareceram navalhas no peito do garoto, que logo esboçou uma feição amarga.
“Uhh… Desculpa…” Ele ia dizendo, mas o dedo indicador direito de Chika pairou em seus lábios, fazendo-o recuar e olhar fixamente para ela. Um vento soprou, balançando seus cabelos vermelhos.
“Eu já te perdoei por isso”, ela respondeu com um sorriso radiante e profundo, o rosto avermelhado. Essa era uma expressão nova que ela mostrava na frente do garoto, que acabou ficando corado por algum motivo e sentiu o coração bater mais forte.
Quando se deu conta disso, fechou os olhos e repreendeu a si mesmo.
Esse foi o momento em que Chika se afastou.
“Eu vou voltar agora. Não se esqueça de ir até a base hoje e conversar com Nikkie. Ela deve estar ansiosa por suas últimas façanhas.” Deixando essas palavras, ela saiu.
Mayck ficou parado sem fazer nenhum movimento por algum tempo, mas logo fingiu uma tosse e dispersou qualquer pensamento desnecessário.
Bem… Isso é algo bom… não é?
A luz do sol bateu contra seu rosto. Era aconchegante e parecia aliviar todo o peso que estava em suas costas. Uma energia sobrenatural queimou dentro dele, dando-lhe uma pequena motivação para seguir em frente.
“Ah… Tenho que comprar alguma coisa.” Ele se lembrou depois de perceber sua barriga roncando. Não tinha tomado café da manhã naquele dia, então cedo ou tarde ele precisaria repor as energias.
Eu também preciso ver como ela está.
<—Dark·Side—>
Enquanto Mayck lutava contra uma vontade amarga dentro de si, Hana também tinha suas próprias lutas para vencer.
Desde que decidiram investigar o estranho achado nas instalações da Strike Down, ela sentia que eles estavam perseguindo uma sombra ainda maior do que imaginava.
Tudo começou com uma simples investigação de campo, centrada em descobrir a origem do arquivo de voz que encontraram em registros excluídos — que, aparentemente por engano, tinha sido movido para a lixeira.
Claro, eles não obtiveram resultados satisfatórios, pareciam estar apenas andando em círculos, e isso continuou por alguns dias, como se eles só estivessem se arrastando atrás de algo inútil.
Nesse meio tempo, houve um grande incidente envolvendo algumas facções bem conhecidas na região de Tóquio, o qual a Black Room foi obrigada a intervir.
Como ela controlava parte da sede da Strike Down, tiveram uma resposta satisfatória, embora não tenha sido imediata. Mas não era aí que residia o problema.
O pior foi que o incidente só foi registrado pela sede horas depois do caos já ter se instalado em vários pontos da cidade, levando a Strike Down a um estado de emergência.
Questionados sobre a falha em tal resposta, os responsáveis pelos sistemas de monitoramento disseram que os radares falharam em detectar qualquer onda ou nível elevado de radiação, o que os fez passar despercebidos pelos detectores.
Por sorte, a Black Room conseguiu controlar a situação, embora não tenha conseguido evitar o desastre por completo. Dezenas de civis perderam suas vidas ao serem pegas no fogo cruzado.
Também foram constatadas as mortes de mais de duzentos e cinquenta portadores de cada uma das três facções envolvidas, assim como a morte de seus líderes. Ninguém sabia dizer o que realmente aconteceu naqueles campos de batalha, além de um genocídio sem precedentes.
A ausência de três dos líderes daquela sede também foi um fator enorme para a turbulência e abalo nos fundamentos da organização.
O time de ataque número oito até tentou ter uma reunião com os líderes presentes, mas foi rejeitado sob o pretexto de ser um problema para ser resolvido pelo alto escalão, e como apenas uma equipe de campo, eles não tinham que se envolver sem serem chamados.
Nem era preciso dizer que isso acabou se espalhando pelas outras equipes, que ficavam cada vez mais preocupadas com a situação que parecia só piorar.
Afinal de contas, aquele incidente não foi o único que teve esse tipo de problema. Vários outros casos isolados também caíram no mesmo saco.
Por conta disso, certos grupos anti Black Room surgiram, sob a hipótese de tudo isso ter começado depois que se aliaram a eles, descartando totalmente a possibilidade de uma má gerência dos líderes presentes após a partida do trio composto por John, Amélie e Park, os quais estavam na sede principal, na América do Norte, resolvendo assuntos mais globais.
Só alguns poucos conseguiram perceber que as coisas começaram bem antes disso.
A cada dia que passava, mais essas opiniões ganhavam força, e forçados a ficarem em silêncio, o teto da insanidade ficava cada vez mais baixo.
Foi por culpa dessas situações que o grupo de Hana se absteve de comentar qualquer coisa sobre o comando de voz para quem quer que fosse.
“Nenhuma novidade?”, perguntou Ryuunosuke, assim que se aproximou do grupo que acabara de ser reunido.
“Nenhuma”, respondeu Airi. Os demais balançaram a cabeça, partilhando da mesma resposta.
O líder da equipe suspirou pesadamente, cansado dos dias infrutíferos.
“Ryuunosuke, por que a gente não muda a nossa abordagem de uma vez? Já estamos nisso há quase uma semana e nada.”
“Você está certo. Se tiver alguma coisa em mente, diga. Qualquer coisa vale a pena”, respondeu com um gesto de concordância.
No entanto, Asahi apenas ficou em silêncio, sem nada a dizer.
“Nesse ritmo as coisas vão ficar mais difíceis”, Airi se pronunciou. “Não sabemos quanto tempo faz desde que aquele arquivo foi gravado, e se foi há muito tempo, talvez algo maior esteja acontecendo debaixo dos panos.”
“É verdade… A gente tem que tomar cuidado com cada movimento. Se algo tão grande estiver acontecendo, não dá pra saber quem está envolvido.”
“É como Hana disse. As paredes têm ouvidos, então vamos continuar essa conversa por mensagem. Não vamos parar a investigação, mas fiquem atentos a cada sinal.”
“Sim.”
“Pode deixar.”
Ryuunosuke finalizou a rápida reunião e então eles se separaram.
Já estava ficando tarde da noite, Hana deveria voltar para casa imediatamente, mas lembrou-se de pegar algumas coisas no vestiário feminino, então seguiu até lá.
Havia muitos agentes no caminho. Apesar de ouvir muitas conversas aleatórias e despretensiosas, ela conseguia também ouvir alguns murmúrios sobre a situação da Strike Down.
“Você não sabe do que tá falando. Se a Black Room não tiver nada com isso, então porque isso tudo depois da aliança começar?”
“Sei lá, cara. Talvez seja só coincidência… Mas é difícil mesmo de acreditar.”
Uma dupla de garotos falava sobre isso seriamente.
É claro que seria assim.
Hana suspirou profundamente.
Se todos seguirem por essa mesma linha, não vai demorar muito pra Black Room agir. E caso eles façam algo errado, isso aqui vai colapsar totalmente.
Talvez devesse pedir a ajuda de Mayck, mas ela balançou a cabeça, jogando esse pensamento para longe. O garoto tinha muita coisa para resolver, colocá-lo em mais problemas poderia sobrecarregá-lo.
Era algo que ela precisava lidar sozinha, junto a sua equipe.
Se bem que aquele homem não parece ser uma pessoa ruim.
Ela se lembrou de Zero e da conversa que teve com ele. Um peso a menos em suas costas, ela sentiu certa leveza depois de se lembrar disso.
Bom, eu não acho que as coisas vão sair tão errado.
Ela sorriu levemente, imaginando que alcançaria uma boa conclusão para aquele evento.
Com a mente mais calma, ela atravessou os inúmeros agentes até o vestiário, onde pegou seu uniforme escolar e os equipamentos do clube de tênis, já que tinha vindo diretamente da escola e ainda nem tinha pisado em casa.
Hana sequer sabia se sua mãe tinha jantado ou ao menos almoçado ou tomado café. Nem mensagem ela havia mandado.
A condição de Tsukiko não estava nada boa, a cada dia ela parecia piorar e a garota sabia que devia dar uma atenção especial a ela, afinal de contas, era a mulher que a criou e cuidou toda a sua vida até aquele momento. Hana não iria aguentar ver sua família colapsar daquela forma.
Eu também vou te trazer de volta, pai.
Era esse pensamento que a mantinha de pé. Saber que havia pessoas que a apoiariam nos momentos difíceis era combustível o suficiente para ela se levantar e caminhar. Por mais que uma névoa espessa estivesse se formando ao seu redor, ela conseguia ver aquelas pequenas faíscas de longe.
Depois de olhar o relógio no celular, ela viu que era hora de ir, então fechou seu armário, que ficava na segunda fileira da terceira coluna, da esquerda para a direita. Mas assim que a porta saiu de seu campo de visão, o rosto sorridente de Mei apareceu de repente, fazendo o coração de Hana parar por um momento.
“Eai, Hana-senpai!” A garota loira de olhos esverdeados levantou a mão bem alto.
“Mei-chan?! Ei! Não me assuste desse jeito!”
“Desculpa, desculpa.” Ela riu alto. “Eu te vi tão concentrada que não consegui evitar. Já vai pra casa?” Ela olhou para a bolsa preta nas mãos da garota.
“Uhum. Já fiz o que eu tinha que fazer. E quanto a você? Vai passar a noite no dormitório?”
Depois de bloquear seu armário usando um dispositivo de senha numérica, ela começou a caminhar. Mei a seguiu. Ela ainda estava com o uniforme usado pelos agentes que ainda não pertenciam a uma equipe, sendo um casaco cinza e uma calça da mesma cor, com alguns padrões brancos, que diferenciavam as classes entre os agentes.
Hana usava um uniforme preto e vermelho, com a adição de um colete e um casaco.
Apesar das diferenças de design, todos eram confeccionados com tecnologia de ponta, para resistir a todos os tipos de ataques físicos ou causados por habilidades, além de ser confortável e funcional.
“Não. Eu ainda vou passar um bom tempo acordada. Ainda não consegui passar no teste de furtividade.” Ela suspirou. “Talvez isso não seja mesmo o meu forte.”
Hana riu, vendo a expressão cansada da garota.
“Bom, não se preocupe tanto. Você vai pegar o jeito logo.”
“Você acha? Eu devia mesmo pedir pra você me ensinar…”
“Eu não sou tão boa assim.”
“Mas é o suficiente. Quando você tiver um tempo, me ajude, por favor?”
Mei correu para a frente dela e juntou as mãos, colocando uma expressão chorosa no rosto.
“Ah, qual é… Tá legal, eu ajudo você, mas só quando tiver um tempo livre.”
A loira sorriu com um sinal vitorioso; o fim dos seus problemas estava próximo.
“Mas eu me pergunto quanto tempo vai demorar…” Sua expressão logo se escureceu e seus ombros caíram, deixando Hana curiosa.
“Do que tá falando?”
“Ah, você sabe… toda essa bagunça que tem acontecido ultimamente e o pessoal dizendo que a Black Room é a culpada…”
Não era surpresa que ela comentasse sobre aquilo. Afinal, o caso estava repercutindo como um incêndio.
Preocupada que uma guerra pudesse estourar novamente, Mei temia que Hana tivesse que ir para a linha de frente.
“Bom, não há muito o que fazer se isso acontecer. É o trabalho das equipes de ataque estar sempre prontos para grandes e pequenos conflitos.”
“Sim, eu sei, mas… Eu não quero ver você machucada”, disse ela baixando o tom de voz, impedindo que Hana ouvisse.
Com um olhar cuidadoso, Hana pensou que a garota talvez estivesse com medo de toda aquela situação assustadora. Era justificável, no fim das contas. Até mesmo ela sentia um aperto no peito apenas por imaginar que tudo poderia ir por água abaixo no menor deslize.
Um sentimento fraternal se apossou de seu coração, então ela envolveu Mei em seus braços carinhosamente e passou a mão sobre seus cabelos dourados.
“Não se preocupe. Eu tenho certeza que tem muitas pessoas que vão trabalhar bastante pra evitar o pior. Vai ficar tudo bem.”
Surpresa a princípio, Mei relaxou naquele abraço aconchegante, que parecia mandar embora todos os seus receios. Seu olhar continha um misto de tristeza e conforto, e seus pensamentos também estavam alinhados a isso.
“Você é mesmo… uma senpai preciosa…”
“O que você disse?”
“Uh-uh. Nada.”
Desconversando, ela enterrou seu rosto nos seios de Hana, deixando todos aqueles sentimentos de lado por um momento.
As duas haviam se conhecido há alguns anos depois que Hana foi escalada para a Equipe de Ataque n°8, e rapidamente se tornaram próximas, como uma veterana e sua júnior, como duas grandes amigas. Era óbvio que Hana teria um afeto tão imenso por Mei, já que ela era como uma irmã mais nova, assim como Yui.
“Eu prometo que vou proteger você”, sussurrou Hana.
“Sim.”
Depois de se separar de Mei, Hana pôs-se a caminho de casa. Já eram mais de 23 horas e ela estava passando por uma das áreas comerciais de Adachi.
Nas áreas mais afastadas do centro, a agitação que se via durante o dia parecia desaparecer como mágica e apenas os sons noturnos irrompiam no ar com serenidade.
O silêncio era tão pesado que apenas pisar no chão poderia quebrá-lo. Hana andava lentamente, evitando fazer muito barulho. Era como se a mania de andar silenciosamente de Mayck estivesse totalmente enraizada nela.
Mas parte era por sua própria segurança. Como portadora, ela deveria saber que sons muito altos poderiam atrair Ninkais famintos, sem contar o número desconhecido de inimigos que poderiam estar à espreita.
Seria péssimo se ela não pudesse ouvi-los se aproximando.
Apesar disso, a garota tranquilamente pensava no que deveria preparar para o café de amanhã.
Bacon com ovos? Ou talvez torradas? Por falar nisso, será que temos geleia em casa?
Ela considerou diversas opções, mas ainda estava em dúvidas. O que será que Tsukiko comeria? Depois de tanto tempo trancafiada no quarto, ela com certeza deveria estar faminta.
Espero que ela se recupere logo.
Um amargor se espalhou por sua boca ao se lembrar de algumas memórias ruins.
Será que algum dia… nós vamos voltar a ser como éramos?
Hana, Tsukiko e Masato. Eles eram felizes e estavam sempre sorrindo quando estavam juntos, mas isso simplesmente se desfez como uma fotografia sendo consumida pelo fogo da desarmonia.
Masato tinha falado sério quando disse que largaria tudo pelo bem do seu irmão.
Reviver alguém, é sério? Será que Mayck também pensa sobre isso?
Se pesasse na balança, então especular que sim não era injusto. Afinal de contas, o garoto perdeu bastante gente, enquanto isso, Hana estava tentando evitar ao máximo sentir aquela dor novamente.
Eu sei como é essa dor, mas não entendo o quanto ela pode ser intensa… O que eu deveria fazer?
Enquanto seus pensamentos se perdiam em sua racionalidade dividida, ela parou de andar, sentindo diversas presenças ao seu redor.
Não eram normais como uma presença humana comum, nem tão simples como a presença de portadores. Aos seus ouvidos, sons indecifráveis como um chiado abafado. Estavam sincronizados, mas não pareciam ser apenas dois ou três, mas dez ou até vinte.
Hana levantou sua guarda e olhou ao redor, esperando qualquer movimento suspeito.
Por trás dela, um desses chiados se aproximou e assim que ela olhou para ele, viu uma espécie de aranha cinzenta do tamanho de um gato se aproximando rapidamente, com seu corpo robusto, coberto por uma carapaça metálica que refletia a luz dos postes.
Suas dezenas de olhos pareciam dizer que ela devoraria suas presas sem nenhuma emoção, usando aquela mandíbula serrilhada.
“Ninkai!”
Assim que chegou muito perto, Hana não esperou, e desenhou no ar, fazendo cair um cristal vermelho sobre ela. No entanto, o cristal se quebrou tão facilmente quanto o vidro, despedaçando-se totalmente.
Parecia que a carapaça não passava apenas a impressão de ser metálica — ela era tão resistente e dura quanto.
Mas essa não era a única arma da garota, que parou o movimento frenético do inseto com um cristal maior, barrando seu caminho. Em seguida, projetou outro cristal octaédrico e transparente no ar a sua frente, o qual absorveu a luz refletida pela lua e, girando rapidamente, disparou aquela luz como um pequeno feixe de energia concentrada em um único ponto.
O feixe luminoso derreteu a carapaça quase instantaneamente e atravessou o inseto, queimando-o por dentro, o qual guinchou com seu último suspiro de vida.
A garota ficou aliviada com a pequena vitória, mas não parecia ter acabado ainda. Os chiados não pararam, mas eles começaram a se aproximar rapidamente, como centenas de cavalos cavalgando às pressas. Logo, dezenas daqueles seres de oito patas surgiram das sombras ao redor dela.
Em seus olhos, ela conseguia ver uma sede incontrolável por sangue humano, embora emoções fossem a última coisa a ser vista neles.
“De onde vieram essas coisas?!”
Entrando em posição de ataque, Hana repetiu o processo anterior, projetando mais daqueles cristais e refletindo a mesma energia por dezenas de cristais, fazendo o feixe branco criar várias trajetórias, queimando tantos insetos quanto podia.
Não demorou muito para ela eliminar todos os insetos com esse método, e mesmo assim ela não ficou esgotada, mas sua mente martelava freneticamente no que estava acontecendo.
Sem tempo para analisar com clareza, ela rapidamente recuou alguns passos quando pessoas cobertas por mantos negros a rodearam, surgindo de algum lugar.
De onde eles vieram? Tá na cara que não são caçadores. Foram eles que trouxeram essas coisas?
A possibilidade não podia ser descartada em hipótese alguma.
Ela os encarou, e eles pareciam estar fazendo o mesmo. Quando um deles se moveu, Hana imediatamente o ameaçou, projetando dois cristais vermelhos.
“Pare bem aí. Se fizer algum movimento que eu entenda errado, vou atacar sem pensar duas vezes.”
As palavras surtiram o efeito desejado por ela e ele não avançou de novo.
“Quero que respondam às minhas perguntas. E dependendo das respostas, tenho que entregá-los para a Strike Down. Primeiro, quem são vocês?”
O silêncio deles foi a única resposta obtida. Olhando atentamente, Hana viu que todos estavam com máscaras de gás, escondendo suas identidades. Era mais que óbvio que se tratava de um grupo de portadores com intenções nada claras.
Eles não vão responder. O que será que querem aqui? Eu só cruzei o caminho deles? Mas então porque não foram embora?
Se fossem apenas um grupo aleatório, teriam saído assim que a viram derrotar os ninkais que vieram antes deles. Mas esse não parecia ser o caso.
Eram seis. Os grupos costumavam se diferenciar de outros com alguma vestimenta ou marca, mas Hana nunca tinha ouvido falar sobre tal grupo que usava máscaras de gás. Ainda mais que a rede de informações da organização era imensa, ou seja, eles sabiam sobre a existência de cada portador naquela região.
“Qual o objetivo de vocês aqui?” Ela insistiu, mas o resultado foi o mesmo. Na verdade, diferente de antes, aquele outro tornou a andar, então Hana teve que dar um tiro de aviso, prometendo que seria o último.
O cristal penetrou o chão com facilidade, mostrando que atravessar um corpo não seria problema.
Mas ele não pareceu se importar. Seus pés se moveram lentamente, um após o outro, e com ele os outros cinco também andaram, fechando o círculo em volta da garota.
“Eu avisei.”
Hana estalou a língua, enquanto fazia um gesto para projetar mais cristais com sua habilidade <Lança radiante>, que, em sua essência, era capaz de absorver luz de qualquer fonte — visível e não visível — e concentrar sua radiação.
Assim que o grupo acelerou o passo em direção à ela, os feixes foram disparados, calculados cuidadosamente para não atingirem nenhum ponto vital. Mas isso se tornou inútil, porque eles desviaram como se estivessem esperando aquilo.
Eles deslizaram e se dispersaram ao redor dela, com movimentos precisos e nada inúteis. Os passos abafados logo se aproximaram e eles revelaram suas armas, que refletiam a luz dos postes ao redor — lâminas curvas, correntes e até uma besta. Os olhos de Hana correram sobre eles rapidamente, fazendo uma análise precisa de seus movimentos.
Ela esperou eles a rodearem novamente. Então a primeira lâmina veio, pela direita, rápida e silenciosa. Hana esquivou-se, um salto gracioso como o de uma dançarina, mas o ataque era só uma distração. As correntes açoitaram o ar, avançando como uma serpente para agarrar seus pés.
Ela mal teve tempo de saltar para trás, o aço frio passando a centímetros de sua pele.
“O alvo sou eu, não é?”
Eles não responderam, mas avançaram novamente. Três deles vieram diretamente, os outros três flanquearam. Hana tomou distância novamente e lançou dois cristais que fizeram uma trajetória pela esquerda e pela direita contra eles.
Isso é estranho…
Os agressores saltaram, mas caíram na armadilha. Dois cristais posicionados em pontos previamente calculados foram carregados por alguma luz que os fez adquirir um brilho azul profundo. Sem ter como desviar, eles foram atingidos por aquele feixe, que atravessou seus crânios e os deixaram temporariamente inconscientes.
Três inimigos derrubados com um único golpe. Isso foi motivo o suficiente para fazer os outros três hesitarem. Porém, eles não se deram por vencidos.
Um dos assassinos ergueu a besta. A flecha voou, certeira, mas Hana já estava em movimento, correndo pela lateral de um carro estacionado.
“Eu preciso de vocês vivos. Espero que fiquem satisfeitos em serem entregues nas mãos da Strike Down”, declarou.
Ela deslizou pelo chão, um movimento arriscado, já que tinha um besta apontada para ela, disparando flechas rapidamente. Cristais vermelhos se chocaram contra as flechas, anulando-as no ar.
Para disparar um feixe letal, ela precisava que o cristal carregasse por algum tempo, mas como não era o caso, ela podia fazê-lo rapidamente.
Dessa vez, quatro cristais, um azul e dois transparentes, foram posicionados no ar de forma estratégica. O primeiro disparou, então o feixe foi dividido em três pelos outros cristais. Dois dos agressores não tiveram chance — aquela luz carregada de radiação ionizante desativou temporariamente a atividade cerebral deles, fazendo-os cair, assim como os primeiros.
“Sua…!”
Ao ver seus companheiros caídos, o último assassino gritou. Ele avançou rapidamente, erguendo sua lâmina, mas Hana permaneceu inabalada, desviando de seus golpes com maestria.
“Eu não sei o que querem, mas não posso deixá-los ir.”
Ela preparou outro golpe certeiro, mas o agressor jogou algo no chão, o qual explodiu e criou uma espécie de cortina de fumaça, bloqueando a visão da garota. Quando a cortina se dissipou, todo o grupo tinha desaparecido.
“Fugiram?”
Ela olhou ao redor. A rua silenciosa novamente. Algumas flechas cravadas no asfalto. Hana achou melhor tirá-las dali.
O que eles queriam afinal? Estavam mesmo atrás de mim? É melhor deixar a organização ciente disso.
Ela decidiu que reportaria aos monitores no dia seguinte. Mas ainda havia algo a incomodando.
A forma que eles lutavam… Lembra muito os treinamentos para os Executores de alta precisão… Será só coincidência?
Dentro de Strike Down, cada membro de uma equipe tinha um função específica e os Executores de alta precisão eram especializados em ações e ataques rápidos, úteis para eliminar alvos únicos com eficiência e direção.
Hana era uma Especialista em Dano Contido, capaz de causar danos críticos e controlados para neutralizar ameaças de maneira precisa e sem exageros. Isso se refletia em suas lutas sem causar danos no ambiente ao redor.
“De qualquer forma. Eu vou avisar os outros. Eles pareciam muito bem preparados para me enfrentar para ser só uma coincidência termos nos cruzado.”
Ciente de que podia ser um alvo daquelas pessoas, ela redobrou sua cautela, enquanto imaginava os motivos para tal.
O ano chegando ao fim e mais um ano que Dark Side começou. Bom, eu tive estado meio perdido na escrita dos capítulos, ainda mais nesses últimos meses que eu decidi participar de uma concurso público. Agora que já passou, vou poder dedicar um tempo a mais para a webnovel, então farei o possível para aumentar a frequência de capítulos.
É basicamente isso. Peço que continuem lendo Dark Side e deixem também suas impressões da história até aqui.
Muito obrigado a todos : )

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.